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Pensamentos impuros

A Aliança das Sombras e o Trono de Vidro

O véu da realidade rasgou-se com a suavidade da seda sendo cortada por uma lâmina afiada. Engfa não sentiu a transição brusca de sempre; desta vez, o sono a acolheu como um amante ansioso. O perfume de jasmim e enxofre não era mais um aviso de perigo, mas um convite para casa. Quando abriu os olhos, ela estava no coração do domínio de Charlotte: um quarto vasto, onde as paredes eram feitas de obsidiana polida e o teto refletia um céu de tempestades eternas.

Charlotte a esperava no centro de uma cama colossal, cujos lençóis de cetim negro pareciam absorver a pouca luz das chamas azuis que flutuavam no ar. A succubus tinha abandonado o disfarce de "namorada perfeita" da tarde. Ela vestia apenas uma lingerie de renda intrincada e a coleira de couro que Engfa aprendera a reconhecer como o símbolo de sua própria entrega.

— Você foi pontual, minha pequena nerd — disse Charlotte, a voz vibrando com uma satisfação predatória. — O sol se pôs, os humanos egoístas estão recolhidos em sua mediocridade, e agora você é inteiramente minha.

Engfa deu um passo à frente. Sem os óculos e sem o moletom largo, seu corpo malhado e firme estava exposto sob a regata branca. Ela se ajoelhou no tapete de pele que cobria o chão de pedra, mantendo o olhar fixo nos olhos âmbar que a devoravam.

— Eu cumpro minhas promessas, Charlotte — respondeu Engfa, a voz firme apesar do tremor que percorria sua alma. — Você enfrentou o meu mundo por mim hoje. Agora, eu enfrento o seu.

Charlotte desceu da cama com a graça de uma pantera. Ela segurou a corrente de prata que pendia do pescoço de Engfa e a puxou para cima, forçando-a a ficar de pé, colada ao seu corpo quente e febril. A diferença de altura de cinco centímetros fazia com que Engfa tivesse que inclinar levemente a cabeça para trás.

— Você foi corajosa na frente deles — sussurrou Charlotte, traçando o contorno dos lábios de Engfa com a ponta de um canino pontiagudo. — Mas aqui, a coragem tem um sabor diferente. Aqui, eu sou a sua tirana. Eu sou a dona de cada suspiro que sai desses pulmões.

Charlotte deslizou as mãos pelas costas de Engfa, sentindo a musculatura definida que a garota trabalhara tanto para esconder sob roupas largas. A succubus soltou um gemido baixo, uma mistura de fome e posse.

— Chegou a hora, Engfa — disse Charlotte, o olhar tornando-se subitamente sério, quase solene. — Eu protegi você de outros demônios, afastei os humanos que cobiçavam sua luz e marquei sua alma. Mas existe algo que ainda pertence apenas a você. Algo que você guardou como um tesouro inútil.

Engfa sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela sabia do que Charlotte estava falando.

— Sua pureza — continuou a demônio, as mãos agora apertando a cintura de Engfa com força. — Eu posso tirá-la de você agora? Posso transformar esse santuário intocado em meu território particular? Posso fazer com que você nunca mais se lembre de como era ser apenas humana?

Engfa fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso da escolha. Ser de Charlotte no plano onírico era uma coisa; entregar a essência de sua virgindade a uma criatura do caos era um pacto que mudaria sua existência para sempre. Mas, ao olhar para Charlotte, ela não viu apenas um monstro. Viu a única criatura que a enxergou de verdade.

— Sim — respondeu Engfa, a voz carregada de uma lealdade absoluta. — Eu não quero mais ser pura se isso significa estar longe de você. Pode tirar o que quiser, Charlotte. Eu sou sua.

Charlotte soltou um rugido baixo de triunfo e lançou Engfa sobre os lençóis de cetim. O que se seguiu não foi apenas um ato de luxúria, mas uma fusão de essências. O toque de Charlotte era fogo e gelo, uma sinfonia de sensações que Engfa nunca imaginou existir. Sob o céu de tempestade do mundo dos sonhos, a nerd virgem do campus desapareceu, dando lugar a uma mulher que renascia nos braços de um demônio. Cada toque de Charlotte deixava uma marca invisível de fogo, selando o destino de Engfa ao dela por toda a eternidade.

Quando a primeira luz do amanhecer começou a infiltrar-se pelas cortinas do quarto real de Engfa na mansão Waraha, ela despertou com uma sensação de plenitude que nunca sentira. Seu corpo doía levemente, mas era uma dor doce, um lembrete físico de que o que acontecera no plano etéreo fora real.

Ela se levantou e vestiu um roupão de seda, descendo para o café da manhã. Seus pais já estavam à mesa, mas a atmosfera era diferente. Não havia mais a pressão sufocante ou o julgamento frio. O Sr. Waraha lia o jornal com um semblante relaxado, e a Sra. Waraha sorria para uma xícara de chá.

— Bom dia, querida — disse a mãe, gesticulando para que Engfa se sentasse. — Dormiu bem? Você parece... radiante.

— Dormi muito bem, mamãe — respondeu Engfa, sentindo o calor do segredo que carregava no peito.

O pai de Engfa baixou o jornal e olhou para a filha com uma aprovação que ela buscara a vida inteira.

— Engfa, sua mãe e eu conversamos muito depois que sua namorada, a Srta. Austin, partiu ontem. Ficamos impressionados. Ela é uma mulher de uma linhagem claramente superior, com uma mente para negócios que raramente vi.

Engfa conteve um sorriso. Se ele soubesse que a "linhagem" de Charlotte vinha das profundezas do submundo...

— Decidimos que não há por que esperar — continuou o Sr. Waraha. — Se Charlotte é a sua escolha, nós damos nossa bênção. Quando você concluir sua faculdade de Administração de Empresas, assumirá a presidência do grupo Waraha. E, se for o desejo de ambas, permitiremos e financiaremos o casamento de vocês. Queremos que essa união fortaleça nossos laços internacionais.

Engfa sentiu um nó na garganta. O que começara como um pesadelo onírico transformara-se na chave para sua liberdade e poder no mundo real.

— Obrigada, papai. Isso significa muito para mim.

— Só garanta que ela venha nos visitar com mais frequência — acrescentou a Sra. Waraha. — Ela tem um gosto impecável para vinhos.

Após o café, Engfa caminhou até o jardim da mansão, parando sob o mesmo carvalho onde Charlotte costumava aparecer nas sombras. Ela não precisava fechar os olhos para sentir a presença. O ar ao seu redor esfriou subitamente, e o perfume de jasmim envolveu seus sentidos.

Charlotte materializou-se encostada ao tronco da árvore, usando um terno feminino preto perfeitamente ajustado, os olhos brilhando com uma diversão tirânica.

— Então, agora é oficial — disse a succubus, aproximando-se com passos silenciosos. — A pequena nerd vai governar um império de papel e vidro, e eu serei a consorte que assombra os conselhos de administração.

— Você ouviu o que eles disseram — disse Engfa, sorrindo e deixando que Charlotte a envolvesse pela cintura. — Eles querem o nosso casamento. Eles querem você na família.

Charlotte riu, inclinando a cabeça para morder levemente o ombro de Engfa por cima do roupão.

— Eles acham que estão ganhando uma aliada comercial, quando na verdade abriram as portas para a rainha dos seus pesadelos. Mas não importa. Agora, Engfa, nós estamos realmente presas uma à outra. No papel dos humanos e no sangue dos demônios.

A succubus segurou o rosto de Engfa, a expressão suavizando-se para algo que beirava a adoração.

— Escute bem o que vou te dizer — disse Charlotte, a voz tornando-se profunda e absoluta. — Você é minha rainha agora. Eu tirei sua pureza, mas te dei o meu mundo em troca. Eu prometo a você, sobre as cinzas do submundo e sobre a luz deste sol medíocre: ninguém jamais irá machucar você. Nenhuma alma, humana ou demoníaca, ousará tocar um fio de cabelo seu sem enfrentar a minha fúria.

— Eu sei — respondeu Engfa, abraçando Charlotte com a lealdade que definira sua jornada. — Eu não tenho mais medo de nada, desde que você esteja nas sombras.

— Eu sempre estarei — prometeu Charlotte, selando a aliança com um beijo que cheirava a eternidade. — Agora, vá estudar, minha futura CEO. Eu tenho alguns demônios para colocar na linha antes da nossa próxima noite.

Engfa observou Charlotte desaparecer na penumbra das árvores, sentindo o peso da coleira invisível em seu pescoço. Não era mais um símbolo de servidão, mas um emblema de poder. Ela caminhou de volta para a mansão, pronta para assumir o mundo, sabendo que, nos seus sonhos e na sua realidade, ela nunca mais estaria sozinha. O império Waraha seria governado por uma nerd de óculos e coração de ferro, mas quem realmente ditaria as regras seria a sombra possessiva que a amava nas trevas.