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peidona

O Despertar da Madrugada e o Café da Manhã Explosivo

A primeira noite oficial de sono no novo apartamento foi, para dizer o mínimo, agitada. O silêncio da madrugada paulistana era quebrado apenas pelo som ocasional de um carro distante e pela sinfonia gástrica que emanava do colchão na sala. Vivi, Sofia e Vittoria estavam apagadas, mas o corpo de Vivi ainda estava em plena operação de processamento dos resíduos de chocolate belga e queijo gorgonzola.

Eram exatamente 03:42 da manhã quando um som profundo, como o de um violoncelo sendo tocado por um iniciante, ecoou pelas paredes sem móveis.

— *PRUUUUUUUUUUUMMMMM-FIIIIIIIIIIIIII!* — O som durou exatos nove segundos, terminando em um assobio agudo que fez as janelas vibrarem levemente.

Sofia, que tinha o sono leve, abriu um olho só e tateou o chão em busca do celular. Com movimentos mecânicos, ela desbloqueou a tela e anotou no grupo de WhatsApp que elas tinham criado apenas para o registro: "03:42 - Vivi - 9 segundos - Som de motor de barco atravessando um pântano".

— Vivi... — resmungou Sofia, chutando de leve o pé da amiga por baixo do edredom. — Você vai acabar acordando os vizinhos do prédio ao lado.

— Hum? O quê? — Vivi murmurou, ainda entre o sonho e a realidade. — Eu não fiz nada... foi a estrutura do prédio se assentando.

— A estrutura do prédio não solta cheiro de enxofre, Vivi — rebateu Vittoria, que agora também estava acordada, rindo baixinho no escuro. — Meu Deus, essa lactose é um presente que não para de render.

As três voltaram a dormir, mas a trégua durou pouco. Às 07:00 em ponto, o despertador de Vittoria tocou. Foi o sinal para que o organismo de Sofia também desse o ar da sua graça. Ao se espreguiçar, ela não conseguiu segurar.

— *PUF-PUF-PRUMMM-PUF!* — Uma sequência rítmica de quatro segundos, curta e grossa.

— 07:01. Sofia. Quatro segundos. Estilo metralhadora — anunciou Vivi, agora plenamente desperta e sentando-se no colchão com um sorriso travesso. — Bom dia, flores do dia! Quem está pronta para o primeiro café da manhã oficial?

— Eu estou pronta para um banho e para um desodorizador de ambiente — disse Vittoria, levantando-se e tentando abrir as janelas da sala. — Gente, sério, a gente precisa de uma regra. Quem soltar o mais longo durante a manhã não precisa lavar a louça do café.

— Aceito o desafio! — exclamou Sofia, já de pé e fazendo uma dancinha da vitória. — Mas aviso que meu café da manhã sempre ativa o modo turbo.

As três se dirigiram para a cozinha, ainda de pijamas — Vivi com um de pandas, Sofia com uma camiseta de banda rasgada e Vittoria com um conjunto de seda que parecia chique demais para o estado em que ela se encontrava.

Enquanto a água do café fervia, Vivi sentiu aquela pressão familiar no baixo ventre. Ela sabia que o leite da noite anterior ainda tinha algumas surpresas guardadas.

— Meninas, preparem os cronômetros — avisou Vivi, apoiando as mãos na bancada da pia e inclinando o corpo para frente. — Eu sinto que este vai ser um épico.

Vittoria e Sofia pararam o que estavam fazendo e olharam para o relógio da cozinha.

— Vai, Vivi! Mostra o poder do chocolate belga! — incentivou Sofia.

Vivi respirou fundo e...

— *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!* — O som foi constante, grave e poderoso. Parecia um pneu de caminhão esvaziando em câmera lenta. O tempo passava e o som não mudava de tom, era uma nota só, firme e decidida.

— Dez segundos... quinze... vinte... — Vittoria contava em voz alta, os olhos arregalados.

Quando finalmente parou, Vivi soltou um suspiro de alívio que quase pareceu um segundo peido.

— 07:15. Vinte e oito segundos! — gritou Sofia, pulando de alegria. — Vivi, você é uma atleta! Isso foi quase meio minuto de puro gás carbônico!

— Eu... eu acho que vi minha vida passar diante dos meus olhos — ofegou Vivi, rindo tanto que precisou se sentar. — Minha barriga até diminuiu de tamanho. Eu juro que perdi uns trezentos gramas agora.

— Vinte e oito segundos é uma marca difícil de bater — admitiu Vittoria, colocando o pó de café no filtro. — Mas a manhã é longa. E eu pretendo lutar pelo meu direito de não lavar a louça.

Elas se sentaram à mesa improvisada (uma caixa de papelão grande com uma toalha por cima). O café da manhã era simples: pão na chapa e frutas. Mas, para Vivi, havia o perigo escondido na manteiga.

— Vivi, você passou manteiga no pão? — perguntou Sofia, com um olhar de desconfiança.

— Só um pouquinho — defendeu-se Vivi. — É manteiga, não é um copo de leite puro. O que de pior pode acontecer?

— O que de pior pode acontecer é a gente ter que evacuar o prédio por risco de explosão — brincou Vittoria.

Enquanto comiam e planejavam onde colocariam o sofá, o clima era de pura descontração. Sofia, que estava em silêncio concentrada em seu pão, de repente deu um pulinho na cadeira.

— *PRUMMM-FIIIIIIIIII!* — Um som que começou como um estouro e terminou em um apito agudo. — 07:45. Seis segundos. Foi a reação química do café preto.

— Boa tentativa, Sof, mas ainda está longe dos vinte e oito da Vivi — pontuou Vittoria. — Aliás, o cheiro desse café está se misturando com o... aroma ambiente... de um jeito bem peculiar.

— Peculiar é uma palavra gentil — riu Vivi. — Eu diria que é uma fragrância de "mudança e desespero".

Após o café, a missão do dia era organizar o banheiro e a área de serviço. Elas colocaram uma playlist de pop dos anos 2000 no volume máximo e começaram a trabalhar. Entre uma estrofe de Britney Spears e outra de Beyoncé, os ruídos continuavam.

Vittoria, que estava agachada organizando os produtos de limpeza embaixo do tanque, soltou um que ecoou dentro do armário metálico.

— *BONGGGGG!* — O som foi amplificado pelo metal.

— 09:12. Vittoria. Cinco segundos com efeito de eco — anotou Sofia no celular. — Nota 8 pela acústica.

— Obrigada, obrigada — Vittoria fez uma reverência deitada no chão. — Eu tentei usar o armário como caixa de ressonância.

O auge da manhã, porém, aconteceu quando elas decidiram testar o eco do corredor do prédio, aproveitando que ainda não conheciam nenhum vizinho. Elas saíram para levar mais algumas caixas vazias para a lixeira do andar.

Vivi, sentindo que a manteiga do pão já estava fazendo efeito, parou no meio do corredor deserto.

— Gente, silêncio. Eu sinto que o "Grand Finale" da manhã está chegando.

Sofia e Vittoria ficaram imóveis. O corredor era comprido e silencioso. Vivi se posicionou, segurou nas alças da calça do pijama e...

— *PRUMMMMMMMMM-PRUMMMMM-PRUMMMMMMMMMMMM-PUF!* — O som foi como uma metralhadora de bolhas, alto e estridente, ricocheteando nas paredes de azulejo do corredor. Durou catorze segundos, mas a intensidade foi tanta que parecia que havia dez pessoas peidando ao mesmo tempo.

De repente, a porta do 404 se abriu. Um senhor de óculos e pijama de listras espiou para fora, confuso.

— Alguém chamou o elevador? Ouvi um barulho de motor... — perguntou o vizinho.

As três ficaram estáticas por um segundo. Vivi, com a maior cara de pau do mundo, apontou para o teto.

— É a tubulação, moço! Prédio antigo, sabe como é? O encanamento faz uns barulhos de ar preso que são uma loucura.

O senhor franziu a testa, olhou para as três, sentiu o ar e rapidamente fechou a porta sem dizer mais nada.

As meninas correram para dentro do apartamento, tropeçando umas nas outras de tanto rir. Elas caíram no chão da sala, sem fôlego.

— "É a tubulação, moço!" — repetiu Sofia, imitando a voz de Vivi. — Eu não acredito que você disse isso!

— E o que eu ia dizer? "Desculpe, vizinho, é que eu sou intolerante a lactose e acabei de soltar um peido de catorze segundos que quase derrubou o reboco da sua parede"? — retrucou Vivi, limpando as lágrimas do rosto.

— 09:45. Vivi. Catorze segundos de "incidente diplomático" — Vittoria anotou, ainda rindo. — Acho que já temos uma vencedora clara para a louça.

— Sem dúvida — concordou Sofia. — Vivi, você é oficialmente a nossa arma de destruição em massa.

O resto da manhã foi mais calmo, ou pelo menos tão calmo quanto poderia ser com Vivi e sua digestão peculiar. Elas finalmente conseguiram terminar de organizar a cozinha. Às 11:30, Sofia soltou um último "tiro" de despedida da manhã.

— *PRUM!* — Um segundo exato. — Só para fechar a conta.

— Bom, vamos ver o placar — disse Vittoria, pegando o bloco de notas. — Sofia acumulou 11 segundos. Eu acumulei 5 segundos. E a Vivi... entre o recorde de 28 segundos, o incidente do corredor e os pequenos estalos enquanto arrumava o banheiro, acumulou incríveis 52 segundos de puro gás.

— Eu aceito a vitória com humildade — declarou Vivi, pegando uma esponja e indo em direção à pia. — Mas aviso: se eu continuar lavando louça com essa pressão toda no estômago, a tubulação da cozinha vai realmente começar a fazer barulho.

— Pode deixar que a gente liga o exaustor! — gritou Sofia da sala, já se jogando no sofá recém-montado.

A vida no apartamento novo estava apenas começando, e se o primeiro café da manhã era um indicativo do que estava por vir, as três sabiam que não faltariam risadas, intimidade e, com certeza, muitos e muitos motivos para manter as janelas sempre bem abertas. Elas eram mais que amigas, eram cúmplices em cada detalhe, dos mais poéticos aos mais barulhentos. E para Vivi, Sofia e Vittoria, era exatamente isso que tornava aquele lugar, finalmente, um lar.