peidona
O Teste de Resistência do Brunch e a Invasão do Shopping
A manhã de segunda-feira começou com um sol preguiçoso, mas o apartamento 42 já estava em plena atividade industrial. Vivi, Sofia e Vittoria tinham decidido que, após o caos da mudança, mereciam um "dia de princesas", que na verdade significava ir ao shopping novo da cidade, bater perna e comer em algum lugar caro.
— Vivi, você tem certeza que quer ir de calça legging? — perguntou Vittoria, enquanto terminava de passar rímel. — Você sabe que a pressão interna hoje está... diferenciada.
Vivi, que estava tentando calçar um tênis, soltou um som que parecia um pneu furando.
— *Prummmmmmmmm-fiiiii!* — 09:12. Oito segundos de pura pressão acumulada. — Vi, a legging é a única coisa que estica o suficiente para acompanhar minha distensão abdominal. Se eu colocar jeans, eu explodo antes de chegar no elevador.
— Justo — Sofia saiu do banheiro, já soltando um estalo seco. — *Puf!* — 09:14. Um segundo. — Ovos mexidos são o meu combustível de foguete. Vamos?
As três saíram do apartamento em clima de festa. No corredor, o silêncio era absoluto, até que o esforço de apertar o botão do elevador fez Vivi liberar uma carga sonora impressionante.
— *PRUMMMMMMMMMMMMMMM-PÁ!* — 09:20. Doze segundos. O som ecoou pelo poço do elevador como se fosse um trovão distante.
— Vivi! — sussurrou Vittoria, rindo. — O eco aqui é perigoso!
— Ah, relaxa — Vivi deu de ombros, entrando no elevador. — Se alguém perguntar, é o sistema de contrapeso que precisa de lubrificação.
No trajeto de descida, o elevador parou no terceiro andar. Um rapaz de terno, com cara de quem ia para uma reunião importante, entrou. O silêncio constrangedor durou exatamente três segundos antes de Sofia, sem conseguir segurar a pressão do café preto, soltar um que parecia uma buzina de bicicleta.
— *Fiiiiiiii-pum!* — 09:22. Cinco segundos.
O rapaz olhou para o teto, depois para o painel, visivelmente desconfortável. Sofia continuou olhando para o celular como se nada tivesse acontecido, digitando freneticamente. Vittoria, para disfarçar o riso, começou a tossir, o que resultou em um escape vibrante.
— *PRUMMMMM!* — 09:23. Três segundos.
— Nossa, esse elevador está realmente precisando de manutenção, né? — comentou o rapaz, tentando ser simpático apesar do aroma de "café com ovos" que subitamente preencheu a cabine.
— É a tubulação de ar comprimido, moço — respondeu Vivi, com a maior cara de pau do mundo, enquanto soltava um rastro silencioso de sete segundos que só ela sabia que estava acontecendo. — 09:24. Sete segundos. Silencioso e mortal — ela pensou, mantendo o sorriso.
Quando chegaram ao térreo, as três saíram quase correndo para o estacionamento, explodindo em gargalhadas assim que ficaram sozinhas.
— "Ar comprimido", Vivi? Você é um gênio! — Sofia se curvou de tanto rir, soltando mais um. — *Puf!* — 09:26. Dois segundos.
— Vamos logo, que eu quero chegar no shopping antes que meu intestino decida pedir o divórcio — disse Vivi, entrando no carro.
O trajeto até o shopping foi uma verdadeira sinfonia. O carro fechado com o ar-condicionado ligado tornou-se uma câmara hiperbárica de gases nobres (ou nem tão nobres assim).
— *PRUMMMMMMMMMMMMM!* — 09:40. Quinze segundos. Vivi estava sentada no banco do carona, com uma perna apoiada no painel. — Meninas, o queijo ralado de ontem está fazendo a curva agora.
— Meu Deus, Vivi! Abre o vidro! — gritou Vittoria, que dirigia enquanto soltava pequenos estalos rítmicos. — *Pum! Pum! Pum!* — 09:42. Quatro segundos distribuídos. — Parece que eu estou dirigindo um trator!
— Eu não vou abrir o vidro, está calor! — Sofia, no banco de trás, estava em posição fetal. — *PRUMMMMMMMMMM-FIIIII!* — 09:45. Dezoito segundos. — Nossa, esse brócolis da Sofia é potente. Eu sinto que posso impulsionar esse carro até a lua.
Ao chegarem no shopping, a missão era clara: encontrar uma loja de decoração e depois comer. Elas entraram em uma loja de móveis de alto padrão, daquelas onde tudo é branco, minimalista e extremamente caro.
— Olha esse sofá, que chique! — comentou Vittoria, sentando-se em um estofado de linho cru. O impacto do peso no sofá fez com que o ar saísse com força. — *PRUMMMMMMMMM!* — 10:15. Seis segundos.
Uma vendedora elegantíssima, usando um lenço de seda no pescoço, aproximou-se com um sorriso profissional.
— Posso ajudar as senhoritas? Esse modelo é exclusivo, com enchimento de penas de ganso.
— É muito confortável mesmo — disse Vivi, sentando ao lado de Vittoria. Ao se acomodar, ela soltou um que parecia um rasgo profundo no tecido. — *KRAAAAAAAK-PRUMMMMM!* — 10:16. Dez segundos.
A vendedora arregalou os olhos por um milésimo de segundo, olhando fixamente para o assento do sofá, provavelmente checando se as penas de ganso tinham explodido.
— É... o som do couro natural se ajustando, sabe? — explicou Sofia, em pé, enquanto soltava um longo e grave. — *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!* — 10:17. Treze segundos. — Esse modelo tem uma acústica excelente.
— Com certeza... — a vendedora respondeu, sua voz falhando levemente enquanto o aroma de "repolho invisível" começava a dominar o setor de estofados. — Vou deixá-las à vontade para... testar a pressão do móvel.
Assim que a mulher se afastou, elas quase caíram do sofá de tanto rir.
— "Acústica excelente", Sofia? Eu vou morrer! — Vivi estava vermelha. — *Pru-pru-pru-pru-prummmm!* — 10:20. Oito segundos. — Eu acho que deixei uma marca térmica naquele sofá.
— Vamos sair daqui antes que chamem a perícia — sugeriu Vittoria, levantando-se e soltando um rápido de despedida. — *Puf!* — 10:22. Um segundo.
A próxima parada foi a praça de alimentação. Elas escolheram um restaurante de comida variada, onde Vivi, ignorando todos os avisos do seu bom senso, pediu um risoto de quatro queijos.
— Vivi, você está buscando a morte — disse Sofia, atacando um prato de feijoada (porque, se era para peidar, que fosse com estilo).
— Se é para cair, que seja de pé e com lactose no sangue! — declarou Vivi.
Enquanto esperavam a comida, elas começaram a observar as pessoas. Três rapazes se sentaram na mesa ao lado. Eram jovens, com estilo de quem frequentava academia e usavam camisetas apertadas. Um deles, um moreno de sorriso fácil, olhou para Vivi e deu uma piscadinha.
— Ih, Vivi, o bonitão do 403 tem concorrência — provocou Vittoria, dando um chute por baixo da mesa que resultou em um som abafado. — *Mmmmmmph!* — 12:30. Quatro segundos.
Vivi deu um sorriso charmoso para o rapaz. Ela estava se sentindo confiante, até que o risoto chegou. Na primeira garfada, seu intestino enviou um alerta vermelho para o cérebro.
— Meninas, o sistema está entrando em colapso — avisou Vivi, mantendo a expressão plena. — *FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!* — 12:45. Trinta e cinco segundos de um som fininho e constante, como uma chaleira fervendo.
O rapaz da mesa ao lado franziu a testa, olhando em volta para tentar identificar de onde vinha o apito. Sofia, para ajudar a amiga, decidiu camuflar o som com algo mais robusto.
— *PRUMMMMMMMMM-PÁ-PÁ-PRUMMMMM!* — 12:46. Vinte segundos de pura percussão.
— Nossa, o ar-condicionado deste shopping está muito barulhento hoje, né? — disse Sofia bem alto, olhando para o moreno.
— É... parece que tem um motor de caminhão ligado aqui dentro — respondeu o rapaz, rindo meio sem jeito, mas sem conseguir ignorar o cheiro de "queijo suíço estragado" que subitamente o atingiu.
Vittoria não aguentou. A mistura de riso com a feijoada da Sofia criou uma reação em cadeia.
— *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!* — 12:50. Quarenta segundos. Foi um som grave, profundo, que parecia vir do centro da Terra.
As pessoas nas mesas vizinhas começaram a se olhar. Uma senhora na mesa de trás chegou a abanar o rosto com o cardápio. Os rapazes da mesa ao lado trocaram olhares de pânico e, em menos de dois minutos, pediram a conta e saíram quase correndo.
— Menos três pretendentes — disse Vivi, limpando as lágrimas de riso enquanto terminava seu risoto. — Mas pelo menos sobrou mais espaço na praça de alimentação. *Puf!* — 13:00. Dois segundos.
— A gente é um desastre — Vittoria soluçava de rir. — A gente não pode sair em público. Somos uma ameaça à ordem social.
— Que nada, a gente é autêntica! — Sofia se levantou, sentindo o peso da feijoada. — Vamos ao cinema? Eu quero ver se o som Dolby Digital aguenta a gente.
No caminho para o cinema, elas passaram por uma daquelas lojas de perfumes importados que borrifam fragrâncias no corredor. Vivi parou bem na frente da promotora de vendas.
— Gostaria de provar o novo lançamento da Chanel? — perguntou a moça, estendendo um papelzinho.
Vivi pegou o papel, cheirou e, no momento em que ia agradecer, o risoto de quatro queijos deu seu veredito final.
— *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!*
Sofia e Vittoria congelaram. O som não parava. Era uma nota constante, vibrante, que parecia não ter fim. As pessoas no corredor pararam para olhar. A promotora de vendas ficou com o braço estendido, paralisada como uma estátua.
— 14:15. Um minuto e quarenta e cinco segundos — anunciou Sofia, olhando para o cronômetro do celular com uma expressão de reverência religiosa. — Vivi... você superou todas as barreiras da biologia humana.
— Eu... eu preciso de um assento — ofegou Vivi, enquanto a nuvem tóxica de queijo e Chanel nº 5 se espalhava pelo corredor luxuoso.
A promotora de vendas simplesmente baixou o braço, deu meia volta e entrou na loja sem dizer uma única palavra, fechando a porta de vidro logo em seguida.
— Acho que ela não gostou da nossa "fragrância personalizada" — comentou Vittoria, soltando um rastro de cinco segundos enquanto caminhavam. — *Prum-prum-prum-puf!* — 14:18. Cinco segundos.
Elas chegaram ao cinema e compraram ingressos para uma animação, achando que seria mais seguro. A sala estava meio vazia, o que foi um erro tático, pois o silêncio era maior. Elas se sentaram na última fileira, com baldes gigantes de pipoca (com manteiga, claro).
Assim que o filme começou, a sinfonia recomeçou.
— *Fiiiiiiiiiiiiiiiiii...* — 15:30. Vivi, trinta segundos. — *Prum!* — 15:32. Sofia, um segundo. — *PRUMMMMMMMMM!* — 15:35. Vittoria, dez segundos.
Um casal sentado três fileiras à frente olhou para trás. O homem sussurrou algo para a mulher, que cobriu o nariz com o cachecol.
— Gente, eu acho que a gente está criando um microclima nesta sala — sussurrou Sofia, sentindo mais um vindo. — *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMM!* — 15:45. Quinze segundos.
— É o efeito 4D — respondeu Vivi, rindo baixinho. — O cinema do futuro. Você não apenas vê o filme, você sente o cheiro... da destruição. *Puf-puf-puf!* — 15:50. Três segundos.
No meio do filme, um segurança do cinema entrou na sala com uma lanterna, caminhando pelos corredores e farejando o ar com uma expressão preocupada.
— Tem algum problema, senhor? — perguntou Vittoria, quando ele passou por elas.
— Recebemos reclamações de um possível vazamento de gás na sala 4 — disse o segurança, iluminando o chão. — Mas não encontramos nada nos sensores.
— Deve ser o carpete novo — sugeriu Vivi, soltando um silencioso de doze segundos enquanto falava. — 16:10. Doze segundos. — Esses produtos químicos de limpeza são fortes, né?
O segurança franziu o nariz, olhou para as três garotas de aparência inocente e balançou a cabeça, saindo da sala logo em seguida.
— "Vazamento de gás"! — Sofia quase engasgou com a pipoca. — Vivi, você é oficialmente um perigo público.
Quando o filme acabou e as luzes se acenderam, elas foram as últimas a sair. O corredor do cinema parecia estranhamente deserto.
— Acho que a gente ganhou o shopping só para nós — brincou Vittoria, soltando um longo de despedida. — *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMM!* — 17:30. Vinte segundos.
— Vamos para casa — disse Vivi, sentindo que sua barriga finalmente estava entrando em trégua. — Eu preciso de um banho e de um chá de boldo.
O caminho de volta no carro foi mais silencioso, apenas com os ruídos ocasionais de "pós-guerra".
— *Puf.* — 18:05. Sofia, um segundo. — *Prum.* — 18:10. Vivi, dois segundos.
Ao chegarem no apartamento, elas se jogaram no sofá (o delas, que não era de penas de ganso).
— Balanço do dia — começou Sofia, pegando o bloco de notas. — Vittoria: 1 minuto e 15 segundos acumulados. Eu: 3 minutos e 20 segundos. E a nossa campeã mundial, a destruidora de shoppings, a mulher que parou o Chanel... VIVI! Com um tempo total de 8 minutos e 45 segundos de pura emissão de gases!
Vivi se levantou, fez uma pose de miss e soltou um último som, como se fosse o encerramento de um espetáculo de fogos de artifício.
— *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM-FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII-PÁ!* — 19:00. Cinquenta segundos exatos.
— Esse foi para fechar com chave de ouro — disse Vivi, sentando-se novamente. — Amanhã a gente tenta ser normal?
— Amanhã a gente tenta — concordou Vittoria. — Mas hoje... hoje fomos lendas.
As três amigas ficaram ali, no escuro da sala, rindo de tudo o que tinha acontecido. Elas sabiam que, para o resto do mundo, elas eram apenas três garotas comuns, mas no universo do apartamento 42, elas eram as rainhas da liberdade, onde nenhum cheiro ou som era capaz de abalar a amizade que as unia. E enquanto o sono chegava, um último e suave "puf" ecoou na sala, selando o pacto de silêncio (ou quase isso) até a manhã seguinte.