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Pedra papel tesoura

O Silêncio, o Grito e a Rendição

A atmosfera no apartamento nunca estivera tão pesada. O ar parecia carregado de eletricidade estática, daquelas que fazem os pelos do braço se arrepiarem antes de uma tempestade. O problema é que a tempestade já tinha passado, deixando para trás apenas os destroços de uma discussão desnecessária e o eco cortante de palavras ditas sem pensar.

Eiden estava sentado no sofá, os dedos batendo nervosamente no tecido de veludo. Ele sabia que tinha passado dos limites. O estresse acumulado de uma entrega de código que deu errado na empresa, somado a uma sequência de noites mal dormidas, tinha transbordado da pior maneira possível. Quando Kai entrou em casa, tentando apenas contar sobre um problema bobo com o fornecedor de ração da clínica, Eiden simplesmente explodiu. Ele gritou. Gritou alto, em francês e em inglês, despejando uma frustração que não era culpa de Kai.

O silêncio que se seguiu ao grito foi pior do que qualquer barulho. Kai não gritou de volta. Ele apenas parou, olhou para Eiden com uma expressão que misturava choque e uma mágoa profunda, e caminhou em direção à cozinha sem dizer uma palavra.

Já fazia mais de uma hora. Charlie, a Border Collie, sentindo a tensão, estava encolhida em um canto, e até Dorian Gray parecia evitar os humanos, observando tudo do alto da geladeira com seus olhos amarelos e julgadores.

Eiden suspirou, sentindo o peso da culpa esmagar seu peito. Ele odiava brigar com Kai. Odiava ainda mais ser a razão da tristeza no rosto do homem que fazia de tudo para vê-lo sorrir. Ele precisava consertar aquilo, mas sabia que um simples "desculpa" talvez não fosse suficiente para apagar o susto do grito.

Ele se levantou e caminhou em direção ao quarto. O plano de reconciliação começou a se formar em sua mente. Eiden conhecia Kai melhor do que ninguém; sabia que o namorado era um homem de gestos, de tato e de vulnerabilidade. Ele decidiu que a melhor forma de desarmar o veterinário era se desarmar primeiro — literalmente.

Na cozinha, Kai estava de costas para a porta, apoiado na bancada de mármore, observando a chaleira elétrica começar a chiar. Ele ainda usava o uniforme da clínica, mas os ombros estavam caídos, uma imagem rara para alguém tão imponente. Ele estava processando. Kai detestava conflitos agressivos; sua natureza era de cura e cuidado, e gritos eram como estilhaços de vidro em sua alma calma.

Eiden entrou na cozinha. Ele não fazia barulho. Estava completamente nu, a pele pálida contrastando com as sombras suaves do corredor. Ele não levava nada além de sua própria vulnerabilidade e o arrependimento estampado nos olhos verdes.

— Kai? — chamou Eiden, a voz quase um sussurro, despida de toda a arrogância e irritação de mais cedo.

Kai não se virou imediatamente. Ele soltou um suspiro longo, o tipo de suspiro que carrega o cansaço de um dia inteiro e a mágoa de uma briga.

— Eiden, eu realmente não quero falar agora — disse Kai, a voz firme, mas visivelmente chateada. — Eu sei que você estava estressado, mas eu não sou o seu saco de pancadas. Eu não gosto quando gritam comigo, você sabe disso. Me faz sentir como se...

Kai começou a se virar enquanto falava, pronto para dar um sermão sobre limites e respeito mútuo, mas a frase morreu no meio do caminho. Suas palavras foram engolidas pelo ar seco da cozinha.

Seus olhos castanhos percorreram o corpo de Eiden, que estava parado no centro da cozinha, os braços levemente cruzados à frente do corpo em um gesto de timidez que Kai sabia ser, em parte, uma tática de sedução e, em outra, um pedido genuíno de paz. O cabelo preto ondulado caía sobre os ombros, e a luz da coifa da cozinha criava contornos suaves em sua silhueta.

— Você... o que você está fazendo? — gaguejou Kai, a irritação lutando contra uma onda súbita de desejo e confusão.

Eiden deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ele parecia tão pequeno e frágil naquele estado, apesar de ser o "mestre" da relação na maioria das vezes.

— Você ainda está bravo comigo? — perguntou Eiden, inclinando a cabeça para o lado. Sua voz era mansa, doce, com aquele sotaque francês que ele usava como arma de destruição em massa sempre que queria ser perdoado.

Kai engoliu em seco. Ele tentou manter a expressão séria, tentou se lembrar de como estava chateado apenas trinta segundos atrás, mas era uma batalha perdida. Ter Eiden nu em sua cozinha, pedindo perdão com aqueles olhos verdes de quem tinha acabado de quebrar um vaso valioso, era demais para a sua resistência.

— Não... claro que não... — respondeu Kai, a voz falhando miseravelmente. — Quer dizer, eu estava. Eu estava muito bravo. Mas você joga sujo, Eiden. Isso é golpe baixo.

Eiden sorriu, um sorriso pequeno e vitorioso, e se aproximou ainda mais, colando seu peito nu contra o abdômen de Kai, que ainda estava vestido. Ele passou os braços pelo pescoço do namorado, sentindo o calor que emanava do corpo de Kai.

— Eu sinto muito, mon grand — sussurrou Eiden, roçando o nariz no queixo de Kai. — Eu tive um dia horrível e descontei em você. Você é a última pessoa no mundo que merece ouvir meus gritos. Eu fui um idiota.

Kai soltou as mãos da bancada e, quase involuntariamente, as posicionou na cintura de Eiden. O contato da pele macia contra suas palmas calejadas pelo trabalho na clínica pareceu dissipar o restante de sua raiva.

— Você foi — concordou Kai, sua voz recuperando a ternura habitual. — Mas eu não consigo ficar bravo com você por muito tempo, especialmente quando você decide usar essa estratégia de marketing agressiva.

Eiden soltou uma risadinha baixa, o som vibrando contra o peito de Kai.

— Funcionou, não funcionou?

— Você sabe que funciona — disse Kai, puxando Eiden para mais perto, eliminando qualquer espaço que restasse. — Mas não pense que isso te dá o direito de gritar comigo na próxima vez.

— Não vai ter próxima vez — prometeu Eiden, olhando profundamente nos olhos de Kai. — Eu vou aprender a lidar com meus bugs de programação sem berrar com o meu veterinário favorito.

— O seu único veterinário, eu espero — brincou Kai, sentindo o desejo começar a suplantar a calmaria do perdão.

Eiden mordeu o lábio inferior, um gesto que ele sabia que levava Kai à loucura.

— Talvez você precise de uma compensação pelo estresse que eu te causei. O que o doutor recomenda para um paciente tão... difícil?

Kai soltou um suspiro que era metade risada e metade rendição. Ele pegou Eiden pelas coxas, levantando-o com facilidade. Eiden soltou um pequeno grito de surpresa — desta vez, um grito bom — e cruzou as pernas em volta da cintura de Kai.

— O doutor recomenda um tratamento intensivo de silêncio — disse Kai, caminhando em direção ao quarto —, onde a única coisa que eu quero ouvir saindo da sua boca são os meus nomes. E talvez alguns gemidos em francês.

— Eu posso fazer isso — sussurrou Eiden no ouvido de Kai, dando uma mordida provocante em seu pescoço.

Ao passarem pela sala, Charlie apenas levantou a cabeça, viu que os "pais" tinham feito as pazes e voltou a dormir. Dorian Gray, do alto de sua estante, soltou um bocejo entediado. O equilíbrio do apartamento tinha sido restaurado.

No quarto, a atmosfera mudou rapidamente de reconciliação para paixão. Kai depositou Eiden na cama com um cuidado que contrastava com a urgência de seus movimentos para se livrar das próprias roupas. Quando ele se juntou a Eiden nos lençóis, o mundo lá fora, com seus prazos de entrega e cirurgias de cães, deixou de existir.

— Eu te amo, Kai — disse Eiden, as mãos traçando os músculos das costas do namorado. — Mesmo quando eu sou um monstro.

— Eu te amo mais, mon petit — respondeu Kai, antes de selar o perdão com um beijo que prometia que a noite estava apenas começando. — Mas da próxima vez que você se estressar, tente apenas tirar a roupa. É muito mais eficiente que gritar.

Eiden riu, puxando Kai para baixo, e o silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som de dois corações que, apesar dos gritos ocasionais, batiam em perfeita sincronia.