Ovelhas Perdidas
O Altar das Engrenagens e o Despertar dos Cacos
A luz do sol na cidade industrial nunca era dourada; era de um amarelo pálido e doentio que filtrava através da fuligem das janelas, revelando cada partícula de poeira suspensa no ar. Gabriele Lima acordou não com o canto dos pássaros, mas com o som vibrante de um tecnobrega abafado vindo da parede do vizinho, uma batida repetitiva que parecia martelar diretamente em sua têmpora.
Ela tentou se espreguiçar, mas um estalo seco em sua base lombar a fez soltar um gemido de dor. Seu corpo, acostumado a cadeiras ergonômicas e posturas impecáveis, protestava violentamente contra o colchão de Hylda, que tinha a densidade de uma esponja velha.
— Maldição... — resmungou Gabriele, levando a mão às costas.
Ao seu lado, Hylda Carandini despertou com uma vitalidade ofensiva. Ela se espreguiçou como um gato de rua, os músculos dos braços tatuados saltando sob a luz da manhã, e soltou um suspiro de satisfação profunda que fez Gabriele apertar os olhos de irritação.
— Bom dia, madame — disse Hylda, a voz ainda mais rouca pelo sono, esticando um braço para puxar Gabriele para mais perto. — Você está com uma cara de quem dormiu em cima de um dicionário de latim.
— Eu estou com a cara de quem dormiu em um canteiro de obras, Hylda — rebateu Gabriele, tentando se desvencilhar do abraço, embora seus dedos traíssem sua vontade ao roçarem na pele quente da outra. — Minha coluna está em frangalhos. Eu disse que esse colchão era uma heresia.
Hylda soltou uma risada baixa, encostando o nariz no pescoço de Gabriele e aspirando o cheiro de pele e cansaço.
— Engraçado... ontem à noite você não parecia tão preocupada com a ergonomia. — Hylda desceu a mão pela curva do quadril de Gabriele, apertando com uma confiança possessiva. — Na verdade, essa sua boquinha de bibliotecária fez maravilhas, Gabriele. Eu acho que até meus pecados de vinte anos atrás foram perdoados em uma hora de serviço.
Gabriele sentiu o rosto arder instantaneamente. Ela se sentou na cama, puxando o lençol para cobrir o peito, os cabelos grisalhos e elegantes agora um ninho de pássaros desalinhado.
— Você é uma criatura vulgar, Hylda Carandini. — Gabriele tentou manter o tom de superioridade, mas o brilho em seus olhos a entregava. — Aquilo foi... uma exceção. Um lapso de julgamento causado pelo excesso de decibéis e pela falta de oxigênio daquela boate.
— Sei, sei — Hylda sentou-se também, sem se preocupar em se cobrir, exibindo as marcas de arranhões nos ombros com um orgulho quase infantil. — Um lapso que durou a noite inteira e me deixou com as costas parecendo um mapa rodoviário.
Antes que Gabriele pudesse retrucar, o som da campainha ecoou pela casa, estridente e insistente, acompanhado por batidas rítmicas na porta de madeira.
— Hylda! Ô, Padre! Acorda, velha! — Uma voz jovem e estridente gritou do lado de fora.
Gabriele congelou. Ela reconheceu aquela voz. Era a loira da festa. Amanda.
— Meu Deus — sussurrou Gabriele, o pânico subindo pela garganta. — É ela. Aquela menina. O que ela está fazendo aqui?
Hylda franziu o cenho, claramente irritada pela interrupção.
— É a Amanda e o pessoal da fábrica. Devem estar indo para o show no centro. — Hylda se levantou e começou a procurar as calças de moletom no chão. — Fica calma, madame. Eu despacho eles em dois minutos.
— Eu não posso ser vista aqui, Hylda! — Gabriele saltou da cama, ignorando a dor nas costas, e começou a catar suas roupas freneticamente. — Se alguém me vir saindo da sua casa às dez da manhã vestindo uma camiseta cinza três vezes maior que eu, minha reputação nesta cidade acaba antes do meio-dia!
— Se esconde no banheiro ou atrás daquela cortina ali — sugeriu Hylda, rindo da agitação da outra enquanto vestia a regata. — Parece que você voltou para o convento e a madre superiora está batendo na porta.
Gabriele lançou um olhar assassino para Hylda e se enfiou no pequeno closet improvisado atrás de uma cortina de veludo pesado, segurando o vestido branco contra o peito como se fosse um escudo.
Hylda caminhou até a porta e a abriu apenas uma fresta, mas Amanda e mais dois rapazes, cheirando a cerveja barata e protetor solar, praticamente forçaram a entrada.
— E aí, chefe! — Amanda entrou saltitando, usando um short curtíssimo e óculos escuros espelhados. — Vamos? O show começa às onze. A gente veio te buscar pra você não dar o cano na gente.
— Eu não vou a lugar nenhum, Amanda — disse Hylda, encostando-se no batente da cozinha e tentando bloquear a visão do quarto. — Estou velha demais para pular em praça pública sob o sol de quarenta graus.
— Ah, deixa de ser ranzinza! — disse um dos rapazes, rindo. — Ontem você estava toda animadinha na festa. Até que aquela bruxa chata apareceu para estragar o clima.
Dentro do closet, Gabriele arregalou os olhos. "Bruxa chata?" Ela apertou os lábios, sentindo a indignação ferver.
— É verdade — Amanda concordou, sentando-se no braço do sofá de Hylda. — Quem era aquela mulher, Hylda? Ela parecia que tinha engolido um cabo de vassoura. Elegante, sim, mas com uma cara de quem nunca levou um susto na vida. Ela ficou te vigiando o tempo todo. Que desperdício de beleza, ser tão amarga assim.
Hylda lançou um olhar rápido em direção à cortina do closet, onde percebeu um leve movimento do tecido. Ela sentiu um calafrio. Sabia que Gabriele estava ouvindo cada palavra.
— Cuidado com o que dizem — interrompeu Hylda, a voz ficando fria e autoritária, o tom de "chefe de operações" assumindo o controle. — Aquela "bruxa", como vocês dizem, tem mais fogo e mais história em um dedo do que vocês todos juntos nessa vida de rede social. Ela é uma amiga antiga. Uma amiga muito importante.
— Ih, a velha ficou brava! — provocou o outro rapaz. — Vai dizer que você ainda tem queda pela bibliotecária de gelo? Hylda, você precisa de sangue novo, não de alguém que vai te fazer rezar o terço antes de dormir.
— Já chega — Hylda abriu a porta completamente e fez um gesto para a rua. — Fora daqui. Todos vocês. Eu tenho coisas para resolver e não estou com paciência para criancice. Vão para o show, bebam até cair e me deixem em paz.
Amanda fez um biquinho, mas percebeu que Hylda não estava brincando.
— Tá bom, tá bom. A gente se vê na segunda na fábrica. Não precisa ficar nervosa, Padre. A gente só estava brincando.
Assim que a porta se fechou e os sons das risadas dos jovens se dissiparam no corredor, o silêncio que ficou na casa era pesado, carregado de uma eletricidade perigosa.
Hylda suspirou, passou a mão pelo rosto e caminhou lentamente em direção ao closet. Ela puxou a cortina.
Gabriele estava lá, já vestida com seu vestido branco, embora ele estivesse amassado e ela estivesse calçando apenas as meias claras, segurando os saltos nas mãos. Seu rosto era uma máscara de fúria contida, os olhos castanhos faiscando como brasas.
— "Bruxa chata"? — Gabriele perguntou, a voz saindo em um sussurro cortante. — "Cara de quem engoliu um cabo de vassoura"? É assim que o seu círculo social me vê, Hylda? Como uma relíquia amarga que você mantém por piedade?
— Gabriele, eles são idiotas. Crianças que não sabem de nada — Hylda tentou se aproximar, mas Gabriele recuou, calçando os sapatos com movimentos bruscos.
— Eles sabem o que veem! — rebateu Gabriele, a voz subindo de tom. — E eles veem exatamente o que eu temia. Uma mulher que não pertence ao seu mundo, que é motivo de piada entre os seus amigos. Eu sou a "bibliotecária de gelo" que você tenta derreter por esporte.
Hylda segurou os ombros de Gabriele, forçando-a a parar.
— Olha para mim! — ordenou Hylda. — Você acha mesmo que eu ligo para o que eles pensam? Eu passei a noite inteira com você. Eu vi a mulher que você é quando as luzes se apagam e quando você esquece de ser a "madame". Você não é amarga, Gabriele. Você é profunda demais para eles, só isso.
Gabriele desviou o olhar, o lábio inferior tremendo levemente. A vulnerabilidade que ela tanto tentava esconder estava ali, exposta pela luz cruel da manhã.
— Eu quero ir embora, Hylda. Me leve para casa.
Hylda soltou um suspiro longo. Ela sabia que, se deixasse Gabriele sair daquela porta naquele estado, a barreira de gelo voltaria a subir e levaria meses, talvez anos, para ser derrubada novamente. Ela precisava agir, e precisava ser agora.
Com um movimento rápido e inesperado, Hylda puxou Gabriele para si, prendendo-a contra a parede ao lado do closet.
— O que você está fazendo? — protestou Gabriele, mas sua voz perdeu a força quando sentiu o corpo de Hylda pressionado contra o seu.
— Eu estou tentando salvar o meu domingo — murmurou Hylda, aproximando o rosto, o hálito quente de café e desejo roçando a pele de Gabriele. — E estou tentando te mostrar que a opinião daquela loira não vale o óleo que eu uso nas máquinas.
Hylda começou a beijar o pescoço de Gabriele, subindo lentamente até a mandíbula. Ela sentiu Gabriele estremecer, as mãos da bibliotecária subindo para o peito de Hylda, inicialmente para empurrar, mas acabando por se agarrar à regata.
— Você é... impossível... — gaguejou Gabriele, fechando os olhos enquanto a raiva começava a se transformar em outra coisa, algo muito mais urgente.
— Eu sou persistente — corrigiu Hylda, mordiscando a orelha de Gabriele. — E eu acho que a gente podia repetir a dose, não acha, amor? Só para tirar esse gosto ruim da sua boca. Para você lembrar que, aqui dentro, entre essas paredes de tijolo e graxa, você não é a bruxa de ninguém. Você é a minha Gabriele.
Gabriele soltou um suspiro que foi metade protesto e metade rendição. Ela abriu os olhos e encarou Hylda, vendo a sinceridade bruta e o brilho safado que sempre a desarmavam.
— Você é um desastre para a minha saúde mental, Hylda Carandini. — Gabriele passou as mãos pelo pescoço de Hylda, puxando-a para um beijo profundo, faminto, que calou qualquer dúvida que ainda restava.
Hylda sorriu contra os lábios dela, as mãos descendo para levantar o tecido do vestido branco, a pele clara encontrando novamente a aspereza das palmas calejadas.
— A gente resolve a sua lombar depois, madame — sussurrou Hylda, guiando-a de volta para a cama. — Agora, eu tenho um altar para te mostrar, e eu prometo que não vai ter nenhuma reza envolvida.
Enquanto o tecnobrega do vizinho continuava a tocar ao fundo, as duas se perderam novamente uma na outra. No pequeno apartamento da cidade industrial, o mundo exterior e seus julgamentos deixaram de existir. Não havia bruxas, nem bibliotecárias de gelo, nem operárias brutas. Havia apenas duas mulheres que, depois de quarenta anos de desencontros, finalmente haviam aprendido que o amor, assim como uma boa máquina, às vezes precisa de um pouco de atrito para funcionar perfeitamente.
E, no final das contas, Gabriele teve que admitir para si mesma: entre um café frio na biblioteca e o calor caótico de Hylda, ela escolheria o caos todas as vezes, mesmo que isso significasse uma dor nas costas e alguns amassados em seu vestido impecável.