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Pensamentos impuros

Sinfonia de Couro e Obsessão

O teto do dormitório desapareceu, dissolvendo-se em uma névoa densa e arroxeada que cheirava a jasmim e eletricidade estática. Engfa sentiu o corpo flutuar por um milésimo de segundo antes de seus pés atingirem um chão frio, polido como mármore negro. Ela não estava mais em seu quarto. Estava naquele lugar limiar, o domínio particular onde Charlotte Austin reinava absoluta sobre sua consciência.

Desta vez, o cenário era minimalista e intimidador. Uma sala vasta, sem janelas, iluminada apenas por archotes de fogo azul que projetavam sombras longas e dançantes pelas paredes. No centro, uma única poltrona de veludo escarlate onde a succubus a aguardava.

Charlotte estava mais deslumbrante do que o normal. Usava um espartilho de couro que acentuava sua cintura esguia e a postura de tirana. Seus olhos cor de mel brilhavam com uma malícia renovada, e os dentes caninos pontiagudos estavam levemente à mostra em um sorriso de boas-vindas.

— Senti seu pulso acelerar antes mesmo de você fechar os olhos, Engfa — disse Charlotte, a voz reverberando como um trovão suave. — Você estava ansiosa para me ver, não estava?

Engfa, ainda vestindo seu moletom largo de estimação — que naquele plano parecia mais uma armadura de insegurança do que uma peça de roupa —, deu um passo à frente. O contraste entre elas era gritante: a nerd desajeitada e a divindade infernal.

— Eu não consigo controlar o que meu corpo sente, Charlotte — respondeu Engfa, tentando manter a voz estável. — Você se infiltrou na minha rotina. Agora, dormir é a parte mais barulhenta do meu dia.

Charlotte levantou-se com uma fluidez que desafiava a gravidade. Ela caminhou em direção a Engfa, e a cada passo, a pressão no ar aumentava, dificultando a respiração da humana. Quando parou a centímetros de distância, Charlotte estendeu a mão e, com um movimento rápido, removeu os óculos de Engfa, jogando-os em algum lugar da escuridão.

— Você não precisa deles aqui — sussurrou a demônio, aproximando o rosto do pescoço de Engfa. — Aqui, eu sou a única coisa que você precisa enxergar.

Engfa sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Charlotte não parou por aí. Suas mãos, sempre quentes, tatearam o bolso do espartilho e retiraram um objeto que reluziu sob a luz azul. Era uma tira de couro negro, cravejada de pequenos espinhos de prata voltados para fora, com uma argola central pesada.

— O que é isso? — perguntou Engfa, embora o coração já soubesse a resposta.

— Um acessório para a minha posse favorita — respondeu Charlotte com um brilho possessivo no olhar.

Sem dar chance para protestos, Charlotte envolveu o pescoço de Engfa com a tira. O couro era frio no início, mas rapidamente absorveu o calor da pele de Engfa. O clique do fecho soou como uma sentença definitiva no silêncio da sala. Charlotte então prendeu uma corrente de prata fina à argola e deu um puxão seco, forçando Engfa a cair de joelhos diante dela.

— Olhe para mim — ordenou Charlotte, a voz carregada de uma autoridade calma que não admitia resistência.

Engfa obedeceu, erguendo o rosto. Suas mãos agarraram as coxas da demônio para se equilibrar, sentindo a firmeza dos músculos de Charlotte sob o toque. A posição era humilhante, mas havia algo na forma como Charlotte a olhava — como se ela fosse a joia mais preciosa do submundo — que fazia o peito de Engfa arder de uma forma pecaminosa.

— Você fica perfeita assim, Engfa — disse Charlotte, passando os dedos longos pelos cabelos castanho-escuros da garota. — Tão silenciosa, tão leal... uma verdadeira cachorrinha.

O termo atingiu Engfa como um choque. Ela sentiu o rosto queimar, uma mistura de vergonha e uma excitação que ela tentava enterrar há meses.

— Você... — Engfa começou, a voz trêmula — você é uma demônio muito pervertida, Charlotte. Trazer isso para os meus sonhos... usar essa simbologia...

Charlotte soltou uma risada aveludada, inclinando-se para frente até que suas testas se encostassem. O hálito da succubus tinha um aroma doce, quase tóxico.

— Pervertida? — repetiu Charlotte, saboreando a palavra. — Engfa, querida, essa é a minha essência. Eu sou feita de desejos que os humanos como você morrem de medo de admitir. Eu não inventei essa coleira. Eu apenas a materializei a partir da sua própria vontade de ser dominada por mim.

— Isso não é verdade — protestou Engfa, embora não fizesse menção de se levantar ou de tentar retirar o acessório.

— Ah, é sim — rebateu Charlotte, puxando levemente a corrente, fazendo Engfa inclinar o corpo para frente. — Você adora a ideia de pertencer a alguém que não tem medo da sua força. No campus, você se esconde. Aqui, você se entrega. Diga... diga que você é minha cachorrinha.

Engfa fechou os olhos, sentindo o peso da prata no pescoço. A lealdade que ela sentia por Charlotte era algo que transcendia a lógica. Aquela criatura a protegia, a vigiava e, de uma maneira distorcida, a amava com uma intensidade que nenhum humano jamais demonstrara.

— Eu sou sua — murmurou Engfa, a voz quase um suspiro. — Se isso significa ser sua cachorrinha, então eu sou.

Charlotte sorriu, exibindo os caninos de forma triunfante. Ela soltou a corrente e segurou o rosto de Engfa com as duas mãos, forçando-a a um contato visual profundo.

— Boa menina. É por isso que eu não deixo ninguém chegar perto de você. Aqueles garotos na faculdade... eles não veem a beleza da sua submissão. Eles veem apenas a superfície. Só eu conheço o que pulsa debaixo desse moletom ridículo.

Charlotte deslizou as mãos para baixo, puxando as cordas do moletom de Engfa com uma impaciência impulsiva que era sua marca registrada.

— Tire isso — ordenou a demônio. — Quero ver o corpo que eu protejo com tanto zelo.

Engfa, movida por uma obediência que já não combatia mais, despiu-se da peça grossa, revelando a regata branca que marcava seus ombros definidos. Charlotte passou a língua pelos lábios, os olhos fixos na clavícula de Engfa, onde a coleira de couro criava um contraste vívido com a pele clara.

— Você é magnífica — sussurrou Charlotte, a voz agora rouca de desejo. — Uma guerreira em repouso. Uma nerd que carrega o peso do mundo nos livros, mas que aqui, só precisa carregar o peso do meu toque.

— Por que você faz isso, Charlotte? — perguntou Engfa, estendendo a mão para tocar o rosto da succubus. — Por que me escolheu? Eu sou apenas uma humana comum.

Charlotte fechou os olhos por um momento, apreciando o toque de Engfa. A tirania calma parecia vacilar por um breve segundo, revelando algo mais profundo.

— Porque você é a única que não me olha com medo, Engfa. Você me olha com fome. E para um demônio que se alimenta de energia, não há banquete maior do que a lealdade sincera de uma alma pura.

A succubus puxou Engfa para um beijo, um encontro de lábios que misturava a fome milenar de Charlotte com a descoberta virgem de Engfa. A corrente de prata tilintou contra o peito de ambas, um som metálico que pontuava a entrega. Engfa sentiu que poderia se dissolver naquele sonho, que não precisava de ar, de livros ou de realidade, desde que tivesse as mãos de Charlotte em seu corpo.

Quando o beijo terminou, Charlotte afastou-se apenas o suficiente para sussurrar contra os lábios de Engfa.

— Amanhã, quando você acordar, sentirá um aperto no pescoço toda vez que pensar em mim. Será o meu lembrete de que, não importa onde você esteja, a coleira ainda está lá. Invisível para eles, mas queimando para você.

— Eu vou sentir — prometeu Engfa. — Eu sempre sinto.

O cenário começou a desvanecer. O fogo azul dos archotes foi sumindo, e o mármore negro tornou-se novamente o lençol de algodão de sua cama. A última coisa que Engfa viu foram os olhos de Charlotte, brilhando com uma promessa de proteção e possessão eterna.

Engfa despertou com o som do despertador. O quarto estava frio, mas seu pescoço ardia. Ela correu para o espelho do banheiro, o coração martelando. Não havia uma coleira física, mas havia uma marca avermelhada, leve como um beijo, circulando toda a sua garganta.

Ela vestiu um moletom de gola alta, escondendo a marca do mundo. Enquanto caminhava para a faculdade, sentia o leve aperto fantasmagórico do couro em sua pele. Ela sorriu para si mesma, ignorando os olhares dos outros estudantes. Eles não sabiam de nada. Eles eram livres, mas eram vazios.

Engfa Waraha era uma prisioneira, uma cachorrinha leal de uma demônio pervertida. E, pela primeira vez na vida, ela se sentia exatamente onde deveria estar.