Pensamentos impuros
Sombras no Campus e o Ciúme de uma Deusa
A luz do sol matinal atravessava as janelas da biblioteca da universidade, mas para Engfa Waraha, o mundo ainda parecia mergulhado naquela penumbra púrpura e dourada dos seus sonhos. Ela caminhava pelo gramado central, ajustando a alça da mochila pesada sobre o moletom cinza. Seus olhos, protegidos pelas lentes grossas dos óculos, estavam levemente avermelhados. Ter uma succubus como guardiã onírica significava que o descanso físico era sempre um conceito abstrato; seu corpo estava ali, mas sua mente ainda sentia o rastro do perfume de jasmim de Charlotte.
Engfa tentava se concentrar na prova de cálculo que teria em poucas horas, mas a sensação do beijo gélido em sua testa ainda queimava como gelo seco. Ela se sentia marcada.
— Engfa! Engfa, espera!
A voz familiar quebrou o transe de Engfa. Ela parou e se virou, vendo Pailliu correndo em sua direção. Pailliu era a antítese de Engfa: solar, expansiva e sempre cercada de pessoas. Elas se conheciam desde o ensino médio, e Engfa sabia — embora tentasse ignorar por pura timidez — que os sentimentos de Pailliu iam muito além de uma amizade de longa data.
— Oi, Pailiu — cumprimentou Engfa com um sorriso tímido, ajeitando os óculos que insistiam em escorregar.
— Você sumiu o final de semana todo! — Pailliu chegou ofegante, o rosto iluminado por um sorriso genuíno. — Eu te mandei mensagens, mas você parecia estar em outro planeta.
— Eu estava... estudando. Sabe como é — mentiu Engfa, sentindo uma pontada de culpa. Ela não podia dizer que passou o final de semana em um transe induzido por um demônio que exigia sua atenção exclusiva.
— Você estuda demais, "Nerdzinha". Precisa relaxar um pouco. — Pailliu se aproximou, os olhos brilhando com uma afeição óbvia. — Senti sua falta.
Antes que Engfa pudesse reagir, Pailliu abriu os braços, inclinando-se para aquele abraço caloroso que sempre costumava dar. Era um gesto de conforto, um toque humano simples e comum. Mas, no segundo em que as pontas dos dedos de Pailliu roçaram o tecido do moletom de Engfa, o ar ao redor delas pareceu congelar.
Uma lufada de vento frio e repentino varreu o gramado, levantando folhas secas em um redemoinho frenético. O som ambiente do campus — as conversas, os pássaros, o tráfego distante — pareceu ser abafado por um zumbido estático.
Pailliu foi bruscamente impedida de completar o movimento. Não por Engfa, mas por uma figura que pareceu se materializar do nada, surgindo de uma distorção no ar entre as duas.
Uma mão de dedos longos e unhas perfeitamente lixadas segurou o pulso de Pailliu com uma força que fez a garota arfar de susto.
— Eu não me lembro de ter dado permissão para que mãos impuras tocassem o que me pertence — disse uma voz aveludada, carregada de um autoritarismo que fez o sangue de Engfa gelar.
Engfa arregalou os olhos. Ali, em plena luz do dia, no meio do campus universitário, estava Charlotte Austin.
Ela não usava as vestes etéreas ou a nudez parcial dos sonhos. Charlotte havia assumido sua "melhor forma humana": vestia uma calça de couro preta que abraçava suas pernas longas e uma camisa de seda branca levemente aberta no colarinho, revelando a pele impecável. Seus cabelos castanho-claros brilhavam sob o sol como fios de ouro, e seus olhos cor de mel estavam fixos em Pailliu com uma intensidade predatória. Ela parecia uma modelo de alta costura, mas a aura que emanava era de puro perigo.
— Quem... quem é você? — gaguejou Pailliu, tentando puxar o braço, mas Charlotte não cedeu um milímetro.
Charlotte ignorou a pergunta, voltando seu olhar para Engfa. O brilho de possessividade em seus olhos era quase palpável.
— Engfa, querida — disse Charlotte, a voz suavizando-se em uma doçura venenosa. — Quem é esta humana que ousa tentar envolver você com esses membros desajeitados?
— Charlotte! O que você está fazendo aqui? — Engfa sussurrou, em pânico, olhando ao redor para ver se alguém notava a bizarrice da situação. Estranhamente, as pessoas passavam por elas como se Charlotte fosse apenas mais uma estudante, embora todos lançassem olhares de admiração para a beleza sobrenatural da mulher.
— Eu disse que cuidaria de você, não disse? — Charlotte soltou o pulso de Pailliu com um desprezo visível, dando um passo à frente para se posicionar exatamente entre as duas garotas. — Senti um cheiro de... carência. É irritante.
Pailliu, ainda em choque, massageava o pulso, olhando de Engfa para a estranha deslumbrante.
— Engfa, você conhece ela? Ela te machucou?
— Ela é... uma amiga — Engfa respondeu rapidamente, a voz trêmula. — Charlotte, por favor, vá embora. Você não pode estar aqui.
— "Amiga"? — Charlotte soltou uma risada curta, mostrando a ponta de seus caninos afiados. — Que termo tão limitado. E eu posso estar onde eu quiser, pequena nerd. Hoje, decidi que o seu campus precisa de um pouco de classe. E de supervisão.
Charlotte virou-se para Pailliu, medindo-a de cima a baixo com um olhar que faria um exército recuar.
— Escute bem, criatura — disse a succubus, inclinando-se ligeiramente para que apenas Pailliu ouvisse a vibração sobrenatural em sua voz. — Engfa Waraha tem uma dona. Cada centímetro dessa pele que você deseja tocar, cada pensamento que passa por essa cabeça cheia de fórmulas, pertence a mim. Se você tentar abraçá-la novamente, eu farei com que seus braços esqueçam como se movem. Fui clara?
Pailliu empalideceu, dando dois passos para trás. Ela não entendia o que estava acontecendo, mas o instinto primitivo de sobrevivência em seu cérebro gritava que aquela mulher não era humana.
— Engfa... eu... eu te vejo depois — murmurou Pailliu, lançando um último olhar confuso e assustado antes de se afastar apressadamente.
Engfa suspirou, deixando os ombros caírem.
— Você não precisava ter feito isso, Charlotte. Ela é minha única amiga de verdade aqui.
— Agora você tem a mim — declarou Charlotte, passando o braço pelo pescoço de Engfa e puxando-a para perto, ignorando o fato de que Engfa era quase da sua altura. — E eu sou muito mais interessante do que aquela garota que cheira a perfume barato e desespero.
— Você vai causar um escândalo — protestou Engfa, embora seu corpo estivesse traindo sua vontade, relaxando contra o calor de Charlotte. — O que você quer?
— Eu quero ver como é o seu mundo sob a luz do sol — Charlotte começou a caminhar, forçando Engfa a acompanhá-la. — Quero ver onde você se esconde quando não está comigo. E quero garantir que nenhum outro humano tenha ideias estúpidas.
O dia que se seguiu foi o mais surreal da vida de Engfa. Charlotte Austin, a tirana dos sonhos, transformou o campus universitário em seu palco particular.
Na aula de cálculo, Charlotte sentou-se ao lado de Engfa, cruzando as pernas longas e observando o professor com um tédio supremo. Quando o professor chamou Engfa ao quadro para resolver uma equação complexa, Charlotte sussurrou no ouvido dela:
— Se você errar, eu vou morder você na frente de todos.
A ameaça, carregada de uma promessa sensual, fez Engfa resolver o problema em tempo recorde, com as mãos trêmulas e o rosto em chamas. Charlotte apenas sorriu, vitoriosa, enviando beijos silenciosos para a garota enquanto os outros alunos cochichavam sobre quem seria a "estrangeira maravilhosa" que não tirava os olhos da nerd da turma.
No refeitório, a situação foi ainda mais intensa. Charlotte recusou-se a comer a comida humana, chamando-a de "combustível para gado", mas sentou-se à mesa com Engfa, atraindo todos os olhares do recinto.
— Por que você continua usando esse moletom? — Charlotte perguntou, puxando o capuz da roupa de Engfa. — Está um dia ensolarado. Você está escondendo o que eu elogiei ontem à noite.
— Eu não quero chamar atenção, Charlotte — murmurou Engfa, tentando se esconder atrás de um livro.
— Tarde demais — disse a succubus, pegando o livro da mão de Engfa e fechando-o com um estrondo. — Olhe para mim.
Engfa obedeceu. Os olhos de Charlotte não eram mais apenas mel; eles brilhavam com uma luz âmbar que parecia ler a alma de Engfa.
— Você é leal, Engfa. Eu sinto isso em cada batida do seu coração acelerado. Mas você é tímida demais. Precisa entender que ser minha não é um fardo, é uma ascensão.
Nesse momento, Pete — o garoto que Charlotte mencionara na noite anterior — passou pela mesa. Ele parou, claramente hipnotizado pela presença de Charlotte, mas tentou falar com Engfa.
— Oi, Engfa. Tudo bem? Eu estava pensando se você queria revisar a matéria de...
Charlotte nem o deixou terminar. Ela se levantou com uma elegância letal, ficando cara a cara com o rapaz. Pete era alto, mas perto de Charlotte, ele parecia pequeno.
— Ela não quer revisar nada com você, humano — Charlotte disse, sua voz fria como o aço. — Ela está ocupada sendo minha. Se você valoriza a sua sanidade, vai encontrar outro caminho para a sua sala. Agora.
Houve algo no olhar de Charlotte, uma fração de segundo em que suas pupilas se tornaram fendas verticais, que fez Pete tropeçar nos próprios pés e sair quase correndo, sem olhar para trás.
— Charlotte! — Engfa exclamou, levantando-se também. — Você está aterrorizando todo mundo!
— Estou marcando território — corrigiu a demônio, voltando a sentar-se e puxando Engfa para que sentasse em seu colo, ali mesmo, no meio do refeitório lotado.
— Charlotte, as pessoas estão olhando! — Engfa tentou se levantar, mas os braços de Charlotte eram como correntes de seda.
— Deixe que olhem — sussurrou Charlotte contra o pescoço de Engfa, sua respiração enviando ondas de choque pelo corpo da virgem. — Deixe que saibam que você é propriedade da realeza. Eu gosto de como seu corpo reage a mim em público. Você está tão tensa... e tão excitada.
Engfa escondeu o rosto no ombro de Charlotte, o coração martelando desesperadamente. Ela odiava a exposição, mas havia uma parte sombria e profunda dela que florescia sob aquela possessividade. Pela primeira vez na vida, Engfa não se sentia invisível. Ela se sentia desejada por uma criatura que poderia ter o universo, mas escolheu passar a tarde em um campus universitário entediante apenas para afastar humanos insignificantes de perto dela.
— Por que você faz isso? — perguntou Engfa, a voz abafada. — Você é um demônio. Você deveria estar coletando almas ou causando o caos.
Charlotte acariciou o cabelo castanho-escuro de Engfa, um gesto surpreendentemente terno para uma criatura tão impulsiva e tirânica.
— O caos é cansativo, Engfa. E as almas por aí são todas iguais, cinzas e sem sabor. A sua... a sua alma brilha com uma lealdade que eu não encontro nem no meu reino. E o seu corpo... — Charlotte inclinou a cabeça, os dentes caninos roçando levemente o lóbulo da orelha de Engfa. — O seu corpo é um templo que eu ainda não terminei de explorar.
O resto da tarde passou como um borrão. Charlotte acompanhou Engfa até a biblioteca, onde permaneceu em silêncio (para alívio de Engfa), apenas observando a garota estudar. De vez em quando, Charlotte materializava uma pequena flor negra no colo de Engfa, ou tocava sua mão por cima da mesa, garantindo que a conexão entre elas nunca se quebrasse.
Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de laranja e violeta, elas caminharam de volta para o dormitório. O campus estava mais vazio agora, as sombras se alongando sob os carvalhos antigos.
— Você tem que ir agora? — perguntou Engfa, sentindo uma melancolia inesperada. A presença física de Charlotte era avassaladora, mas a ideia de ficar sozinha novamente parecia vazia.
Charlotte parou diante da porta do prédio de Engfa. Sua forma humana começou a tremeluzir levemente, as bordas de sua silhueta tornando-se nebulosas sob a luz do crepúsculo.
— Eu nunca vou embora de verdade, pequena nerd — disse Charlotte, tocando o queixo de Engfa e levantando seu rosto. — Eu apenas mudo de plano.
Ela se aproximou, e desta vez não houve hesitação. Charlotte pressionou seus lábios contra os de Engfa em um beijo que não era apenas um sonho. Tinha gosto de jasmim, de poder e de uma fome antiga. Engfa agarrou os ombros de Charlotte, sentindo a força da succubus, entregando-se completamente àquele toque proibido.
Quando o beijo terminou, Engfa estava sem fôlego, seus óculos levemente embaçados.
— Vá para o seu quarto — ordenou Charlotte, sua voz agora ecoando como se viesse de longe. — Durma. E não se esqueça de quem você é.
— Eu sou sua — sussurrou Engfa, a lealdade brilhando em seus olhos.
Charlotte sorriu, um sorriso que continha tanto amor quanto malícia, e desapareceu em uma nuvem de fumaça perfumada, deixando para trás apenas o silêncio do corredor e o coração de Engfa batendo em um ritmo que nunca mais seria o mesmo.
Naquela noite, Engfa não precisou de despertador para saber que Charlotte a esperava. Ela apenas fechou os olhos, ansiosa para voltar ao único lugar onde realmente se sentia viva: nos braços de sua demônio. E se Pailliu ou Pete ficassem com medo dela no dia seguinte, Engfa não se importaria. Afinal, ela tinha a proteção de uma rainha, e o amor de um demônio era a única coisa que realmente importava.