Past...
O Labirinto de Toques e Mentiras
A mansão dos Malisorn sempre foi gélida, um monumento de mármore e herança que parecia projetado para amplificar o som de passos solitários e segredos sussurrados. Para Engfa, aquele lugar era uma gaiola dourada onde ela foi jogada após os destroços da vida que conhecia terem sido varridos para debaixo do tapete. Mas a gaiola tinha uma carcereira, e o nome dela era Faye.
Durante os primeiros anos de convivência "fraternal", Faye desenvolveu um talento cruel para a tortura psicológica disfarçada de afeto. Na frente dos pais de Faye e dos poucos convidados que frequentavam os jantares formais, elas eram a imagem da adaptação. Faye, a filha perfeita e acolhedora; Engfa, a órfã resgatada que tentava se comportar.
Mas por baixo da mesa, a realidade era outra.
— Engfa, querida, você parece tão tensa hoje — disse a mãe de Faye durante um desses jantares, enquanto cortava delicadamente o seu filé. — A escola está sendo difícil?
— Está tudo bem, senhora Malisorn — respondeu Engfa, a voz falhando levemente.
O motivo da falha era o pé de Faye. Sob a toalha de linho branco, Faye tinha tirado o sapato e subia a panturrilha de Engfa com os dedos dos pés, alcançando a parte interna da coxa com uma pressão deliberada. Engfa apertou o garfo com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos.
— Eu acho que ela só precisa de um pouco de ar — Faye comentou, sua voz carregada de uma inocência que fazia o estômago de Engfa revirar. — Não é, "irmãzinha"?
Faye inclinou-se para o lado, fingindo pegar um guardanapo, e seu cabelo vermelho roçou o ombro de Engfa. Naquele segundo, ela sussurrou tão baixo que apenas os instintos de Engfa captaram:
— Você está molhada, não está? Consigo sentir o seu tremor daqui.
Engfa não respondeu. Ela não podia. Se falasse, despejaria todo o ódio e o desejo reprimido que a sufocavam. Ela apenas suportava os esbarrões "acidentais" nos corredores, as mãos de Faye que demoravam tempo demais em sua cintura ao passarem por portas estreitas, e as mordidas que Faye deixava em seus ombros durante as "brincadeiras" de luta, marcas que Engfa escondia cuidadosamente sob as golas de suas jaquetas.
A tensão entre elas era um elástico esticado ao limite, e a ruptura aconteceu em uma noite de tempestade, meses antes de Charlotte entrar em suas vidas.
Faye estava em seu quarto com uma mulher cujo nome Engfa nem se dera ao trabalho de decorar. O som de risadas e gemidos atravessava as paredes finas, agindo como facas na paciência de Engfa. Ela tentou acender um cigarro, mas suas mãos tremiam. Tentou ler, mas as palavras se transformavam no rosto sarcástico de Faye.
Finalmente, o silêncio caiu no quarto ao lado. A acompanhante de Faye saiu furtivamente minutos depois, e foi então que Engfa se viu caminhando até a porta proibida. Ela não bateu; apenas entrou.
Faye estava deitada entre lençóis bagunçados, a corrente de prata brilhando contra a pele nua, o cheiro de perfume barato e sexo pairando no ar. Ela não pareceu surpresa ao ver Engfa. Ela nunca parecia surpresa.
— Veio conferir se eu ainda estou viva, Waraha? Ou veio reclamar do barulho? — Faye perguntou, apoiando-se nos cotovelos, o sorriso de lado iluminado pela luz fraca do abajur.
Engfa ficou parada aos pés da cama. Sua jaqueta preta parecia uma armadura pesada demais para aquele momento. Seus olhos estavam vermelhos, e a arrogância habitual tinha sido substituída por uma vulnerabilidade crua, algo que ela raramente permitia que alguém visse.
— Você pode... — Engfa começou, a voz sumindo. Ela limpou a garganta. — Você pode apenas dormir abraçada comigo hoje?
Faye arqueou uma sobrancelha. O sarcasmo que estava pronto para sair de sua boca morreu antes de nascer. Ela viu o tremor nos ombros de Engfa, o vazio nos olhos da garota que tinha perdido tudo e que, por algum motivo doentio, buscava conforto justamente na pessoa que mais a atormentava.
— O que foi? O escuro está te assustando agora? — Faye tentou manter o tom provocador, mas sua voz suavizou.
— Só deixa o seu calor ser o suficiente — sussurrou Engfa, dando um passo à frente. — Só por hoje. Deixa eu fingir que não estamos nos destruindo.
Faye suspirou e afastou o lençol, dando espaço.
— Venha aqui, encrenqueira.
Engfa deitou-se, ainda de roupa, sentindo o contraste da pele quente de Faye contra o tecido frio de sua camiseta. Faye não hesitou; ela envolveu Engfa com seus braços longos, puxando-a para perto até que a cabeça de Engfa descansasse em seu peito. Por um longo tempo, o único som foi o da chuva batendo contra o vidro da janela.
O ódio, que geralmente era o combustível entre elas, pareceu evaporar, deixando para trás algo muito mais perigoso: uma conexão genuína. Faye começou a traçar padrões sem sentido no braço de Engfa, subindo lentamente até a barra da camiseta dela.
— Você tem um cheiro de cigarro e chuva — murmurou Faye, sua mão deslizando para baixo do tecido, encontrando a pele firme do abdômen de Engfa.
Engfa soltou uma respiração trêmula. O toque de Faye era exploratório, quase gentil, algo que não condizia com a manipuladora que ela era durante o dia. Os dedos de Faye mapeavam cada músculo, cada cicatriz invisível, subindo em direção às costelas de Engfa.
— Faye... para — Engfa pediu, embora seu corpo estivesse se inclinando para o toque.
— Por que? Você não gosta? — Faye subiu o corpo, ficando por cima de Engfa, seu cabelo vermelho caindo como uma cortina ao redor dos dois rostos.
— Eu não pertenço a você — Engfa declarou, tentando injetar firmeza na voz. — Eu não sou um dos seus brinquedos. Eu não sou sua.
Faye soltou uma risada baixa, um som sombrio que vibrou contra o peito de Engfa. Ela inclinou a cabeça, capturando o lábio inferior de Engfa em uma mordida lenta antes de sussurrar contra sua boca:
— Engfa, você pertence a mim desde o momento em que eu te vi coberta de sangue naquele beco. Você só é teimosa demais para admitir que este é o único lugar onde você se sente completa.
— Mentira — sibilou Engfa, mas suas mãos já estavam agarrando a cintura de Faye, puxando-a para baixo.
— Vou provar para você — Faye prometeu.
Aquela noite não foi sobre conforto, mas sobre posse. Faye foi metódica. Ela usou a boca e as mãos para marcar cada centímetro do corpo de Engfa, deixando lembretes arroxeados em seus quadris e pescoço. Ela explorou a urgência de Engfa, a maneira como a Waraha tentava retomar o controle apenas para ser subjugada pelo ritmo impiedoso de Faye.
Quando o sol começou a filtrar pelas cortinas na manhã seguinte, Engfa estava exausta, o corpo doendo de uma forma que a fazia se sentir viva pela primeira vez em anos. Faye estava acordada, observando-a com um olhar de satisfação predatória.
— Ainda acha que não é minha? — Faye perguntou, passando o polegar por uma marca de dentes que tinha deixado na clavícula de Engfa.
Engfa olhou para ela, o ódio e o amor travando uma batalha silenciosa em seu peito. Ela se levantou, vestindo a jaqueta e escondendo as marcas que contavam a história da noite anterior.
— Isso não muda nada, Malisorn — disse Engfa, voltando a vestir sua máscara de arrogância. — Você ainda é a pessoa que eu mais odeio no mundo.
— E é por isso que você vai continuar voltando para a minha cama — Faye respondeu, recostando-se nos travesseiros com uma confiança absoluta.
Anos depois, no loft que agora dividiam com Charlotte, aquela dinâmica não tinha mudado; apenas se tornado mais complexa.
— Engfa? Você está me ouvindo? — A voz de Charlotte trouxe Engfa de volta ao presente.
Elas estavam as três na cama do loft. Charlotte estava entre elas, segurando a mão de Engfa, enquanto Faye, do outro lado, observava a cena com aquele mesmo olhar que tinha na adolescência.
— Estava distraída, Charlie — respondeu Engfa, apertando a mão da namorada.
— Você estava pensando no passado — afirmou Faye, sua voz carregada de um conhecimento que sempre irritava Engfa. — Naquela noite na mansão, talvez?
Engfa lançou um olhar mortal para Faye. O segredo daquela primeira noite — e de tantas outras que se seguiram antes de Charlotte — era algo que elas guardavam como uma arma carregada.
— Não sei do que você está falando — mentiu Engfa.
Charlotte olhou de uma para a outra, sua intuição aguçada captando a eletricidade estática entre as duas irmãs de criação. Ela se sentou, deixando o lençol cair levemente, revelando a pele pálida.
— Vocês duas têm segredos demais — disse Charlotte, sua voz ganhando aquele tom de manipulação emocional que ela usava tão bem. — Às vezes eu sinto que, por mais que eu tente entrar, existe um muro entre vocês que ninguém mais consegue atravessar.
Faye estendeu a mão, tocando o queixo de Charlotte e virando o rosto dela para si.
— Não seja tola, bonequinha. Não existe muro. Existe apenas um labirinto. E nós três estamos presas nele.
Engfa observou o movimento de Faye. Ela sentia o ciúme queimar, a possessividade por Charlotte lutando contra a obsessão por Faye. Era um ciclo sem fim. Ela odiava Faye por conhecê-la tão bem, por ter moldado suas crises de raiva e por ter sido a primeira a possuir sua escuridão. E, ao mesmo tempo, ela sabia que Charlotte era a única coisa que impedia que ela e Faye se destruíssem mutuamente.
— A Charlotte tem razão — Engfa interveio, sua voz rouca. — Nós temos segredos. Mas o maior deles é que nenhuma de nós consegue sobreviver sem a outra.
Faye sorriu, seus olhos brilhando para Engfa por cima da cabeça de Charlotte.
— Viu? Ela aprendeu rápido.
Charlotte sorriu, satisfeita por ter a atenção das duas novamente. Ela se deitou no peito de Engfa, enquanto Faye abraçava as duas por trás, sua corrente de prata tilintando levemente ao roçar no ombro de Engfa.
— Prometam — sussurrou Charlotte, fechando os olhos. — Prometam que o passado nunca vai ser mais importante do que o que temos aqui.
Engfa sentiu o olhar de Faye queimando em sua nuca. Ela pensou nos pais mortos, nos freios falhos, no sangue no beco e nas marcas que Faye ainda deixava em sua alma.
— O passado é apenas o que nos trouxe até aqui, Charlie — disse Engfa, embora suas palavras soassem como uma advertência para si mesma.
— Ele é o alicerce, meu amor — completou Faye, sua voz soando como um veneno doce no ouvido de Engfa. — E alicerces nunca mudam. Eles apenas sustentam o caos que construímos em cima deles.
No silêncio que se seguiu, Engfa percebeu que, por mais que tentasse assumir o controle, por mais que tentasse ser a protagonista de sua própria vida, ela sempre seria a peça principal no tabuleiro de Faye Malisorn. E enquanto Charlotte Austin fosse a regente daquele trio, a música da destruição continuaria a tocar, unindo-as em um pacto de sangue, sombras e uma dependência da qual o amor era apenas a parte mais perigosa.
Engfa fechou os olhos, sentindo o peso de Faye e o calor de Charlotte. Ela era uma viciada, e elas eram sua droga preferida. E no labirinto de toques e mentiras que era o loft, a verdade era a única coisa que ninguém se atrevia a procurar.