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Pesadelos de Guy

O Herdeiro do Caos: Entre Desejos, Enjôos e o Rugido de um Tio

O sol de Tempest brilhava com uma intensidade que Rimuru, em dias normais, acharia revigorante. No entanto, naquela manhã específica, cada raio de luz parecia uma marretada em sua têmpora. Sentada em seu trono de madeira entalhada, a líder da Federação Jura-Tempest não exibia sua habitual aura de comando inabalável. Em vez disso, ela estava pálida, com uma das mãos pressionando levemente o abdômen e a outra segurando um lenço de seda.

Guy Crimson estava ao seu lado, encostado no braço do trono com uma arrogância que beirava o insuportável. Ele não parecia nem um pouco afetado pelo clima tenso da sala; pelo contrário, exibia um sorriso de satisfação tão vasto que Rimuru sentia vontade de chutá-lo para fora do continente gelado.

— Você está péssima, minha rainha — comentou Guy, sua voz carregada de um deleite possessivo. Ele inclinou-se, deslizando a mão pelas costas de Rimuru até que seus dedos repousassem sobre a curva suave de seu quadril. — Mas é uma palidez que lhe cai bem. É o brilho de quem carrega algo puramente meu.

— Cale a boca, Guy — Rimuru murmurou, sentindo uma onda de náusea subir pela garganta. — Se você disser mais uma palavra sobre "sua semente" ou "seu legado", eu juro que vou pedir para o Veldora te selar em uma dimensão sem saída. Novamente.

Guy soltou uma risada baixa e vibrante.

— Você não faria isso. Você gosta demais do que eu faço entre os lençóis para me descartar agora. Especialmente agora que provamos ser... compatíveis além das expectativas.

Rimuru suspirou, fechando os olhos. O diagnóstico de Raphael fora implacável naquela manhã: "Análise concluída. Alteração hormonal detectada. Processo de gestação de uma entidade de energia mágica superior em andamento. Probabilidade de sucesso: 100%. Pai biológico: Guy Crimson."

A notícia deveria ser motivo de alegria, e no fundo, Rimuru sentia um calor estranho e terno em seu núcleo. Mas havia um problema. Um problema de proporções drásticas, escamosas e extremamente barulhentas.

— Onde ele está? — Rimuru perguntou, sua voz falhando levemente.

— Quem? O lagarto? — Guy deu de ombros, brincando com uma mecha do cabelo azul-prateado de Rimuru. — Ele estava na biblioteca, provavelmente tentando entender como um dragão pode ser derrotado por um demônio em um jogo de cartas. Ou talvez estivesse apenas sentindo que o universo mudou.

Como se fosse invocado pelo próprio pensamento, as portas do salão de audiências foram escancaradas com tamanha força que os guardas nas laterais quase caíram. Veldora Tempest entrou marchando, sua capa esvoaçando e sua aura de Dragão da Tempestade vazando pelas bordas, fazendo as janelas vibrarem.

— RIMURU! — Veldora parou no centro do salão, apontando um dedo dramático para a irmã. — Eu senti! Há uma flutuação na sua energia vital! É como se houvesse uma pequena tempestade crescendo dentro de você, mas... mas ela tem um cheiro horrível de enxofre e orgulho! O que esse demônio pervertido fez com você desta vez?!

Rimuru trocou um olhar rápido com Guy. O demônio primordial apenas ergueu as sobrancelhas, incentivando-a com o olhar.

— Veldora... — Rimuru começou, levantando-se devagar. Ela sentiu o leve relevo em sua barriga, algo quase imperceptível para olhos comuns, mas óbvio para seres de nível catastrófico. — Eu tenho algo para te contar. E eu preciso que você mantenha a calma. Promete?

— Calma?! Eu sou a definição de calma! — Veldora cruzou os braços, bufando fumaça pelas narinas. — Mas se o Guy te machucou ou usou alguma maldição proibida para drenar sua magia, eu vou...

— Eu estou grávida, Veldora.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que poderia ser cortado com uma faca de cozinha. Veldora congelou. Seus olhos amarelos piscaram uma, duas, três vezes. Ele olhou para Rimuru, depois para Guy — que agora estava com os braços cruzados sobre o peito, ostentando um olhar de triunfo absoluto —, e depois voltou para a barriga de Rimuru.

— Grávida? — Veldora repetiu a palavra como se fosse um conceito de física quântica complexo demais para sua compreensão. — Mas... mas isso é impossível! Rimuru, você é uma slime divina! Você é pura! Você é minha irmãzinha inocente que eu protegi por séculos dentro do meu coração! Para estar grávida, você teria que... você teria que ter feito...

Veldora parou, o rosto começando a alternar entre o branco pálido e o vermelho escarlate.

— Você não é mais virgem? — Ele perguntou, sua voz saindo em um guincho agudo que quebrou um dos vasos de cristal no fundo da sala.

Rimuru cobriu o rosto com as mãos, sentindo o calor da vergonha queimar suas bochechas.

— Veldora, eu sou casada com o Guy há algum tempo! O que você achava que a gente fazia quando trancávamos a porta do quarto? Jogávamos xadrez?

— EU ACHAVA QUE VOCÊS DISCUTIAM ESTRATÉGIAS DE GUERRA! — Veldora rugiu, agarrando os próprios cabelos. — Ou que ele estava apenas tentando te irritar! Eu não sabia que... que houve... contato físico explícito! Guy Crimson! Seu predador de slimes! Como ousa macular a pureza da linhagem Tempest!

Guy deu um passo à frente, sua aura vermelha colidindo com a aura dourada de Veldora.

— Macular? Eu a levei ao ápice da existência, dragão — Guy sibilou, seus olhos brilhando. — E o resultado é um ser que terá o poder de um Primordial e a essência de um Dragão Verdadeiro. Você deveria estar de joelhos me agradecendo por dar a você um herdeiro digno de seu nome.

— Agradecer?! — Veldora parecia pronto para se transformar em sua forma de dragão ali mesmo. — Eu vou é arrancar cada uma dessas suas asas vermelhas! Rimuru, como você pôde se deixar levar pelos instintos carnais desse demônio depravado?

Rimuru, exausta da discussão e sentindo uma pontada de fome súbita, bateu o pé no chão.

— CHEGA! — O grito dela, amplificado pela magia, fez os dois pararem instantaneamente. — Veldora, pare de agir como se eu tivesse sido sequestrada. Eu amo o Guy. E eu quis isso. E você, Guy, pare de provocar o meu irmão antes que eu mude de ideia e vá passar a gestação inteira em uma caverna isolada!

Veldora murchou visivelmente. Ele olhou para Rimuru, notando o cansaço em seus olhos e a forma carinhosa como ela tocava o ventre. De repente, a ficha finalmente caiu. O choque da "perda da pureza" foi substituído por uma percepção muito mais poderosa e emocionante para o dragão.

— Espere... — Veldora descruzou os braços, seus olhos brilhando com uma nova luz. — Se você está grávida... isso significa que eu... eu vou ser...

— Sim, Veldora — Rimuru sorriu, sentindo a náusea diminuir por um momento. — Você vai ser tio.

O rosto de Veldora se iluminou de uma forma que Rimuru nunca tinha visto. O ódio por Guy não desapareceu, mas foi empurrado para o fundo de sua mente por uma onda de entusiasmo infantil.

— Tio... — Veldora sussurrou. — Eu serei o Tio Veldora! O dragão que ensinará ao pequeno sobrinho como rugir e como destruir exércitos com um sopro! Eu serei o mentor supremo!

Ele começou a rir, aquela risada clássica e maníaca que ecoava por toda Tempest.

— HAHAHAHA! Sim! Um herdeiro da Tempestade! Guy, eu ainda te odeio por ter tocado na minha irmã, e eu ainda vou te dar uma surra por cada vez que você a deixou cansada — Veldora apontou para o demônio com uma seriedade cômica —, mas eu aceito esse sobrinho! Ele será magnífico!

Guy revirou os olhos, mas havia um relaxamento em sua postura.

— Ele ou ela será um Crimson, dragão. Não se esqueça disso.

— Ele será um Tempest! — Veldora rebateu. — E eu vou começar os preparativos agora mesmo! Ele precisa de brinquedos feitos de minério mágico! Ele precisa de livros sobre como ser um lorde supremo! Shuna! Shion! Venham aqui! Minha irmã vai dar à luz a um dragão-demônio!

Veldora saiu correndo do salão, gritando para quem quisesse ouvir, espalhando a notícia mais bombástica da história da Federação Jura-Tempest em questão de segundos.

Rimuru soltou um suspiro longo, deixando seu corpo cair de volta no trono. Guy aproximou-se, sentando-se no braço do trono novamente e puxando a cabeça de Rimuru para descansar em seu ombro.

— Viu? Eu disse que ele aceitaria — Guy murmurou, beijando o topo da cabeça dela. — Ele é barulhento, mas é previsível.

— Eu estou exausta, Guy — Rimuru confessou, fechando os olhos. — E com fome. Eu quero bifes de carne de kaiser, mas com mel. E picles.

Guy fez uma careta de desgosto.

— Mel e picles? Seus desejos são tão caóticos quanto a sua natureza, Rimuru.

— É o seu filho que está pedindo — ela retrucou, abrindo um olho e lançando-lhe um olhar desafiador. — Vai buscar ou eu peço para o Veldora?

Guy suspirou, mas havia uma doçura rara em seus olhos vermelhos. Ele se inclinou e depositou um beijo suave nos lábios de Rimuru, antes de descer para beijar a barriga dela, onde o relevo começava a se tornar uma promessa real de vida.

— Eu busco — ele disse, levantando-se. — Mas saiba que, assim que esse pequeno nascer, eu vou cobrar cada picles e cada enjoo que você me fez passar. Com juros.

— Mal posso esperar — Rimuru sorriu, sentindo-se, pela primeira vez em dias, verdadeiramente em paz.

Enquanto Guy saía para buscar as iguarias estranhas e os gritos de comemoração de Veldora podiam ser ouvidos do lado de fora, Rimuru acariciou seu ventre. O futuro era incerto, e a combinação de um Dragão Verdadeiro com um Demônio Primordial certamente traria um caos sem precedentes ao mundo. Mas, olhando para o relevo em sua barriga, Rimuru sabia que não importava o quão protetor fosse seu irmão ou quão orgulhoso fosse seu marido; aquele pequeno ser já era o centro de seu universo.

— Raphael — ela chamou mentalmente.

— Sim, mestre?

— Comece a pesquisar sobre "como criar um bebê que pode destruir o mundo". Acho que vamos precisar de um manual.

— Entendido. Iniciando pesquisa e criando protocolos de segurança... e de paciência.

Rimuru riu baixinho, acomodando-se no trono. A gravidez era apenas o começo de uma nova e caótica aventura. E ela não mudaria nada.