Voltar ao resumo

Paixão bagunçada

O Eco do Aço e o Sangue nas Palavras

A manhã nasceu com uma névoa baixa que abraçava as colinas ao redor do palácio, um convite silencioso para que a natureza respirasse antes que o calor do sol se tornasse soberano. Catarina, sentindo o peso das expectativas de seus pais como um espartilho apertado demais, sugeriu um passeio a cavalo. Ela precisava de vento no rosto e de uma pausa nas conversas sobre dotes, terras e alianças comerciais.

Herry aceitou prontamente. Ele parecia ainda mais pálido do que o habitual, seus olhos carregando as sombras de uma noite mal dormida, mas o veludo vermelho de seu traje de montaria ainda lhe conferia uma aura de nobreza romântica. Damian, como sempre, era a sombra constante. Ele montava um garanhão negro, uma fera que parecia entender apenas os comandos de seu mestre, e sua presença atrás do casal de príncipes era como uma nuvem de tempestade pronta para desabar.

Eles cavalgaram por quase uma hora até chegarem a um penhasco que oferecia uma visão deslumbrante do vale. Catarina puxou as rédeas de sua égua branca, suspirando diante da beleza do horizonte.

— É aqui — disse ela, com um sorriso que iluminava seu rosto delicado. — É o lugar mais bonito de todo o reino. Sinto que aqui o mundo é maior do que as paredes do conselho.

Herry sorriu, desmontando com uma elegância fluida. Ele caminhou até o cavalo de Catarina, estendendo as mãos para ajudá-la a descer. Seus dedos tocaram a cintura da princesa, um gesto de cavalheirismo comum, mas que carregava a intenção de um pretendente.

— Deixe-me ajudá-la, Catarina — disse Herry, sua voz suave tentando encontrar a cadência certa.

Antes que ele pudesse firmar o aperto, o som metálico de uma bota atingindo o solo ecoou como um tiro. Damian já estava lá.

— Afaste-se — ordenou Damian, sua voz saindo como um trovão contido, carregada de uma autoridade que não admitia réplicas.

Herry congelou, as mãos ainda na cintura de Catarina. Ele olhou para cima e encontrou os olhos de Damian. O guarda real parecia uma divindade da guerra, o maxilar trincado e o olhar tão gélido que poderia congelar o sangue nas veias do príncipe.

— Eu sou o responsável pela segurança física da princesa — continuou Damian, dando um passo à frente, forçando Herry a soltar Catarina e recuar. — Só eu tenho permissão para esse nível de proximidade física. Regras de segurança, Vossa Alteza.

Damian passou por Herry como se o príncipe fosse feito de fumaça. No entanto, ao passar, ele se inclinou levemente. O movimento foi tão rápido que Catarina, distraída com a vista, não percebeu a sutil inclinação. Mas Herry sentiu. Ele sentiu o calor do corpo de Damian próximo ao seu e, então, o sussurro áspero e profundo diretamente em seu ouvido.

— Não toque nela desse jeito. Nunca mais. Me ouviu?

As palavras não eram apenas um aviso de segurança; havia uma possessividade bruta nelas, uma intensidade que fez os pelos da nuca de Herry se eriçarem. O príncipe sentiu um arrepio violento percorrer sua espinha, uma descarga de adrenalina e algo muito mais proibido. Ele desviou o rosto rapidamente, tentando esconder a vermelhidão que subia por suas orelhas e pescoço, o coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado.

Herry não entendia. Ele deveria estar ofendido, deveria exigir um pedido de desculpas por tamanha insolência de um guarda. Mas, em vez disso, ele se sentia... visto. Aquela voz grossa e firme, aquele olhar que parecia querer devorá-lo ou destruí-lo, despertava nele uma inspiração que nenhum livro de poesias jamais alcançara.

Enquanto isso, Damian ajudava Catarina a descer com uma facilidade impressionante, pegando-a pela cintura com mãos grandes e seguras, colocando-a no chão como se ela fosse feita de porcelana.

Catarina, no entanto, não era tão cega quanto os outros pensavam. Ela observou a reação de Herry. Viu a forma como ele tremia levemente e como evitava olhar para Damian. Viu também como os ombros de seu guarda estavam tensos, uma rigidez que ia além do profissionalismo.

Como uma ávida leitora de romances clandestinos que as criadas traziam para ela, Catarina sentiu um estalo em sua mente. Ela não via um guarda protegendo uma princesa; ela via um homem lutando contra um desejo que o aterrorizava. E via um príncipe que, pela primeira vez, não parecia estar interpretando um papel, mas sim vivendo uma emoção real.

— Você está bem, Herry? — perguntou Catarina, com uma voz carregada de uma doçura que escondia sua malícia de cupido. — Parece um pouco... afetado pelo ar da montanha.

— Sim... sim, apenas a altitude — mentiu Herry, ajeitando o casaco vermelho com mãos trêmulas. — A vista é realmente... intensa.

— É, sim — concordou Catarina, lançando um olhar de soslaio para Damian, que agora voltava para junto dos cavalos, mantendo-se de costas para eles, mas com a postura de um predador à espreita. — Às vezes, as coisas mais intensas são as que tentamos fingir que não existem.

O resto do passeio foi silencioso, mas o silêncio estava vivo, pulsando com a eletricidade do que acabara de acontecer.

Ao retornarem ao palácio, Herry se despediu apressadamente e se refugiou em seus aposentos na torre sul. Ele não conseguia se concentrar. A imagem de Damian, o cheiro de couro e suor frio, e aquela voz sussurrada em seu ouvido o perseguiam.

Ele estava sofrendo. Um poeta sofrendo por amor é uma força da natureza, e Herry não era exceção. Ele mandou que trouxessem vinho — o melhor e mais forte da adega real. Uma garrafa se transformou em duas.

Horas depois, Herry cambaleava pelo quarto, o traje de veludo agora desgrenhado, uma taça de cristal balançando perigosamente em sua mão. Ele olhava para o papel em branco sobre a escrivaninha, mas as palavras pareciam fugir dele, apenas para serem substituídas por um nome que ele repetia como um mantra.

— Damian... — sussurrou ele, a voz embargada pelo vinho. — Por que você tem que ser feito de pedra? Por que me olha como se quisesse me matar e, ao mesmo tempo, me salvar?

Ele se sentou pesadamente, a pena tremendo em seus dedos enquanto ele tentava converter sua angústia em versos.

"O aço de sua armadura é o meu espelho, Onde vejo o reflexo de um desejo vermelho. Ele me nega o toque, me nega o olhar, Mas em seu silêncio, ensina-me a amar. Oh, sentinela de gelo, guarda do meu tormento, És o meu segredo, meu único pensamento."

Herry soltou um soluço seco. Ele se sentia ridículo. Ele era um príncipe, destinado a casar-se com a princesa mais pura do norte, e ali estava ele, bêbado de vinho e de desejo por um guarda que provavelmente o desprezava. Ele tinha certeza de que Damian era heterossexual, um homem de armas que via o mundo em termos de força e dever. Como alguém como Damian poderia sentir algo por um príncipe que escrevia poemas e usava veludo?

Enquanto isso, no andar de baixo, Catarina estava em seus aposentos. Ela não conseguia dormir. Sua mente trabalhava freneticamente, conectando os pontos. Ela sabia que seus pais ficariam horrorizados, mas a ideia de unir Herry e Damian parecia muito mais correta do que qualquer casamento político.

Ela se levantou e caminhou até a janela, olhando para a torre onde Herry estava hospedado. Ela viu a luz da lamparina acesa, mesmo sendo tarde.

— Ele está escrevendo — murmurou ela para si mesma, um sorriso travesso brincando em seus lábios. — E eu sei exatamente sobre quem.

Ela se virou e viu Damian parado à sua porta, como sempre fazia antes de se recolher para o turno da noite.

— Vossa Alteza deveria estar dormindo — disse ele, a voz neutra, mas havia um cansaço visível em seus olhos.

Catarina caminhou até ele, parando a uma distância segura, mas olhando-o fixamente nos olhos.

— Damian, você acha que o Príncipe Herry é um bom homem?

Damian hesitou. Ele pensou no momento no penhasco, no arrepio que sentiu ao sussurrar no ouvido do príncipe e na vontade quase incontrolável que teve de não apenas avisá-lo, mas de puxá-lo para perto.

— Ele é... adequado para o seu futuro, Catarina — respondeu Damian, as palavras saindo com dificuldade.

— Não foi isso que eu perguntei — retrucou ela, aproximando-se mais. — Eu perguntei se você o acha um bom homem. Se você acha que ele merece ser feliz, mesmo que essa felicidade não seja o que o mundo espera dele.

Damian sentiu o peso da pergunta. Ele sabia que Catarina era inocente, mas às vezes ela parecia enxergar através das almas.

— Todo homem merece a chance de buscar sua própria verdade — disse Damian, finalmente. — Mesmo que essa verdade seja um fardo pesado demais para carregar.

Catarina sorriu, satisfeita.

— Você é muito sábio, Damian. Talvez você devesse dizer isso a ele. Ele parece um pouco... perdido em seus próprios pensamentos hoje.

Damian apenas assentiu e fechou a porta, deixando Catarina sozinha. Ele caminhou pelo corredor, mas seus pés, guiados por uma vontade própria que ele tentava suprimir há dias, não o levaram para o seu alojamento. Eles o levaram em direção à torre sul.

No quarto, Herry já estava no limite entre a consciência e o esquecimento alcoólico. Ele havia começado a escrever o que chamava de "O Guia do Poeta para Conquistar um Sentinela", uma lista de cantadas e versos que ele nunca teria coragem de dizer em voz alta.

— "Senhor Damian, sua espada é afiada, mas seu olhar é o que realmente me corta" — leu Herry em voz alta, rindo de sua própria desgraça. — Não... horrível. "Damian, se o seu dever é me proteger, por que sinto que estou em perigo toda vez que você respira perto de mim?"... Melhor. Muito melhor.

Um som de batidas firmes na porta o fez pular. Ele tentou se recompor, derrubando a pena e manchando o papel de tinta preta.

— Quem é? — perguntou, tentando não tropeçar nas próprias palavras.

— Damian.

O nome atingiu Herry como um balde de água gelada. Ele olhou para a garrafa de vinho vazia, para os poemas espalhados e para o seu próprio estado deplorável.

— Entre — disse ele, num sussurro que mal saiu.

A porta se abriu e a figura imponente de Damian entrou no quarto. O guarda parou, seus olhos escaneando o ambiente: a desordem, o cheiro de vinho e o príncipe desgrenhado diante dele. Damian fechou a porta atrás de si, o clique da fechadura soando como um veredito.

— O senhor está bêbado, Vossa Alteza — disse Damian, sua voz baixa e perigosa.

Herry deu um passo à frente, a coragem líquida finalmente fazendo efeito.

— E se eu estiver? O que o grande guarda real vai fazer? Me prender por excesso de melancolia? Ou vai me sussurrar mais ameaças no ouvido?

Damian aproximou-se, sua presença preenchendo o quarto, apagando qualquer vestígio de ar. Ele parou a poucos centímetros de Herry, seu olhar descendo para os lábios do príncipe antes de voltar para seus olhos.

— Eu vim ver se o senhor estava em segurança — disse Damian, embora sua postura dissesse algo completamente diferente. — Mas vejo que o seu maior inimigo é você mesmo e esse papel.

Damian estendeu a mão e pegou um dos papéis sobre a mesa. Herry tentou impedir, mas foi lento demais. O guarda leu os versos rápidos, seu rosto permanecendo uma máscara de pedra, mas Herry viu a mão de Damian tremer levemente.

— Isso é... — começou Damian, a voz falhando.

— É a verdade — interrompeu Herry, dando o passo final que faltava, encostando seu peito na armadura de Damian. — É a verdade que eu escrevo porque não posso viver. Você me odeia por isso, não é? Por eu ser fraco o suficiente para sentir algo por você?

Damian soltou o papel, que flutuou até o chão como uma pétala caída. Ele olhou para Herry com uma intensidade que parecia capaz de queimar o mundo ao redor deles.

— Eu não o odeio, Herry — disse Damian, usando o nome do príncipe sem o título pela primeira vez. — Eu me odeio por não conseguir parar de olhar para você desde o dia em que chegou.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Herry sentiu as lágrimas arderem em seus olhos, não de tristeza, mas de alívio. Ele estendeu a mão, tocando hesitante o rosto de Damian, a pele áspera contra seus dedos de poeta.

— Então por que você é tão frio? — perguntou Herry.

— Porque se eu deixar de ser frio por um segundo sequer — respondeu Damian, sua mão subindo para envolver a nuca de Herry com uma força possessiva —, eu vou destruir tudo o que jurei proteger. Inclusive você.

Herry sorriu, um sorriso triste e esperançoso.

— Então me destrua, Damian. Eu prefiro ser cinzas em suas mãos do que um príncipe perfeito em um trono de gelo.

Damian não aguentou mais. Ele quebrou a distância, selando seus lábios nos de Herry com uma urgência que falava de semanas de repressão e desejo negado. O beijo tinha gosto de vinho e de perigo, uma colisão entre o veludo e o aço que mudaria o destino de dois reinos.

Longe dali, em seu quarto, Catarina fechou seu livro de poesias com um suspiro satisfeito. Ela sentia que o ar no palácio havia mudado. O cupido havia disparado sua flecha e, embora o caminho à frente fosse cheio de sombras e segredos, ela sabia que a luz da verdade finalmente havia começado a brilhar na torre sul. Ela era a princesa pura, sim, mas ninguém disse que ela não poderia ser a arquiteta de um amor proibido.