Perdidos no cretáceo
O Labirinto de Vidro e Garras
O som do metal sendo deformado acima de suas cabeças era um lamento agoniante, um rangido que parecia arranhar o interior dos próprios ossos de Victor. O bunker, que minutos antes parecia um santuário de concreto e segurança, transformara-se em uma armadilha pressurizada. A iluminação de emergência banhava o rosto de todos em um carmesim intermitente, fazendo com que as sombras nas paredes parecessem ganhar vida e se esticar em direção ao grupo.
— Dante, me diz que essa sala tem outra saída — exigiu Kael, a voz baixa, mas cortante como uma navalha. Ele apertava o cabo do machado de incêndio com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.
— Eu... eu não sei! O mapa do sistema mostra um duto de manutenção que leva ao gerador, mas ele é estreito demais para todos nós — gaguejou Dante, os dedos tropeçando nas teclas do console enquanto seus olhos saltavam entre os monitores. — E aquela coisa... aquela coisa pálida lá fora... ela desativou o sensor de movimento externo. Ela sumiu da câmera!
— Ela não sumiu, Dante. Ela só mudou de ângulo — Luna interveio, aproximando-se de Victor e Noah. Ela segurava um bisturi do kit médico em uma mão e uma lanterna pesada na outra. — Victor, o teto não vai aguentar. Aqueles protótipos que o Noah descreveu... se eles têm mente de colmeia, eles não estão apenas tentando entrar. Eles estão nos cercando por dentro enquanto aquela coisa maior nos espera lá fora.
Victor sentiu o peso da responsabilidade esmagar seus ombros, mas forçou os pulmões a inspirarem o ar pesado e ozonizado. Ele olhou para Noah. O menino estava encolhido sob a mesa de metal, os olhos fixos no duto de ventilação que rangia.
— Noah, você é o nosso especialista — disse Victor, agachando-se para ficar na altura do garoto. — Se o que está lá em cima for um daqueles raptores do Setor 4, como eles atacam em espaços fechados?
Noah engoliu em seco, o tremor em sua voz era evidente, mas a clareza técnica permanecia.
— Eles não atacam sozinhos se houver resistência — sussurrou o menino. — Eles usam o ruído para distrair. Um faz barulho em um ponto para você olhar, enquanto o outro entra por trás. Victor, o barulho no teto... é um truque.
No instante em que Noah terminou a frase, um estrondo veio não de cima, mas da porta de aço que Dante acabara de trancar. Algo a atingiu com a força de um caminhão, amassando o metal pesado para dentro.
— Afastem-se da porta! — gritou Maya, saltando para trás com a agilidade de quem passara a vida treinando para explosões de velocidade.
— Dante, abra o duto de manutenção agora! — Victor comandou, levantando Noah e empurrando-o em direção ao fundo da sala. — Luna, ajude o Noah a subir. Maya, você vai logo atrás.
— E vocês? — Maya perguntou, os olhos arregalados. — Não vamos deixar ninguém para trás!
— Não estamos deixando ninguém — Kael rosnou, posicionando-se entre os amigos e a porta que começava a ceder sob golpes rítmicos e brutais. — Só estamos ganhando tempo. Vai logo, Maya! Antes que eu perca a paciência e te jogue lá dentro!
Dante conseguiu destravar uma pequena escotilha no nível do chão, atrás de uma estante de servidores. Era um espaço apertado, escuro e cheirando a óleo de máquina.
— Eu vou primeiro para guiar o Noah — disse Dante, sua arrogância substituída por um desespero pragmático. — Noah, segure na minha mochila.
Enquanto os três — Dante, Noah e Luna — se espremiam para dentro do duto, o teto finalmente cedeu. Não foi a criatura pálida que caiu, mas dois dos raptores cinzentos, os mesmos que os haviam perseguido na ponte. Eles caíram com uma graça felina, as garras de foice batendo no chão de metal com um tilintar sinistro.
— Vic, agora! — Kael avançou.
Ele não esperou o ataque. Kael balançou o machado em um arco horizontal largo. O primeiro raptor recuou, sibilando, mas o segundo saltou sobre uma mesa de controle, preparando-se para o bote. Victor, agindo por puro reflexo, agarrou uma cadeira de metal e a arremessou contra o animal no ar. O impacto não feriu a criatura, mas desviou sua trajetória o suficiente para que ela colidisse contra a parede.
— Entra no duto, Victor! — Kael gritou, desferindo outro golpe que manteve os predadores à distância.
— Só se você for primeiro! — Victor rebateu, os olhos fixos nos orbes inteligentes e cruéis dos dinossauros.
— Pelo amor de Deus, Victor! — Kael rugiu, a frustração transbordando. — Esse seu complexo de mártir vai nos matar! Entra nessa droga de buraco agora ou eu juro que te nocauteio e te empurro!
Victor viu a determinação nos olhos de Kael — uma mistura de fúria e um pavor profundo de perdê-lo. Ele percebeu que, para Kael, a sobrevivência só fazia sentido se ambos saíssem dali. Victor mergulhou no duto, sentindo o metal frio arranhar seus braços. Logo atrás dele, Kael entrou de costas, bloqueando a entrada com o corpo enquanto os raptores batiam contra a pequena escotilha.
O espaço era claustrofóbico. Eles rastejavam em fila indiana, ouvindo o som das garras arranhando o metal logo atrás deles. O duto vibrava com os gritos das criaturas.
— Continuem andando! — a voz de Dante ecoava à frente. — Tem uma grade de saída a uns dez metros. Ela dá para o pátio de transformadores!
— O pátio onde a coisa pálida está? — a voz de Maya soou alarmada.
— É a nossa única saída! — respondeu Luna.
Victor sentia a respiração de Kael em seus calcanhares. O duto era tão estreito que ele podia ouvir o coração do outro batendo em um ritmo frenético.
— Você está bem? — Victor sussurrou, a voz abafada pelo metal.
— Vou ficar bem quando estivermos longe dessa lata de conserva — Kael respondeu, a voz rouca. — E quando você parar de tentar se oferecer como petisco para lagartos pré-históricos.
Eles chegaram à grade de saída. Dante a chutou para fora e eles caíram, um a um, em um pátio cercado por cercas de arame farpado e transformadores elétricos gigantes que zumbiam baixo na chuva. O ar da noite parecia gelado em comparação ao calor abafado do bunker.
— Cadê ela? — sussurrou Noah, escondendo-se atrás de Luna.
Eles olharam ao redor. O pátio estava mergulhado em sombras. A chuva criava uma cortina de estática visual. Então, um relâmpago iluminou o céu, e por um breve segundo, eles viram a silhueta.
Ela estava empoleirada no topo de um dos transformadores. A criatura pálida. Ela era maior do que um raptor, mas mais esguia do que um Indominus. Sua pele parecia absorver a pouca luz vermelha das sirenes do bunker. Ela não se moveu. Apenas os observava, com a cabeça levemente inclinada.
— Ela está nos deixando sair — murmurou Luna, o tom de voz carregado de um pavor clínico. — Ela quer que a gente corra. Ela está... caçando por esporte.
— Não vamos dar esse prazer a ela — disse Victor, sentindo uma centelha de raiva superar o medo. — Dante, tem algum veículo aqui?
— Ali! — Dante apontou para um caminhão de manutenção da InGen estacionado perto do portão de saída. — Se eu conseguir ligar os cabos, podemos sair daqui.
— Maya, Kael, cubram o Dante — Victor ordenou. — Luna, fique com o Noah no meio. Eu vou distrair aquela coisa se ela se mover.
— Victor... — Kael começou, o tom de aviso na voz.
— Eu não vou me sacrificar, Kael — Victor o interrompeu, olhando-o nos olhos com uma seriedade inabalável. — Eu vou apenas manter a atenção dela. Confie em mim.
Kael hesitou por um segundo eterno. A chuva escorria por seu rosto, misturando-se ao suor e à sujeira. Ele assentiu lentamente, um gesto de confiança que custou cada fibra de seu ser.
— Se você não estiver no caminhão em dois minutos, eu volto para te buscar — prometeu Kael.
O grupo correu em direção ao caminhão. Dante mergulhou sob o painel, arrancando fios com uma urgência desesperada. Maya e Kael ficaram de costas para o veículo, armas improvisadas em punho.
Victor ficou no centro do pátio. Ele não tinha armas, apenas uma lanterna. Ele a ligou e apontou o feixe diretamente para a criatura no topo do transformador.
— Ei! — ele gritou. — Olhe para cá!
A criatura soltou um som que não era um rugido, mas um clique seco e gutural, quase como uma risada humana distorcida. Ela saltou do transformador com uma leveza impossível e começou a circular Victor, movendo-se nas periferias da luz da lanterna. Ela era rápida, um borrão pálido que parecia desaparecer e reaparecer em pontos diferentes.
Victor sentia o suor frio escorrer por suas costas. Ele conseguia ouvir o som das garras da criatura batendo no asfalto úmido. *Tac. Tac. Tac.*
— Dante, agora! — gritou Kael.
O motor do caminhão tossiu, cuspiu fumaça e finalmente rugiu, ganhando vida. As luzes do veículo acenderam, inundando o pátio com um brilho amarelado.
A criatura pálida parou. Ela estava a menos de cinco metros de Victor. De perto, ela era ainda mais aterrorizante. Sua face era quase plana, com narinas estreitas e uma boca cheia de dentes finos como agulhas. Ela olhou para o caminhão e depois voltou a olhar para Victor.
— Victor, entra! — gritou Maya da janela do passageiro.
Victor recuou lentamente, mantendo a luz da lanterna nos olhos do monstro. A criatura se agachou, preparando-se para o bote final. Ela sabia que sua presa estava tentando escapar.
— Agora, Victor! — Kael saltou da traseira do caminhão, estendendo a mão.
Victor girou e correu. Ele sentiu o impacto do ar quando a criatura saltou atrás dele. Suas garras rasgaram o ar a milímetros de sua jaqueta. Kael o agarrou pelo braço e o puxou para dentro da caçamba do caminhão no exato momento em que Dante pisava no acelerador.
O caminhão arrancou, derrapando no barro e no asfalto. A criatura pálida correu atrás deles por alguns metros, sua velocidade acompanhando o veículo, antes de parar abruptamente. Ela ficou parada no meio da estrada, observando-os sumir na escuridão da selva.
Dentro da caçamba, Victor e Kael caíram exaustos sobre pilhas de cabos e ferramentas. Noah rastejou até eles, abraçando Victor com força.
— Ela não desistiu — sussurrou Noah contra o peito de Victor. — Ela só sabe para onde estamos indo.
— Para onde estamos indo, Dante? — gritou Luna através da pequena janela que ligava a cabine à caçamba.
— Para o Centro de Visitantes principal — respondeu Dante, a voz trêmula mas determinada. — É o único lugar com um uplink de satélite independente. Se não conseguirmos ajuda lá, não conseguiremos em lugar nenhum.
Kael sentou-se, encostando a cabeça na lateral de metal do caminhão. Ele olhou para Victor. Suas mãos ainda tremiam levemente.
— Você quase virou janta — disse Kael, tentando recuperar seu tom sarcástico, embora sua voz estivesse carregada de emoção. — De novo.
— Mas eu não virei — Victor sorriu fracamente, limpando o sangue de um pequeno corte em sua bochecha. — Você me puxou.
Kael desviou o olhar por um momento, observando a floresta que passava como um borrão escuro sob a chuva.
— Eu sempre vou te puxar, seu idiota — ele murmurou, tão baixo que quase foi abafado pelo som do motor. — Mas um dia minha sorte vai acabar.
Victor estendeu a mão e tocou o braço de Kael. Foi um contato breve, mas sólido.
— Então vamos garantir que esse dia não seja hoje.
O caminhão seguia pela estrada sinuosa, cercado por muros de vegetação que pareciam se fechar sobre eles. O silêncio da noite foi quebrado por um rugido distante, vindo do coração da ilha. Não era a criatura pálida, nem os raptores. Era algo muito maior. Algo que lembrava a todos eles que, em Jurassic World, a hierarquia da cadeia alimentar estava sendo reescrita em sangue.
No painel do caminhão, um pequeno monitor de diagnóstico começou a piscar. Dante franziu a testa ao ler as linhas de código que surgiam.
— O que foi agora? — perguntou Maya, percebendo a expressão do gênio da informática.
— O sistema de rastreamento de ativos do parque — disse Dante, a voz sumindo. — Ele acabou de detectar sete assinaturas biológicas não identificadas se movendo em direção ao Centro de Visitantes.
— Sete? — Luna perguntou. — Como nós?
— Não — Dante olhou para o grupo através do retrovisor. — Elas estão vindo de direções diferentes. Elas estão nos cercando. E não são dinossauros, Luna. O sistema está classificando-as como "Anomalias de Bioengenharia".
Victor olhou para Noah, que estava pálido e imóvel. O garoto sabia o que aquilo significava.
— O Setor 4 não tinha apenas protótipos de raptores — sussurrou Noah. — Eles estavam tentando criar algo que pudesse se infiltrar em cidades. Algo que pudesse se passar por... outra coisa.
O caminhão entrou na avenida principal que levava ao complexo central. As luzes de rua estavam apagadas, e as lojas de souvenirs e restaurantes pareciam túmulos de vidro. O silêncio ali era ainda mais pesado do que na selva.
De repente, Dante pisou no freio, fazendo o caminhão derrapar e parar transversalmente na pista.
— Por que você parou?! — gritou Kael, levantando-se.
Dante não respondeu. Ele apenas apontou para a frente.
No meio da estrada, sob a luz dos faróis, estava uma criança. Uma menina, aparentemente de uns oito anos, vestindo um vestido amarelo sujo de lama. Ela estava de costas para eles, parada imóvel.
— Tem alguém vivo! — Maya fez menção de abrir a porta da cabine.
— Espere! — gritou Noah, sua voz subindo em um tom de puro terror. — Olhem para as sombras dela!
Victor apertou os olhos. Sob a luz dos faróis, a menina projetava uma sombra no asfalto. Mas a sombra não era a de uma criança. Era longa, distorcida, com membros que terminavam em garras finas e uma cauda que chicoteava o solo de forma rítmica.
A "menina" começou a se virar lentamente. Seu rosto era uma máscara de pele humana esticada sobre uma estrutura óssea que claramente não pertencia a nossa espécie.
— Dante, dê a ré — Victor disse, a voz num sussurro de pânico absoluto. — Dante, tire a gente daqui agora!
Mas o motor do caminhão morreu. No silêncio que se seguiu, o som de risadas infantis começou a ecoar de todos os prédios ao redor, vindas de sombras que começavam a se mover em direção ao veículo.
A caçada não tinha acabado. Ela tinha apenas mudado de forma. E na Ilha Nublar, a pior coisa que você podia encontrar não era um monstro que rugia, mas um que sorria.