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Past...

Herança de Sangue e Sombras

O silêncio do loft durante a madrugada era um campo minado. Engfa estava na varanda, o brilho alaranjado do cigarro era a única luz que competia com os postes da rua. Ela observava a fumaça se dissipar, sentindo o peso daquela corrente de prata que Faye usava ecoar em sua mente. Havia algo naquela joia, algo no olhar de Faye, que cheirava a segredos enterrados em covas rasas.

Faye Malisorn nunca fazia nada sem um propósito. Aos vinte e oito anos, ela era uma mestre em xadrez num mundo de pessoas jogando damas. Mas Engfa se lembrava de quando as peças começaram a ser movidas. Ela se lembrava da transição de "vizinhas" para "irmãs de criação", um título que sempre pareceu uma piada de mau gosto, um véu fino para cobrir a possessividade que as unia.

— Você está pensando demais de novo, Engfa. Isso dá rugas.

A voz de Faye veio de trás, baixa e rouca. Ela não usava sapatos, seus passos eram silenciosos como os de um felino. Ela se aproximou e, sem pedir licença, tirou o cigarro dos dedos de Engfa, levando-o aos próprios lábios.

— Por que você convenceu seus pais a me levarem para aquela casa, Faye? — Engfa perguntou, sem olhar para trás. A pergunta que a perseguia por anos finalmente saiu, crua. — Meus pais tinham acabado de morrer naquele acidente... os freios falharam, o carro virou um monte de metal retorcido. Eu não tinha nada. E, de repente, a "princesinha dos Malisorn" decide que quer uma irmã de caridade?

Faye soltou a fumaça lentamente, seus olhos vermelhos pelo cansaço ou por algo mais sombrio. Ela se inclinou no parapeito ao lado de Engfa, a corrente de prata balançando entre elas.

— Eu não queria uma irmã, Engfa — Faye confessou, um sorriso de lado brincando em seus lábios. — Eu queria um brinquedo. E você era o brinquedo mais quebrado e interessante que eu já tinha visto.

Engfa virou-se para ela, a raiva familiar borbulhando.

— Você é doente.

— Somos — corrigiu Faye, estendendo a mão para tocar o rosto de Engfa. — Mas admita, você adorou o jogo.

O jogo. Engfa fechou os olhos, a memória a levando de volta para a adolescência naquela mansão fria. Ela se lembrou dos primeiros meses, de como Faye a seguia pelos corredores, observando cada surto de raiva, cada lágrima escondida. Faye não oferecia conforto; ela oferecia desafio. Ela provocava Engfa até que a garota mais nova explodisse, apenas para poder ser a única a recolher os pedaços depois.

— Você se lembra da primeira vez que nos beijamos? — perguntou Faye, a voz agora num sussurro perigoso.

Engfa soltou uma risada amarga.

— Como eu poderia esquecer? Eu quase te matei.

— Foi excitante — Faye murmurou, aproximando-se mais.

Naquela noite, Engfa tinha apenas dezoito anos. O trauma da perda dos pais ainda era uma ferida aberta e purulenta. Ela estava em seu quarto, a escuridão sendo sua única companhia, quando ouviu a maçaneta girar. Tomada pela paranoia e pelos reflexos de quem vivia na defensiva, ela pegou a faca de caça que escondia debaixo do travesseiro.

Quando a silhueta entrou, Engfa avançou. Em segundos, ela tinha a pessoa prensada contra a porta, a ponta da lâmina pressionada contra a garganta. O suor frio escorria por seu pescoço, o ódio vivo em seus olhos.

— Se der mais um passo, eu juro que te corto de orelha a orelha — Engfa rosnou, a voz trêmula de adrenalina.

A luz da lua entrou pela fresta da cortina, revelando o rosto de Faye. Ela não tentou se soltar. Ela não gritou. Pelo contrário, Faye inclinou o pescoço para trás, expondo a jugular à lâmina, e soltou um suspiro que soou quase como um gemido de prazer. Seus olhos brilhavam com uma intensidade maníaca, fixos nos de Engfa.

— Faça — desafiou Faye naquela noite, a voz carregada de uma tensão sexual que Engfa não sabia como processar. — Mostre-me o quanto você me odeia, Engfa. Mostre-me que você é capaz de me destruir.

Engfa sentiu o coração martelar contra as costelas. A proximidade, o cheiro de Faye, a vulnerabilidade fingida de quem detinha todo o controle... era demais. Ela não cortou Faye. Em vez disso, a faca caiu no tapete com um baque surdo, e Engfa agarrou a gola da camisa de Faye, colando seus lábios nos dela em um beijo que era um campo de batalha.

— Foi ali que eu soube — disse Faye agora, no presente, interrompendo as memórias de Engfa. — Eu soube que você era minha. Que não importava quem aparecesse, Charlotte ou qualquer outra pessoa... o seu sangue reconhece o meu.

Engfa sentiu um calafrio. Ela nunca soube — e Faye garantiria que nunca soubesse — que o "acidente" dos Waraha não tinha sido obra do destino. Faye se lembrava vividamente de observar, escondida atrás das cortinas de seu quarto, os capangas de seu pai mexendo nos freios do carro vizinho. Ela mesma tinha sugerido ao capanga principal, um homem ganancioso chamado Somchai, que um "ajuste" seria benéfico para os negócios da família Malisorn.

E quando o trabalho foi concluído e os Waraha foram enterrados, Faye cuidou pessoalmente de silenciar a única ponta solta. Somchai nunca saiu daquela floresta onde Faye o atraiu com a promessa de pagamento. Ela era jovem, sim, mas já possuía a frieza necessária para moldar o mundo ao seu redor. Ela queria Engfa. E para ter Engfa totalmente, ela precisava que a garota não tivesse mais nada.

— Você é muito silenciosa às vezes, Faye — Engfa disse, quebrando o transe. — O que você esconde nessa cabeça?

— Apenas planos para o nosso futuro, querida — Faye mentiu com a perfeição de uma psicopata. — Planos para manter você e a Charlotte exatamente onde pertencem. Comigo.

— A Charlotte está dormindo? — Engfa perguntou, mudando de assunto, sentindo a necessidade de se ancorar na realidade presente do trio.

— Está. Ela teve outra daquelas crises de choro antes de apagar. Ela é tão... maleável — Faye sorriu, um toque de desprezo misturado com adoração. — Ela precisa de nós para respirar. É uma responsabilidade deliciosa, não acha?

Engfa jogou a bituca do cigarro longe.

— Às vezes eu acho que nós vamos nos destruir. Que um dia, uma de nós vai apertar demais e tudo vai explodir.

Faye deu um passo à frente, invadindo o espaço de Engfa e segurando a corrente de prata em seu próprio pescoço, oferecendo a extremidade para Engfa.

— Então aperte, Engfa. Se você acha que somos uma bomba, seja o pavio.

Engfa encarou a corrente. Ela sentia uma atração magnética por aquele objeto, um desejo de puxar Faye para perto e, ao mesmo tempo, de sufocá-la com ele. Ela agarrou o metal frio, enrolando a corrente nos dedos e puxando Faye para um beijo bruto, punitivo.

Faye gemeu contra a boca de Engfa, suas mãos subindo para as costas da jaqueta de couro da outra. Era uma luta por dominância, como sempre fora desde a adolescência. Faye amava a força de Engfa, a maneira como ela resistia ao controle apenas para ceder de forma mais violenta depois.

— Eu odeio você — Engfa murmurou entre beijos, a voz carregada de uma verdade que ambas sabiam ser uma mentira.

— Eu sei — Faye respondeu, mordendo o lábio inferior de Engfa até tirar sangue. — E eu amo que você não consegue viver sem esse ódio.

Elas se separaram ofegantes, a tensão entre elas quase palpável. No quarto ao lado, Charlotte se mexeu na cama, chamando por elas em um sussurro sonolento. O som da voz dela agiu como um comando.

— Ela acordou — disse Engfa, soltando a corrente de Faye.

— Vamos — Faye concordou, seus olhos brilhando na penumbra. — Nossa bonequinha precisa de atenção. E eu ainda não terminei de mostrar a você quem realmente manda neste loft.

Enquanto caminhavam para dentro, Faye sentiu uma satisfação sombria. Engfa nunca saberia a verdade sobre seus pais. Ela nunca saberia que sua vida inteira, desde aquele acidente até este momento no loft, foi um roteiro escrito por Faye Malisorn.

Engfa entrou no quarto primeiro, sentando-se na beira da cama e puxando Charlotte para o seu colo. Charlotte se aninhou nela instantaneamente, procurando o calor de Engfa com uma dependência quase infantil.

— Vocês demoraram — Charlotte reclamou, a voz manhosa, os olhos grandes focados em Faye que entrava logo atrás.

— Estávamos apenas relembrando os velhos tempos, Charlie — Faye disse, aproximando-se e sentando-se do outro lado de Charlotte. — Coisas de irmãs.

Engfa lançou um olhar cortante para Faye, mas não disse nada. Ela começou a acariciar o cabelo de Charlotte, enquanto Faye passava a mão pelo ombro de Engfa, tocando "acidentalmente" o pescoço da Waraha.

— Engfa estava me contando o quanto sentiu minha falta hoje — Faye provocou, mentindo descaradamente enquanto seus dedos traçavam linhas na pele de Engfa.

— É verdade, Engfa? — Charlotte perguntou, olhando para ela com aquela vulnerabilidade calculada que sempre desarmava a outra.

Engfa suspirou, sentindo-se encurralada entre as duas mulheres que eram seu céu e seu inferno.

— Senti — Engfa admitiu, a voz baixa. — Senti falta das duas. Satisfeitas?

Faye sorriu, um brilho de triunfo nos olhos.

— Por enquanto.

Charlotte puxou a mão de Faye e a de Engfa, unindo-as sobre seu peito.

— Prometam que amanhã vai ser diferente. Sem brigas. Só nós três.

— Você sabe que isso é impossível, pequena — Faye disse, inclinando-se para beijar o topo da cabeça de Charlotte. — As brigas são o que nos mantém vivas. O caos é o nosso oxigênio.

Engfa olhou para as mãos unidas. O sangue de seus nós dos dedos, as cicatrizes de Faye, a fragilidade de Charlotte... tudo se misturava em uma massa única de obsessão. Ela sabia que Faye escondia algo profundo, algo que a corrente de prata simbolizava, mas naquele momento, com o peso de Charlotte em seus braços e o toque provocador de Faye em seu pescoço, a verdade parecia um preço alto demais a pagar pela destruição daquele equilíbrio.

— Só durmam — Engfa ordenou, embora soubesse que nenhuma delas teria um sono tranquilo.

Enquanto as luzes se apagavam e o trio se acomodava no emaranhado de lençóis e membros, Faye Malisorn fechou os olhos com um sorriso nos lábios. Ela tinha tudo o que queria. O passado estava enterrado, o presente estava sob controle e o futuro... bem, o futuro seria exatamente o que ela decidisse que seria.

A corrente de prata brilhou uma última vez na penumbra antes de ser coberta pelo cobertor, um segredo silencioso descansando no peito da mulher que destruiu um mundo para construir o seu próprio. No loft, o silêncio retornou, mas era um silêncio carregado de promessas de mais dor, mais desejo e uma dependência da qual nenhuma delas jamais escaparia.