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peidos

Sinfonia Ininterrupta: O Furacão Vivi e o Eco Eterno

O sol mal havia cruzado a linha do horizonte quando o silêncio do apartamento no litoral foi brutalmente assassinado. Não foi um despertador, nem o grito das gaivotas, muito menos o som relaxante das ondas. Foi Vivi. Ou melhor, foi o que restava da dignidade de Vivi após dois dias de abusos gastronômicos, agora potencializados por um metabolismo que parecia ter entrado em modo de autodestruição rítmica.

(07:00) — O primeiro do dia foi um canhão. — *BRRRRRRRRRRUM!*

Vivi abriu os olhos, assustada com o próprio estrondo. Ela tentou se espreguiçar, mas o movimento agiu como um fole de ferreiro em suas entranhas.

(07:00:05) — *Pruut!*

(07:00:10) — *Pof!*

(07:00:15) — *Pfffft!*

Ela se sentou na cama, e a pressão do peso sobre o colchão liberou uma nota grave.

(07:01) — *BROM!*

— Vivi? — a voz de Sofia veio do quarto ao lado, abafada e sonolenta. — Você caiu da cama?

Vivi tentou responder, mas ao abrir a boca, a pressão preferiu sair pela outra extremidade.

(07:01:30) — *Pruuuuuuuuuuuuuuut!*

— Não... — Vivi conseguiu dizer entre dentes —, eu acho que eu virei um instrumento de sopro.

Ela se levantou. Cada passo dado no piso de madeira era acompanhado por uma percussão involuntária. Esquerdo, *put*. Direito, *pat*. Esquerdo, *pruut*.

(07:05) — *Put-pat-pruuuuuut-tá!*

Vivi caminhou até a cozinha, deixando um rastro sonoro e olfativo que faria um gambá pedir demissão. Vitória já estava lá, tentando manter sua elegância matinal com uma xícara de chá de camomila, mas sua expressão mudou para puro pavor ao ver a amiga se aproximar.

— Vivi, não chegue perto — implorou Vitória, tapando o nariz com a gola do robe de seda. — Você está emanando uma aura... palpável.

(07:10) — Vivi tentou rir, mas o riso forçou a saída de um peido agudo que durou três segundos inteiros. — *Fiiiiiiiiiiiiiiiii-puf!*

— Eu não consigo parar, Vi! — Vivi se encostou no balcão. — É um a cada segundo! Olha!

(07:10:05) — *Pruut!*

(07:10:06) — *Pruut!*

(07:10:07) — *Pruut!*

— Meu Deus, é cronometrado! — Sofia apareceu na porta, horrorizada e fascinada ao mesmo tempo. — Você é um relógio biológico, Vivi. Um relógio de esgoto.

(07:15) — Vivi se inclinou para pegar uma caneca e o ângulo foi fatal. — *VRAAAAAAAAAAP!*

O som foi tão alto que as janelas da cozinha vibraram levemente.

— Isso é impossível — disse Vitória, abismada. — Como o seu corpo produz tanto gás? Você engoliu um cilindro de hélio misturado com metano?

(07:15:30) — *Puffff...* — Um silencioso, porém visivelmente denso, escapou.

— Esse doeu — comentou Vivi, abanando o ar atrás de si.

As três se sentaram para o café, mas não havia diálogo que sobrevivesse à metralhadora gástrica de Vivi. A cada gole de suco, a cada mastigada de torrada, o ritmo apenas acelerava.

(07:30) — *Pruut!*

(07:30:01) — *Put!*

(07:30:02) — *Pof!*

(07:30:03) — *Bram!*

— Vivi, a gente não consegue nem conversar! — Sofia reclamou, rindo desesperadamente. — É como tentar falar durante um tiroteio!

— Eu... — Vivi tentou falar — *Pruut!* — não... — *Pof!* — tenho... — *Pruuuuuut!* — culpa!

(08:00) — A situação escalou quando Vivi decidiu que precisava se exercitar para "ajudar a descer". Ela começou a fazer polichinelos na sala. — *Pruut-pruut-pruut-pruut-pruut-pruut!*

A cada salto, um disparo. Parecia uma coreografia de efeito sonoro de desenho animado. Vitória e Sofia assistiam do sofá, protegidas por almofadas que usavam como escudos faciais.

— Para, Vivi! — Vitória gritava entre gargalhadas. — Você vai criar um vácuo no apartamento! Você vai sugar todo o oxigênio e a gente vai morrer sufocada!

(08:15) — Vivi parou, ofegante, e o relaxamento súbito dos músculos resultou no maior peido da manhã. — *BRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRUM-BAP!*

Houve um silêncio de dois segundos antes de o cheiro atingir as amigas como uma parede de concreto.

— FORA! — Sofia gritou, apontando para a varanda. — VAI PEIDAR NO LITORAL, VIVI! A NATUREZA QUE SE VIRE!

Vivi foi expulsa para a varanda. Ela se encostou no parapeito, olhando para o mar, enquanto seu corpo continuava a sinfonia ininterrupta.

(08:30) — *Pruut... pruut... pruut...*

(08:45) — *Pof-pof-pruuuuuuuut!*

Lá embaixo, na calçada, um casal de turistas parou e olhou para cima, procurando o som de "obra" que parecia vir do prédio. Vivi apenas acenou, enquanto soltava mais um estrondo que ecoou entre os edifícios.

(09:00) — *BRAMMMMMMM!*

— Desculpe! — Vivi gritou da varanda. — É o ar do mar!

(09:00:05) — *Pruut!*

Dentro da sala, Sofia e Vitória tentavam limpar o ar com ventiladores e borrifadores de perfume, mas era uma batalha perdida. Vivi era uma fonte renovável de poluição sonora e atmosférica.

— A gente precisa levar ela para um hospital — sugeriu Vitória, seriamente. — Ou para uma usina termelétrica. Ela sozinha consegue abastecer a cidade por um mês.

— O problema — disse Sofia, limpando as lágrimas de riso — é que nenhum carro vai aceitar levar ela. O Uber ia cancelar a corrida no primeiro quilômetro.

(10:00) — Vivi entrou de volta na sala, caminhando com as pernas arqueadas. — *Put-put-put-pruut!*

— Meninas... — disse ela, com a voz trêmula — *Pruut!* — eu acho... — *Pof!* — que eu estou ficando... — *Pruuuuuuuuut!* — leve demais.

(10:30) — Ela se sentou no tapete e começou a soltar uma sequência de peidos curtos e rápidos que pareciam o motor de uma moto tentando pegar. — *T-t-t-t-t-t-t-pruuuuuut!*

— Vivi, você tá bem? — perguntou Sofia, aproximando-se com cautela.

— Eu não sinto mais minha barriga — confessou Vivi. — Ela é apenas uma passagem de ar agora. Eu sou um túnel de vento.

(11:00) — A cada minuto que passava, o intervalo entre os gases diminuía. Agora, era literalmente um a cada segundo.

(11:00:01) — *Puf!*

(11:00:02) — *Paf!*

(11:00:03) — *Pif!*

(11:00:04) — *Pruut!*

Vitória pegou o cronômetro do celular.

— Gente, ela está mantendo o ritmo perfeitamente. Sessenta peidos por minuto. O coração dela bate no mesmo ritmo que o reto. É uma sincronia biológica perfeita.

(12:00) — Meio-dia. O sol a pino e a temperatura subindo, o que só piorava a dispersão dos gases de Vivi. Ela estava deitada no sofá, com as pernas para cima, o que facilitava a saída.

(12:15) — *PRUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUT!*

— Esse durou dez segundos! — Sofia marcou no relógio. — Recorde pessoal!

— Eu... — Vivi tentou falar — *Pruut!* — quero... — *Pruut!* — morrer... — *Pruut!*

— Não morre agora não — disse Vitória, rindo — que o gás post-mortem vai derrubar o quarteirão inteiro.

As horas passavam e a resistência das amigas estava chegando ao fim. O apartamento parecia uma câmara de gás. Elas decidiram que a única solução era colocar Vivi debaixo do chuveiro frio para ver se o choque térmico "fechava a válvula".

(14:00) — No caminho para o banheiro, Vivi parecia uma metralhadora desgovernada. — *Put-put-put-put-put-BRAM-put-put-pruuuuuuut!*

Ela entrou no box. Sofia ligou o chuveiro no máximo.

(14:15) — O som da água batendo no chão se misturou com os disparos de Vivi, criando uma acústica de caverna. — *Blub-pruut-blub-paf-blub-BROM!*

— Tá adiantando? — gritou Vitória da porta.

— Não! — Vivi gritou de volta. — *Pruut!* — Agora... — *Pof!* — os peidos... — *Pruuuuuut!* — estão saindo... — *Pruut!* — molhados!

— Eca! — Sofia saiu correndo do banheiro. — Informação demais!

(15:00) — Vivi saiu do banho, enrolada em uma toalha, mas o acessório não conseguia abafar o som. A toalha chegava a inflar a cada disparo.

(15:10) — *Pruut!* — A toalha subiu.

(15:11) — *Pof!* — A toalha desceu.

— Você parece um paraquedas, Vivi! — Sofia rolava no chão de rir.

(16:00) — O entardecer chegou, mas a energia de Vivi não diminuía. Ela estava exausta, com as bochechas do rosto fundas de tanto esforço involuntário, mas o intestino era um trabalhador incansável.

(16:30) — *Pruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuut!*

(16:30:10) — *Put-put-put-put!*

— Meninas, socorro — pediu Vivi, sentando-se em uma almofada inflável que Sofia tinha trazido da praia.

(16:45) — Assim que ela encostou na almofada, o som foi tão agudo e potente que a almofada estourou. — *PÁ-PRUUUUUUUUUUUUUUT!*

— MEU DEUS! — Vitória deu um pulo. — Você explodiu a almofada com um peido, Vivi! Isso é um novo nível de poder! Você é uma Vingadora! A Mulher-Gás!

(17:00) — Vivi não conseguia mais nem rir. Ela apenas aceitava seu destino. A cada segundo, um "pum". Como um metrônomo de uma música de terror.

(17:00:01) — *Puf.*

(17:00:02) — *Puf.*

(17:00:03) — *Puf.*

— É hipnótico — comentou Sofia, observando Vivi. — Se a gente fechar os olhos, parece que estamos em uma fábrica de pipoca.

(18:00) — O sol se pôs. O apartamento estava na penumbra, iluminado apenas pelas luzes da cidade e pelo brilho nos olhos de Vivi, que parecia estar em transe.

(18:30) — *BRAMMMMMMMMM-PRUUUUUUT-TA!*

— Esse teve sotaque — notou Vitória. — Pareceu alemão.

(19:00) — Vivi decidiu tentar comer algo leve, mas a primeira colherada de iogurte (zero lactose, por segurança) foi como jogar gasolina no fogo.

(19:15) — *PRUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUT!*

O peido durou tanto tempo que Sofia conseguiu ir até a cozinha, pegar um copo de água, beber e voltar, e Vivi ainda estava soltando o ar.

— Vinte e dois segundos! — Sofia gritou, entusiasmada. — Você é uma atleta, Vivi! Uma recordista mundial!

(20:00) — A noite avançava e as meninas já estavam delirando de sono e de inalação de metano. Vitória começou a cantar uma música acompanhando o ritmo dos peidos de Vivi.

— *Pruut-pruut... lá-lá-lá...* — cantava Vitória — *Pof-pof... ô-ô-ô...*

(21:00) — Vivi estava deitada no tapete da sala, olhando para o teto. Seus olhos estavam vidrados. O ritmo continuava implacável.

(21:00:01) — *Put.*

(21:00:02) — *Pat.*

(21:00:03) — *Pruut.*

— Eu acho que ela entrou em estado de Nirvana — sussurrou Sofia. — Ela transcendeu a necessidade de ar puro.

(22:00) — De repente, o ritmo começou a mudar. Os peidos ficaram mais lentos, mas muito mais potentes.

(22:15) — *BROOOOOOOOOOOOOOOOOOOM!*

(22:30) — *VRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAP!*

— Está chegando ao fim — previu Vitória, como uma médica anunciando o fim de uma cirurgia. — O estoque está acabando.

(23:00) — Vivi deu um suspiro profundo. — Meninas... — *Pruut!* — eu acho... — *Pof!* — que... — *Pruut!* — vou... — *Pruut!* — dormir.

(23:30) — Ela se arrastou até o quarto, deixando uma última trilha sonora pelo corredor.

(23:31) — *Put.*

(23:32) — *Put.*

(23:33) — *Pruuuuuuuuut.*

Ela desabou na cama. Vitória e Sofia ficaram na porta, observando a amiga. Vivi já estava roncando, mas seu corpo ainda emitia pequenos sinais de vida.

(23:45) — *Pft.*

(23:50) — *Pft.*

(23:59) — Um último, longo e melancólico som escapou, como o apito final de um trem chegando à estação. — *Pruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu...*

O silêncio finalmente reinou no apartamento. Sofia e Vitória se entreolharam, exaustas, mas com sorrisos de quem tinha sobrevivido a uma guerra.

— Amanhã — disse Vitória em voz baixa — a gente só compra alface. E máscara de oxigênio.

— Amanhã — respondeu Sofia — a gente abre todas as janelas e nunca mais fala sobre a pizza de quatro queijos.

As duas foram para seus quartos, caminhando na ponta dos pés para não acordar o monstro gástrico que dormia. O dia das meninas tinha sido, sem dúvida, o mais barulhento da história do litoral. Vivi, mesmo dormindo, era a rainha absoluta do gás, e seu trono, embora malcheiroso, estava garantido no folclore daquela amizade.

(00:00) — No meio do escuro, um som solitário ecoou. — *Puf.*

A jornada de Vivi estava longe de terminar, mas, por hoje, o espetáculo tinha encerrado suas cortinas. O litoral podia finalmente respirar... se conseguisse.