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peidos

Sinfonia Gastronômica e o Furacão de Lactose

O sol nasceu preguiçoso no litoral, refletindo nas águas calmas da praia que as meninas agora chamavam de quintal. No apartamento, porém, o clima não estava nada calmo. Vivi foi a primeira a acordar, e não foi com o som dos pássaros ou das ondas, mas sim com um reviravoltas ruidoso em seu abdômen. A pizza de quatro queijos da noite anterior não tinha apenas feito uma visita; ela tinha montado acampamento e agora exigia a desocupação imediata do imóvel.

(08:10) — Vivi se espreguiçou na cama e, no mesmo instante, um som grave e prolongado rasgou o silêncio do quarto. *Brummmmmmm-pruuuut!*

— Meu Deus... — resmungou Vivi, sentindo a barriga borbulhar como um caldeirão de bruxa. — Isso vai ser um longo dia.

Ela se levantou e, a cada passo em direção à cozinha, parecia que havia uma buzina instalada em seus calcanhares.

(08:15) — *Pof! Pof! Pruuut!* Vivi caminhava e soltava pequenas "notas musicais" que ecoavam pelo corredor vazio.

Sofia já estava na cozinha, tentando passar um café para espantar a letargia da mudança. Ela olhou para Vivi, que entrou na cozinha com uma cara de quem tinha acabado de sobreviver a um naufrágio.

— Bom dia, fábrica de gás — disse Sofia, rindo enquanto servia uma xícara. — Pelo barulho que vem do seu quarto, achei que estivessem fazendo obras no prédio.

— Engraçadinha — rebateu Vivi, pegando uma caneca. — Eu acho que a pizza de ontem criou vida própria. Eu tô me sentindo um balão de hélio prestes a estourar.

(08:22) — Vivi se sentou na banqueta da cozinha e a pressão do assento forçou a saída de um peido agudo e estridente. *Fiiiiiiiiiiii-puut!*

— Vivi! Na hora do café? — Sofia fez uma careta, abanando o nariz com a mão. — Isso é falta de respeito com o aroma do grão arábica!

— Não dá para segurar, Sofi! — Vivi deu um gole no café, o que só serviu para acelerar o processo digestivo. — Se eu segurar, eu explodo e pinto as paredes de bege. Você prefere o cheiro ou a reforma?

Vitória, a "leidon" do grupo, apareceu na porta da cozinha usando um robe de cetim champanhe, parecendo uma estrela de cinema, apesar das olheiras. Ela respirou fundo e imediatamente se arrependeu.

— Mas que cheiro de... enxofre é esse? — Vitória franziu o nariz com elegância. — Vivi, você é uma dama, comporte-se!

— Uma dama com intolerância à lactose severa, Vi! — Vivi se defendeu, mas não conseguiu evitar que outro gás escapasse.

(08:35) — *Pruuuuuuuuuuuuuuut-ta!* O som foi tão alto que fez Vitória dar um passo para trás.

— Isso foi um protesto? — perguntou Vitória, incrédula. — Eu ouvi até uma sílaba no final desse aí!

— Foi um "bom dia" em dialeto intestinal — Sofia gargalhou, sentando-se à mesa. — Hoje é dia das meninas, lembram? Nada de meninos, nada de compromissos. Só a gente organizando as roupas e cuidando da beleza.

— E da saúde gástrica da Vivi, pelo visto — completou Vitória, pegando uma torrada.

As três se espalharam pela sala, que ainda estava cheia de malas abertas. O plano era organizar o "closet compartilhado" no quarto maior. Entre pilhas de biquínis, vestidos de festa e jeans, a conversa fluía, mas era constantemente interrompida pela condição de Vivi.

(09:12) — Vivi estava agachada dobrando umas blusas quando soltou um peido seco e curto. *Puf!*

(09:13) — Logo em seguida, outro. *Paf!*

(09:14) — E mais um, dessa vez mais úmido. *Prrrrt!*

— Vivi, você tá parecendo uma metralhadora! — Sofia jogou um par de meias nela. — Dá um tempo!

— Eu não consigo! — Vivi ria tanto que os gases saíam sem controle. — É automático! Eu abaixo, sai um. Eu levanto, sai outro. Eu respiro... ó...

(09:15) — *Pruuuuuuuuut!*

— Viu? — Vivi deu de ombros, enquanto as amigas choravam de rir.

— A gente precisa de um purificador de ar industrial — disse Vitória, tentando manter a pose enquanto dobrava suas sedas. — Sofia, você também é uma peidona, não vem se fazer de santa não.

Sofia tentou manter a cara séria, mas sua barriga também deu um sinal de vida. O café com leite que ela tomou começou a fazer efeito.

(10:40) — Sofia se esticou para alcançar uma caixa no alto do armário e, ao fazer o esforço, soltou um peido sonoro que reverberou dentro do closet. *BROOOOM!*

— AHÁ! — Vivi apontou o dedo, triunfante. — A Sofia também entrou na orquestra!

— Foi o esforço físico! — Sofia se defendeu, ficando vermelha. — Mas o meu pelo menos não tem esse cheiro de queijo estragado que o seu tem.

— O meu é artesanal, Sofia, tem personalidade — rebateu Vivi, soltando mais um pequeno *put* (10:42) enquanto voltava a sentar no chão.

A manhã passou entre risadas e uma atmosfera cada vez mais "pesada". Vitória, que sempre tentava manter a linha, era a que mais sofria. Ela se recusava a peidar abertamente, mas a pressão interna estava começando a afetar seu humor.

— Gente, o Lucca e o Pedro ligaram — disse Vitória, olhando o celular. — Queriam vir aqui ajudar a montar a estante.

— Nem pensar! — Sofia e Vivi gritaram juntas.

— Se o Pedro entrar aqui agora, ele morre asfixiado — disse Sofia. — E o Lucca ia terminar comigo na hora se ouvisse a Vivi desse jeito.

(11:20) — Como se para confirmar, Vivi soltou um peido que parecia um motor de popa de um barco. *Tr-tr-tr-tr-pruuuuuuuuuut!*

— Tá vendo? — Vivi limpou uma lágrima de tanto rir. — Hoje é dia só das meninas. Homem nenhum sobreviveria a esse ambiente tóxico. A gente está em quarentena biológica.

— Concordo — disse Vitória, sentindo uma pontada na barriga. — Vou fazer um chá de hortelã para a gente. Talvez ajude a acalmar os ânimos aí embaixo.

Enquanto Vitória estava na cozinha, Sofia e Vivi continuaram a arrumação. O calor do meio-dia no litoral começava a subir, e o ar no apartamento ficava cada vez mais confinado.

(12:05) — Vivi estava sentada no sofá quando sentiu uma bolha de ar gigante se deslocando. Ela levantou uma perna e soltou um dos mais longos do dia. *Pruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuut!*

— Meu Deus, Vivi! — Sofia parou o que estava fazendo, chocada. — Esse durou uns cinco segundos! Você tá bem? Seus órgãos ainda estão aí dentro?

— Eu me sinto mais leve — disse Vivi, suspirando de alívio. — Acho que perdi dois quilos só nesse aí.

(12:15) — Vitória voltou com o chá, mas ao se abaixar para colocar as xícaras na mesa de centro, sua resistência finalmente cedeu. *Pfffffffft...* Um peido longo, silencioso e extremamente letal escapou de sob o cetim.

Sofia e Vivi ficaram em silêncio por dois segundos antes de sentirem o "golpe".

— VITÓRIA! — Sofia gritou, correndo para a janela. — Isso foi um ataque químico! A "leidon" é a pior de todas!

— É o chá! — Vitória estava vermelha como um pimentão, escondendo o rosto nas mãos. — O calor do chá relaxou tudo!

— Silencioso e mortal! — Vivi gargalhava, rolando no tapete, o que causou mais uma série de pequenos peidos. *Put, put, pruuut!* (12:17).

A tarde chegou e as meninas decidiram fazer uma pausa na arrumação para cuidar da pele. Elas colocaram máscaras faciais de argila verde e deitaram no tapete da sala, ouvindo música. A regra era clara: relaxamento total. Mas, para Vivi, relaxar significava apenas uma coisa.

(14:30) — O silêncio da música zen foi quebrado por um peido de Vivi que soou como um rasgo em um tecido grosso. *VRAAAAAAP!*

— Vivi, a máscara vai rachar no meu rosto se eu continuar rindo! — Sofia reclamou, sentindo a argila repuxar.

— Eu não tenho culpa se a argila relaxa até o que não deve — disse Vivi, soltando mais um *pruut* (14:32) logo em seguida.

(15:00) — Sofia, totalmente relaxada pela música, acabou soltando um peido ruidoso que fez a argila de suas bochechas tremer. *Pof-pruuuu!*

— Olha aí! A Sofia tá acompanhando o ritmo! — Vivi comemorou.

— É impossível não peidar nesta casa — desabafou Sofia. — O ar já está saturado. Se alguém acender um fósforo aqui, a gente vai parar na lua.

Vitória, que estava tentando manter a dignidade com sua máscara de ouro, apenas respirava fundo, tentando controlar os espasmos de seu próprio intestino. Mas a pizza de quatro queijos era um adversário formidável.

(15:45) — Vivi se levantou para ir buscar água e, no caminho, soltou uma sequência impressionante. *Pruut!* (passo) *Pruut!* (passo) *Pruuuuuuut!* (parada técnica).

— Você é um fenômeno da natureza, Vivi — disse Vitória, finalmente desistindo da pose. — Eu nunca vi ninguém com tanto estoque de gás.

— É um dom — brincou Vivi. — Algumas pessoas cantam, outras dançam... eu processo laticínios de forma barulhenta.

(16:20) — Enquanto guardavam os últimos sapatos, Sofia soltou um que foi tão alto que as três levaram um susto. *BRAMMMMM!*

— Nossa! — Vivi exclamou. — Esse teve eco!

— Foi a caixa de papelão que serviu de caixa de ressonância — explicou Sofia, vermelha de rir. — Eu juro que tentei segurar, mas ele saiu com autoridade.

O pôr do sol começou a pintar o céu de laranja e rosa. As meninas, exaustas da arrumação e de tanto rir, sentaram na varanda para sentir a brisa do mar. Os meninos mandaram mensagem novamente, perguntando se podiam passar para comer um lanche.

— "Podemos ir aí agora?" — leu Vitória no celular. — O Pedro disse que está morrendo de saudade da Sofia.

— Digita assim: "Hoje não, estamos em meio a um experimento científico de alta periculosidade" — sugeriu Sofia.

— Ou melhor — disse Vivi, preparando-se para o "grand finale" do dia. — Manda um áudio para eles.

(18:00) — Vivi se aproximou do celular de Vitória, que estava com o gravador de áudio aberto, e concentrou todas as suas forças remanescentes da pizza de quatro queijos. O resultado foi um estrondo épico, longo e cheio de variações tonais que durou quase dez segundos. *PRUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU-BAP-BAP-PRRRRRRRRRRRRRUT!*

As três caíram no chão de tanto rir, enquanto Vitória enviava o áudio sem querer no grupo dos amigos.

— VIVI! VOCÊ MANDOU PRO GRUPO! — Vitória gritava, entre gargalhadas histéricas.

— O Pedro respondeu! — Sofia disse, olhando o próprio celular segundos depois. — Ele escreveu: "Gente, que barulho de trovão foi esse? Vai chover aí no litoral?"

— Trovão... — Vivi tentava recuperar o fôlego, sentindo a barriga finalmente dar uma trégua. — Mal sabe ele que o furacão Vivi passou por aqui hoje.

(18:15) — Um último suspiro gástrico escapou de Vivi, um pequeno e tímido *pft*.

— Acho que acabou — disse ela, limpando as lágrimas do rosto. — A quatro queijos finalmente deixou o prédio.

— Amém — disse Vitória, levantando-se e ajeitando o robe. — Agora, por favor, vamos tomar um banho, usar muito perfume e pedir uma salada. Uma salada bem leve, sem queijo, sem molho, só folhas.

— Combinado — concordou Sofia. — Mas ó, amanhã é dia de praia. E se a Vivi começar com a sinfonia na areia, eu finjo que não conheço.

— Ah, para! — Vivi deu um empurrãozinho na amiga, e o movimento fez com que um último e inesperado som escapasse. (18:20) — *Pruut!*

— VIVI! — as duas gritaram juntas.

— Foi só um tchauzinho! — Vivi saiu correndo para o banheiro, rindo alto, enquanto o som de seus passos era acompanhado por pequenos ecos gasosos pelo corredor.

A noite de mudança tinha sido caótica, barulhenta e extremamente cheirosa (de um jeito duvidoso), mas para aquelas três amigas, não havia forma melhor de começar a vida nova. Afinal, intimidade de verdade era poder soltar um "trovão" na frente das outras e ainda terminar o dia com um abraço e planos para o futuro. O dia das meninas tinha sido um sucesso absoluto, e o litoral que se preparasse: as peidonas tinham chegado para ficar.