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peidona

O Massacre do Milkshake e a Sinfonia dos Gases

A manhã de sábado no novo apartamento começou com um sol radiante entrando pelas janelas da sala, mas o clima interno era de pura destruição biológica. Vivi foi a primeira a acordar, ou melhor, a ser acordada pelo próprio organismo. O milkshake de chocolate belga da noite anterior não tinha apenas "cobrado o preço", ele tinha instaurado uma ditadura no intestino dela.

Ela tentou se levantar do colchão no chão com cuidado para não acordar Sofia e Vittoria, mas assim que fez força no abdômen para sentar, o primeiro sinal do dia veio à tona.

— *Prummmmmmmmmmm-fiiiiii!* — Um som grave que terminou em um apito agudo ecoou pela sala vazia.

— 07:15 da manhã. Sete segundos. Começamos cedo — resmungou Sofia, ainda de olhos fechados e com o rosto enfiado no travesseiro. — Vivi, você é um despertador humano de Chernobyl.

Vivi soltou uma risadinha nervosa, tentando prender o próximo, mas era inútil. Ela ficou de pé e, a cada passo que dava em direção à cozinha, um novo estalo escapava.

— *Pum! Pum! Prummmm!* — Três segundos distribuídos em passinhos curtos.

— Gente, eu juro que não é por querer! — exclamou Vivi, chegando na cozinha. — Eu acho que o leite condensado da pizza de ontem fez um pacto com o sorvete. Eu sinto que estou inflando como um balão de festa junina.

Vittoria apareceu na porta do quarto, com o cabelo todo bagunçado e uma expressão de quem tinha sobrevivido a uma guerra química.

— Vivi, se você explodir, eu não vou limpar as paredes — brincou Vittoria, sentando-se à mesa. — Mas confesso que a Sofia também não ficou atrás de madrugada. Eu ouvi uns "tiros" vindo do lado dela que pareciam pipoca estourando.

Sofia entrou na cozinha logo em seguida, fazendo uma pose dramática.

— Os meus são de qualidade, artesanais. Os da Vivi são de escala industrial — Sofia pegou o celular. — Vamos retomar a contagem? Ontem a Vivi ganhou, mas o dia está só começando.

Vivi foi pegar a garrafa de café, mas ao se abaixar para pegar as xícaras no armário baixo, a pressão foi forte demais.

— *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMM!* — O som foi tão alto que pareceu vibrar as portas de vidro do armário.

— MEU DEUS! — gritou Vittoria, caindo na risada. — Esse foi potente! Cronômetro, Sofia!

— 07:30. Exatos dez segundos de um som contínuo e ensurdecedor — anunciou Sofia, rindo tanto que precisou se apoiar na bancada. — Nota 10 pela ressonância. Parece que tem um trovão preso dentro dessa calça de pijama de unicórnio.

Vivi estava vermelha, mas não de vergonha, e sim de tanto rir. A intimidade entre elas era tanta que aquilo era apenas entretenimento matinal.

— Eu não consigo parar! — disse Vivi, dando um pulinho para tentar "ajeitar" o ar lá dentro. — *Pru-pru-pru-prummm!* — Mais quatro segundos. — Parece que eu estou andando com um acessório sonoro.

— Vamos fazer o seguinte — sugeriu Vittoria, pegando um bloco de notas que estava em cima de uma caixa de mudança. — Vamos anotar tudo. O "Diário de Bordo da Lactose". Quem chegar ao final do dia com mais tempo acumulado ganha o direito de não ajudar a desempacotar a cozinha.

— Fechado! — aceitou Sofia. — Mas eu vou ter que me esforçar, porque a Vivi já saiu com uma vantagem desleal.

As três começaram a preparar o café da manhã. Sofia fritava ovos, Vittoria tentava organizar os pratos e Vivi... bem, Vivi era uma metralhadora ambulante. Ela foi levar o lixo para fora e, conforme caminhava pelo corredor do prédio, o som a acompanhava.

— *Prummmm... prummmm... fiiiiii... prummmm!* — Foram doze segundos de caminhada ruidosa.

Quando ela voltou, estava ofegante de tanto rir e de tentar se conter caso algum vizinho aparecesse.

— Gente, eu quase morri! — Vivi se jogou na cadeira. — O vizinho do 402 saiu bem na hora que eu soltei um que parecia uma buzina de navio. Eu tive que fingir que o barulho veio do elevador!

— 08:15. Doze segundos de "buzina de navio" — anotou Sofia, limpando as lágrimas do rosto. — Vivi, você é uma lenda.

Depois do café, a missão era montar a estante da sala. Elas se ajoelharam no chão, cercadas de parafusos e manuais de instrução. Sofia estava segurando uma prateleira pesada enquanto Vittoria parafusava.

— Segura firme, Sof! — pediu Vittoria.

Sofia fez força e, inevitavelmente, o esforço físico liberou a pressão.

— *Prummm-puf!* — Um som seco e rápido. — 09:20. Dois segundos. Foi a força da gravidade!

— Fraco, Sofia. Muito fraco — provocou Vivi, que estava sentada no chão separando os parafusos. — Observe a mestre.

Vivi se levantou para buscar a parafusadeira e, no movimento de subida, o corpo dela simplesmente desistiu de segurar qualquer coisa.

— *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!* — O som começou grave, subiu de tom, oscilou como uma sirene de ambulância e terminou com um som de borbulha.

As três paralisaram. O silêncio que se seguiu foi apenas para que Sofia pudesse olhar o relógio.

— Eu não acredito... — Sofia estava boquiaberta. — 09:25. VINTE E DOIS SEGUNDOS! Vivi, você quebrou as leis da física! Como cabe tanto gás em uma pessoa tão pequena?

— Eu sinto que perdi dois quilos agora — ofegou Vivi, abanando o rosto com as mãos. — Alguém abre a janela, pelo amor de Deus! O chocolate belga está pedindo socorro!

— Socorro estamos pedindo nós! — Vittoria correu para a varanda. — Isso não é mais um peido, Vivi, é um pedido de desculpas do seu intestino por tudo que você fez ele passar ontem.

A manhã seguiu entre risadas e barulhos inesperados. Sofia soltou mais alguns curtos enquanto carregava caixas (*Prum!* — 1 segundo; *Puf!* — 0,5 segundo), mas Vivi era a rainha absoluta. Ela peidava sentando, peidava levantando e, em um momento épico, peidou enquanto espirrava.

— *Atchim!-PRUMMMM!* — O som duplo ecoou pela sala às 11:10.

— Combo! — gritou Vittoria. — Cinco segundos de duração e bônus por sincronia!

— Eu não aguento mais rir, minha barriga dói por dois motivos agora — disse Vivi, tentando se recompor. — Vamos ver um filme? Eu preciso ficar na horizontal, talvez assim a pressão diminua.

Elas se jogaram nos colchões da sala, cada uma com seu pijama de flanela, e ligaram a TV. O filme era uma comédia romântica, mas a trilha sonora oficial era outra. Vivi, deitada de lado, parecia uma bexiga esvaziando lentamente.

— *Fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...* — Um som fininho que não acabava mais.

— 14:40. Meu Deus, Vivi, esse está durando muito — comentou Sofia, olhando o cronômetro. — Já passamos de quinze segundos... dezoito... vinte... vinte e cinco... TRINTA SEGUNDOS!

— É o recorde! — Vittoria comemorou, batendo palmas. — Trinta segundos de um "fiiii" constante. Parece que você é um pneu com um furo minúsculo.

— Eu estou em paz agora — disse Vivi com uma voz calma, quase transcendental. — Aquele milkshake finalmente deixou meu corpo. Eu sou um novo ser humano.

— Um ser humano que precisa de muito incenso e ventilação — brincou Sofia, levantando-se. — Mas quer saber? Eu também tenho um guardado.

Sofia se inclinou, levantou uma perna como se estivesse fazendo um passo de balé e soltou um som que parecia um motor de arranque.

— *PRUM-PRUM-PRUM-PRUMMM-PUF!* — Seis segundos de pura atitude. — 15:00. Para marcar o horário.

— Boa, Sofia! — elogiou Vivi. — Mas a coroa ainda é minha.

A tarde passou voando. Elas pediram comida japonesa para o jantar (com a condição expressa de nada que contivesse cream cheese ou derivados de leite para a Vivi). Enquanto esperavam o entregador, decidiram fazer uma sessão de fotos para o Instagram para anunciar a mudança.

— Faz uma pose de "blogueira na casa nova" — sugeriu Vittoria para Vivi.

Vivi se encostou na parede, cruzou as pernas e tentou fazer um carão de modelo. No exato momento do clique, o corpo dela a traiu novamente.

— *PRUMMMMMMM!* — Um som curto, mas extremamente vibrante.

— Saiu na foto! — gritou Sofia, olhando a imagem no celular. — Dá pra ver a expressão de choque no seu rosto no milissegundo que o peido escapou!

— Deixa eu ver! — Vivi correu para olhar e caiu na gargalhada. — Ficou horrível! Eu pareço uma pessoa que acabou de ver um fantasma... ou que sentiu o próprio cheiro.

— 19:20. Três segundos de puro timing cômico — anotou Vittoria.

Quando a comida chegou, elas se sentaram no chão da sala de jantar improvisada. O clima era de total relaxamento. A mudança tinha sido cansativa, mas a convivência era tão leve que tudo parecia uma grande festa do pijama sem fim.

— Sabe — começou Vivi, após uma sequência de sushis — eu estava preocupada que morar junto pudesse estragar a amizade. Sabe aquelas histórias de gente que briga por causa de louça suja?

— Louça a gente resolve — disse Sofia, limpando a boca — o importante é que a gente pode peidar na frente uma da outra sem julgamentos. Isso sim é amizade verdadeira.

— Com certeza — concordou Vittoria. — A liberdade de soltar um de quinze segundos enquanto monta uma estante é o que define um lar.

Vivi deu um sorriso largo, sentindo que sua barriga finalmente estava voltando ao normal, embora ainda restasse um último "presentinho" do milkshake. Ela se levantou para pegar água e, no meio do caminho, soltou um último som, como se fosse um adeus.

— *Prum... fiii... puf.* — Quatro segundos. — 21:50. O encerramento das atividades por hoje, meninas.

Sofia pegou o bloco de notas e começou a somar os tempos.

— Vamos ao resultado final do "Primeiro Torneio de Gases do Apartamento 42". Sofia: 18 segundos totais. Vittoria: 12 segundos totais. E a nossa campeã indiscutível, a Rainha da Lactose, a Arma Biológica de São Paulo... VIVI! Com um tempo total acumulado de 3 minutos e 45 segundos!

Vivi fez uma reverência, usando o pano de prato como se fosse uma capa real.

— Eu gostaria de agradecer ao milkshake de chocolate belga, à pizza de quatro queijos e, claro, ao meu sistema digestivo, que nunca me abandona nos momentos de maior necessidade de comédia.

— Você merece o prêmio — disse Vittoria, entregando a ela o controle remoto. — Você escolhe o que vamos assistir até pegarmos no sono.

— Tudo bem — Vivi se acomodou no colchão, sentindo-se leve como uma pluma. — Mas se eu soltar mais um durante o sono, por favor, não me acordem. Apenas me cubram com uma máscara de oxigênio.

As risadas ecoaram pelo apartamento novo, preenchendo os espaços vazios entre as caixas. Elas sabiam que muitos dias como aquele viriam. Dias de bagunça, de cansaço, de descobertas e, claro, de muitas, muitas explosões de riso e de lactose. Afinal, aquela era a essência delas: a privacidade absoluta que só as melhores amigas compartilham, onde até um peido de trinta segundos vira motivo de celebração e história para contar.

E assim, entre um "prum" aqui e um "puf" ali, a primeira noite oficial na casa nova terminou da melhor maneira possível: com a certeza de que elas estavam exatamente onde deveriam estar.