Pedra papel tesoura
Entre Ressacas, Lágrimas e o Calor de Domingo
A luz do sol londrino, raramente tão audaz, atravessava as frestas da cortina de linho cinza como se fossem lâminas de vidro cortando diretamente as pálpebras de Eiden. Ele gemeu, um som que parecia mais o rosnado baixo de um animal ferido do que algo humano. A cabeça latejava em um ritmo industrial, cada batida do coração ecoando nas têmporas como se houvesse um pequeno ferreiro forjando metal dentro de seu crânio.
Ele tentou se virar, mas o movimento fez o estômago protestar violentamente. O gosto residual de gin e tônica, que parecia tão sofisticado na noite anterior em Camden, agora tinha o sabor de arrependimento e produtos de limpeza.
— Eiden? — A voz de Kai era suave, mas para os ouvidos hipersensíveis de Eiden, soou como uma explosão de fogos de artifício. — Mon petit, eu trouxe água e um comprimido.
Eiden enterrou o rosto no travesseiro, abafando um xingamento em francês que envolvia várias gerações da família de quem inventou o álcool.
— Vai embora — resmungou ele, a voz rouca e carregada de irritação. — Apaga o sol. Por que o sol está tão alto? São cinco da manhã?
— São dez e meia, querido — disse Kai, mantendo o tom pacífico que sempre usava com animais assustados ou namorados mal-humorados.
Kai sentou-se na borda da cama. Ele já estava vestido com uma calça de moletom cinza e uma camiseta branca justa, cheirando a café fresco e ao sabonete de sândalo que Eiden tanto amava, mas que agora o fazia querer chorar de irritação por Kai estar tão funcional e impecável enquanto ele se sentia um resto de naufrágio.
— Beba isso. Vai ajudar.
Eiden emergiu das cobertas, o cabelo preto ondulado em um ninho de pássaros caótico. Seus olhos verdes estavam vermelhos e semicerrados. Ele pegou o copo de água com mãos levemente trêmulas, mas não antes de lançar um olhar mortal para o namorado.
— Você está feliz, não está? — acusou Eiden, após engolir o comprimido. — Olhe para você. Todo... radiante. Médico veterinário saudável. Eu odeio você.
Kai soltou uma risadinha baixa, o que só serviu para aumentar o bico de Eiden.
— Você não me odeia. Você odeia o fato de que eu ganhei a água tônica ontem enquanto você tentava virar o rei de Londres. Deite-se mais um pouco. Vou preparar algo leve para o almoço.
— Eu não quero comida. Eu quero morrer em paz. E leve a Charlie com você, ela está respirando muito alto.
No pé da cama, a Border Collie, que observava a cena com a língua de fora, soltou um curto ganido de desculpas e seguiu Kai para fora do quarto. Dorian Gray, por outro lado, permaneceu sentado na poltrona do canto, julgando a existência de Eiden com seus olhos amarelos e frios.
A manhã arrastou-se em um deserto de mau humor. Eiden levantou-se uma hora depois, arrastando os pés e enrolado em um edredom como se fosse uma capa real de miséria. Ele foi até a sala, onde Kai estava calmamente lendo um artigo em seu tablet enquanto tomava café.
— O Wi-Fi está lento — reclamou Eiden, caindo no sofá ao lado de Kai.
— Eu não mudei nada no roteador, Eiden. Talvez seja só o seu cérebro que está processando as informações um pouco mais devagar hoje.
— Ah, então agora eu sou burro? É isso? — Eiden cruzou os braços, parecendo uma criança de cinco anos presa no corpo de um programador de elite. — Primeiro você me deixa beber até eu perder a dignidade, e agora você insulta minha inteligência.
Kai suspirou, mas não perdeu a paciência. Ele sabia que o Eiden de ressaca era uma criatura puramente emocional e irracional. Ele apenas esticou o braço e tentou acariciar o cabelo de Eiden, mas o francês se esquivou.
— Não me toque. Eu sou um monstro radioativo.
— Você é o meu monstro radioativo favorito — respondeu Kai, voltando a ler, sabendo que qualquer resistência só prolongaria o drama.
Perto das treze horas, o cheiro de caldo de galinha caseiro e torradas com manteiga começou a flutuar pela casa. Kai tinha o dom de cozinhar coisas que pareciam um abraço por dentro. Ele serviu uma tigela pequena para Eiden na mesa de jantar, decorada com um pequeno vaso de flores que ele tinha comprado na feira de manhã enquanto o namorado ainda hibernava.
Eiden olhou para a sopa. Olhou para Kai, que o observava com uma expressão de adoração pura e paciência infinita. De repente, o peso de sua própria chatice matinal desabou sobre ele. O latejar na cabeça tinha diminuído, deixando espaço para a clareza — e a culpa.
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de Eiden e caiu silenciosamente no caldo.
— Ei, o que foi? — Kai levantou-se instantaneamente, contornando a mesa para ficar ao lado dele. — Está doendo muito? Quer ir ao médico?
Eiden soluçou, escondendo o rosto nas mãos.
— Eu sou um lixo, Kai — começou ele, a voz embargada. — Eu fui tão rude com você a manhã inteira. Você me trouxe água, você cuidou dos bichos, você fez sopa... e eu disse que te odiava. Eu sou um monstro insensível e egoísta. Você merece alguém que não seja um francês rabugento que não sabe segurar o gin.
Kai soltou um suspiro de alívio e puxou Eiden para um abraço, sentindo o corpo do namorado tremer contra o seu.
— Oh, mon petit... você não é um monstro. Você só está de ressaca. Eu sabia exatamente no que estava me metendo quando te pedi em namoro três anos atrás. Eu amo o Eiden que programa códigos complexos e o Eiden que chora por causa de uma sopa de galinha.
— Mas eu fui tão malvado — insistiu Eiden, limpando o nariz na camiseta de Kai, que não pareceu se importar nem um pouco. — Desculpa. Por favor, não me deixa.
— Eu não vou a lugar nenhum — sussurrou Kai, beijando o topo da cabeça ondulada. — Agora, coma a sopa. Se você ficar forte, talvez eu te mostre o quanto eu aceito as suas desculpas.
Eiden fungou, olhando para cima com os olhos verdes ainda úmidos, mas agora com um brilho diferente. O ciúme e a irritação tinham dado lugar a uma necessidade física urgente de proximidade.
— Você me perdoa mesmo?
— Com uma condição — disse Kai, um sorriso malicioso começando a brincar nos cantos de sua boca. — Que você passe o resto deste domingo sendo totalmente meu. Sem computadores, sem reclamações, apenas nós.
— Isso é uma promessa — respondeu Eiden, sua voz recuperando um pouco da firmeza.
Depois que a sopa foi devidamente consumida e a louça deixada para o "Eiden de segunda-feira" resolver, o clima no apartamento mudou. O ar, antes pesado com o mau humor, tornou-se denso com uma tensão elétrica.
Kai pegou Eiden pela mão e o guiou de volta para o quarto. A luz da tarde agora era mais suave, banhando o ambiente em tons de dourado. Charlie e Dorian Gray, sentindo que o território estava prestes a ficar "privado", retiraram-se estrategicamente para a varanda.
— Você ainda está com dor de cabeça? — perguntou Kai, empurrando Eiden gentilmente contra a porta fechada do quarto.
— A única coisa que me dói agora é a distância entre nós — respondeu Eiden, sua voz descendo uma oitava, o sotaque francês tornando-se mais espesso, como sempre acontecia quando ele estava excitado.
Ele puxou a camiseta de Kai para cima, revelando o abdômen definido e a pele bronzeada que tanto o fascinava. Eiden passou as mãos pelo peito do namorado, as unhas arranhando levemente a superfície, sentindo os batimentos cardíacos de Kai acelerarem sob seu toque.
— Você manda em mim, lembra? — murmurou Kai, prendendo os pulsos de Eiden acima da cabeça dele com apenas uma das mãos, enquanto a outra descia para a cintura da calça de moletom do francês. — O que o meu mestre quer agora?
— Eu quero que você me faça esquecer que eu tenho um nome — ofegou Eiden, inclinando a cabeça para trás quando Kai começou a beijar seu pescoço, encontrando exatamente aquele ponto sensível perto da orelha.
Eles se moveram para a cama com uma urgência faminta. As roupas foram descartadas pelo caminho, uma trilha de tecido que contava a história de uma paciência que tinha chegado ao fim. Quando Kai se posicionou entre as pernas de Eiden, o contraste era absoluto: a pele pálida e as curvas delicadas de Eiden contra a estrutura larga, musculosa e imponente de Kai.
— Kai... por favor — implorou Eiden, as pernas envolvendo a cintura do veterinário, puxando-o para o contato total.
Kai não o fez esperar. Ele entrou em Eiden com uma estocada firme e profunda, arrancando um grito agudo do francês que ecoou pelas paredes do quarto. Não era apenas sexo; era uma reafirmação de posse, um pedido de desculpas aceito em forma de prazer bruto.
Eiden enterrou as unhas nas costas de Kai, sentindo cada músculo se contrair sob seu toque. O ritmo de Kai era constante e implacável, cada movimento calculado para levar Eiden ao limite da sanidade. O francês balbuciava palavras desconexas em sua língua materna, uma mistura de preces e obscenidades que faziam Kai sorrir entre os beijos que trocavam.
— Olha para mim, Eiden — comandou Kai, sua voz rouca de desejo.
Eiden abriu os olhos, a névoa da luxúria tornando o verde de suas íris quase escuro. Ver a expressão de Kai — de devoção absoluta misturada com um domínio primitivo — foi o que o quebrou. Eiden atingiu o ápice com um tremor que percorreu todo o seu corpo, seu nome sendo gritado por Kai segundos depois, quando o veterinário se juntou a ele naquele abismo de sensações.
Eles ficaram ali por um longo tempo, os corpos suados e entrelaçados, as respirações tentando voltar ao normal. O silêncio era preenchido apenas pelo som do tráfego distante de Londres e pelo ronronar de Dorian Gray, que tinha voltado para a porta do quarto.
— Acho que eu te perdoo — sussurrou Kai, beijando o ombro de Eiden.
— Eu espero que sim — respondeu Eiden, com um sorriso preguiçoso. — Porque eu pretendo pedir desculpas de novo em cerca de vinte minutos.
— Vinte minutos? Você está ficando otimista com a sua resistência, mon petit.
— Com você me olhando desse jeito? Eu tenho toda a resistência do mundo.
O resto da tarde passou em um borrão de carícias e novas rodadas de desejo. Eles não saíram da cama exceto para buscar água. Quando a fome finalmente superou a libido, já era noite.
— Comida tailandesa? — sugeriu Kai, pegando o celular na mesa de cabeceira.
— Sim, e muito arroz de jasmim. Eu preciso repor as energias se você pretende continuar com isso — disse Eiden, esticando-se como um gato satisfeito.
Eles pediram o jantar e, enquanto esperavam, ficaram aninhados sob os lençóis, assistindo a um documentário qualquer sobre a vida selvagem que Kai insistia em comentar tecnicamente, enquanto Eiden apenas fingia ouvir, concentrado em desenhar padrões invisíveis no peito do namorado.
Quando a comida chegou, comeram sentados no chão da sala, com Charlie esperando pacientemente por um pedaço de frango e Dorian Gray tentando roubar os camarões de Eiden.
— Sabe — disse Eiden, limpando o canto da boca e olhando para Kai —, eu realmente odeio ter ressaca. Mas se o final do dia for sempre assim, eu acho que posso considerar beber um pouco mais no próximo sábado.
Kai riu, puxando Eiden para perto e dando-lhe um beijo com gosto de molho de amendoim e felicidade.
— Não abuse da sorte, Eiden. Da próxima vez, eu posso ganhar no pedra, papel e tesoura. E aí, quem vai ter que cuidar de mim é você.
Eiden sorriu, os olhos verdes brilhando de malícia.
— Eu adoraria ver você bêbado e vulnerável, doutor. Eu seria um enfermeiro muito... rigoroso.
Kai estremeceu levemente, imaginando a cena, e soube que, independentemente de quem ganhasse o jogo ou de quem estivesse de ressaca, eles sempre acabariam exatamente ali: nos braços um do outro, protegidos do resto do mundo pelas paredes daquele apartamento e pelo amor que, mesmo entre rabugices e ressacas, nunca deixava de crescer.
— Vamos para a cama? — perguntou Kai.
— Já estamos indo — respondeu Eiden, levantando-se e estendendo a mão para o namorado. — Temos um domingo para terminar e uma segunda-feira para ignorar o máximo possível.
E assim, entre risadas baixas e o som das patinhas de Charlie seguindo-os pelo corredor, a noite em Londres se fechou sobre eles, quente, segura e perfeitamente deles.