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Paixão bagunçada

O Peso do Veludo e o Silêncio das Armaduras

As semanas que se seguiram à chegada da comitiva do Sul transformaram a rotina do palácio em um intricado jogo de aparências. O sol de outono dourava as tapeçarias dos corredores, enquanto, nos jardins, Catarina e Herry caminhavam sob o olhar atento e constante de Damian. Para quem observava de longe, como os reis que brindavam em suas salas de reuniões, a cena era idílica: a princesa pura e o príncipe poeta, unidos por uma afinidade óbvia. Mas, por trás dos sorrisos gentis e das trocas de versos, a realidade era um labirinto de sentimentos não ditos e verdades escondidas.

Catarina, em sua infinita bondade, havia desenvolvido um carinho genuíno por Herry. Ela admirava sua sensibilidade, a forma como ele descrevia o orvalho nas folhas e a melancolia com que falava de suas histórias inacabadas. No entanto, em seu coração, não havia o fogo que os livros de romance descreviam. Ela o via como um espírito afim, um irmão de alma que compartilhava o peso de uma coroa que nunca pedira. Ela não queria feri-lo, e muito menos decepcionar seus pais, que já planejavam o banquete de noivado. Por isso, mantinha o segredo de sua indiferença romântica trancado a sete chaves, nem mesmo confiando-o a Damian, temendo que a proteção dele se transformasse em uma intervenção desnecessária.

Herry, por sua vez, vivia em um estado de constante exaustão emocional. Ele se esforçava para encontrar em Catarina a musa que seus pais exigiam que ela fosse. Ela era perfeita, doce e inteligente, mas, para um homem que vivia de metáforas e verdades profundas, ele sentia que estava representando um papel em uma peça de teatro cujo roteiro fora escrito por tiranos. Ele não sabia se era capaz de amá-la daquela forma, mas a pressão da riqueza de sua família e a ambição de seu pai o empurravam para o abismo da conformidade.

E havia Damian.

O guarda real, que sempre fora uma estátua de gelo e dever, sentia as rachaduras em sua própria armadura. Ele observava Herry. Observava a maneira como o príncipe ajeitava o cabelo quando estava nervoso, a forma como suas vestes vermelhas pareciam realçar a palidez nobre de sua pele sob o sol, e o brilho de inteligência — e tristeza — em seus olhos. Damian se odiava por isso. Ele era um soldado, um homem forjado na disciplina e na violência necessária para proteger o trono. A ideia de sentir atração por outro homem, e ainda por cima pelo pretendente de sua protegida, era uma traição que ele não sabia como processar. Ele nunca havia permitido que seu coração batesse por ninguém, e agora, ele batia de forma errática e perigosa por um príncipe que representava tudo o que ele deveria apenas vigiar.

Naquela tarde, o trio encontrava-se no pavilhão de mármore perto do lago. Catarina estava sentada, bordando distraidamente, enquanto Herry lia em voz alta um rascunho de um novo conto. Damian estava de pé, a alguns metros de distância, as mãos cruzadas atrás das costas, a postura impecável, mas os olhos fixos na nuca de Herry.

— ...e assim, o cavaleiro percebeu que a verdadeira prisão não era o castelo, mas o medo de ser quem realmente era — concluiu Herry, fechando o caderno de couro. — O que acha, Catarina? É um pouco sombrio demais para uma tarde de sol?

Catarina levantou os olhos e sorriu, um gesto que Herry retribuiu mecanicamente.

— Eu acho que é a coisa mais honesta que você já escreveu, Herry. A liberdade é um tema que assusta as pessoas, mas é o que todos nós buscamos, não é?

— De fato — respondeu Herry, suspirando. Ele se virou levemente, seu olhar encontrando o de Damian por um breve segundo antes de o guarda desviar a visão para o horizonte. — E você, senhor Damian? O que o homem de aço pensa sobre a liberdade?

Damian tencionou o maxilar. Ele não gostava de ser incluído naquelas conversas. Elas o forçavam a sair de sua zona de conforto profissional.

— A liberdade é um luxo que poucos podem pagar, Vossa Alteza — disse Damian, sua voz rouca e profunda. — Para alguns, o dever é a única forma de liberdade que resta. Cumprir o que se espera de nós evita o caos.

Herry levantou-se e caminhou em direção a Damian, parando a uma distância que desafiava o protocolo e a zona de segurança do guarda. O perfume de sândalo e papel velho que emanava do príncipe atingiu Damian como um golpe físico.

— O dever pode ser uma prisão muito fria, senhor Damian — disse Herry em voz baixa, quase um sussurro. — Às vezes, o caos é apenas o nome que damos à verdade quando ela tenta sair.

Damian sentiu o calor subir pelo pescoço, uma sensação que ele raramente experimentava. O olhar de Herry era intenso, despido daquela máscara de príncipe perfeito que ele usava para os outros. Havia uma conexão ali, uma compreensão silenciosa que Damian queria desesperadamente ignorar.

— Minha função é evitar o caos, não abraçá-lo — retrucou Damian, sua voz soando mais dura do que o pretendido.

Catarina, percebendo a tensão, mas interpretando-a como a habitual desconfiança de seu guarda, interveio com leveza.

— Damian leva o mundo nos ombros, Herry. Ele não tem tempo para as nossas abstrações poéticas. Damian, por que não acompanha o Príncipe Herry até a biblioteca? Ele mencionou que queria consultar alguns mapas antigos, e eu preciso terminar este bordado antes que minha mãe venha me procurar.

Damian sentiu um frio na espinha. Ficar sozinho com Herry era a última coisa que ele queria, mas as ordens de Catarina, embora gentis, eram comandos que ele não podia desobedecer.

— Como desejar, Vossa Alteza — respondeu Damian, fazendo uma breve reverência.

Ele gesticulou para que Herry o seguisse. O caminho até a biblioteca real foi envolto em um silêncio pesado. Herry caminhava com uma elegância natural, o veludo vermelho de suas vestes roçando ocasionalmente na armadura de couro de Damian quando os corredores se estreitavam. Cada toque acidental era como uma descarga elétrica para o guarda, que mantinha os olhos fixos à frente, tentando desesperadamente controlar sua respiração.

Ao entrarem na biblioteca, um vasto santuário de madeira escura e milhares de volumes, Herry não foi direto para os mapas. Ele parou diante de uma grande janela que dava para as montanhas ao longe.

— Você não gosta de mim, não é, Damian? — perguntou Herry, sem se virar.

Damian parou a dois passos dele, mantendo a guarda.

— Minha opinião pessoal é irrelevante, senhor. Meu dever é com a segurança da Princesa Catarina e com a aliança entre nossos reinos.

Herry soltou uma risada amarga e finalmente se virou. O sol da tarde batia em seu rosto, destacando a beleza de suas feições, algo que Damian estava achando cada vez mais difícil de ignorar. O príncipe parecia, naquele momento, perfeitamente atraente, uma imagem que entrava em conflito com tudo o que Damian acreditava sobre si mesmo.

— Você fala como um autômato. Mas seus olhos... eles dizem outra coisa. Você me observa o tempo todo. No início, achei que era apenas proteção para ela. Mas agora... eu não sei.

— O senhor está imaginando coisas — disse Damian, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. — Sou um guarda profissional. Observar é o que eu faço.

— Então observe isso — disse Herry, dando um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles. — Eu não sou o que meus pais querem que eu seja. E eu suspeito que Catarina também não é quem eles pensam. Estamos todos presos, Damian. Mas você... você parece ser o único que aceita as correntes com prazer.

Damian sentiu uma onda de fúria e algo mais profundo, algo que parecia desejo, borbulhando em seu peito. Ele deu um passo à frente, usando sua altura superior para tentar intimidar o príncipe.

— O senhor não sabe nada sobre mim ou sobre as minhas correntes — rosnou Damian. — O senhor é um príncipe que brinca de poeta. Eu sou um homem que viu o que acontece quando as pessoas quebram as regras. Mantenha-se no seu caminho, e eu me manterei no meu.

Herry não recuou. Pelo contrário, ele inclinou a cabeça, estudando o rosto de Damian com uma curiosidade que beirava a adoração.

— Você é um homem magnífico, Damian. E é uma pena que se esconda atrás desse metal todo.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Damian sentiu que o ar na biblioteca havia acabado. Ele nunca fora confrontado dessa forma. Ele nunca fora visto dessa forma. A atração que ele sentia por Herry, aquela admiração proibida pela perfeição e pela vulnerabilidade do príncipe, ameaçava transbordar. Ele queria se afastar, mas seus pés pareciam colados ao chão.

— Os mapas estão naquela seção — disse Damian, sua voz falhando por um milésimo de segundo, apontando para o fundo da sala. — Vou esperar na porta.

Ele se virou e caminhou rapidamente, precisando de distância, precisando do frio do corredor para acalmar o incêndio que Herry havia começado com apenas algumas palavras.

Enquanto isso, no pavilhão, Catarina observava o lago. Ela suspirou, deixando o bordado de lado. Ela sabia que a farsa não poderia durar para sempre. Herry era um homem maravilhoso, mas não era o homem dela. E ela temia o dia em que teria que dizer isso aos pais, ou o dia em que Herry seria forçado a pedir sua mão em casamento. Ela pensou em Damian, sua rocha, seu protetor. Ela sempre confiara nele para tudo, mas como poderia contar a ele que não amava o príncipe que todos esperavam que ela amasse? Ela tinha medo de que Damian, em seu senso rígido de dever, a forçasse a seguir o caminho da coroa.

O que Catarina não percebia era que seu protetor estava enfrentando sua própria batalha interna, uma batalha onde as espadas eram inúteis e a armadura era feita de vidro.

Horas depois, quando o jantar foi servido, a mesa real estava repleta de risos forçados e conversas sobre dotes e territórios. Herry estava sentado ao lado de Catarina, usando um novo traje, desta vez em um tom de carmesim que parecia sangue sob a luz das velas. Ele agia como o cavalheiro perfeito, cortando a carne para Catarina, sorrindo para a rainha. Mas, de vez em quando, seus olhos buscavam a figura sombria de Damian, parado contra a parede, na penumbra do salão.

Damian não retribuía os olhares. Ele mantinha a cabeça erguida, o olhar fixo em um ponto invisível na parede oposta. Mas ele sentia cada movimento de Herry. Ele sentia a presença do príncipe como se fosse um calor constante em sua pele. Ele se perguntava se estava enlouquecendo. Como ele podia achar aquele homem, aquele príncipe efeminado e literário, tão... atraente? Como ele podia desejar a companhia de alguém que deveria ser o marido de sua "irmã" de criação?

— Você está muito calada esta noite, querida — comentou a Rainha, tocando a mão de Catarina.

— Apenas cansada, mamãe — respondeu Catarina com um sorriso doce. — O sol hoje estava muito forte nos jardins.

— O Príncipe Herry deve ter lhe cansado com suas histórias — brincou o Rei, rindo alto.

— De forma alguma, senhor — disse Herry, inclinando-se para frente. — A princesa é a ouvinte mais graciosa que já conheci. Qualquer escritor daria a vida para ter uma audiência como a dela.

Catarina sentiu um aperto no peito. A gentileza de Herry era genuína, e isso tornava tudo pior. Ela olhou para ele e viu a tristeza escondida atrás do elogio. Ela percebeu, naquele momento, que ele também estava sofrendo. Nenhum dos dois queria estar ali daquela forma.

Após o jantar, conforme os convidados se retiravam, Herry aproximou-se de Catarina para se despedir.

— Boa noite, Catarina. Espero que seus sonhos sejam mais livres do que a nossa realidade.

— Boa noite, Herry. E obrigada por ser tão... compreensivo — respondeu ela, apertando-lhe a mão levemente.

Herry então se virou para Damian, que estava a postos para escoltar a princesa até seus aposentos.

— Boa noite, senhor Damian. Durma bem, se o seu dever permitir.

Houve um tom de desafio naquelas palavras, uma promessa silenciosa de que aquela conversa na biblioteca não seria a última. Damian apenas assentiu, um movimento curto e rígido.

Enquanto caminhava com Catarina pelo corredor silencioso, a princesa quebrou o silêncio.

— Damian?

— Sim, Vossa Alteza?

— Você acha que... você acha que é possível ser feliz fazendo o que os outros esperam de nós?

Damian parou diante da porta do quarto dela. Ele olhou para Catarina e, por um momento, a máscara de guarda caiu, revelando o homem cansado e confuso por dentro.

— Eu costumava acreditar que sim, Catarina. Eu acreditava que o dever era a única coisa que importava. Mas ultimamente... as coisas parecem mais complicadas do que um manual de táticas militares.

Catarina tocou o braço dele, preocupada.

— Você está bem? Parece... diferente.

Damian respirou fundo, o cheiro de sândalo de Herry ainda impregnado em sua memória sensorial.

— Estou apenas cansado, pequena. Vá descansar. Amanhã será um longo dia.

Catarina entrou no quarto, deixando Damian sozinho no corredor escuro. Ele encostou a cabeça na parede de pedra fria e fechou os olhos. Ele via o rosto de Herry. Ele ouvia sua voz. Ele sentia o peso do segredo que começava a esmagá-lo. Ele não era apenas o guarda de Catarina; ele era um homem que estava se apaixonando pelo príncipe dela. E em um mundo de reis ambiciosos, princesas puras e deveres ancestrais, esse era o crime mais perigoso de todos.

Longe dali, em seus próprios aposentos, Herry abriu seu caderno e começou a escrever. Mas as palavras não eram sobre jardins ou cavaleiros solitários. Eram sobre olhos escuros e frios que escondiam tempestades, e sobre a vontade de derreter o gelo de uma armadura que parecia proteger um coração tão solitário quanto o seu.

A inocência de Catarina, a melancolia de Herry e a repressão de Damian estavam agora entrelaçadas em uma teia que nenhum deles sabia como desatar. O veludo vermelho e o aço negro haviam se encontrado, e o palácio, com todas as suas luzes e sombras, nunca mais seria o mesmo.