Past...
O Labirinto de Toques e Mentiras
A mansão dos Malisorn sempre foi gélida, um monumento de mármore e herança que parecia projetado para amplificar o som de passos solitários e segredos sussurrados. Para Engfa, aquele lugar era uma gaiola dourada onde ela foi jogada após os destroços da vida que conhecia terem sido varridos para debaixo do tapete. Mas a gaiola tinha uma carcereira, e o nome dela era Faye.
Durante os primeiros anos de convivência "fraternal", Faye desenvolveu um talento cruel para a tortura psicológica disfarçada de afeto. Na frente dos pais de Faye e dos poucos convidados que frequentavam os jantares formais, elas eram a imagem da adaptação. Faye, a filha perfeita e acolhedora; Engfa, a órfã resgatada que tentava se comportar. Mas, por baixo da mesa, a realidade era outra.
O ciúme de Engfa era uma besta faminta. Ela odiava cada vez que Faye trazia alguém para casa, cada vez que o olhar de Faye demorava um segundo a mais em qualquer outra pessoa que não fosse ela. Esse sentimento a corroía, transformando-se em um ressentimento silencioso que Faye, com sua percepção aguçada, sempre notava. Faye não entendia por que se importava tanto em ser perdoada por Engfa, mas a visão da Waraha chateada criava um nó em seu peito que só o controle absoluto podia desatar.
— Engfa, querida, você parece tão tensa hoje — disse a mãe de Faye durante um desses jantares, enquanto cortava delicadamente o seu filé. — A escola está sendo difícil?
— Está tudo bem, senhora Malisorn — respondeu Engfa, a voz falhando levemente.
O motivo da falha era o pé de Faye. Sob a toalha de linho branco, Faye tinha tirado o sapato e subia a panturrilha de Engfa com os dedos dos pés, alcançando a parte interna da coxa com uma pressão deliberada. Engfa apertou o garfo com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos.
— Eu acho que ela só precisa de um pouco de ar — Faye comentou, sua voz carregada de uma inocência que fazia o estômago de Engfa revirar. — Não é, "irmãzinha"?
Faye inclinou-se para o lado, fingindo pegar um guardanapo, e seu cabelo vermelho roçou o ombro de Engfa. Naquele segundo, ela sussurrou tão baixo que apenas os instintos de Engfa captaram:
— Você está com raiva porque eu saí ontem à noite, não está? Consigo sentir o seu tremor daqui.
Engfa não respondeu na hora. Ela esperou até que estivessem sozinhas, horas depois, no andar de cima. A tensão entre elas era um elástico esticado ao limite, e a ruptura aconteceu no quarto de Faye, onde o cheiro de sândalo e perigo parecia mais concentrado.
— Você acha que pode simplesmente me tocar assim e esperar que eu sorria? — Engfa explodiu, empurrando Faye contra a porta fechada. — Eu vi como você olhou para aquela garota na biblioteca. Você é patética.
Faye soltou uma risada baixa, uma mão subindo para segurar a corrente de prata em seu pescoço.
— E você está morrendo de ciúmes, Engfa. É fascinante como você tenta esconder, mas seus olhos sempre te entregam. Você quer ser a única, não quer?
— Eu quero que você vá para o inferno — sibilou Engfa, aproximando-se tanto que suas respirações se misturavam.
— Então me leve com você — Faye provocou, puxando Engfa pela gola da jaqueta.
Naquela noite, a dinâmica de poder flutuou como nunca antes. Faye, sentindo-se culpada por uma razão que não conseguia nomear, decidiu ceder. Ela deixou que Engfa assumisse as rédeas da "brincadeira". Engfa, alimentada pela raiva e pela necessidade de reafirmar seu espaço, foi implacável. Ela empurrou Faye para a cama, prendendo seus pulsos acima da cabeça com uma mão, enquanto a outra explorava a pele de Faye com uma urgência punitiva.
— Hoje você vai aprender que eu não sou seu brinquedo, Faye — sussurrou Engfa, mordendo o lóbulo da orelha da Malisorn.
Faye arqueou as costas, um gemido de surpresa escapando de seus lábios. Ela estava acostumada a dar as cartas, mas havia algo na agressividade controlada de Engfa que a desarmava completamente. Engfa começou a distribuir beijos e mordidas pelo pescoço de Faye, descendo em direção à clavícula, onde a corrente de prata tilintava contra a pele.
— Engfa... — Faye tentou falar, mas sua voz saiu fraca, um reconhecimento da derrota temporária.
Justo quando Engfa deslizava suas mãos para baixo da saia de seda de Faye, o som estridente do telefone fixo no criado-mudo cortou o ar carregado de luxúria. Faye tentou se afastar, mas Engfa a prendeu com mais força, o peso de seu corpo garantindo que Faye não fosse a lugar nenhum.
— Ignora — ordenou Engfa, sua voz rouca de desejo.
O telefone continuou tocando. Faye olhou para o visor. Eram seus pais, ligando do escritório no andar de baixo ou talvez de uma viagem de última hora. Se ela não atendesse, eles viriam procurá-la.
— Eu preciso atender — sussurrou Faye, a respiração ofegante. — Engfa, para... eles vão desconfiar.
Engfa sorriu de forma predatória. Ela não parou. Pelo contrário, aproximou o aparelho de Faye enquanto suas mãos continuavam o trabalho de levá-la ao limite.
— Atende, Faye. Mostre o quanto você é a "filha perfeita".
Faye tremeu ao sentir os dedos de Engfa encontrarem seu centro, já úmido e pulsante. Ela atendeu o telefone com a mão livre, tentando estabilizar a voz.
— Alô? — Faye disse, fechando os olhos com força enquanto Engfa iniciava um movimento rítmico e profundo.
— Faye, querida? — Era a voz de seu pai, autoritária e calma. — Só liguei para avisar que amanhã cedo teremos aquela reunião com os acionistas. Quero que você e Engfa estejam prontas às oito.
— Sim, papai — Faye respondeu, mas a palavra terminou em um suspiro sufocado quando Engfa usou o polegar para pressionar um ponto específico.
— Você está bem? — perguntou o pai, franzindo o cenho do outro lado da linha. — Sua voz parece... estranha.
Engfa, ouvindo a pergunta, inclinou-se e começou a lamber o pescoço de Faye, bem abaixo da mandíbula, onde ela sabia que Faye era mais sensível. Ela aumentou a velocidade dos movimentos, observando com deleite o rosto de Faye se contorcer em uma máscara de prazer e agonia.
— Eu... eu estou apenas um pouco cansada — Faye conseguiu dizer, cravando as unhas no lençol para não gritar. — A Engfa e eu... estávamos estudando.
Engfa soltou uma risadinha silenciosa contra a pele de Faye, provocando-a ainda mais. Ela não tinha intenção de facilitar. Ela queria ver Faye quebrar, queria ouvir o som do controle da Malisorn estilhaçando-se enquanto ela falava com o homem que acreditava na inocência delas.
— Ótimo — disse o pai. — Não fiquem acordadas até tarde. Boa noite, filha.
— Boa noite... — Faye desligou o telefone e, no segundo seguinte, soltou o gemido que estava preso em sua garganta, um som alto e cru que ecoou pelo quarto.
Engfa não a soltou. Ela continuou até que Faye estivesse completamente exausta, trêmula sob seu toque. Quando finalmente terminou, Engfa deitou-se ao lado dela, observando o teto com um sorriso de triunfo.
— Quem está no controle agora, Malisorn? — perguntou Engfa, a voz carregada de sarcasmo.
Faye, ainda tentando recuperar o fôlego, virou o rosto para ela. Seus olhos não mostravam raiva, mas uma adoração distorcida.
— Você é um monstro, Engfa Waraha.
— Eu aprendi com a melhor — respondeu Engfa.
Anos depois, no loft que agora compartilhavam com Charlotte, aquela memória ainda servia como um lembrete da conexão inquebrável entre elas. Engfa olhou para Faye, que estava sentada na ponta da cama, observando Charlotte dormir.
— Você estava pensando naquela ligação, não estava? — perguntou Faye, sem desviar o olhar da namorada adormecida.
Engfa soltou uma risada curta, acendendo um cigarro e soprando a fumaça em direção à janela aberta.
— Foi a primeira vez que eu vi você perder a compostura de verdade. Foi o melhor presente que você já me deu.
Faye levantou-se e caminhou até Engfa, parando a milímetros de distância. Ela segurou a corrente de prata em seu pescoço e a puxou levemente, forçando Engfa a olhar em seus olhos.
— Eu não perdi o controle, Engfa. Eu apenas deixei você acreditar que o tinha. Há uma diferença.
Engfa apertou os olhos, a arrogância voltando à tona.
— É o que você diz para conseguir dormir à noite, Faye. Mas nós duas sabemos que, por trás de toda essa pose de controladora, você é tão dependente de mim quanto a Charlotte é de nós duas.
Faye não negou. Ela apenas inclinou a cabeça, um brilho perigoso em seu olhar.
— Talvez. Mas é essa dependência que nos mantém juntas, não é? O sangue, os segredos e o fato de que ninguém mais no mundo conseguiria lidar com a nossa sujeira.
Elas se encararam por um longo tempo, um duelo silencioso de vontades que sempre terminava da mesma forma. O ódio e o amor eram duas faces da mesma moeda, e no loft de Charlotte Austin, a moeda estava sempre girando.
— Vamos voltar para a cama — disse Engfa, apagando o cigarro. — A Charlotte odeia quando acordamos sem ela.
Faye sorriu, um gesto que raramente chegava aos olhos, mas que carregava toda a história de abusos, desejos e traumas que as unia.
— Você primeiro, "irmãzinha".
Enquanto caminhavam de volta para o emaranhado de lençóis, o passado e o presente se fundiam. Elas eram as irmãs perfeitas para o mundo exterior, mas no silêncio de sua união tripla, elas eram apenas três almas quebradas que encontraram no caos a única forma de paz que conheciam. E enquanto a corrente de prata de Faye brilhasse, Engfa saberia que, não importa o quanto brigassem, elas estavam condenadas a pertencer uma à outra até que o último segredo fosse revelado.