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Pantanal

O Labirinto da Lealdade

O loft de Derek Hale ainda conservava aquele ar industrial e frio, um contraste severo com o calor úmido e vibrante que Stiles sentira na floresta apenas meia hora antes. Quando Stiles entrou, Scott já o esperava, sentado no sofá de couro surrado, com uma expressão que misturava preocupação e aquela intuição de Alfa que Stiles sempre achara um pouco irritante e, ao mesmo tempo, reconfortante.

— Você está atrasado três minutos — disse Scott, levantando-se. Ele farejou o ar e franziu o cenho quase instantaneamente. — Stiles... que cheiro é esse?

Stiles parou no meio da sala, jogando as chaves do Jeep sobre a mesa de metal. Ele sabia que não podia esconder o cheiro de Nala de um lobisomem, muito menos de um Alfa Verdadeiro. O aroma dela era forte, selvagem e exótico demais para passar despercebido.

— É o cheiro do nosso "problema", Scott — Stiles respondeu, cruzando os braços e tentando manter a postura de agente federal, embora seu coração desse um solavanco ao lembrar do toque dela. — Eu a encontrei.

Scott deu um passo à frente, os olhos brilhando em um dourado analítico.

— Você a encontrou? E por que não avisou pelo rádio? Por que mentiu para o seu pai e para mim na delegacia?

— Porque ela não é o que vocês pensam — Stiles disparou, a voz subindo um tom. — Ela não é um monstro, Scott. É uma mulher. Uma mulher que se transforma em uma onça-pintada. O nome dela é Nala.

— Uma onça? Em Beacon Hills? — A voz de Derek veio das sombras da escada. O lobisomem mais velho desceu os degraus com sua habitual intensidade carrancuda. — Stiles, você sabe que predadores de fora trazem desequilíbrio. Se ela está matando gado, ela é um risco.

— Ela está com fome, Derek! — Stiles se virou para ele, gesticulando enfaticamente. — Ela veio do sul, fugindo de caçadores que destruíram o povo dela. Ela atravessou um continente inteiro sozinha e assustada. Você, de todas as pessoas, deveria entender o que é ser o último sobrevivente de algo.

O silêncio caiu sobre o loft. Derek estreitou os olhos, mas não rebateu. Scott, por outro lado, aproximou-se de Stiles e colocou uma mão em seu ombro.

— Stiles, eu sinto o seu batimento cardíaco. Está acelerado. Não é só adrenalina de missão. O que aconteceu lá fora?

Stiles desviou o olhar por um segundo, a imagem de Nala sob a luz da lua queimando em sua mente. Ele sentia o peso do distintivo em seu cinto, mas sentia ainda mais o peso da promessa que fizera a ela.

— Eu a vi se transformar — sussurrou Stiles. — Ela é... magnífica. E ela me marcou, Scott. Não com dentes ou garras, mas com um olhar que eu não via há muito tempo. Ela me pediu proteção. E eu dei a minha palavra.

— Você deu a palavra do FBI ou a palavra do Stiles? — perguntou Derek, encostando-se na parede.

— As duas — afirmou Stiles, recuperando a firmeza. — Mas temos um problema imediato. Caçadores de aluguel estão na floresta. Eu os despistei por agora, mas eles não são amadores. Eles têm tecnologia e estão seguindo o rastro de sangue do gado. Se eles a encontrarem antes de nós, vai ser um massacre. E se ela se defender, a cidade inteira vai entrar em pânico.

Scott suspirou, passando a mão pelo cabelo.

— Se ela é uma refugiada, nós a ajudamos. É o que fazemos. Mas eu preciso conhecê-la, Stiles. Preciso saber se ela consegue se controlar perto de humanos.

— Eu a levo até você — disse Stiles. — Mas tem que ser nos termos dela. Ela está escondida na caverna perto do riacho ao norte. Vou levar suprimentos e roupas amanhã cedo. Scott, preciso que você mantenha a alcateia longe daquela área. Se o Liam ou o Mason aparecerem rosnando, ela vai atacar.

— Tudo bem — concordou Scott. — Vou falar com eles. Mas e o seu pai? Ele não vai parar de procurar até ter respostas sobre os ataques.

— Eu cuido do meu pai — Stiles disse, embora soubesse que seria a parte mais difícil. — Só... me deem um tempo para ganhar a confiança dela totalmente.

Naquela noite, Stiles mal dormiu. Ele ficou deitado no quarto de sua infância, olhando para o teto, sentindo o fantasma do toque de Nala em sua pele. Havia algo nela que despertava uma parte dele que o FBI tentara domesticar: o seu lado instintivo, o garoto que corria para o perigo por pura lealdade.

Ao amanhecer, ele já estava na estrada. Parou em uma loja de departamentos e comprou algumas roupas simples — calças legging, camisetas de algodão e um casaco resistente. Ele não sabia o tamanho dela, mas tentou adivinhar pela estatura grácil que vira na floresta.

O caminho até a caverna foi feito a pé para não chamar atenção. A floresta de Beacon Hills parecia estar em guarda, os galhos sussurrando com a brisa matinal. Quando ele se aproximou das pedras altas, sentiu que estava sendo observado muito antes de ver qualquer movimento.

— Nala? — chamou ele, parando em uma clareira próxima à entrada da caverna. — Sou eu. Trouxe o que prometi.

Houve um movimento rápido nas sombras. A onça dourada emergiu da escuridão da caverna, movendo-se com uma elegância que fazia Stiles prender a respiração toda vez. Ela parou a poucos metros, os olhos dourados fixos na sacola que ele carregava.

Lentamente, a transformação começou. Stiles, por puro respeito, desviou o olhar enquanto ouvia o som suave da carne e dos ossos se moldando. Quando o silêncio retornou, ele se virou e a viu novamente em sua forma humana, a pele pálida contrastando com o verde da mata, os cabelos cobrindo-a parcialmente.

— Você veio — disse ela, a voz carregada de uma surpresa genuína. — Achei que o mundo dos homens teria te prendido.

— Eu cumpro minhas promessas — Stiles respondeu, estendendo a sacola. — Aqui. São roupas. Vai ser mais fácil para você se mover se não tiver que se esconder o tempo todo por estar... bem, assim.

Nala pegou as roupas, examinando-as com curiosidade. Stiles a ajudou a entender como vestir a calça e a camiseta. Ver a predadora selvagem tentando lidar com zíperes e botões era quase adorável, se não fosse pela intensidade do olhar que ela lançava a ele a cada toque acidental.

— Isso aperta — reclamou ela, puxando a gola da camiseta. — Prefiro minha pele.

— Eu sei, mas em Beacon Hills, pessoas sem roupas tendem a ser presas, e isso dificultaria muito o meu trabalho de te proteger — Stiles brincou, ajustando o casaco nos ombros dela.

Nala o encarou, as mãos dele ainda repousando sobre os ombros dela. Ela deu um passo à frente, diminuindo o espaço pessoal até que suas respirações se misturassem.

— Você cheira a café e a falta de sono — observou ela, tocando levemente as olheiras de Stiles com a ponta dos dedos. — Você se preocupa demais, Stiles Stilinski.

— É a minha especialidade — ele admitiu, sentindo o coração acelerar novamente. — Nala, eu falei com o meu Alfa. O líder da minha alcateia. Ele quer te conhecer. Ele quer ajudar.

A expressão de Nala endureceu instantaneamente.

— Um lobo? Lobos são territoriais. Eles não gostam de gatos grandes em suas terras.

— Scott não é um lobo comum. Ele é um Alfa Verdadeiro. Ele não governa pelo medo, mas pela compaixão. Ele me prometeu que você estaria segura.

Nala inclinou a cabeça, pensativa. Ela caminhou ao redor de Stiles, como se o estivesse avaliando em um novo contexto.

— Se ele é seu líder, por que você manda nele? — perguntou ela, astuta. — Eu vi como você falou no rádio. Você não soa como um subordinado.

Stiles soltou uma risada curta.

— É uma dinâmica complicada. Somos amigos desde que usávamos fraldas. Ele é o músculo e o coração, eu sou o cérebro e o sarcasmo. Mas, no final do dia, nós somos uma família. E queremos que você faça parte disso, se quiser.

Nala parou na frente dele, seus olhos suavizando.

— Eu nunca tive uma "família" que não fosse do meu próprio sangue. Mas o rastro de sangue que deixei... os homens com armas... eles ainda estão lá fora, não estão?

— Estão — Stiles admitiu, a expressão tornando-se séria. — E é por isso que você precisa vir comigo. Não posso te proteger sozinho se uma unidade tática inteira aparecer aqui. No loft do Derek, você estará segura.

Nala estendeu a mão e entrelaçou seus dedos nos de Stiles. O contato era elétrico.

— Eu vou com você. Não pelo lobo, mas por você. Porque você foi o primeiro em muito tempo que não olhou para mim e viu apenas uma pele para ser vendida ou um monstro para ser abatido.

Stiles apertou a mão dela, sentindo uma onda de determinação.

— Então vamos. O Jeep está a um quilômetro daqui.

Enquanto caminhavam pela floresta, Stiles explicava as regras básicas de Beacon Hills — quem evitar, onde não caçar e por que ele falava tanto quando estava nervoso. Nala ouvia tudo com uma atenção fascinada, ocasionalmente parando para cheirar uma flor ou observar um pássaro, revelando uma curiosidade infantil que contrastava com sua natureza letal.

No entanto, a paz foi interrompida quando eles estavam quase chegando ao veículo. Stiles parou bruscamente, puxando Nala para trás de uma árvore de tronco largo.

— O que foi? — sussurrou ela, seus sentidos já se aguçando.

— Carros — Stiles respondeu em um sussurro tenso. — Dois deles. Estão bloqueando a trilha de saída.

Ele espiou por trás da árvore. Não eram carros da polícia. Eram SUVs pretas, vidros fumê, sem placas. O tipo de veículo que Stiles vira em dezenas de casos do FBI envolvendo mercenários e operações clandestinas.

— Eles nos encontraram? — perguntou Nala, suas garras começando a rasgar o tecido da camiseta que Stiles acabara de lhe dar.

— Não sei como, mas sim — Stiles amaldiçoou baixinho. Ele pegou o celular, mas o sinal estava morto. — Bloqueadores de sinal. Eles sabem o que estão fazendo.

— Deixe-me lutar — pediu Nala, seus olhos brilhando em dourado. — Eu posso rasgar as gargantas deles antes que puxem o gatilho.

— Não! — Stiles a segurou firmemente pelos ombros. — Há pelo menos seis deles, e todos estão armados com munição pesada. Se você pular lá, eles vão te encher de chumbo antes que você toque o chão.

— Então o que faremos, "cérebro"? — perguntou ela, um desafio em sua voz.

Stiles olhou ao redor, sua mente processando as variáveis em milissegundos. Ele viu uma inclinação rochosa que levava a um desfiladeiro estreito.

— Vamos flanqueá-los. Se conseguirmos chegar ao Jeep, eu tenho um rádio de longo alcance que os bloqueadores deles não conseguem abafar totalmente. Mas precisamos de uma distração.

— Eu serei a distração — disse Nala, já começando a se despir das roupas humanas que a restringiam.

— Nala, espere...

— Stiles — ela o interrompeu, tocando seu rosto uma última vez. — Na floresta, a onça é rainha. Confie na minha natureza, assim como eu confio na sua.

Antes que ele pudesse protestar, ela saltou. A transformação ocorreu no ar, um borrão de pelos dourados e rosetas negras que desapareceu na folhagem densa acima deles.

Stiles não perdeu tempo. Ele se moveu silenciosamente pela lateral, usando o treinamento do FBI para permanecer invisível. Ele ouviu os gritos dos homens logo em seguida.

— Ali! Nas árvores!

— Fogo! Fogo!

O som de tiros de fuzil ecoou, cortando a serenidade da floresta. O coração de Stiles disparou. Ele queria correr até ela, mas sabia que seu papel era outro. Ele alcançou o Jeep e mergulhou pela janela aberta, pegando o rádio de alta frequência.

— Unidade 1 para Scott McCall! Scott, responda! Temos contato hostil na área norte! Repito, mercenários armados atacando a convidada!

— Stiles? — A voz de Scott veio através do chiado, distorcida mas compreensível. — Estamos a caminho! Derek e Malia já estão na reserva! Aguente firme!

Stiles largou o rádio e sacou sua pistola de serviço. Ele saiu do carro e correu de volta para o local do tiroteio. O que ele viu fez seu sangue gelar e, ao mesmo tempo, ferver de admiração.

Nala era um borrão de destruição. Ela não estava apenas atacando; ela estava brincando com eles. Ela saltava de árvore em árvore, caindo sobre os mercenários como um raio dourado, desarmando-os e desaparecendo antes que pudessem mirar. Dois homens já estavam no chão, gemendo de dor, mas vivos — ela estava seguindo o conselho de Stiles de não matar.

No entanto, um dos mercenários, um homem corpulento com uma cicatriz no rosto, sacou uma arma estranha, que brilhava com uma luz azulada.

— Agora eu te peguei, gatinha! — gritou ele, mirando no galho onde Nala acabara de pousar.

— Não! — Stiles gritou, disparando sua pistola para o ar para distrair o homem.

O mercenário virou-se para Stiles, surpreso. Foi o segundo de que Nala precisava. Ela saltou do galho, mas não para o homem. Ela saltou para Stiles.

Ela aterrissou à frente dele em sua forma humana, nua e ofegante, protegendo-o com o próprio corpo. O mercenário riu, apontando a arma de pulso elétrico para os dois.

— Dois por um. O agente traidor e a aberração.

Antes que ele pudesse disparar, um uivo poderoso rasgou o ar. Scott e Derek surgiram da mata como sombras vingadoras. Derek atingiu o homem da cicatriz com a força de um trem de carga, enquanto Scott desarmava os outros mercenários com uma eficiência brutal.

Em segundos, a clareira estava silenciosa novamente, exceto pelos gemidos dos caçadores derrotados.

Scott aproximou-se, seus olhos vermelhos voltando ao castanho normal. Ele olhou para Nala, que ainda estava agachada na frente de Stiles, as garras expostas e os dentes arreganhados.

— Está tudo bem — disse Scott, sua voz emanando a aura de Alfa que acalmava qualquer criatura sobrenatural. — Nós somos amigos do Stiles. Você está segura agora.

Nala relaxou os ombros lentamente, mas não se levantou. Ela olhou para trás, para Stiles, que ainda segurava sua pistola, os olhos fixos nela.

— Você se colocou na frente da bala por mim — sussurrou Stiles, guardando a arma e aproximando-se dela.

— Você veio me buscar — respondeu ela, a respiração voltando ao normal. — No meu mundo, isso significa que nossas vidas agora estão trançadas.

Derek aproximou-se, jogando o casaco de um dos mercenários para Nala se cobrir.

— Temos que tirar esses caras daqui e limpar a área antes que o Xerife chegue — disse Derek, olhando para Stiles. — Você tem muito o que explicar, Stiles. Especialmente sobre quem são esses caras e por que eles têm tecnologia da Argent Arms modificada.

— Eu sei — Stiles suspirou, ajudando Nala a se levantar. — Mas primeiro, vamos levá-la para o loft. Ela precisa de um lugar que não tenha cheiro de pólvora.

Nala envolveu o braço de Stiles, encostando a cabeça em seu ombro. Ela olhou para Scott e Derek com uma mistura de cautela e respeito.

— Sua alcateia é forte, Stiles Stilinski — disse ela. — Mas o humano deles é o mais corajoso.

Stiles deu um meio sorriso, aquele sorriso que Scott conhecia tão bem — o sorriso de quem acabara de encontrar algo pelo qual valia a pena quebrar todas as regras.

— Vamos para casa, Nala — disse Stiles.

Enquanto caminhavam em direção aos carros, Stiles sabia que a vida em Beacon Hills nunca mais seria a mesma. O FBI poderia vir atrás dele, caçadores internacionais poderiam estar a caminho e seu pai provavelmente o deixaria de castigo até os 40 anos por mentir. Mas, ao sentir o calor de Nala ao seu lado, ele percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, o mistério que ele estava tentando resolver não era um caso criminal. Era o mistério de um coração selvagem que encontrara abrigo no seu.

E, no fundo da floresta, o eco do rosnado de uma onça parecia selar um novo pacto: a predadora agora tinha um guardião, e o guardião, finalmente, encontrara sua igual.