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O Desperto do Fondue e a Guerra das Almofadas
A noite de terça-feira no apartamento 42 prometia ser o ápice da sofisticação, ou pelo menos era o que as três amigas planejavam. Vittoria, em um surto de elegância, decidiu que elas precisavam de uma "noite do fondue" para celebrar a primeira semana oficial de moradia. O problema é que fondue envolve queijo. Muito queijo. E Vivi, a rainha da intolerância a lactose, olhava para a panela de cerâmica no centro da mesa como um soldado olha para um campo minado.
— Vivi, você tem certeza? — perguntou Sofia, enquanto cortava cubos de pão italiano com uma precisão cirúrgica. — O queijo está borbulhando. Eu juro que ouvi a mistura de gruyère e emmental sussurrar o seu nome como se fosse um aviso de evacuação global.
Vivi pegou o espeto, mergulhou um pedaço de pão na massa amarela e viscosa e deu um sorriso desafiador.
— Sofia, o que é a vida sem um pouco de risco? Eu tomei duas enzimas. Ou foram três? Enfim, se eu morrer, quero que meu epitáfio diga: "Ela foi por queijo, mas foi feliz".
— Se você morrer, o cheiro vai nos matar primeiro — rebateu Vittoria, já preparando o cronômetro do celular. — 19:45. O banquete começou. Que os jogos comecem.
A primeira hora foi de pura glória gastronômica. Elas riam, fofocavam sobre o vizinho gato do 403 e planejavam a próxima ida à Ikea. No entanto, por volta das 20:30, o metabolismo de Vivi decidiu que era hora de revidar. O primeiro sinal não foi um som, mas uma mudança na expressão facial dela.
— Oh-oh — murmurou Vivi, largando o espeto.
— Começou? — Sofia perguntou, os olhos brilhando de antecipação.
— 20:32 — anunciou Vittoria, olhando o relógio.
Vivi se inclinou para o lado, levantando levemente uma das nádegas do banquinho de madeira.
— *PRUUUUUUUUUUUUUMMMMMMMMM-FIIIIIIIIIIII!* — O som começou como um motor de arranque de um trator antigo e terminou com um apito agudo e prolongado.
— DEZ SEGUNDOS! — gritou Sofia, batendo na mesa. — Dez segundos de um som que eu só posso descrever como "violoncelo desafinado". Nota 9 pela ressonância.
— Gente... o queijo... ele está vivo — ofegou Vivi, rindo enquanto a barriga dava um solavanco visível por baixo do pijama de flanela. — Aquela enzima era placebo, só pode.
— Se preparem, porque o meu omelete de brócolis do almoço acabou de encontrar o fondue no meio do caminho — avisou Sofia, levantando-se para pegar mais vinho. No caminho, ela não conseguiu se conter. — *PRUM! PÁ! PRUMMMMM!* — 20:35. Três segundos em staccato.
— 20:35. Sofia entra no placar com um estilo "metralhadora de festas" — anotou Vittoria. — Mas a Vivi ainda detém a coroa da noite.
Elas decidiram que a mesa de jantar era um lugar perigoso demais e migraram para os colchões na sala, levando apenas as taças de vinho e uma montanha de almofadas. O clima de "festa do pijama" estava no auge. Elas ligaram a TV em um reality show de reformas, mas ninguém estava prestando atenção na pintura das paredes.
— Eu sinto que estou inflando — disse Vivi, deitando-se de barriga para cima. — Se alguém me cutucar com uma agulha, eu saio voando pelo teto como um balão de hélio.
— Deixa eu testar — brincou Vittoria, jogando uma almofada na barriga da amiga.
O impacto da almofada serviu como um gatilho mecânico.
— *PRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR-UUUUUUUUUMMMMM!* — O som foi tão potente que as taças de vinho sobre a mesinha de centro pareceram vibrar.
— MEU DEUS! — Sofia caiu na gargalhada, rolando pelo colchão. — 21:10. VINTE E DOIS SEGUNDOS! Vivi, você quase quebrou a barreira do som!
— Eu perdi a audição do ouvido esquerdo por um momento — Vittoria disse, abanando o ar freneticamente. — E o cheiro... Vivi, esse queijo gruyère sofreu uma mutação genética dentro de você. Isso é radioativo!
— É o aroma da vitória! — defendeu-se Vivi, embora estivesse vermelha de tanto rir. — Eu sinto que meu corpo está tentando expulsar todos os móveis que a gente comprou hoje.
A competição estava ficando acirrada. Sofia, sentindo-se desafiada, decidiu que precisava recuperar a liderança. Ela se ajoelhou no colchão, fez uma posição de ioga totalmente aleatória e respirou fundo.
— *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM-FIIIIIIIIIIIIIIII!* — O som foi grave e constante, terminando em um "puf" seco.
— 21:15. Dezoito segundos! — Vittoria marcou no celular. — Sofia encosta na liderança, mas a Vivi ainda tem a vantagem do "fator queijo".
— Esperem — disse Vittoria, sentindo uma pressão súbita. — Eu também entrei na dança. O vinho branco e o queijo emmental fizeram um pacto.
Vittoria soltou um que parecia uma sequência de pequenas explosões.
— *Pum! Pum! Pum! Pum! Prummmmm!* — 21:18. Seis segundos. — Discreto, porém presente.
— Amadora — brincou Vivi. — Vocês estão lidando com uma profissional da intolerância. Observem.
Vivi se levantou para ir ao banheiro, mas a cada passo que dava, um novo som escapava, sincronizado com suas pisadas no chão de taco.
— *Prum!* (passo) — *Prum!* (passo) — *PRUMMMMMMM!* (parada dramática).
— Cinco segundos de caminhada ruidosa! — Sofia anotou, às gargalhadas. — 21:25. Vivi está transformando o corredor em uma pista de percussão.
Quando Vivi voltou do banheiro, ela parecia uma nova mulher. Ou quase isso.
— Gente, o vizinho do 403 estava no corredor — disse ela, jogando-se no colchão.
— E aí? — as duas perguntaram em coro.
— Eu soltei um que parecia uma buzina de navio bem na hora que ele abriu a porta dele. Eu apenas olhei para ele, apontei para o meu próprio estômago e disse: "É o sistema de aquecimento do prédio, está com ar nos canos".
— NÃO! — Vittoria gritou, escondendo o rosto na almofada. — Você não disse isso de novo!
— Eu disse! E ele apenas sorriu e disse: "Engraçado, o sistema de aquecimento parece estar com cheiro de queijo suíço hoje".
O apartamento explodiu em risos. A intimidade entre elas era algo sagrado. Não havia vergonha, apenas a liberdade absoluta de serem quem eram, com todas as suas falhas biológicas e escolhas alimentares duvidosas.
— Sabe o que a gente precisa? — sugeriu Sofia, recuperando o fôlego. — De uma guerra de almofadas. O exercício físico vai ajudar na digestão.
— Ou vai acelerar o apocalipse — retrucou Vivi, já pegando uma almofada de penas.
A guerra começou. Elas corriam pela sala, batendo umas nas outras com as almofadas, e a cada impacto, a pressão interna era liberada como válvulas de segurança de uma caldeira a vapor.
— *PUM!* — Vittoria acertou Sofia. — 22:05. Um segundo.
— *PRUMMMMM!* — Sofia revidou em Vivi. — 22:06. Quatro segundos.
Vivi, encurralada entre o sofá e a estante, decidiu usar sua arma secreta. Ela se abaixou, fingindo que ia se render, e liberou toda a energia acumulada do fondue de uma só vez.
— *PRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR-UUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!*
O som foi tão longo e tão alto que as três pararam a guerra instantaneamente. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do cronômetro de Sofia sendo travado.
— Eu não acredito... — Sofia olhou para o visor do celular com reverência. — 22:10. QUARENTA E CINCO SEGUNDOS.
— Mentira! — Vittoria correu para ver. — Quarenta e cinco segundos? Vivi, você não é uma amiga, você é um reservatório de gás natural! A Petrobras deveria te contratar!
— Eu... eu acho que perdi a capacidade de falar — ofegou Vivi, sentando no chão, sentindo-ar finalmente "vazia". — Foi o Grand Finale. O queijo foi derrotado.
— Derrotado? Vivi, o queijo foi expulso com honras militares — brincou Sofia. — Esse recorde vai ser difícil de bater. Quarenta e cinco segundos é quase um discurso político.
Elas se acalmaram e voltaram para os colchões, exaustas de tanto rir e de tanto correr. O cheiro na sala era uma mistura de perfume francês, vinho e o resultado catastrófico do fondue, mas nenhuma delas se importava.
— Sabe o que é o melhor de morar com vocês? — perguntou Vittoria, olhando para o teto. — É que eu não preciso fingir que meu corpo é um templo de mármore. Eu posso ser uma usina termelétrica e vocês ainda me amam.
— A gente te ama justamente por isso, Vi — disse Sofia, soltando um último e suave som. — *Puf.* — 22:45. Meio segundo. Só para marcar o fim da noite.
Vivi fechou os olhos, sentindo-se leve e feliz.
— Amanhã a gente come salada, né?
— Com certeza — concordou Sofia. — Salada e chá de boldo.
— Mas sem queijo — completou Vittoria.
— Sem queijo — repetiu Vivi, embora já estivesse pensando no milkshake de morango que viu na geladeira.
Enquanto o sono chegava para as três amigas no apartamento 42, um último som, longo e melancólico, ecoou vindo do quarto de Vivi, como se o próprio apartamento estivesse dando o seu "boa noite".
— *Fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...* — 23:15. Trinta segundos.
— Boa noite, campeã — sussurrou Sofia do outro lado da sala.
— Boa noite, meninas — respondeu Vivi, com um sorriso de quem sabia que, no dia seguinte, a competição recomeçaria com força total.