Paixão bagunçada
O Despertar da Rainha e a Devassidão do Rei
A luz de âmbar do entardecer filtrava-se pelas janelas da ala real, pintando o mármore de tons dourados e melancólicos. No centro do quarto, o Príncipe Herry — agora ostentando o título de Rei Consorte, embora a coroa lhe parecesse mais pesada do que as rimas que tentava forjar — estava afundado em uma cadeira de carvalho. Diante dele, uma garrafa de vinho do Sul, quase vazia, servia como sua única musa. Ele encarava o papel em branco com uma expressão de derrota absoluta. O bloqueio criativo era uma fera faminta que devorava suas palavras, deixando apenas o eco de sua própria frustração.
— Maldita métrica... maldito veludo... — resmungou Herry, a voz embargada pelo álcool. — Como posso escrever sobre a liberdade se estou preso em um trono de aparências?
Ele levou a taça aos lábios, fechando os olhos enquanto o líquido quente descia por sua garganta. Ele sentia falta de algo bruto, algo que não rimasse, algo que o tirasse daquela inércia dourada.
Enquanto isso, no banheiro anexo, separado apenas por uma porta de madeira entalhada, Catarina terminava de prender uma mecha de seu cabelo com um grampo de safira. Ela estava animada; haviam planejado uma incursão incógnita à cidade baixa para ver a vida real pulsar longe dos protocolos. Ela cantarolava uma melodia suave, concentrada no espelho, alheia ao silêncio tenso que começava a se formar no quarto ao lado.
A porta principal do quarto de Herry abriu-se com um clique quase imperceptível. Damian entrou. Ele não bateu; o capitão da guarda não precisava de permissão para entrar nos aposentos que ele agora considerava seu território particular. Ele viu a figura desgrenhada do Rei, a túnica aberta, o cheiro de vinho e melancolia pairando no ar.
Damian caminhou com passos de predador, o couro de suas botas não emitindo som algum sobre o tapete persa. Ele parou atrás da cadeira de Herry. O Rei nem sequer se virou; ele conhecia aquela presença. Ele sentiu o calor emanando da armadura de Damian antes mesmo do toque.
Sem dizer uma palavra, Damian inclinou-se e envolveu o Rei em um abraço por trás, suas mãos grandes e calejadas espalmando-se contra o peito de Herry. O contraste entre o veludo fino da camisa do Rei e a força bruta do guarda era eletrizante. Damian enterrou o rosto na curva do pescoço de Herry, inspirando profundamente o aroma de vinho e pele quente.
— Você cheira a derrota, Herry — sussurrou Damian, a voz rouca vibrando contra a pele do outro.
Herry soltou um suspiro trêmulo, a cabeça caindo para trás, encontrando o ombro firme de Damian.
— Não consigo escrever... as palavras fugiram de mim.
— Então pare de procurar por elas — murmurou Damian, começando a trilhar um caminho de beijos lentos e possessivos pela linha da mandíbula de Herry.
Ele mordeu o lóbulo da orelha do Rei, uma pressão que fez Herry arquear as costas. Damian subiu para o pescoço, alternando beijos úmidos com mordidas curtas e marcantes, exatamente onde a gola alta costumava esconder seus segredos.
Herry apertou os braços de Damian, os dedos cravando-se no couro da armadura. Ele tentava ao máximo não emitir nenhum som, consciente de que Catarina estava a poucos metros dali, mas a audácia de Damian estava destruindo sua última barreira de autocontrole.
Damian, percebendo a resistência de Herry, soltou um riso baixo e gutural. Com um movimento ágil e desprovido de qualquer delicadeza protocolar, ele girou a cadeira de Herry e, em um único impulso, puxou o Rei para o seu colo. Agora, Herry estava de frente para ele, montado sobre suas coxas, com as pernas envolvendo a cintura do guarda.
— Olhe para mim — ordenou Damian, segurando o rosto de Herry com as duas mãos, forçando-o a encarar a escuridão faminta em seus olhos. — Esqueça os poemas. Sinta o agora.
Ele voltou ao pescoço de Herry com uma fúria renovada. Suas mãos desceram para a cintura do Rei, apertando a carne sob a seda com uma força que prometia marcas. Herry enterrou o rosto no ombro de Damian, abafando um gemido contra o metal frio da ombreira. Ele estava perdido, entregue àquela tempestade de sensações que nenhum verso seria capaz de capturar.
Nesse exato momento, o som do trinco da porta do banheiro ecoou.
Catarina saiu, ajustando a saia de seu vestido de passeio, com um sorriso radiante no rosto.
— Herry, estou pronta! O que você acha de...
As palavras morreram em sua garganta.
Catarina estacou no lugar. Seus olhos se arregalaram, as mãos congeladas no ar enquanto tentava processar a cena diante dela. O Rei do Norte estava sentado no colo de seu capitão da guarda, com a camisa entreaberta, o rosto enterrado no pescoço do outro, enquanto Damian — o homem que ela via como um irmão protetor e frio — parecia estar tentando devorar o pescoço de Herry com uma possessividade animalesca.
O silêncio que se seguiu foi absoluto e ensurdecedor.
Herry congelou. Ele não se moveu, temendo que qualquer gesto pudesse piorar a situação, embora seu rosto estivesse agora de um tom de vermelho que rivalizava com o vinho na mesa.
Damian, no entanto, não se afastou imediatamente. Ele lentamente levantou a cabeça, os olhos ainda nublados pelo desejo, e encarou Catarina. Não havia vergonha em seu olhar, apenas uma calma desafiadora, como um leão que é interrompido durante uma caçada.
Catarina continuava parada, boquiaberta. Ela parecia uma criança que, ao abrir a porta do quarto dos pais no meio da noite, presencia algo que sua mente ainda não tem vocabulário para descrever.
— Por todos os santos... — sussurrou Catarina, a voz saindo em um fio. — O que... o que é isso?
Herry finalmente conseguiu se desvencilhar de Damian, escorregando do colo do guarda com a elegância de um recém-nascido tentando andar. Ele ajeitou a camisa com mãos trêmulas, evitando o olhar da esposa a todo custo.
— Catarina! Eu... nós estávamos... — Herry olhou para a garrafa de vinho, como se ela pudesse lhe fornecer uma desculpa milagrosa. — Damian estava apenas... verificando se eu... se eu estava bem. Eu tive um ataque de melancolia!
Catarina cruzou os braços, a indignação começando a substituir o choque inicial. Ela olhou de Herry para Damian, que agora estava em pé, com os braços cruzados, mantendo a expressão mais neutra que conseguia forjar, embora seu peito ainda subisse e descesse com força.
— Verificando se você estava bem? — repetiu Catarina, arqueando uma sobrancelha de uma forma que faria qualquer diplomata tremer. — Damian, você costuma "verificar" a saúde dos seus protegidos mordendo o pescoço deles como se fosse um lobo faminto?
Damian limpou a garganta, o som metálico de sua armadura ecoando no quarto silencioso.
— O Rei estava... instável, Majestade. Meus métodos de contenção são... pouco ortodoxos.
Catarina soltou uma bufada de riso incrédulo, dando um passo à frente.
— Pouco ortodoxos? Damian, eu vi onde a mão de Herry estava! E eu vi a sua mão! Se aquilo foi "contenção", eu sou uma freira enclausurada!
Herry escondeu o rosto nas mãos, sentando-se pesadamente na cadeira.
— Por favor, Catarina, não nos olhe assim. É constrangedor o suficiente.
— Constrangedor? — Catarina aproximou-se da mesa, pegando a taça de Herry e virando o resto do vinho de uma só vez. — Eu saio para arrumar o cabelo por dez minutos e volto para encontrar o meu marido e o meu guarda real em uma cena que faria os autores dos meus livros proibidos corarem de vergonha! Eu me sinto uma intrusa! Uma criança vendo o que não deve!
Damian deu um passo à frente, sua presença imponente tentando retomar o controle da situação.
— Catarina, você sabia que isso acontecia. Nós conversamos sobre o pacto.
— Sim, nós conversamos sobre um pacto de lealdade e segredos! — exclamou ela, gesticulando freneticamente. — Não conversamos sobre eu encontrar vocês dois se devorando em cima da mesa de poesia às quatro da tarde! Há horários para essas coisas, Damian! Há protocolos! E há, acima de tudo, portas que devem ser trancadas!
Herry levantou o rosto, uma pequena ponta de seu humor habitual retornando em meio ao caos.
— Você está brava porque não trancamos a porta ou porque interrompemos o seu passeio?
— Estou brava porque eu sou a Rainha e ninguém me avisou que o entretenimento da tarde seria uma peça de teatro erótica na ala sul! — rebateu Catarina, embora o brilho de diversão estivesse começando a surgir em seus olhos. — Damian, olhe para o pescoço dele. Como vamos sair agora? Ele parece ter sido atacado por um bando de morcegos!
Damian olhou para Herry, um meio sorriso quase imperceptível surgindo em seus lábios.
— Eu posso providenciar uma gola mais alta.
— Você vai providenciar é um pouco de juízo! — Catarina bateu com o pé no chão, tentando manter a pose de indignada, mas falhando miseravelmente. — Eu vim aqui para termos uma tarde agradável na cidade, e agora eu não consigo tirar aquela imagem da minha cabeça. Damian, você estava... você estava cheirando ele!
— É um instinto de proteção — respondeu Damian, a audácia voltando à sua voz. — Eu precisava garantir que o Rei não estava... intoxicado demais.
— Ah, sim, tenho certeza de que a língua é o melhor instrumento para medir o nível de álcool no sangue — ironizou ela, sentando-se na beirada da mesa, ignorando os papéis de poesia. — Vocês dois são impossíveis. Herry, você é um devasso disfarçado de poeta. E você, Damian... você é um monstro disfarçado de sombra.
Herry soltou uma risada nervosa, levantando-se e aproximando-se de Catarina. Ele pegou as mãos dela, olhando-a com uma sinceridade que a fez amolecer.
— Perdoe-nos, Catarina. O vinho e o bloqueio criativo me deixaram... vulneráveis à "proteção" de Damian.
— Vulneráveis... — ela repetiu, revirando os olhos. — Pois bem. O passeio à cidade está cancelado. Herry, você não tem condições de aparecer em público sem que alguém chame um médico ou um exorcista. E Damian... você vai ficar de guarda na porta do lado de FORA pelo resto da noite.
Damian arqueou uma sobrancelha.
— Vossa Majestade tem certeza dessa ordem?
— Tenho! — afirmou ela, apontando para a porta. — Eu preciso de uma noite de paz com o meu marido para discutirmos o orçamento do reino, sem que ele seja distraído por mordidas no pescoço. Vá, Damian. Antes que eu decida contar para os meus pais que o guarda real deles tem hábitos alimentares muito peculiares.
Damian fez uma reverência curta, seus olhos encontrando os de Herry por um último segundo carregado de promessas silenciosas. Ele caminhou até a porta, mas antes de sair, virou-se para Catarina.
— O Rei ainda tem um bloqueio criativo, Majestade. Talvez a senhora devesse sugerir que ele escreva sobre... contenção.
E com isso, ele saiu, fechando a porta com um estrondo que ecoou pelo quarto.
Catarina soltou um longo suspiro, deixando os ombros caírem. Ela olhou para Herry, que ainda parecia um tanto atordoado.
— Sente-se, Herry.
Ele obedeceu prontamente.
— Catarina, eu sinto muito mesmo. Foi... inapropriado.
— Foi horrível, Herry. Eu nunca mais vou conseguir olhar para aquela cadeira da mesma forma — disse ela, mas então, soltou uma gargalhada genuína, cobrindo o rosto com as mãos. — Pelos deuses, a cara que você fez quando eu saí do banheiro! Parecia que tinha visto um fantasma!
Herry começou a rir também, o alívio inundando seu peito.
— Eu achei que você ia ter um síncope! E Damian... ele nem se mexeu! Ele continuou ali, como se estivesse apenas cumprindo o dever matinal.
— Aquele homem não tem nervos, ele tem cordas de aço — comentou Catarina, limpando uma lágrima de riso do canto do olho. — Mas falando sério, Herry... você está feliz?
Herry parou de rir, olhando para a porta por onde Damian saíra e depois para a esposa que o aceitava como ninguém mais no mundo faria.
— Eu nunca estive tão feliz em toda a minha vida, Catarina. Mesmo com o bloqueio criativo, mesmo com as golas altas... eu me sinto vivo.
Catarina sorriu, pegando a caneta de Herry e entregando-a a ele.
— Então escreva sobre isso. Não sobre reis e rainhas, mas sobre o que acontece quando as portas se fecham e as máscaras caem. Escreva sobre a fúria e o veludo.
Herry olhou para o papel em branco. De repente, as palavras começaram a fluir. A imagem de Damian, a interrupção de Catarina, o calor daquela tarde... tudo se transformou em versos.
"O aço não pede licença ao entrar, Ele reivindica o que o veludo quer dar. Na sombra da tarde, o segredo se faz, Entre mordidas e beijos, a alma encontra paz. E se a Rainha nos olha com espanto e rigor, Ela guarda o silêncio do nosso verdadeiro amor."
— É bom — disse Catarina, lendo por cima do ombro dele. — Mas se você publicar isso, eu vou dizer que é sobre um cavaleiro e uma camponesa.
— Combinado — disse Herry, sorrindo.
Do lado de fora da porta, Damian permanecia imóvel, as mãos cruzadas atrás das costas. Ele ouvia o som da pena de Herry arranhando o papel e a risada suave de Catarina. Ele sabia que, embora estivesse do lado de fora naquela noite, ele era a base que sustentava aquele equilíbrio frágil e perfeito.
Ele tocou levemente o próprio lábio, ainda sentindo o gosto de Herry e do vinho do Sul. O bloqueio criativo do Rei havia acabado, e Damian sabia que, em breve, ele teria que "verificar" novamente se a inspiração de Herry continuava em níveis satisfatórios.
A noite caiu sobre o palácio de veludo e aço, e entre as paredes de pedra que guardavam tantos segredos, três corações batiam em uníssono, unidos por um pacto que era muito mais do que política ou dever. Era a vida em sua forma mais crua, bela e, definitivamente, pouco ortodoxa.