Passo A Passo
Frequências em Desacordo
O silêncio que se seguiu à saída do Professor Kang era quase insuportável. A música experimental, que antes parecia um desafio estimulante, agora soava como um ruído branco irritante, preenchendo as lacunas de tudo o que não estava sendo dito. Jimin sentia o suor secar em sua pele, deixando uma sensação de frio que contrastava com o calor que ainda emanava do lugar onde as mãos de Jungkook haviam tocado seu corpo.
Ele se posicionou para reiniciar a sequência, mas seus pés pareciam feitos de chumbo. A cada tentativa de pirueta, ele perdia o equilíbrio por frações de segundo. Sua mente, geralmente um santuário de contagens e ângulos, estava um caos.
— Você está fora do tempo — disse Jungkook, parando abruptamente no meio de um passo. Ele não estava gritando, mas sua voz tinha uma aspereza que cortava o ar. — De novo. Você está pensando no que o Kang disse e está perdendo o tempo da batida.
Jimin parou, os ombros subindo e descendo com força. Ele se virou para Jungkook, os olhos brilhando com uma frustração que vinha se acumulando há semanas.
— Eu não estou pensando no que ele disse! — exclamou Jimin, a voz subindo uma oitava. — Eu estou tentando compensar o fato de que você está me sufocando. Cada vez que você se aproxima para um suporte, você age como se fosse o dono do meu movimento. Você é frio, Jeon. Você é controlador e acha que, porque tem força física, pode ditar como eu devo me sentir na minha própria dança.
Jungkook soltou uma risada amarga, cruzando os braços sobre o peito largo. O piercing em sua sobrancelha arqueou-se em um gesto de puro desdém.
— Eu sou controlador? — Jungkook deu um passo à frente, a sombra de seu corpo caindo sobre o loiro. — Olhe-se no espelho, Jimin. Você é quem não consegue soltar as rédeas por um segundo. Você trata essa apresentação como se fosse um funeral onde tudo tem que ser milimetricamente perfeito, ou então o mundo acaba. Você é um robô de porcelana.
— Antes um robô do que alguém que não leva nada a sério! — Jimin rebateu, aproximando-se até que seus rostos estivessem a centímetros de distância. — Você entra aqui com esse ar de quem faz um favor ao mundo por estar presente. Você trata a técnica como se fosse um acessório descartável. Para você, isso é só mais uma performance para alimentar seu ego, enquanto para mim, é a minha vida, a minha bolsa de estudos, o meu futuro!
— Você acha que eu não levo a sério? — A voz de Jungkook baixou, tornando-se perigosamente sombria. — Você não sabe nada sobre o que eu faço para estar aqui. Você vê as tatuagens e o estilo urbano e assume que eu sou um vagabundo que caiu de paraquedas na sua preciosa academia. Mas a diferença entre nós, Park, é que eu danço porque eu preciso. Você dança porque quer ser admirado.
— Isso não é verdade! — Jimin sentiu as lágrimas de raiva arderem em seus olhos. — Eu me entrego a isso mais do que você jamais entenderia.
— Se entregar não é decorar passos, Jimin! — Jungkook gritou, fazendo Jimin recuar um passo pelo susto. — Se entregar é o que quase aconteceu antes do Kang entrar. É perder o controle. É deixar que outra pessoa te sustente sem que você tente calcular o ângulo da queda. Mas você tem medo. Você tem um medo covarde de que, se você se soltar, não reste nada além dessa casca perfeita.
Jimin sentiu como se tivesse levado um tapa físico. A verdade nas palavras de Jungkook era ácida demais para ser engolida. Ele olhou para o homem à sua frente — o homem que o desafiava, que o irritava e que, em breves momentos de sincronia, o fazia sentir-se mais vivo do que qualquer aplauso da plateia.
— Eu cansei — sussurrou Jimin, a voz trêmula. — Eu não consigo fazer isso com você. Você suga toda a beleza da dança e transforma em um campo de batalha.
— Ótimo — respondeu Jungkook, afastando-se e pegando sua mochila no canto da sala de forma brusca. — Então peça ao Kang para te dar outro parceiro. Alguém que aceite ser seu acessório de palco. Alguém que não te faça questionar essa sua vidinha perfeita.
Jungkook caminhou até a porta sem olhar para trás. O som da porta de carvalho batendo ecoou pela sala 4 como um tiro, deixando Jimin sozinho com seu reflexo e o silêncio opressor.
Os dias que se seguiram foram os mais longos da vida de Jimin. Ele ia às aulas teóricas, cumpria suas horas como assistente no estúdio e ensaiava seus solos de contemporâneo até que seus pés sangrassem, mas a sala 4 permanecia vazia durante o horário que pertencia à dupla.
Ele tentou convencer a si mesmo de que estava melhor assim. Sem as provocações de Jungkook, sem as discussões sobre o tempo da música, sem o calor desconcertante de seu corpo. Mas a verdade era que sua dança parecia... vazia. Sem o atrito que Jungkook proporcionava, os movimentos de Jimin voltaram a ser apenas técnica pura. Belos, sim, mas sem o impacto, sem a urgência que o Professor Kang tanto exigia.
Jimin observava Jungkook de longe no refeitório ou nos corredores do Bloco C. O moreno estava sempre cercado por outros dançarinos de hip-hop, rindo, sendo o centro das atenções, parecendo não ser afetado minimamente pela briga. Aquilo irritava Jimin profundamente. Como ele podia agir como se nada tivesse acontecido? Como ele podia simplesmente descartar a conexão — por mais caótica que fosse — que eles haviam construído?
Uma noite, após o fechamento oficial da academia, Jimin entrou na sala 4 por hábito. Ele não pretendia ensaiar a peça da gala, mas seus pés o levaram até lá. Para sua surpresa, a luz estava acesa.
Lá dentro, Jungkook estava sozinho. Ele não estava dançando hip-hop. Ele estava parado diante da barra, tentando executar um movimento de contemporâneo que Jimin havia tentado lhe ensinar semanas atrás. Seus movimentos eram desajeitados, pesados demais para a leveza exigida, mas havia uma concentração feroz em seu rosto. Ele repetia o mesmo giro, caindo repetidamente, frustrado.
Jimin ficou parado na porta, observando. Ele viu Jungkook socar a própria coxa em sinal de irritação antes de tentar novamente.
— Você está colocando o peso no calcanhar — disse Jimin suavemente.
Jungkook congelou. Ele se virou devagar, o suor escorrendo pelo rosto, os cabelos pretos grudados na testa. Ele parecia exausto, e pela primeira vez, Jimin viu uma rachadura na armadura de confiança do moreno.
— O que você está fazendo aqui, Park? — perguntou Jungkook, a voz cansada.
— Eu poderia te perguntar o mesmo — Jimin entrou na sala, fechando a porta atrás de si. — Achei que você não levava a técnica a sério. Achei que contemporâneo era "coisa de robô".
Jungkook desviou o olhar, bufando uma risada sem humor.
— Eu não consigo tirar a porcaria da sequência da cabeça. Toda vez que eu tento dançar outra coisa, o ritmo daquela música experimental volta. Eu sinto como se estivesse faltando uma parte do movimento.
Jimin caminhou até o centro da sala, parando a uma distância segura, mas próxima o suficiente para sentir a tensão remanescente entre eles.
— Falta porque você não foi feito para dançar isso sozinho, Jeon. E eu também não.
Jungkook olhou para ele, os olhos escuros buscando algo no rosto de Jimin.
— Você disse que eu era controlador. Que eu estragava tudo.
— E você disse que eu era um mentiroso covarde — rebateu Jimin, um pequeno sorriso triste surgindo em seus lábios carnudos. — Talvez nós dois estivéssemos certos. Talvez eu tenha medo de perder o controle. E talvez você use a sua força para esconder que também está tentando se encontrar nesse estilo.
Jungkook soltou um suspiro longo, deixando os ombros caírem.
— Eu não queria que você se sentisse sufocado. Eu só... quando eu te seguro, eu sinto que tenho que te manter firme, ou você vai simplesmente flutuar para longe e eu não vou conseguir te alcançar.
O coração de Jimin deu um solavanco. Aquela era a coisa mais honesta que Jungkook já havia dito.
— Eu não vou flutuar para longe, Jungkook — disse Jimin, dando um passo à frente. — Mas você precisa me deixar cair um pouco para que eu possa confiar que você vai me pegar.
Jungkook estendeu a mão, hesitante.
— De novo? — perguntou ele, repetindo a pergunta que selara o destino deles no ensaio anterior.
Jimin não hesitou. Ele colocou sua mão na de Jungkook, sentindo o calor familiar e a aspereza de sua pele.
— De novo. Mas desta vez, sem a música. Só nós dois.
Eles se posicionaram. Não havia mais o ódio cortante de antes, mas uma vulnerabilidade crua que era muito mais perigosa. Eles começaram a se mover no silêncio da sala, o único som sendo o de suas respirações e o atrito dos pés no chão.
Quando chegou o momento do lift que causara a discussão, Jimin não hesitou. Ele saltou com toda a sua força, confiando plenamente na gravidade e nos braços de Jungkook. O moreno o pegou no ar, mas em vez de apenas segurá-lo com força bruta, ele acompanhou a queda de Jimin, transformando o impacto em um movimento fluido e contínuo.
Eles terminaram no chão, um emaranhado de braços e pernas, mas desta vez, ninguém se afastou com pressa.
Jungkook estava por cima de Jimin, os braços sustentando o peso do corpo sobre o loiro. Seus rostos estavam tão próximos que as respirações se misturavam em um único ritmo.
— Você não me soltou — sussurrou Jimin, os olhos fixos nos de Jungkook.
— Eu nunca vou soltar — respondeu Jungkook, a voz vibrando de uma forma que fez o corpo de Jimin estremecer.
O moreno inclinou-se, reduzindo a distância final. O beijo que se seguiu não foi uma colisão, como o anterior, mas uma conversa lenta e profunda. Era um pedido de desculpas, uma promessa e uma descoberta, tudo em um só toque. Jimin entrelaçou os dedos nos cabelos de Jungkook, puxando-o para mais perto, enquanto Jungkook acariciava o rosto de Jimin com uma ternura que o loiro nunca imaginou que ele possuía.
Naquele momento, na penumbra da sala 4, a técnica não importava. A bolsa de estudos não importava. A única coisa que importava era a sincronia imperfeita entre dois opostos que haviam finalmente parado de lutar um contra o outro para começarem a dançar juntos.
— Nós vamos ganhar aquela gala, não vamos? — murmurou Jungkook contra os lábios de Jimin, um sorriso ladino aparecendo.
Jimin riu, puxando-o para outro beijo.
— Se você não errar o tempo do segundo pivô, talvez tenhamos uma chance, "amador".
— Eu te odeio, Park Jimin.
— Eu também te odeio, Jeon Jungkook.
Lá fora, a cidade de Seul continuava seu ritmo frenético, mas dentro daquela sala de espelhos, o tempo havia parado para que dois dançarinos pudessem, finalmente, aprender a respirar na mesma contagem.