Paixão bagunçada
O Brilho do Estrangeiro e a Estratégia dos Amantes
A primavera havia chegado ao reino com uma exuberância que parecia refletir a nova alma do palácio. Os jardins, antes apenas cenários para caminhadas protocolares, agora transbordavam de cores e vida. E era ali, sob a sombra de uma majestosa magnólia, que a Rainha Catarina passava a maior parte de suas tardes. No entanto, ela não estava mais sozinha com seus livros ou com a vigilância silenciosa de Damian.
Ao lado dela, sentado em um banco de pedra, estava Julian. Ele era um nobre de terras distantes, um diplomata de passagem que possuía uma estatura impressionante e uma educação que beirava o poético. Julian falava sobre as constelações do hemisfério norte e sobre as bibliotecas flutuantes de sua terra natal com uma voz aveludada que prendia a atenção de Catarina por horas.
— Vossa Majestade possui um olhar que parece ler as entrelinhas do mundo — disse Julian, inclinando-se levemente em direção a ela, com um sorriso que fazia suas feições aristocráticas parecerem ainda mais gentis.
— Você exagera, Julian — respondeu Catarina, soltando uma risada cristalina que ecoou pelo jardim. — Eu apenas aprecio uma boa história, e as suas são... fascinantes.
A poucos metros de distância, encostado no tronco de um carvalho secular, Damian observava a cena com a mandíbula tão tensa que seus dentes chegavam a ranger. Para qualquer observador externo, ele era apenas o capitão da guarda cumprindo seu dever. Mas, por dentro, Damian sentia uma fúria protetora que não conseguia aplacar. Seus olhos escuros estavam fixos na mão de Julian, que repousava perigosamente perto da mão da rainha.
— Ele está perto demais — rosnou Damian para si mesmo, a mão apertando o punho da espada.
Catarina, percebendo a aura sombria que emanava de seu "irmão" mais velho, lançou um olhar travesso para a direção de Damian. Ela sabia exatamente o que estava fazendo. Julian era, de fato, um amigo adorável, mas a atenção excessiva que ele recebia de Catarina tinha um propósito duplo: desfrutar da companhia intelectual e, mais importante, testar os limites da paciência de Damian para manter o guarda ocupado.
Damian começou a caminhar em direção ao casal, sua armadura emitindo um som metálico que servia como um aviso de sua aproximação.
— Majestade — interrompeu Damian, a voz soando como um trovão distante. — O sol está ficando forte. Sugiro que retornemos aos aposentos internos para sua segurança.
Catarina suspirou, olhando para o céu perfeitamente nublado e fresco.
— Ora, Damian, o clima está adorável. Julian estava justamente me contando sobre os festivais de luzes de sua província.
— Tenho certeza de que o Senhor Julian terá outras oportunidades para entretê-la — disse Damian, lançando ao nobre um olhar tão gélido que Julian piscou, visivelmente desconfortável. — Agora, se me permite...
Catarina trocou um olhar rápido com Herry, que observava tudo de uma varanda próxima, segurando um livro de poesias e um sorriso cúmplice. Era o sinal.
— Damian — chamou Herry, descendo as escadas da varanda com uma elegância estudada. — Que bom que o encontrei. Eu estava justamente precisando de sua ajuda técnica na biblioteca. Recebi um novo lote de mapas militares e não consigo decifrar as marcações de relevo.
Damian parou, olhando de Herry para Catarina. Ele sabia o que estava acontecendo. Ele não era tolo. Aquela era uma manobra clássica de distração.
— O Rei Consorte certamente tem cartógrafos para isso — respondeu Damian, relutante.
— Mas nenhum deles tem a sua experiência de campo, capitão — insistiu Herry, aproximando-se e colocando uma mão no ombro de Damian, um toque que ele sabia que desarmaria o guarda. — Por favor. É urgente para a defesa da fronteira sul.
Damian olhou para Catarina, que agora voltava a sorrir para Julian, ignorando deliberadamente o guarda. Com um suspiro de derrota, ele se deixou ser conduzido por Herry.
— Não demore, Majestade — avisou Damian por cima do ombro, antes de ser levado para dentro do palácio.
Assim que a porta pesada da biblioteca se fechou, Herry soltou o ombro de Damian e encostou-se na mesa de carvalho, cruzando os braços com um olhar divertido.
— Você é muito óbvio, Damian. O ciúme está estampado no seu rosto como uma marca de guerra.
— Não é ciúme — rebateu Damian, retirando as luvas com irritação. — É proteção. Aquele homem... há algo nele que não me agrada. Ele flerta com ela abertamente.
— Ele é um diplomata, Damian. Eles flertam com as paredes se isso garantir um tratado comercial — disse Herry, aproximando-se do guarda. — Catarina gosta da companhia dele. Deixe-a ter um amigo. Ela passou a vida toda trancada.
— Eu não confio nele — insistiu Damian, mas sua voz perdeu um pouco da firmeza quando Herry parou diante dele, invadindo seu espaço pessoal.
— E você confia em mim? — perguntou Herry em um sussurro, as mãos subindo para a gola da armadura de Damian.
Damian sentiu a tensão mudar de foco instantaneamente. A raiva por Julian foi substituída pela eletricidade que sempre surgia quando ele e Herry estavam a sós.
— Você é uma distração perigosa, Herry — murmurou Damian, envolvendo a cintura do rei com os braços, puxando-o para perto.
— Esse é o meu trabalho hoje — respondeu Herry, inclinando a cabeça para trás enquanto os lábios de Damian encontravam seu pescoço. — Catarina me pediu para mantê-lo ocupado. E eu sou um rei muito dedicado aos desejos de minha rainha.
Enquanto isso, no jardim, Catarina e Julian continuavam sua conversa, agora em um tom mais baixo e conspiratório.
— Seu guarda parece... intensamente dedicado à sua segurança — comentou Julian, olhando para a porta por onde Damian desaparecera.
— Damian é como um irmão para mim — explicou Catarina, brincando com a renda de sua manga. — Ele me protege desde que eu era pequena. Às vezes, ele esquece que eu cresci. Mas ele tem um coração de ouro, embora tente escondê-lo atrás de todo aquele aço.
Julian sorriu, captando a sutileza da situação.
— Ele parece ter uma relação muito próxima com o Rei Herry também.
Catarina deu um sorriso enigmático.
— Eles compartilham muitas... responsabilidades estratégicas. É uma dinâmica complexa, Julian. Mas funciona para todos nós.
Passaram-se as horas, e a tarde deu lugar a um crepúsculo violeta. Dentro da biblioteca, a "ajuda com os mapas" havia se transformado em algo muito menos geográfico. Herry estava sentado sobre a mesa de carvalho, com os mapas espalhados e amassados sob ele, enquanto Damian estava entre suas pernas, as mãos cravadas na madeira da mesa, os dois recuperando o fôlego em um silêncio carregado.
— Acho que os mapas da fronteira sul foram devidamente... analisados — ofegou Herry, ajeitando a coroa que estava torta em sua cabeça.
Damian limpou o suor da testa, um meio sorriso surgindo em seus lábios.
— Você é um manipulador terrível, Vossa Majestade. Usar a si mesmo como isca para me afastar dela...
— Funcionou, não funcionou? — Herry saltou da mesa, limpando o pó das roupas. — E admita, você preferia estar aqui comigo do que lá fora, morrendo de raiva de um nobre que só quer falar sobre estrelas.
Damian não respondeu, mas o brilho em seus olhos era confirmação suficiente.
Eles saíram da biblioteca e caminharam em direção ao solário, onde Catarina costumava tomar o chá da tarde. Ao entrarem, encontraram a rainha sozinha, lendo um livro sob a luz das velas. Julian já havia partido para seus aposentos.
— Oh, vejo que a "estratégia militar" foi produtiva — disse Catarina, olhando para o cabelo bagunçado de Herry e para a expressão desarmada de Damian.
— Muito produtiva, Catarina — respondeu Herry, sentando-se ao lado dela e pegando um biscoito. — Damian é um excelente instrutor.
Damian retomou sua posição de guarda, mas desta vez, não havia tensão em seus ombros. Ele olhou para Catarina com uma suavidade que raramente mostrava.
— Ele é um bom homem, Catarina — disse Damian, referindo-se a Julian. — Mas se ele tentar segurar sua mão novamente, eu vou providenciar para que ele tenha que aprender a escrever com a mão esquerda.
Catarina gargalhou, fechando o livro.
— Eu disse a ele que você era protetor, Damian. Mas não se preocupe. Julian é apenas um amigo. Ele me traz notícias de um mundo que eu ainda não conheço. Mas meu coração... bem, meu coração pertence a esta família estranha que construímos.
Herry pegou a mão de Catarina, e Damian, quebrando o protocolo mais uma vez, colocou a mão sobre os ombros de ambos.
— Somos um trio peculiar — comentou Herry.
— Somos o equilíbrio — corrigiu Catarina. — O veludo, o aço e a poesia.
Naquela noite, enquanto o palácio mergulhava no silêncio, Catarina dormiu com a tranquilidade de quem sabia que era amada por dois homens, cada um à sua maneira. Damian, em seu posto, vigiava o corredor, mas sua mente estava na biblioteca, nas marcas que deixara no rei e no riso da rainha. E Herry, em seu quarto, escrevia um novo poema, não sobre bloqueios criativos, mas sobre como o ciúme de um irmão pode ser a melhor desculpa para o encontro de dois amantes.
O plano de Catarina continuaria no dia seguinte. Julian ainda tinha muitas histórias para contar, e Herry ainda tinha muitos "mapas" para analisar com Damian. No reino de veludo e aço, a paz era mantida com pequenas conspirações e grandes amores, e ninguém, nem mesmo o diplomata mais astuto, seria capaz de romper o pacto daqueles que haviam aprendido que a liberdade é algo que se conquista entre as sombras e os sorrisos.