Pensamentos impuros
O Trono de Vidro e a Herança das Sombras
— Você está tentando me sufocar, Charlotte? — Engfa perguntou, embora sua voz não carregasse um pingo de irritação real. Ela estava parada diante de um espelho de corpo inteiro na suíte master da mansão, observando o reflexo da mulher que mudara sua vida.
Charlotte Austin, a succubus que um dia fora apenas um terror inebriante em seus sonhos, agora estava ajoelhada atrás dela, ajustando a bainha de um terno de seda italiana sob medida. Charlotte usava um vestido de noiva que desafiava as leis da física e da decência: uma peça de renda negra e branca que abraçava seu corpo esbelto de 1,75m como se fosse uma segunda pele, com uma fenda que subia até o quadril.
— Eu estou apenas garantindo que o mundo veja o que eu cultivei — respondeu Charlotte, levantando-se com a elegância predatória de sempre. Seus olhos cor de mel brilharam com uma possessividade que o tempo não fora capaz de diminuir. — Chega de moletons, Engfa. Chega de se esconder. Você é a CEO das empresas Waraha agora. Você governa um império de vidro e aço. Eu não permitirei que minha esposa se case parecendo uma estudante de biblioteca.
Engfa suspirou, ajustando os óculos de armação fina que agora eram mais um acessório de poder do que um disfarce. O terno preto, cortado perfeitamente para realçar seus ombros largos e a cintura definida por anos de treinos intensos, a fazia parecer uma divindade moderna. Por baixo da camisa de seda, ela ainda sentia o calor da marca invisível no pescoço, a "coleira" eterna que Charlotte lhe dera anos atrás.
— As pessoas vão falar — murmurou Engfa, olhando para as próprias mãos. — Duas mulheres, um casamento que parece ter saído de um conto de fadas gótico... e eu de terno.
— Deixe que falem — Charlotte aproximou-se, envolvendo a cintura de Engfa e colando seus corpos. O perfume de jasmim e enxofre, agora mais suave e sofisticado, preencheu o ar. — Eles são gado, meu amor. Você é a rainha. E rainhas vestem o que desejam. Além disso... — Charlotte inclinou a cabeça, seus caninos pontiagudos roçando o lóbulo da orelha de Engfa — ... eu adoro o contraste entre o seu terno rígido e a minha pele. Mal posso esperar para tirá-lo de você mais tarde.
A cerimônia foi realizada nos jardins da mansão Waraha sob a luz da lua cheia, exatamente como Charlotte exigira. Não houve padres ou juízes comuns; a união foi selada por um pacto de sangue e intenção que fez as luzes do jardim oscilarem quando elas disseram "sim".
No momento da troca das alianças, os convidados — a elite da Tailândia e alguns "amigos" internacionais de Charlotte que pareciam pálidos e elegantes demais para serem humanos — prenderam a respiração. As alianças não eram de ouro comum. Eram anéis esculpidos em prata escura, no formato de rosas cujas pétalas eram de um ônix tão negro que parecia absorver a luz ao redor.
— Com este anel — disse Charlotte, deslizando a joia no dedo de Engfa —, eu prendo sua alma à minha para além do tempo, do espaço e da morte. Você é minha leal serva, minha esposa e minha vida.
— Com este anel — respondeu Engfa, a voz firme e carregada de uma devoção que assustaria qualquer pessoa comum —, eu aceito sua proteção, sua tirania e seu amor. Eu sou sua, Charlotte, em todos os planos da existência.
Os anos que se seguiram ao casamento foram um borrão de sucesso e estranheza. Engfa transformou o grupo Waraha em uma potência global, enquanto Charlotte permanecia nas sombras, uma conselheira silenciosa que garantia que nenhum competidor ousasse cruzar o caminho de sua esposa. A vida delas era uma sinfonia de luxo e segredos sobrenaturais.
A primeira mudança na dinâmica familiar veio com a chegada de Kiew e Phalo.
— Um cachorro, Charlotte? Sério? — Engfa perguntou, rindo ao ver a succubus, a tirana dos sonhos, tentando manter a dignidade enquanto um Golden Retriever energético pulava em seu vestido de grife.
— Ele tem uma aura pura, Engfa. É irritante, mas refrescante — justificou Charlotte, embora estivesse acariciando as orelhas de Kiew com uma ternura que raramente mostrava. — E o coelho é para equilibrar. Phalo é quieto, observador... como você era quando nos conhecemos.
A mansão, antes silenciosa e austera, encheu-se de vida. Kiew corria pelos corredores de mármore, e Phalo reinava sobre o jardim de rosas negras de Charlotte. Mas ainda faltava algo. Charlotte, apesar de sua natureza demoníaca, começou a observar as famílias humanas com uma curiosidade melancólica que Engfa não tardou a notar.
— Você quer uma criança, não quer? — Engfa perguntou uma noite, enquanto estavam deitadas no plano onírico, observando o céu de tempestades roxas.
Charlotte demorou a responder. Ela traçou círculos no peito de Engfa com a ponta das unhas.
— Eu sou um demônio, Engfa. Eu não posso gerar vida da maneira tradicional. Meu útero é feito de sombras e desejos. Mas... eu vejo como você olha para as crianças no parque. Eu vejo a lealdade que você tem para dar.
Um ano depois dessa conversa, elas encontraram Sonya.
A adoção foi um processo que Charlotte acelerou com "alguns favores" em lugares altos. Sonya era uma garotinha de cinco anos que vivia em um orfanato no interior. No momento em que entraram na sala de visitas, Engfa sentiu o ar congelar.
— Meu Deus — sussurrou Engfa, ajustando os óculos.
Sonya estava sentada em um canto, lendo um livro de mitologia. Ela tinha o cabelo castanho-claro ondulado exatamente como o de Charlotte. Seus olhos eram de um mel profundo, quase âmbar, e sua postura era de uma calma autoritária que não pertencia a uma criança daquela idade. Quando ela olhou para as duas, um sorriso sutil apareceu em seu rosto, revelando dentes caninos que pareciam um pouco mais pontiagudos do que o normal.
— Vocês demoraram — disse a menina, a voz aveludada e calma.
Charlotte soltou uma gargalhada que ecoou por todo o orfanato, um som de puro deleite.
— Ela é perfeita. É como se o universo tivesse esculpido uma cópia minha apenas para nos provocar, Engfa.
Sonya adaptou-se à mansão Waraha como se tivesse nascido nela. Ela chamava Engfa de "Mama" e Charlotte de "Mami". A ironia da semelhança física entre Charlotte e Sonya era o assunto constante entre os empregados, que sussurravam sobre milagres genéticos, sem saber que a conexão era muito mais profunda e espiritual.
Uma tarde, alguns anos depois, Engfa chegou em casa após um longo dia de reuniões na empresa. Ela retirou o paletó do terno e o jogou sobre o sofá, soltando o nó da gravata. No jardim, ela viu uma cena que a fez parar e sorrir.
Charlotte estava sentada em um banco de pedra, observando Sonya. A menina, agora com oito anos, estava tentando "treinar" Kiew para se sentar usando nada além de um olhar intenso e um tom de comando que era a cópia exata do de Charlotte. Phalo, o coelho, estava empoleirado no ombro de Sonya, como um guardião silencioso.
— Ele não está te ouvindo, Sonya — comentou Charlotte, cruzando as pernas longas. — Cães precisam de carinho antes do comando. Você está sendo muito tirana.
— Mas você é uma tirana com a Mama, Mami — rebateu Sonya, virando-se com as mãos nos quadris. — E ela sempre faz o que você quer.
Charlotte deu um sorriso de lado, lançando um olhar para Engfa, que acabara de se aproximar.
— Isso é porque sua Mama é leal, Sonya. A lealdade é a forma mais alta de amor. E ela sabe que, por trás da minha tirania, eu daria o mundo para mantê-la segura. Assim como farei por você.
Engfa aproximou-se e beijou o topo da cabeça de Sonya, antes de se inclinar para dar um beijo casto nos lábios de Charlotte.
— Como foi o dia na empresa, minha trabalhadora incansável? — perguntou Charlotte, puxando Engfa para sentar ao seu lado.
— Cansativo — admitiu Engfa. — Mas vale a pena voltar para casa e encontrar meu pequeno exército de sombras.
— Mama, a Mami disse que hoje à noite vamos visitar o "quarto das luzes azuis" de novo — disse Sonya, os olhos brilhando de excitação. — Ela disse que vai me ensinar a moldar as nuvens do céu dos sonhos.
Engfa olhou para Charlotte, uma sobrancelha erguida.
— Você está ensinando a ela sobre o plano onírico? Ela é só uma criança, Charlotte.
— Ela é a nossa filha, Engfa — respondeu Charlotte, a voz tornando-se suave e séria. — Ela herdou o nosso legado. Ela precisa saber que o mundo é muito maior do que o que os humanos veem. Ela precisa saber que, nesta família, nós não seguimos as regras. Nós as criamos.
Engfa olhou para a aliança de rosa negra em seu dedo, depois para Sonya, que agora corria atrás de Kiew pelo gramado, e finalmente para Charlotte. A nerd virgem que costumava se esconder em moletons largos agora era a matriarca de uma família que desafiava a realidade.
— Às vezes eu ainda acho que estou sonhando — confessou Engfa, encostando a cabeça no ombro de Charlotte.
— Talvez esteja — sussurrou a succubus, entrelaçando seus dedos aos de Engfa. — Mas se for um sonho, é o meu favorito. E eu nunca vou deixar você acordar dele.
A noite caiu sobre a mansão Waraha. No mundo real, as luzes se apagaram e o silêncio reinou. Mas, no plano dos sonhos, três figuras caminhavam sob um céu de tempestades púrpuras. Uma rainha de terno, uma deusa de sombras e uma princesa de olhos cor de mel, seguidas por um cão de luz e um coelho de silêncio.
Elas eram o caos, a lealdade e o amor, fundidos em uma única herança de sombras que nenhum tempo seria capaz de apagar. Engfa Waraha finalmente entendera: ser de Charlotte Austin não fora uma perda de liberdade, mas a descoberta de que o seu verdadeiro trono nunca estivera na Terra, mas no coração da eternidade que elas construíram juntas.