Pantanal
O Segredo das Sombras Douradas
Stiles caminhou de volta para o Jeep com as pernas ainda levemente instáveis. O ar noturno de Beacon Hills parecia subitamente mais frio agora que o calor da pele de Nala não estava mais ao alcance de seus dedos. Ele entrou no veículo, mas não deu a partida imediatamente. Em vez disso, encarou as próprias mãos apoiadas no volante. O cheiro dela — uma mistura inebriante de jasmim selvagem e o almíscar metálico de um predador — ainda estava impregnado em sua jaqueta.
Ele sabia que o que acabara de fazer era perigoso. Mentir para Scott era uma coisa; Scott tinha um coração enorme e, eventualmente, entenderia. Mas mentir para o FBI e para o próprio pai, o Xerife Stilinski, era entrar em um terreno lamacento. Stiles era um agente treinado agora. Ele deveria ser a linha de frente contra o caos, não o homem que escondia uma criatura desconhecida nas sombras da floresta.
O rádio no console central chiou novamente, a voz de Scott soando mais próxima.
— Stiles? Você já saiu da reserva? Estamos nos reunindo na delegacia para traçar um mapa de calor baseado nos avistamentos.
Stiles respirou fundo, forçando sua voz a soar com o sarcasmo habitual, sua melhor máscara.
— Estou a caminho, Scotty. Só tive um pequeno desentendimento com um galho de árvore que decidiu me atacar de surpresa. O FBI deveria me dar um bônus por riscos ocupacionais de tropeços.
— Típico — Scott riu do outro lado, o som trazendo uma pontada de culpa ao peito de Stiles. — Te vejo em dez minutos.
Stiles ligou o motor e manobrou o Jeep pelos caminhos de terra. Enquanto dirigia, sua mente trabalhava em alta velocidade. Ele precisava de informações. Se Nala era uma onça-pintada, ela não era nativa da América do Norte. O que uma criatura do Pantanal ou da Amazônia estaria fazendo no norte da Califórnia? E por que ela parecia tão... humana? Não era como as Mulheres-Onça que ele conhecera antes, como Kate Argent. Nala tinha uma pureza selvagem que não parecia corrompida pelo ódio ou pela sede de sangue.
Ao chegar à delegacia, o ambiente estava tenso. Mapas estavam espalhados sobre a mesa principal, e seu pai, Noah Stilinski, esfregava as têmporas com o cansaço que só um xerife de uma cidade sobrenatural poderia acumular.
— Finalmente, Stiles — disse o Xerife, levantando o olhar. — Scott disse que você não encontrou nada na ala leste.
— Nada além de vegetação e silêncio absoluto, pai — Stiles mentiu, aproximando-se da mesa. Ele evitou o olhar de Scott, sabendo que os instintos de lobisomem do amigo poderiam detectar qualquer alteração em seus batimentos cardíacos. — Mas estive pensando... se essa coisa é realmente uma onça, ela não cruzou a fronteira a pé sem ser notada. Alguém a trouxe. Ou ela está seguindo algo.
Scott cruzou os braços, franzindo a testa.
— O cheiro dela é diferente, Stiles. É antigo, como se pertencesse a uma linhagem que nunca cruzou com a nossa. Quando tentei rastreá-la mais cedo, senti uma sensação de... proteção. Como se a floresta estivesse tentando escondê-la de nós.
— Talvez ela não seja o perigo — sugeriu Stiles, tentando sondar o terreno. — E se ela estiver fugindo de algo?
— Se for o caso, Stiles, o que quer que esteja caçando uma onça mística é algo que eu não quero solto na minha cidade — o Xerife interveio, batendo com o dedo no mapa. — Temos ataques a fazendas vizinhas. O gado está sendo dilacerado.
— Onças são predadoras eficientes, pai. Elas precisam comer — Stiles justificou, talvez rápido demais.
Scott inclinou a cabeça, os olhos brilhando levemente em um tom de vermelho alfa antes de voltarem ao normal.
— Stiles... por que você está defendendo um animal que nunca viu?
O coração de Stiles deu um solavanco. Ele deu de ombros, fingindo desinteresse.
— Não estou defendendo. Só estou exercendo meu pensamento crítico de agente federal. Não queremos prender ou matar o lado errado da história. Lembra do que aconteceu com o Derek nas primeiras semanas? Todo mundo achava que ele era o monstro.
— Justo — admitiu Scott, embora ainda parecesse desconfiado. — Mas precisamos encontrá-la. Antes que os caçadores locais decidam fazer justiça com as próprias mãos.
A reunião durou mais uma hora, mas Stiles mal conseguia se concentrar. Sua mente voltava constantemente para a imagem de Nala ajoelhada à sua frente, os cabelos bagunçados e o olhar hipnótico. Ele sentia uma urgência física de voltar para a floresta.
Quando finalmente conseguiu se livrar das obrigações, Stiles não foi para casa. Ele parou em um mercado 24 horas, comprou algumas mantas e algumas garrafas de água, além de um pouco de comida pronta. Se ela estava vivendo na floresta, precisava de mais do que apenas carne crua de gado.
A lua já estava alta quando ele estacionou o Jeep no mesmo ponto de antes. Ele caminhou em silêncio, tentando não fazer barulho, embora soubesse que, para ela, ele provavelmente soava como um elefante atravessando uma loja de cristais.
Ele chegou ao local onde o encontro ocorrera. O chão ainda estava marcado onde ele havia caído.
— Nala? — ele chamou em um sussurro. — Sou eu, Stiles.
O silêncio foi a única resposta por longos minutos. Stiles começou a se perguntar se ela teria ido embora, se o encontro fora apenas um breve momento de sorte. Ele se sentou no mesmo tronco de antes e suspirou.
— Eu trouxe algumas coisas. Está ficando frio.
— Você voltou — a voz dela surgiu de cima.
Stiles olhou para cima e a viu. Nala estava agachada em um galho grosso de um carvalho antigo. Ela ainda estava nua, mas a escuridão e as folhas a envolviam como um manto natural. Com um movimento ágil e silencioso, ela saltou, aterrissando suavemente a poucos centímetros dele.
Desta vez, Stiles não caiu. Ele permaneceu sentado, observando-a. Na luz da lua, ela parecia ainda mais irreal. A semelhança com a mulher que ele vira em fotos de antigos arquivos — uma tal de Elena de Virginia — era impressionante, mas Nala tinha uma vivacidade nos olhos que nenhuma foto poderia capturar.
— Eu disse que voltaria — disse Stiles, estendendo uma das mantas. — Aqui. Use isso. Você deve estar com frio.
Nala pegou o tecido, examinando a textura com curiosidade antes de se enrolar nele. Ela se sentou no chão, de frente para ele, cruzando as pernas de forma graciosa.
— Por que me ajuda, Stiles Stilinski? — ela perguntou, pronunciando o nome dele devagar, saboreando cada sílaba.
— Porque eu vi o seu olhar — respondeu ele sinceramente. — Eu lido com "monstros" há muito tempo, Nala. E você não tem o olhar de quem quer destruir. Você tem o olhar de quem está perdida.
Nala baixou a cabeça, os cabelos caindo sobre o rosto.
— Meu povo... eles foram levados. Homens com armas de metal e cheiro de pólvora e ganância. Eles queriam o nosso sangue, a nossa pele. Eu fugi. Corri por terras que não conhecia, atravessei águas grandes. O espírito da onça me guiou até aqui porque esta floresta... ela tem voz. Ela me chamou.
Stiles sentiu um aperto no peito. O "cheiro de pólvora e ganância" era uma descrição perfeita para os traficantes de animais exóticos ou, pior, caçadores de seres sobrenaturais que ele investigava no FBI.
— Você está segura aqui, por enquanto — disse ele, abrindo uma das embalagens de comida e oferecendo a ela. — Mas a minha alcateia... meus amigos... eles estão preocupados. Eles acham que você é um perigo para a cidade.
Nala pegou um pedaço de pão, cheirando-o antes de dar uma mordida pequena.
— Eu só cacei o que era necessário para viver — disse ela com simplicidade. — Não desejo mal aos seus. Mas se eles me cercarem, eu vou lutar. A onça não morre sem levar o caçador junto.
— Eu não vou deixar chegar a esse ponto — Stiles prometeu, movendo-se para sentar no chão ao lado dela. — Mas preciso que você confie em mim. Se eu puder provar para eles que você é uma aliada, eles vão te proteger. Beacon Hills é um refúgio para pessoas como nós.
Nala virou o rosto para ele. A proximidade era tanta que Stiles podia ver as pequenas pintas douradas em suas íris.
— "Pessoas como nós"? — ela repetiu, inclinando a cabeça. — Você não é um mudador de pele. Eu não sinto o cheiro da fera em você.
Stiles deu um sorriso triste.
— Não, eu sou apenas humano. Mas eu vivi no mundo deles por tanto tempo que às vezes esqueço como é ser "normal". Eu fui possuído por um espírito sombrio, já vi amigos morrerem e voltarem à vida... eu sou parte disso, Nala. De um jeito estranho e complicado.
Nala estendeu a mão, tocando novamente a bochecha de Stiles. Seus dedos eram macios, mas tinham uma força latente.
— Você é diferente, Stiles. Há uma luz em você, mas também uma sombra persistente. Isso faz de você... equilibrado.
Stiles fechou os olhos por um momento, aproveitando o toque. Era estranho como, em meio a todo o caos de sua vida, ele se sentia em paz ali, com uma mulher-onça que conhecera há poucas horas.
— Nala, eu preciso te perguntar uma coisa — disse ele, abrindo os olhos. — Por que você se revelou para mim? Você poderia ter me matado quando tropecei. Poderia ter fugido.
Nala sorriu, e desta vez o sorriso foi travesso, quase humano.
— O galho não te derrubou por acaso, Stiles. A floresta te entregou para mim. E quando vi seus olhos... vi alguém que olha para o mundo e não tenta possuí-lo, mas sim entendê-lo. Além disso — ela se aproximou mais, sussurrando perto do ouvido dele —, você tem um cheiro muito bom.
Stiles sentiu o rosto esquentar. Mesmo aos 26 anos e sendo um agente treinado, ele ainda era o Stiles que perdia o jeito diante de uma mulher bonita — especialmente uma que podia transformá-lo em lanche se quisesse.
— Obrigado. É o meu novo sabonete. Ou talvez o medo — ele brincou, fazendo-a rir. O som da risada dela era como música, algo que parecia não pertencer àquele lugar sombrio.
De repente, as orelhas de Nala se moveram. Ela ficou tensa, o corpo mudando instantaneamente para uma postura de alerta.
— Estão vindo — sussurrou ela.
— Quem? Scott? — perguntou Stiles, já se levantando.
— Não — Nala se levantou, a manta caindo um pouco sobre seus ombros. — O cheiro é de metal frio. E ódio. Não são seus amigos.
Stiles levou a mão à sua arma, o instinto do FBI assumindo o controle. Ele apurou os ouvidos e, ao longe, ouviu o som de motores abafados e o estalar de galhos secos. Não eram lobisomens. Lobisomens não precisavam de veículos para caçar na floresta.
— Caçadores — rosnou Stiles. — Devem ter seguido o rastro de onde você atacou o gado.
— Eu vou matá-los — disse Nala, suas unhas começando a se alongar em garras afiadas. Seus olhos brilharam em um dourado intenso, as pupilas tornando-se fendas verticais.
— Não! — Stiles segurou o braço dela. — Se você matá-los, o FBI e a polícia vão montar uma caça em larga escala. Você não vai conseguir se esconder. Me escute, Nala. Você precisa ir para o norte, perto do riacho onde as pedras são altas. Há uma caverna lá que o Scott usa às vezes. Esconda-se e não saia até que eu vá te buscar.
Nala olhou para ele, a fera lutando com a mulher por um segundo.
— E você?
— Eu sou um agente federal, lembra? — Stiles deu um sorriso confiante, embora estivesse preocupado. — Eu vou "investigar" os barulhos e mandá-los para o lado oposto. Agora vá!
Nala hesitou por um milésimo de segundo, então, em um movimento rápido, ela se inclinou e pressionou os lábios contra a bochecha de Stiles, perto do canto de sua boca.
— Não morra, Stiles Stilinski. Eu ainda tenho muito a aprender sobre você.
Em um borrão de movimento, ela se transformou. A onça dourada surgiu em meio às sombras e, com um salto poderoso, desapareceu na copa das árvores.
Stiles respirou fundo, limpou o rosto e sacou sua lanterna de alta potência. Ele caminhou na direção dos ruídos, assumindo sua postura de autoridade.
— FBI! Parem onde estão! — ele gritou, a voz ecoando pela floresta.
Dois homens com roupas de camuflagem e rifles de precisão surgiram de trás de alguns arbustos. Eles pareciam surpresos ao encontrar um agente federal no meio do nada àquela hora da noite.
— Agente? O que faz aqui? — perguntou um deles, baixando levemente a arma. — Recebemos denúncias de um animal perigoso.
— Eu estou no comando desta investigação — mentiu Stiles, aproximando-se com o distintivo à mostra. — E vocês estão interferindo em uma operação federal. Este setor está fechado. Houve um vazamento químico em uma antiga área de mineração ao norte. Se não quiserem que seus pulmões derretam, sugiro que deem meia-volta agora.
Os homens se entreolharam, confusos e intimidados. Stiles sabia como usar o jargão governamental para assustar civis.
— Mas ouvimos algo... — começou o segundo homem.
— Foram coiotes. Eu mesmo os vi. Agora, saiam da minha frente antes que eu os prenda por obstrução de justiça e violação de perímetro de segurança nacional.
Resmungando, os caçadores recuaram. Stiles esperou até que o som dos motores de seus quadriciclos desaparecesse na distância. Ele soltou o ar que nem sabia que estava segurando.
Ele olhou para cima, para as árvores onde Nala estivera momentos antes. O perigo imediato passara, mas ele sabia que isso era apenas o começo. Beacon Hills estava prestes a se tornar um campo de batalha novamente, e desta vez, o coração de Stiles estava diretamente na linha de fogo.
Ele pegou o celular e discou o número de Scott.
— Scott? Sou eu. Esqueça o que eu disse sobre os coiotes. Temos um problema maior. Mas eu preciso que você confie em mim. Encontre-me no loft do Derek em vinte minutos. E não conte para o meu pai ainda.
Stiles encerrou a chamada e olhou para a escuridão da floresta. Ele podia sentir, em algum lugar lá fora, que Nala o observava. E, pela primeira vez em muito tempo, Stiles não se sentia apenas como o humano que resolvia problemas. Ele se sentia como alguém que tinha algo precioso para proteger.
A onça e o agente. O destino de Beacon Hills acabara de ganhar uma nova e selvagem tonalidade de dourado.