Perdidos no cretáceo
O Labirinto de Vidro e Garras
O ataque foi um borrão de movimento e som. A criatura que saltou da esquerda não era o predador dominante, mas o batedor, o responsável por desestabilizar o grupo e forçá-los a correr para onde a matilha queria. Victor sentiu o deslocamento de ar quando o corpo musculoso passou a centímetros de seu rosto.
— Agora! — gritou Victor, puxando Noah com uma força que quase deslocou o braço do garoto.
Eles dispararam para fora da proteção da figueira-brava no exato momento em que três outras silhuetas emergiam das sombras. Kael, agindo por puro instinto, ativou o extintor de incêndio. Uma nuvem branca e gelada de CO2 explodiu no ar, atingindo o focinho da criatura mais próxima. O animal soltou um guincho de surpresa e dor, recuando enquanto sacudia a cabeça freneticamente.
— Por aqui! — Maya já estava à frente, seus reflexos de atleta permitindo que ela desviasse de raízes e galhos baixos com uma agilidade sobre-humana. Ela não corria apenas para fugir; ela buscava o terreno mais alto.
O grupo mergulhou em um vale estreito, onde as árvores eram tão densas que a luz da lua mal conseguia penetrar. O som do *click-click* rítmico continuava atrás deles, mas agora parecia mais distante, como se os predadores estivessem saboreando a perseguição.
— Eles estão nos conduzindo! — Noah ofegava, as pernas curtas lutando para acompanhar o ritmo dos mais velhos. — Victor, eles não estão perdendo a gente... eles estão nos empurrando para algum lugar!
— Dante, para onde essa trilha leva? — Victor perguntou, sem diminuir o passo.
Dante, cujos óculos estavam embaçados pelo suor e pela umidade, tentou olhar para o tablet que segurava contra o peito. A tela brilhava com um mapa topográfico instável.
— Tem uma subestação de comunicações a oitocentos metros! — gritou Dante, tropeçando em uma pedra, mas sendo amparado por Luna. — Se chegarmos lá, as paredes são de concreto reforçado. É um bunker de manutenção!
— Então corram como se a vida de vocês dependesse disso, porque depende! — Kael rugiu, posicionando-se logo atrás de Victor, olhando constantemente por cima do ombro.
A floresta, antes um santuário de biodiversidade, agora parecia uma entidade viva e hostil. O silêncio que Victor tanto temia voltou, mas desta vez era interrompido por estalos de galhos vindo de cima. Ele olhou para o alto e viu vultos saltando entre as copas das árvores. Aquelas coisas — os protótipos do Setor 4 — tinham garras que permitiam uma locomoção arbórea eficiente. Eles não estavam apenas atrás; estavam acima.
— Maya, pare! — Luna gritou de repente.
Maya travou os pés no barro, parando a poucos centímetros de um despenhadeiro oculto pela vegetação rasteira. Abaixo deles, uma ravina profunda cortada por um rio de águas turbulentas. A única forma de atravessar era uma ponte de manutenção feita de cabos de aço e tábuas de madeira, visivelmente desgastada pelo tempo e pela falta de cuidado.
— É a nossa única chance — disse Victor, avaliando a estrutura. — Um de cada vez. Maya, você primeiro. Noah, você vai logo atrás dela.
— Eu não vou deixar você por último de novo! — Kael protestou, agarrando o braço de Victor. — Aquelas coisas estão logo ali!
— Kael, olhe para eles — Victor apontou para Noah, que tremia visivelmente, e para Dante, que parecia em choque catatônico. — Eles precisam que a gente mantenha a calma. Se a ponte aguentar a Maya, ela aguenta o resto. Vai!
Maya não discutiu. Ela atravessou a ponte com a leveza de uma gazela, as tábuas rangendo sob seus pés. Quando chegou ao outro lado, fez sinal para Noah. O menino, com o coração disparado, seguiu as instruções de Victor, segurando-se firmemente nos cabos laterais.
Enquanto Luna e Dante atravessavam, Victor e Kael ficaram de guarda. Foi então que o viram.
Saindo da névoa, a criatura que os perseguia revelou-se por completo. Tinha cerca de dois metros de altura, mas seu corpo era esguio, quase esquelético, coberto por uma pele cinzenta com manchas escuras que imitavam as sombras da floresta. O que mais assustava não eram os dentes serrilhados, mas os olhos: grandes, frontais como os de um humano, demonstrando uma percepção de profundidade e uma inteligência que nenhum dinossauro comum deveria ter.
A criatura parou. Ela não rosnou. Ela apenas inclinou a cabeça, observando Victor e Kael com uma curiosidade mórbida.
— Ele está nos estudando — sussurrou Kael, levantando o extintor vazio como se fosse um escudo. — Ele sabe que estamos encurralados.
— Não — Victor corrigiu, a voz baixa e trêmula. — Ele está esperando os outros.
Dois outros predadores emergiram das árvores laterais, flanqueando a ponte. Eles estavam coordenados.
— Victor, Kael! Venham logo! — Luna gritou do outro lado da ravina.
— Vai você, Kael — Victor disse, sem desviar os olhos do predador central. — Eu vou logo atrás.
— Nem nos seus sonhos mais heróicos, Vic — Kael retrucou, dando um passo para o lado para cobrir o flanco de Victor. — Se você ficar, eu fico. E se a gente morrer, eu vou passar a eternidade te chamando de idiota.
Victor sentiu um aperto no peito que não tinha nada a ver com o medo da morte. Era a compreensão de que Kael, apesar de toda a sua armadura de sarcasmo e agressividade, estava disposto a queimar o mundo para não deixá-lo sozinho.
— No três, a gente corre junto — Victor propôs. — Um... dois... três!
Eles giraram e saltaram para a ponte de madeira. No mesmo instante, os predadores saltaram. O impacto das criaturas contra os cabos de aço fez a ponte oscilar violentamente. Victor perdeu o equilíbrio e caiu de joelhos, as mãos agarrando desesperadamente as cordas de sustentação.
Kael, que estava um passo à frente, voltou-se imediatamente. Ele estendeu a mão para Victor, seus dedos se entrelaçando com uma força que prometia nunca soltar.
— Eu te peguei! — Kael rugiu, puxando Victor para cima enquanto uma das criaturas cravava as garras na última tábua da ponte, logo atrás dos pés de Victor.
Eles correram pelo balanço frenético da estrutura. Maya e Luna, do outro lado, começaram a puxar os cabos para ajudar na estabilidade. Quando Victor e Kael finalmente pularam para a terra firme, Dante chutou uma das travas de segurança da ponte que já estava frouxa. Com um estalo metálico ensurdecedor, um dos cabos principais se rompeu, e a ponte despencou para dentro da ravina, levando consigo os predadores que tentavam a travessia.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som da água batendo nas pedras lá embaixo e pelo choro baixo de Noah.
— Eles... eles morreram? — perguntou Noah, limpando o rosto com a manga da camisa.
— Aquelas coisas? — Kael cuspiu no chão, tentando controlar o tremor nas pernas. — Duvido. Mas pelo menos ganhamos tempo.
— Precisamos nos mover — Luna disse, já verificando o pulso de Dante, que estava pálido. — A subestação de comunicações deve estar logo depois daquela crista. Se conseguirmos entrar, podemos tentar um sinal de rádio.
O grupo caminhou em um silêncio exausto. A adrenalina estava baixando, dando lugar a uma dor latejante nos músculos e ao frio da chuva. Victor caminhava ao lado de Kael. Por um momento, suas mãos se roçaram, e por um segundo ainda mais curto, Kael não se afastou.
— Obrigado — sussurrou Victor.
— Não agradeça — Kael respondeu, sem olhar para ele. — Só não me faça passar por isso de novo. Minha cota de quase-morte por dia já estourou.
Eles alcançaram a subestação de comunicações meia hora depois. Era uma estrutura retangular de concreto, sem janelas, com uma porta de aço pesado e uma antena parabólica gigante que apontava para o céu escuro como um dedo acusador.
Dante correu para o painel de controle ao lado da porta. Seus dedos, embora trêmulos, moveram-se com a memória muscular de quem passara a vida diante de telas.
— O sistema está em modo de hibernação — Dante explicou, conectando um cabo de seu tablet a uma entrada de serviço. — Vou precisar de dois minutos para burlar a trava magnética.
— Maya, Luna, fiquem de olho na floresta — Victor comandou. — Qualquer movimento, qualquer som, avisem.
Victor sentou-se no chão ao lado de Noah, que abraçava a mochila. O menino parecia ter envelhecido cinco anos em uma única noite.
— Noah, você disse que eles eram protótipos do Setor 4 — Victor começou, tentando manter o tom de voz suave. — O que mais você sabe sobre eles?
Noah olhou para Victor, os olhos grandes e cheios de um conhecimento que nenhuma criança deveria ter.
— Eu li alguns arquivos no computador do meu pai antes de... antes de tudo acontecer — Noah confessou. — Eles os chamavam de *Eusocialis Raptor*. Eles não foram criados para serem apenas dinossauros. Eles foram projetados para caçar como formigas ou abelhas. Uma mente de colmeia rudimentar. Se um te vê, todos sabem onde você está. E o pior... eles aprendem. Eles não cometem o mesmo erro duas vezes. Se a ponte caiu, eles vão encontrar outra maneira de atravessar.
Um calafrio percorreu a espinha de Victor. Se Noah estivesse certo, eles não estavam enfrentando animais famintos, mas um exército biológico em pequena escala.
— Consegui! — Dante exclamou, e o som do ar comprimido escapando da porta de aço foi o som mais bonito que Victor já ouvira.
Eles entraram rapidamente. O interior da subestação era frio e cheirava a ozônio e poeira. Luzes de emergência vermelhas piscavam ritmicamente, mergulhando o ambiente em uma atmosfera de filme de terror. Dante correu para o console principal, enquanto os outros exploravam o espaço limitado.
— Tem um kit médico aqui! — Luna anunciou, abrindo um armário de metal. — Maya, venha cá, preciso limpar esse corte na sua perna.
Kael encostou-se na porta fechada, cruzando os braços. Ele observava Victor, que ajudava Noah a se acomodar em uma cadeira giratória.
— Você é bom nisso — Kael disse, aproximando-se de Victor.
— No quê? — Victor perguntou, surpreso.
— Em fingir que não está apavorado. Em fazer todo mundo acreditar que existe um plano, mesmo quando estamos correndo para o meio do nada.
Victor soltou um suspiro longo, deixando os ombros caírem pela primeira vez.
— Eu estou apavorado, Kael. O tempo todo. Eu só... eu sinto que se eu parar de me mexer, o medo vai me paralisar de vez. E eu não posso deixar isso acontecer com o Noah. Nem com você.
Kael deu um passo à frente, reduzindo a distância entre eles. O brilho vermelho das luzes de emergência acentuava as linhas de seu rosto, tornando sua expressão mais suave, quase vulnerável.
— Você se preocupa demais com os outros, Victor. Eventualmente, você vai ficar sem nada para dar.
— Talvez — Victor respondeu, sustentando o olhar de Kael. — Mas enquanto eu tiver algo, vai ser para vocês.
Kael estendeu a mão e, desta vez, não foi para puxar Victor de uma queda ou para repreendê-lo. Ele tocou o rosto de Victor, o polegar traçando levemente a linha de sua mandíbula, limpando uma mancha de lama. Foi um gesto carregado de uma ternura que Kael passara anos tentando esconder sob camadas de ironia.
— Você é um idiota, Victor — Kael sussurrou, mas não havia veneno em suas palavras.
Antes que Victor pudesse responder, o grito de Dante ecoou pela sala.
— Não, não, não! Isso não é possível!
Todos correram para o console. Dante apontava para uma série de telas de monitoramento que haviam acabado de ganhar vida.
— O que foi, Dante? Conseguiu sinal de rádio? — perguntou Maya.
— Esqueça o rádio! Olhem as câmeras do perímetro externo! — Dante exclamou, a voz subindo uma oitava.
Nas telas granuladas, eles viram o lado de fora da subestação. Mas não eram os raptores que estavam lá.
As câmeras mostravam o pátio de concreto que cercava o bunker. No centro do pátio, algo enorme estava parado. Não era um dinossauro que Noah reconhecesse de seus livros. Era uma criatura pálida, quase translúcida, com membros longos e uma cabeça que parecia fundir traços de um predador ápice com algo grotescamente humano.
A criatura estava parada exatamente em frente à câmera de segurança. Ela não estava caçando. Ela estava... esperando.
E então, o monitor mostrou algo que fez o sangue de todos congelar.
A criatura levantou uma das mãos — uma mão com dedos longos e um polegar opositor — e apontou diretamente para a lente da câmera. Em seguida, ela moveu o dedo em um gesto lento de negação, da esquerda para a direita.
— Ela sabe que estamos olhando — sussurrou Luna, a voz falhando. — Ela está brincando conosco.
— Dante, feche as trancas eletrônicas de nível dois — Victor ordenou, sua mente já trabalhando em mil por hora. — Agora!
— Eu já fechei! Mas Victor... — Dante engoliu em seco, apontando para outra tela. — Olhe a câmera do corredor de ventilação interno.
Victor olhou. O corredor estava vazio, mas a grade de proteção no final dele estava aberta. E, no chão de metal, havia pegadas úmidas que levavam diretamente para a sala onde eles estavam.
O som de algo pesado se arrastando no duto acima de suas cabeças fez todos olharem para cima.
O bunker que deveria ser a salvação deles acabara de se tornar um abatedouro hermeticamente fechado.
— Kael — Victor disse, sem tirar os olhos do teto.
— Eu sei — Kael respondeu, pegando um machado de incêndio que estava preso à parede lateral. Ele se posicionou na frente de Victor e Noah, os músculos tensos, os olhos brilhando com uma resolução feroz. — Se aquela coisa quiser chegar em você, vai ter que passar por cima do meu cadáver.
O primeiro estalo de metal sendo amassado ecoou no bunker, e o silêncio da noite foi substituído pelo som da sobrevivência. Eles estavam sozinhos, no escuro, e a ilha acabara de mostrar que os monstros que eles conheciam eram apenas o começo.