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Passo A Passo

Colisão de Frequências

O relógio na parede da sala 4 parecia zombar de Park Jimin. Cada tique-taque era um lembrete metálico de que os últimos quarenta minutos haviam sido um completo desperdício de energia. O ar estava pesado, carregado com o cheiro de suor e uma irritação tão densa que poderia ser cortada com uma faca de pão.

Jimin parou no centro do linóleo, o peito subindo e descendo com força, o cabelo loiro colado na testa. Ele não olhou para trás, mas sabia exatamente onde Jungkook estava: jogado contra a barra de alongamento, bufando como se tivesse acabado de correr uma maratona, com aquela expressão de tédio que fazia o sangue de Jimin ferver.

— De novo — ordenou Jimin, a voz saindo mais ríspida do que pretendia.

— Você está brincando, não é? — Jungkook soltou uma risada anasalada, empurrando-se para longe da barra. — Já fizemos essa sequência quinze vezes. Meus joelhos estão pedindo arrego e você ainda está contando os milímetros do meu braço.

— Seus joelhos não estariam doendo se você atacasse o chão com técnica em vez de tentar atravessá-lo como um animal — rebateu Jimin, virando-se finalmente. — Você entra no contra-tempo. Toda. Santa. Vez.

Jungkook revirou os olhos, o piercing na sobrancelha brilhando sob a luz fria. Ele caminhou até o centro, parando a uma distância que Jimin considerava perigosamente invasiva.

— O problema, "professor", é que você quer que eu dance como se tivesse uma vara de ferro enfiada na coluna. O contemporâneo é sobre fluidez, não é? Então por que você está tentando transformar um momento de improviso em uma coreografia de balé clássico da era vitoriana?

— Porque sem estrutura, o que você faz é apenas... espasmo — Jimin deu um passo à frente, estreitando os olhos. — O Professor Kang nos colocou juntos para uma fusão, não para eu assistir você ter um ataque de adrenalina enquanto eu tento manter a dignidade da peça.

Jungkook inclinou a cabeça, um sorriso ladino e puramente provocador surgindo em seus lábios.

— Dignidade? Ah, entendi. Você tem medo de parecer "bagunçado". Tem medo de que, se soltar um pouco esse pescoço, as pessoas percebam que você é humano e não uma estátua de mármore da recepção.

Jimin sentiu as pontas dos dedos formigarem. Ele odiava como Jungkook conseguia ler suas inseguranças e transformá-las em munição em questão de minutos.

— Vamos apenas fazer o lift da transição. Sem música. Se você não conseguir me sustentar com estabilidade desta vez, eu vou falar com o Kang e dizer que essa parceria é artisticamente inviável.

— "Artisticamente inviável" — Jungkook repetiu, imitando o tom polido de Jimin com uma perfeição irritante. — Você fala como se estivesse redigindo um contrato de divórcio, Park. Relaxa. Eu seguro você. Eu sempre seguro o que eu pego.

Jimin ignorou o duplo sentido implícito e se posicionou. Ele respirou fundo, tentando encontrar o eixo de seu próprio corpo, ignorando a presença esmagadora de Jeon logo atrás dele. O plano era simples: um salto em diagonal, uma rotação no ar e Jungkook deveria apará-lo pela cintura, guiando sua descida até o chão em um movimento contínuo.

— No três — disse Jimin. — Um... dois... três!

Jimin correu, o corpo impulsionado pela técnica impecável. Ele saltou, sentindo a leveza por um milésimo de segundo. Mas, no momento do contato, tudo deu errado. Jungkook, esperando um impacto mais pesado ou talvez tentando imprimir sua própria força urbana no movimento, segurou-o cedo demais. O centro de gravidade de Jimin foi deslocado para a esquerda.

O resultado foi um emaranhado desajeitado de membros. Jimin caiu por cima do ombro de Jungkook, que tropeçou para trás, incapaz de compensar o desequilíbrio. Ambos foram ao chão com um baque surdo que ecoou por toda a sala de espelhos.

— Merda! — exclamou Jungkook, sentindo o cotovelo bater no chão duro.

Jimin estava caído sobre o peito de Jungkook, o rosto enterrado no pescoço do mais alto. Por um segundo, o único som na sala era a respiração errática dos dois. Jimin podia sentir o calor da pele de Jungkook, o cheiro de sabonete cítrico misturado ao suor, e a batida frenética do coração do outro contra suas próprias costelas.

Ele se afastou como se tivesse sido queimado, levantando-se rapidamente e tentando recompor a camisa desalinhada.

— Você é um desastre! — gritou Jimin, a voz falhando por causa da adrenalina e do constrangimento. — Você me puxou para baixo! Você não esperou eu completar a rotação!

Jungkook sentou-se devagar, massageando o cotovelo, os olhos escuros agora brilhando com uma irritação genuína, sem o deboche de antes.

— Eu te puxei? Você saltou como se estivesse fugindo de um incêndio, Park! Você não me deu ângulo nenhum para o apoio. Você é tão fechado, tão defensivo, que nem no ar você consegue se entregar para a porcaria do movimento.

— Eu não me entrego porque você não é confiável! — Jimin apontou o dedo para ele, tremendo levemente. — Olha para você. Você nem deveria estar nesta ala. Você é barulhento, você é arrogante e você está arruinando a minha chance de conseguir aquela bolsa.

Jungkook levantou-se em um movimento fluido, ficando muito mais alto que Jimin, sua sombra cobrindo o loiro.

— A sua bolsa? — Jungkook soltou uma risada seca e amarga. — Você acha que é o único aqui que tem algo a perder? Eu ralei muito mais que você para chegar aqui, "princesinha". Eu não tive professores particulares desde os cinco anos. Eu aprendi a dançar no asfalto, sofrendo o dobro para provar que o meu estilo é arte tanto quanto o seu.

Jimin vacilou por um segundo, surpreso com a intensidade das palavras de Jungkook. Mas o orgulho falou mais alto.

— Então prove. Porque até agora, tudo o que eu vi foi um amador tentando se passar por profissional.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Jungkook deu um passo à frente, forçando Jimin a recuar até que suas costas batessem no espelho frio. O moreno colocou as mãos no vidro, uma de cada lado da cabeça de Jimin, prendendo-o em um espaço minúsculo.

— Você quer ver o amador em ação? — Jungkook sussurrou, a voz profunda vibrando perto do ouvido de Jimin. — O seu problema é que você acha que a dança é sobre perfeição. Mas a dança é sobre honestidade. E você é o maior mentiroso que eu já conheci. Você finge que é intocável, mas está morrendo de medo de que eu te toque e você goste da confusão que eu causo na sua ordem perfeita.

Jimin sentiu o ar sumir de seus pulmões. A proximidade era insuportável. Ele podia ver cada detalhe das tatuagens que subiam pelo pescoço de Jungkook, o pequeno corte no canto de seu lábio, a dilatação de suas pupilas.

— Saia... da minha frente — Jimin conseguiu dizer, embora sua voz soasse fraca.

— Com prazer — disse Jungkook, afastando-se bruscamente e pegando sua mochila no canto da sala. — O treino acabou por hoje. Não adianta nada ficarmos aqui se você está ocupado demais sendo perfeito para realmente dançar.

Jungkook caminhou até a porta, parando com a mão na maçaneta.

— Saiba de uma coisa, Jimin. Eu não vou desistir dessa bolsa. E se eu tiver que te carregar nas costas, literalmente, para aquela apresentação ser um sucesso, eu vou fazer isso. Mas não espere que eu peça desculpas por ser quem eu sou.

A porta bateu com força ao fechar.

Jimin desabou no chão, as pernas finalmente cedendo. Ele olhou para o próprio reflexo no espelho — o cabelo bagunçado, o rosto corado, os lábios entreabertos. Ele parecia tudo, menos perfeito.

Ele odiava Jeon Jungkook. Odiava o modo como ele ocupava espaço, o modo como ele falava, o modo como ele cheirava. Mas, acima de tudo, ele odiava o fato de que, naquele lift desastroso, por um breve segundo antes da queda, ele sentiu que Jungkook era a única coisa sólida em seu mundo de porcelana.

— Idiota... — sussurrou Jimin para a sala vazia, abraçando os próprios joelhos.

Ele sabia que o dia seguinte seria pior. Sabia que as provocações continuariam e que a sincronia ainda seria um sonho distante. Mas, enquanto observava as luzes da cidade começarem a brilhar através da janela do estúdio, Jimin percebeu que a tensão entre eles não era mais apenas sobre a dança. Era algo mais profundo, algo que estava começando a rachar sua superfície polida de maneiras que ele não sabia se conseguiria consertar.

A música do ensaio ainda ecoava em sua mente, mas agora, as batidas urbanas de Jungkook pareciam estar ganhando terreno sobre o seu piano clássico. E o pior de tudo era que Jimin não tinha mais certeza se queria silenciá-las.