Passo A Passo
O Silêncio entre as Notas
O vácuo deixado por Jeon Jungkook na Sala 4 era mais barulhento do que qualquer música que Park Jimin já tivesse dançado. Fazia exatamente quatro dias desde a discussão que terminara com o estrondo da porta de carvalho, e o silêncio que se seguiu parecia ter criado raízes no linóleo.
Jimin estava sozinho, parado diante do espelho imenso que cobria a parede leste. Ele vestia sua malha preta habitual, o cabelo loiro preso por uma faixa para que o suor não ardesse em seus olhos, mas sua postura não tinha a altivez de sempre. Ele tentava executar a sequência de abertura da peça de gala — o trecho que deveria ser o seu solo técnico —, mas seus movimentos pareciam desprovidos de alma. Eram precisos, sim. Eram limpos. Mas eram vazios.
— Um, dois, três e quatro... — murmurou Jimin, marcando o tempo com os dedos, mas sua voz falhou.
Ele tentou o *grand jeté* em diagonal. No momento em que seu corpo deveria atingir o ápice da suspensão, seus olhos buscaram instintivamente o reflexo de Jungkook no espelho, esperando ver aquela figura alta e tatuada pronta para interceptar seu movimento ou lançar um comentário sarcástico sobre sua "rigidez vitoriana". Não havia ninguém.
O desequilíbrio foi imediato. Jimin aterrissou de forma desajeitada, o tornozelo esquerdo protestando com uma pontada aguda que o fez morder o lábio inferior para não gritar. Ele desabou no chão, sentindo o frio do piso contra as palmas das mãos.
— Merda — sibilou, fechando os olhos com força.
A verdade, tão amarga quanto o café frio que ele bebia para aguentar as noites de insônia, era que a ausência de Jungkook estava destruindo sua dança. Sem o atrito, sem a provocação constante, Jimin havia voltado para sua zona de conforto de mármore, e o resultado era uma performance tecnicamente perfeita, mas artisticamente morta. Ele sentia falta daquela energia bruta que o obrigava a reagir, a lutar pelo espaço, a ser humano em vez de apenas um bailarino.
Enquanto isso, do outro lado do campus, no subsolo do Bloco de Artes Urbanas, Jeon Jungkook chutava uma garrafa de água vazia contra a parede de concreto. O som ecoou como um tiro no estúdio de hip-hop, que estava vazio àquela hora da noite.
Jungkook estava com os fones de ouvido no pescoço, a música pulsando tão alto que era possível ouvir o baixo vibrando. Ele tentava criar uma nova rotina de *power moves*, algo agressivo o suficiente para tirar Park Jimin de sua cabeça. Mas cada vez que ele iniciava um *windmill* ou um *freeze*, sua mente traidora projetava a imagem de Jimin executando um *développé* com aquela precisão irritante que, ele agora admitia, era a coisa mais bonita que já tinha visto.
— Concentra, Jeon — rosnou para si mesmo, limpando o suor da testa com o antebraço tatuado.
Ele tentou um salto com rotação, o tipo de movimento que costumava fazer com os olhos fechados. No meio do ar, ele sentiu falta do contraponto. No dueto, aquele era o momento em que Jimin deveria cruzar o palco em uma linha oposta, criando uma tensão visual que dava sentido ao salto de Jungkook. Sem Jimin, o movimento parecia um esforço físico sem propósito. Ele aterrissou pesado, quase perdendo o equilíbrio.
Ele se sentou no chão, encostado na parede grafitada, e puxou o celular do bolso. O histórico de chamadas mostrava três ligações perdidas do Professor Kang e nenhuma mensagem de Jimin.
— Ele deve estar adorando — murmurou Jungkook, sentindo um aperto estranho no peito. — Deve estar lá na Sala 4, dançando como uma estátua perfeita, feliz por não ter um "animal" como eu por perto para bagunçar o coreto dele.
Mas a imagem de Jimin caindo durante o lift desastroso do último ensaio não saía de sua mente. Ele se lembrou da sensação do corpo de Jimin contra o seu, da fragilidade que o loiro tentava esconder com arrogância e do modo como o cheiro de baunilha e suor dele parecia impregnado em suas próprias roupas de treino.
Jungkook odiava o fato de que Jimin tinha razão sobre uma coisa: ele estava sendo covarde. Estava usando a raiva como escudo para não admitir que a "perfeição rígida" de Park Jimin era exatamente o que faltava para dar estrutura ao seu caos.
No dia seguinte, o Professor Kang convocou os dois para uma reunião de emergência no auditório principal. O clima era glacial. Jimin estava sentado na primeira fila, as costas retas como uma flecha, olhando fixamente para o palco. Jungkook chegou cinco minutos atrasado, com o capuz do moletom levantado e as mãos nos bolsos, sentando-se três cadeiras de distância de Jimin.
— Eu não vou perder meu tempo com sermões — disse o Professor Kang, caminhando pelo palco com os braços cruzados. — A apresentação de gala é em duas semanas. Os outros professores me disseram que vocês dois estão treinando sozinhos. Jimin, sua técnica está estagnada. Jungkook, seu ritmo está errático.
Jimin apertou os dedos sobre os joelhos, mas não disse nada. Jungkook soltou um suspiro audível, revirando os olhos.
— A peça de vocês se chama "Sincronia Imperfeita" — continuou Kang, parando bem na frente deles. — Mas o que eu vejo agora são dois solistas medíocres tentando provar quem é o mais orgulhoso. Se vocês não subirem naquele palco amanhã, às oito da manhã, prontos para trabalharem como uma unidade, eu mesmo assino a revogação das bolsas de vocês. Estamos entendidos?
— Sim, senhor — respondeu Jimin, a voz baixa e controlada.
Jungkook apenas assentiu com um aceno brusco de cabeça.
Quando o professor saiu, o silêncio no auditório tornou-se opressor. Jimin levantou-se primeiro, pegando sua mochila. Ele caminhou em direção à saída, mas parou quando estava lado a lado com Jungkook.
— O meu tornozelo está inchado — disse Jimin, sem olhar para ele. — Porque eu tentei fazer a diagonal sozinho e não tive quem equilibrasse o peso do palco.
Jungkook sentiu uma pontada de culpa que o atingiu como um soco. Ele olhou para Jimin, notando as olheiras leves sob os olhos amendoados do loiro.
— Eu estou errando os tempos — admitiu Jungkook, a voz rouca. — Eu entro na batida muito cedo porque não tenho que esperar por você.
Jimin finalmente virou o rosto para encará-lo. Havia uma vulnerabilidade crua em seus olhos que Jungkook nunca tinha visto antes.
— A coreografia está morrendo, Jungkook.
— Eu sei — respondeu o mais velho, levantando-se. — Ela precisa do seu controle chato para não virar uma bagunça.
— E ela precisa da sua força bruta para não ser um tédio — rebateu Jimin, um esboço quase invisível de sorriso surgindo no canto dos lábios.
— Sala 4? — perguntou Jungkook.
— Sala 4. Agora.
Eles caminharam pelo corredor em silêncio, mas a tensão entre eles não era mais de hostilidade pura; era algo carregado de expectativa, como uma tempestade prestes a desabar.
Ao entrarem no estúdio, o ar parecia mais leve. Jimin foi direto para o sistema de som e deu o play na música experimental que se tornara o hino de sua rivalidade. As primeiras notas do violoncelo ecoaram, seguidas pela batida pesada de hip-hop.
— Sem aquecimento? — provocou Jungkook, tirando o moletom e revelando a regata que marcava seus ombros largos.
— Já estamos aquecidos pela raiva, não acha? — Jimin posicionou-se no centro, estendendo a mão.
Eles começaram. No início, os movimentos eram cautelosos, como dois predadores se estudando. Mas, à medida que a música crescia, a memória muscular assumiu o controle. Jimin girava e Jungkook estava lá, exatamente onde deveria estar. Quando Jungkook executava um movimento de solo, Jimin orbitava ao seu redor com uma fluidez que dava sentido a cada gesto agressivo do moreno.
Chegaram ao momento do lift, o ponto de ruptura do ensaio anterior. Jimin correu em direção a Jungkook. Ele não hesitou. Ele não calculou o ângulo. Ele simplesmente saltou, fechando os olhos e entregando seu corpo à gravidade.
Jungkook o aparou com uma firmeza que fez o ar sair dos pulmões de Jimin. Ele segurou o loiro pela cintura e, em vez de apenas guiá-lo para o chão, ele o manteve no ar por um segundo extra, sentindo a leveza e a confiança que Jimin estava depositando nele.
Quando os pés de Jimin tocaram o chão, eles não se separaram. Jungkook manteve as mãos na cintura de Jimin, e Jimin manteve as mãos nos ombros de Jungkook, ambos ofegantes, os peitos subindo e descendo em um ritmo compartilhado.
— Você voltou a respirar fora da contagem — sussurrou Jungkook, o rosto a centímetros do de Jimin.
— Você me forçou a isso — respondeu Jimin, o olhar fixo nos lábios de Jungkook, onde o piercing brilhava sob a luz da sala.
— Eu senti falta disso — admitiu Jungkook, a voz vibrando baixo, quase um segredo. — Da briga. De como você me olha como se quisesse me matar e me beijar ao mesmo tempo.
Jimin sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar. Pela primeira vez, ele não sentia a necessidade de estar no controle absoluto.
— Eu também senti falta, Jeon. A sala estava vazia demais sem você ocupando todo o espaço.
Jungkook sorriu, um sorriso genuíno que suavizou suas feições duras. Ele aproximou-se um pouco mais, sentindo o cheiro de baunilha de Jimin, a mistura inebriante que o assombrara nos últimos dias.
— A gente é um desastre juntos, Park.
— Um desastre com uma técnica impecável — corrigiu Jimin, aproximando sua testa da de Jungkook.
A tensão entre eles mudou de natureza. Não era mais sobre quem dançava melhor ou quem tinha a bolsa de estudos mais importante. Era sobre a gravidade que os puxava um para o outro, uma força que nenhum treinamento clássico ou urbano poderia explicar.
— O Professor Kang disse que a gente precisava de uma resolução — murmurou Jungkook, seus dedos apertando levemente a cintura de Jimin.
— E o que você sugere como resolução? — perguntou Jimin, desafiador.
Jungkook não respondeu com palavras. Ele inclinou a cabeça e selou seus lábios aos de Jimin. Foi um beijo que carregava toda a frustração dos últimos quatro dias, toda a fome de contato que eles tentaram negar e toda a energia que transformavam em dança.
Jimin soltou um suspiro trêmulo contra a boca de Jungkook, enroscando os dedos nos cabelos pretos e curtos da nuca do outro. O beijo era como a dança deles: uma colisão de estilos, um equilíbrio precário entre a delicadeza e a força bruta.
Quando se separaram, ambos estavam ainda mais ofegantes. Jimin olhou para o espelho e viu o reflexo dos dois. Eles não pareciam mais estátuas ou animais solitários. Pareciam uma obra em construção, cheia de falhas, mas vibrante de vida.
— A coreografia ainda precisa de ajustes no final — disse Jimin, tentando recuperar a voz profissional, embora seus lábios estivessem inchados e vermelhos.
Jungkook riu, puxando-o para outro abraço rápido antes de soltá-lo.
— Amanhã, às oito?
— Amanhã, às sete — corrigiu Jimin, recuperando seu ar de mestre. — Temos muito tempo perdido para compensar.
Jungkook pegou sua mochila, caminhando até a porta, mas parou e olhou para trás.
— Ei, Park?
— O quê?
— Não se preocupe com o tornozelo. Eu seguro você amanhã. Eu sempre vou segurar.
Jimin ficou parado no centro da Sala 4 enquanto as luzes se apagavam automaticamente, deixando apenas a penumbra do corredor iluminar o espaço. Ele tocou os próprios lábios, sentindo o calor de Jungkook ainda ali. Ele sabia que a apresentação de gala seria um desafio, e que eles provavelmente ainda teriam muitas discussões antes de subirem no palco.
Mas, pela primeira vez em sua vida acadêmica, Park Jimin não estava preocupado com a perfeição. Ele estava ansioso pelo caos. Porque no caos de Jeon Jungkook, ele finalmente tinha encontrado sua verdadeira dança.
Ele saiu da sala, fechando a porta com cuidado. O silêncio agora não era mais um vácuo; era apenas o intervalo entre dois movimentos de uma música que estava apenas começando. E ele mal podia esperar para ouvir a próxima nota.