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Pesadelos de Guy

O Despertar do Herdeiro e o Banquete do Caos

A notícia da gravidez de Rimuru Tempest não se espalhou apenas por Tempest; ela reverberou pelo mundo espiritual e material como um terremoto de energia mágica. No entanto, dentro das paredes do palácio, a realidade era muito menos épica e muito mais... complicada. Rimuru estava sentada à mesa de jantar, observando com uma mistura de horror e fascínio o prato à sua frente: fatias de carne de kaiser mergulhadas em mel silvestre, cobertas com picles de rabanete e uma pitada de canela.

— Você tem certeza de que quer comer isso? — perguntou Guy, sentado à cabeceira da mesa, observando a iguaria com uma expressão de legítimo nojo. — Eu sou um demônio primordial, Rimuru. Eu vi o nascimento de estrelas e o colapso de civilizações, mas essa combinação é a coisa mais aterrorizante que já presenciei.

Rimuru pegou um pedaço da carne, levando-o à boca com um suspiro de satisfação que beirava o indecente.

— Você não entende, Guy — disse ela, mastigando com gosto — É como se o meu corpo estivesse exigindo cada um desses sabores simultaneamente. Raphael diz que é a flutuação da energia mágica do bebê tentando se estabilizar.

— O bebê tem um gosto deplorável, então — Guy retrucou, embora seus olhos não saíssem da figura de Rimuru. Mesmo pálida e com desejos estranhos, ela parecia irradiar uma luz que o prendia de uma forma que ele nunca admitiria em voz alta diante do Octagrama.

A porta da sala de jantar se abriu com um estrondo familiar. Veldora entrou, carregando uma pilha de pergaminhos e o que parecia ser uma armadura em miniatura, feita de escamas de dragão e ouro.

— RIMURU! — gritou o dragão, ignorando completamente a presença de Guy. — Eu terminei o primeiro rascunho do currículo de treinamento para o meu sobrinho! Começaremos com o "Rugido da Tempestade Nível 1" assim que ele aprender a engatinhar. E olhe isso! Eu mesmo forjei esta proteção peitoral. Ela aguenta um ataque direto de um lorde demônio de classe baixa!

Guy soltou uma risada seca, levantando-se e caminhando até Veldora.

— Um lorde demônio de classe baixa? — Guy desdenhou, tocando a armadura com a ponta do dedo. — Meu filho não vai precisar de sucata de dragão para se proteger. Ele terá a minha autoridade. O simples fato de ele existir fará com que o mundo se curve. Além disso, ele não vai "engatinhar". Ele vai flutuar sobre o sangue dos seus inimigos.

— Ele não vai flutuar sobre sangue nenhum! — Rimuru interveio, batendo o garfo na mesa. — Ele vai ser uma criança normal! Bem, o máximo de normal que um híbrido de slime, dragão e demônio pode ser. Veldora, guarde essa armadura. Ele vai nascer daqui a alguns meses, não vai para uma guerra amanhã.

— Mas Rimuru! — Veldora fez um bico dramático, sentando-se à mesa e pegando um dos picles de Rimuru, fazendo uma careta imediata ao provar. — Gwaaaaa! Que veneno é este?! Guy, você está tentando envenenar minha irmã?!

— É o desejo dela, seu lagarto estúpido — rosnou Guy.

— De qualquer forma — continuou Veldora, recuperando a compostura —, eu decidi que serei o guardião oficial do berçário. Ninguém entra sem a minha permissão. Especialmente este... este "pai" que não sabe o significado de espaço pessoal.

Guy inclinou-se sobre a mesa, os olhos brilhando em um vermelho predatório.

— Você acha que pode me manter longe do meu próprio herdeiro, Veldora? Eu adoraria ver você tentar. Talvez eu use o berço para decorar o meu trono no continente gelado, só para garantir que você tenha que pedir audiência sempre que quiser vê-lo.

— Tente e eu transformarei o seu palácio de gelo em uma poça de água morna! — ameaçou Veldora, levantando-se e liberando uma pressão mágica que fez os pratos vibrarem.

Rimuru sentiu uma pontada no estômago. Não era náusea desta vez, era irritação pura. Ela se levantou, sua aura de Slime Divina expandindo-se subitamente, silenciando os dois homens mais poderosos do mundo com um olhar que prometia sofrimento eterno.

— Se vocês dois não pararem de brigar por causa de um bebê que ainda nem tem nome — disse ela, sua voz calma e gélida —, eu juro que vou pedir para a Milim cuidar da criança e proibirei os dois de chegarem a menos de mil quilômetros de distância de Tempest.

Ambos empalideceram. A ideia de Milim — a definição de caos impulsivo — criando um bebê com poderes primordiais era um cenário de apocalipse que nem Guy nem Veldora queriam imaginar.

— Tudo bem, tudo bem — murmurou Veldora, sentando-se e cruzando os braços. — Eu só quero o melhor para ele.

— Eu também — disse Guy, sentando-se ao lado de Rimuru e, de forma possessiva, colocando a mão sobre o ventre dela. — Mas ele será um Crimson primeiro.

— Ele será um Tempest — rebateu Veldora em um sussurro, mas recuou quando viu Rimuru pegar o garfo novamente com um olhar perigoso.

O restante do jantar transcorreu em uma trégua armada. Rimuru terminou sua refeição bizarra enquanto Guy e Veldora começaram a discutir nomes. Foi uma batalha de egos sem fim. Guy sugeria nomes que soavam como divindades antigas e impiedosas, enquanto Veldora insistia em nomes que incluíssem "Tempestade", "Trovão" ou "O Destruidor de Mundos".

— Que tal "Lúcifer da Tempestade"? — sugeriu Veldora, orgulhoso de si mesmo.

— Brega — cortou Guy. — Será "Veredito do Caos".

— Vocês dois são horríveis nisso — disse Rimuru, limpando a boca com o lenço. — O nome será escolhido por mim, quando eu vir o rosto dele. E agora, eu quero dormir. Guy, você vem. Veldora, vá ler seus mangás e pare de forjar armaduras para recém-nascidos.

Guy sorriu vitoriosamente para Veldora enquanto se levantava e oferecia o braço para Rimuru.

— Boa noite, lagarto — disse Guy, enquanto guiava Rimuru para fora da sala. — Tente não chorar muito sozinho na biblioteca.

Veldora rosnou, mas ficou parado, observando os dois saírem. No fundo, ele sentia uma pontada de solidão, mas também uma alegria imensa. Ele seria tio. Ele teria alguém para ensinar todas as "artes secretas" que aprendera nos mangás.

No quarto real, o clima mudou. A iluminação era suave, e o frio do lado de fora era barrado por barreiras mágicas potentes. Guy ajudou Rimuru a se despir do vestido pesado, seus dedos traçando as marcas que ele ainda fazia questão de deixar na pele dela, embora com muito mais delicadeza agora.

— Você está sendo cuidadoso demais — disse Rimuru, virando-se para ele enquanto vestia uma camisola de seda leve. — Raphael diz que o bebê é extremamente resistente. Você não precisa me tratar como se eu fosse quebrar.

Guy a puxou para perto, abraçando-a por trás e descansando as mãos sobre seu ventre. Ele encostou o rosto no pescoço dela, inalando o cheiro de mel e magia.

— Eu não tenho medo de que você quebre, Rimuru — sussurrou ele, sua voz perdendo a arrogância habitual. — Eu só... nunca imaginei que algo assim fosse possível para mim. Eu sou a personificação do Orgulho. Eu fui criado para destruir e governar. A ideia de criar algo... de ver uma parte de mim e uma parte de você crescendo... é a primeira vez em milênios que eu sinto algo parecido com medo.

Rimuru cobriu as mãos dele com as suas, sentindo o calor e a força do marido.

— Não é medo, Guy. É responsabilidade. E você não está sozinho. Você tem a mim, e infelizmente para você, tem o Veldora também.

Guy soltou uma risada curta.

— O dragão vai ser um problema. Ele já está planejando ensinar técnicas proibidas para a criança.

— E você vai tentar ensinar como ser um tirano — disse Rimuru, virando-se nos braços dele para olhar em seus olhos vermelhos. — Mas nós vamos encontrar um equilíbrio. Como sempre fazemos.

Guy a beijou, um beijo lento e profundo que carregava toda a promessa de proteção e posse que ele sentia. Ele a carregou para a cama, deitando-a com uma ternura que chocaria qualquer um que o conhecesse como o Lorde Demônio mais perigoso do Octagrama.

— Descanse, minha rainha — disse ele, deitando-se ao lado dela e puxando-a para o seu peito. — Amanhã teremos que lidar com a Shuna e a Shion. Elas já estão costurando roupas de bebê com fios de seda de aranha mágica.

Rimuru soltou uma risadinha, fechando os olhos.

— Tempest vai ficar pequena para tanto entusiasmo.

— Eu vou construir um novo palácio se for preciso — disse Guy, fechando os olhos também. — Um palácio que o mundo inteiro temerá, mas que será o berço do nosso herdeiro.

Enquanto o silêncio caía sobre o quarto, Rimuru sentiu um leve chute interno. Um pequeno movimento, quase imperceptível, mas carregado de uma energia vasta. Ela sorriu, sabendo que a vida de todos estava prestes a mudar drasticamente. O caos estava apenas começando, e ela não poderia estar mais pronta para ele.

No dia seguinte, a notícia oficial foi dada ao conselho de Tempest. Shion desmaiou de emoção (e quase destruiu o chão com sua força ao cair), enquanto Shuna começou a organizar um festival que duraria três meses. Rigurd já estava planejando a expansão da creche municipal e os três demônios primordiais sob o comando de Rimuru — Diablo, Carrera e Ultima — entraram em uma disputa acirrada sobre quem teria a honra de ser o primeiro "mestre de etiqueta" do jovem mestre ou senhorita.

— O herdeiro de Rimuru-sama deve ter a graça perfeita e o conhecimento absoluto de como servir chá! — exclamava Diablo, os olhos brilhando de forma maníaca.

— Besteira! — gritava Carrera. — Ele deve saber como obliterar uma montanha com um estalar de dedos! Isso é etiqueta de verdade!

Rimuru, observando a cena de sua varanda, sentiu Guy se aproximar novamente.

— Você acha que eles vão sobreviver até o nascimento? — perguntou ela, apontando para o caos no pátio abaixo.

Guy sorriu, abraçando-a pela cintura e puxando-a contra seu corpo, ignorando o fato de que Veldora estava voando em círculos lá no alto, soltando rugidos de alegria que faziam as nuvens se dissiparem.

— Provavelmente não — disse Guy. — Mas será divertido ver quem sobra.

— Você é terrível — disse Rimuru, mas ela se inclinou para beijá-lo, sentindo o pequeno coração batendo dentro dela, pronto para se tornar a nova tempestade que o mundo tanto esperava.

A união entre o Orgulho e a Tempestade havia gerado algo que ia além do poder político ou da força bruta. Era a criação de um novo futuro, onde demônios e dragões não eram apenas forças da natureza, mas uma família, por mais caótica e barulhenta que fosse. E Rimuru, no centro de tudo, sabia que não importava o quanto Guy e Veldora brigassem, ou o quanto o mundo tremesse diante de sua linhagem; ela seria a rainha que manteria todos unidos, um picles de mel por vez.