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peidona

O Despertar da Cafeteira e o Mistério do Iogurte Grego

A manhã de quinta-feira no apartamento 42 não começou com o canto dos pássaros, mas sim com o som estridente da furadeira do vizinho do 501, que parecia determinado a destruir a parede às sete da manhã. Sofia foi a primeira a despertar, amaldiçoando a existência de reformas matinais. Ela se sentou na cama com os cabelos parecendo um ninho de guacho e sentiu o primeiro sinal de que o rodízio de pizza da noite anterior ainda não tinha abandonado o recinto.

— *PRUMMMMM-PÁ!* — 07:05. Três segundos. Um som seco que serviu como seu despertador pessoal.

Ela se arrastou até a cozinha, onde Vittoria já tentava, sem sucesso, fazer a cafeteira funcionar. Vivi ainda era um amontoado de cobertas no sofá da sala, mas o som da furadeira e o cheiro de café começaram a trazê-la de volta ao mundo dos vivos.

— Bom dia para quem não tem um britador humano morando em cima da cabeça — resmungou Vivi, a voz abafada pelo travesseiro.

Ao se espreguiçar sob o edredom, o movimento do corpo desalojou uma bolha de gás que parecia estar presa desde 1998.

— *PRUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUMMMMMMMMM-FIIIIIIIIII!* — 07:12. Doze segundos. O som começou grave e terminou em um assobio que quase competiu com a furadeira do vizinho.

— Doze segundos! — gritou Sofia da cozinha, já com o celular na mão. — 07:12, Vivi abre os trabalhos com uma sinfonia matinal de doze segundos. A pizza de catupiry mandou lembranças.

— Eu sinto que minha barriga é um tambor de escola de samba — disse Vivi, levantando-se e caminhando como um pinguim até a cozinha. — Alguma de vocês viu o meu iogurte grego? Eu deixei na geladeira ontem.

Vittoria parou de mexer no filtro de café e olhou para Vivi com uma expressão de puro pânico.

— Vivi... aquele iogurte era "grego tradicional". Com lactose. Muita lactose.

— Eu sei, Vi. Eu tomei a enzima! — defendeu-se Vivi, abrindo a geladeira. — Eu precisava de algo leve depois daquela gordura toda.

— Leve? — Sofia soltou uma gargalhada, enquanto soltava um curto e ruidoso. — *Puf!* — 07:15. Um segundo. — Vivi, você misturou pizza de quatro queijos, marshmallow e agora iogurte grego. Você não quer um café da manhã, você quer um detonador de TNT.

Vivi ignorou os avisos e começou a comer o iogurte enquanto esperava o café. O silêncio na cozinha só era quebrado pelo barulho da furadeira lá fora e pelos pequenos ruídos internos que começavam a borbulhar.

— Meninas, plano para hoje — começou Vittoria, sentando-se à mesa. — Precisamos comprar as cortinas para os quartos. O sol está batendo na minha cara às seis da manhã e eu estou começando a odiar o universo.

— Cortinas e um purificador de ar de nível hospitalar — sugeriu Sofia. — Porque o que está acontecendo nesta cozinha agora é um crime contra a humanidade.

Nesse momento, Vivi sentiu o iogurte grego encontrar os restos da pizza de ontem. Foi como uma colisão de trens em alta velocidade dentro do seu intestino. Ela arregalou os olhos e segurou na borda da mesa.

— Preparem os cronômetros... — avisou ela, a voz trêmula. — O gigante acordou.

Ela se levantou, caminhou até o centro da cozinha para ter "espaço de manobra" e liberou a pressão.

— *PRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!*

O som foi constante, vibrante e parecia não ter fim. Sofia e Vittoria observavam o cronômetro do celular como se estivessem assistindo a uma final de 100 metros rasos nas Olimpíadas.

— Trinta segundos... quarenta... meu Deus, Vivi, respira! — gritou Vittoria.

Quando o som finalmente cessou com um pequeno estalo — *Poc!* —, Vivi caiu sentada na cadeira, exausta.

— 07:30. CINQUENTA E OITO SEGUNDOS! — Sofia anunciou, em êxtase. — Quase um minuto inteiro! Vivi, você é um milagre da engenharia biológica. Como cabe tanto ar em uma pessoa tão pequena?

— Eu acho que eu esvaziei até os meus pulmões junto — ofegou Vivi, abanando o próprio rosto. — O iogurte foi o erro. O erro mais delicioso e barulhento da minha vida.

— O cheiro... — Vittoria começou a tossir, tapando o nariz com a gola do pijama. — É como se uma fábrica de queijo tivesse explodido dentro de uma estufa de flores. É doce e azedo ao mesmo tempo. É perturbador.

— Vamos sair daqui antes que a gente desmaie — sugeriu Sofia, rindo e soltando um de acompanhamento. — *Prum!* — 07:35. Três segundos. — Só para não perder o costume.

Elas se arrumaram rapidamente para ir à loja de departamentos. O trajeto no elevador foi, como sempre, um teste de nervos. O elevador parou no quarto andar e a vizinha do 402, uma senhora muito elegante com um cachorrinho poodle no colo, entrou.

O silêncio era absoluto, exceto pelo som do cachorrinho fungando o ar. De repente, Vittoria, que estava tentando segurar o riso por causa de uma piada que Sofia sussurrou, soltou um escape vibrante.

— *PRUMMMMMMMMM!* — 08:15. Cinco segundos.

A senhora olhou imediatamente para o poodle, com uma expressão de profunda decepção.

— Floquinho! Que coisa feia! — repreendeu ela, puxando a coleira.

As três amigas quase explodiram. Vivi teve que morder o lábio inferior para não soltar a carga que o iogurte grego estava preparando. Assim que a senhora saiu no térreo, elas desabaram.

— "Floquinho! Que coisa feia!" — imitou Sofia, debruçada no corrimão do elevador. — Vittoria, você incriminou o pobre cachorro!

— Eu não aguentei! — Vittoria ria tanto que soltou outro. — *Puf!* — 08:17. Dois segundos. — Foi a pressão psicológica!

No estacionamento, Vivi sentiu que o iogurte estava pedindo passagem novamente. Ela se encostou no carro e deixou fluir.

— *FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!*

— 08:20. UM MINUTO E DEZ SEGUNDOS! — Sofia gritou, batendo no teto do carro. — Vivi, você está imbatível hoje! É o efeito do grego!

— Eu sinto que posso flutuar — disse Vivi, entrando no banco do passageiro. — Se eu soltar mais um desses, eu não vou precisar de carro, eu vou por propulsão a jato.

Chegando à loja de departamentos, a missão era focar nas cortinas, mas o setor de cama, mesa e banho era grande demais e cheio de distrações. Elas começaram a testar a maciez dos edredons.

— Olha esse aqui, parece uma nuvem — disse Vittoria, jogando-se sobre uma pilha de edredons em exposição. O impacto fez com que ela soltasse um som abafado, mas potente. — *Mmmmmmph-PRUM!* — 09:10. Quatro segundos.

— Vittoria, você vai ser banida de todas as lojas da cidade — avisou Sofia, enquanto olhava umas cortinas de linho. — *PRUMMMMMMMMM!* — 09:12. Sete segundos. — Essas cortinas são ótimas para filtrar a luz, mas não filtram o som, infelizmente.

Vivi estava em um corredor lateral, olhando alguns tapetes, quando sentiu uma cólica súbita. O iogurte grego tinha decidido que era hora de uma rebelião total. Ela se escorou em uma prateleira de toalhas e tentou ser discreta, mas o que saiu foi tudo menos discreto.

— *PRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR-UUUUUUUMMMMMMMMMMMMM-KRAK!* — O som terminou com um estalo que parecia um galho seco quebrando.

— 09:30. Quarenta e cinco segundos — anunciou Sofia, que tinha aparecido do nada com o celular. — E esse teve um final dramático. Nota 10 pela performance artística.

— Eu acho que eu preciso de um banheiro. Agora — disse Vivi, com o rosto levemente pálido.

— O banheiro da loja é lá no fundo, perto das panelas — indicou Vittoria.

Vivi saiu em disparada, mas a cada passo rápido, o "efeito sanfona" acontecia.

— *Pum!* (passo) — *Pum!* (passo) — *PRUMMMMM!* (trote).

— 09:32. Sequência de doze segundos de "marcha atlética ruidosa" — anotou Sofia, seguindo a amiga de longe com Vittoria, ambas morrendo de rir.

Depois que Vivi retornou do banheiro, parecendo dez quilos mais leve, elas finalmente escolheram as cortinas. No caixa, enquanto esperavam a fila, o tédio começou a gerar novas competições.

— Quem soltar o mais curto ganha um chocolate — desafiou Vittoria.

— *Puf.* — Sofia soltou um de meio segundo. — 10:15. Ganhei.

— *Poc.* — Vivi soltou um ainda menor. — 10:16. Empatamos.

— Vocês são ridículas — riu Vittoria, mas o riso a traiu. — *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!* — 10:18. Trinta e cinco segundos. — Droga, eu perdi a competição do "curto", mas ganhei na categoria "longo inesperado".

— Trinta e cinco segundos na fila do caixa! — Sofia estava vermelha de vergonha e riso. — O moço de trás está olhando para o teto procurando o vazamento de gás.

— É o ar-condicionado, senhor! — gritou Vivi para o homem na fila, que apenas deu um passo para trás, visivelmente perturbado.

Elas saíram da loja com as cortinas e uma fome avassaladora. Decidiram parar em uma lanchonete de beira de estrada que servia milkshakes gigantes.

— Vivi, você não vai... — começou Sofia.

— Eu vou. Milkshake de baunilha. Com calda de caramelo — declarou Vivi, com um olhar de quem aceitava o próprio destino.

— Bom, meninas, foi um prazer morar com vocês — disse Vittoria, fazendo o pedido. — Amanhã o apartamento 42 será apenas uma cratera fumegante.

Sentadas em uma mesa de metal, elas devoraram os milkshakes. O açúcar e o gelado criaram uma reação imediata no trio.

— *PRUMMMMMMMMM!* — 11:45. Sofia. Dez segundos. — O caramelo é o combustível.

— *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMM!* — 11:47. Vittoria. Quinze segundos. — A baunilha é o catalisador.

Vivi apenas ficou em silêncio por um longo tempo. Ela terminou o milkshake, colocou o copo na mesa e suspirou.

— Meninas, avisem as autoridades. O que vem por aí não é deste mundo.

Elas correram para o carro. O trajeto de volta foi feito em tempo recorde porque Vivi precisava chegar em casa antes que a "bomba" explodisse. Dentro do carro, o ar-condicionado não dava conta.

— *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!*

Sofia e Vittoria abriram as janelas ao mesmo tempo, gritando de rir e pavor.

— 12:30. TRÊS MINUTOS E DEZ SEGUNDOS! — berrou Sofia, segurando o celular para fora da janela para que o vento não o fizesse voar. — Vivi, você quebrou o recorde da vida! Três minutos! Isso é uma música do rádio inteira!

— Eu... eu acho que eu mudei de estado físico — ofegou Vivi, debruçada sobre o painel do carro. — Eu sou 90% gás agora. Eu sou uma nebulosa.

Ao chegarem no prédio, elas subiram correndo. No corredor, deram de cara com o Marcos, o vizinho gato do 403. Ele estava segurando uma caixa de ferramentas.

— Oi, meninas! Tudo bem? — perguntou ele, sorrindo. — Ouvi dizer que o sistema de tubulação do prédio está com problemas hoje, muito barulho nos canos.

Vivi, ainda sentindo os efeitos do milkshake de baunilha, deu o sorriso mais doce que conseguiu.

— Pois é, Marcos. É a pressão da água. Prédio antigo, você sabe... às vezes o ar fica preso e faz esses barulhos... — ela fez uma pausa dramática enquanto seu corpo liberava um último e discreto escape. — *Fiiiiiiii...* — ...estranhos.

Marcos franziu o nariz por um segundo, mas manteve o sorriso educado.

— Entendi. Bom, se precisarem de ajuda com as cortinas, é só chamar.

Assim que entraram no apartamento, as três desabaram no chão da sala, cercadas pelas sacolas de cortinas.

— "É o ar preso nos canos!" — Vittoria repetia, chorando de rir. — Vivi, você é a maior mentirosa e a maior peidona que eu já conheci!

— Eu sou uma sobrevivente! — gritou Vivi, jogando uma almofada em Vittoria. — Sofia, qual o placar final de hoje?

Sofia pegou o celular e fez as contas rápidas.

— Vittoria: 1 minuto e 20 segundos. Eu: 55 segundos. E a nossa campeã absoluta, a Rainha do Iogurte Grego e do Milkshake de Baunilha... VIVI! Com um acumulado de 18 minutos e 40 segundos de pura glória flatulenta!

— Eu gostaria de agradecer ao meu intestino, à lactose e, claro, à falta de bom senso de vocês por me incentivarem — disse Vivi, levantando-se para começar a instalar as cortinas.

A tarde seguiu produtiva. Elas instalaram as cortinas, o que gerou mais alguns "ruídos de esforço".

— *Prum!* — 15:20. Sofia, dois segundos enquanto subia na escada.

— *PRUMMMMM!* — 15:22. Vittoria, seis segundos enquanto segurava o varão.

Ao final do dia, o apartamento 42 estava finalmente com as janelas cobertas, mas o clima interno era de total transparência. Elas pediram comida chinesa para o jantar, sabendo muito bem que o repolho e o molho shoyu seriam o combustível para a competição de sexta-feira.

— Amanhã tem mais? — perguntou Vittoria, servindo o yakisoba.

— Amanhã eu pretendo chegar aos cinco minutos em um único peido — declarou Vivi, com uma seriedade cômica.

— Eu não duvido de mais nada — disse Sofia, soltando um último "puf" de boa noite. — 22:00. Um segundo. Fim de jogo por hoje.

Enquanto as luzes se apagavam e as novas cortinas balançavam suavemente com a brisa da noite, um som longo, grave e persistente ecoou do quarto de Vivi, atravessando as paredes e chegando à sala.

— *PRUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!* — 23:30. Quarenta e cinco segundos.

— BOA NOITE, VIVI! — gritaram Sofia e Vittoria em uníssono.

— BOA NOITE, MENINAS! — respondeu Vivi, rindo no escuro, pronta para mais um dia de risadas, amizade e muita, muita lactose.