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Peso

Cinzas e Segredos

O silêncio do quarto de Giovanna era interrompido apenas pelo som rítmico do relógio de parede, que parecia martelar cada segundo de sua agonia. Ela estava deitada, mas não dormia. Seus olhos, antes cheios de vida e determinação, agora eram dois poços de apatia. A imagem do carro em chamas, descrita pelo policial, repetia-se em sua mente como um filme de terror em looping.

A porta do quarto rangeu suavemente. Clara Torres entrou, trazendo uma bandeja com chá e torradas. Ela se sentou na beira da cama, observando a filha com uma expressão que misturava preocupação genuína e uma rigidez aristocrática.

— Você precisa comer alguma coisa, Giovanna — disse Clara, a voz suave, mas autoritária. — Ficar sem se alimentar não vai trazê-la de volta.

— Eu não quero comida, mãe — respondeu Giovanna, a voz rouca. — Eu só quero entender... por que ela fugiu? Por que ela estava com aquele homem? Nada faz sentido.

Clara suspirou, deixando a bandeja de lado e pegando a mão fria da filha.

— Querida, às vezes as pessoas que mais amamos são as que escondem as faces mais sombrias. Maya era jovem, ambiciosa... talvez a pressão de viver sob o nome Torres tenha sido demais para ela. Ou talvez, como Lorena suspeitava, ela estivesse apenas esperando o momento certo para partir com o que conseguiu.

— Não diga isso! — Giovanna sentou-se na cama com esforço, os olhos brilhando com uma faísca de raiva. — Ela me amava. Eu sentia isso.

— O amor pode ser simulado, Giovanna. A lealdade, não — Clara acariciou o rosto da filha. — Olhe para quem ficou ao seu lado. A Lorena não saiu daquela varanda desde que o acidente aconteceu. Ela está devastada por ver você assim. Ela sim é alguém que conhece suas raízes, que entende quem você é.

Giovanna baixou a cabeça, as lágrimas voltando a cair silenciosamente. As palavras da mãe começavam a se infiltrar em suas rachaduras emocionais.

— A Lorena disse que ela me usou... — sussurrou Giovanna.

— A Lorena só quer o seu bem, assim como eu — insistiu Clara, apertando a mão da filha. — Agora, descanse. O Doutor Elias virá amanhã para conversarmos sobre os trâmites legais. Precisamos encerrar esse capítulo, por mais doloroso que seja.

....

Enquanto isso, na penumbra da cabana escondida na floresta, o clima era de urgência e dor física. Malu Torres examinava o ferimento na perna de Sarah à luz de uma lanterna velha, enquanto Maya, encostada na parede de madeira, lutava contra uma onda repentina de náusea que a fez empalidecer ainda mais.

— Precisamos sair daqui antes do amanhecer — disse Malu, levantando-se com dificuldade, sentindo as costelas protestarem. — Eu tenho uma propriedade pequena, um refúgio que comprei no nome de um laranja anos atrás. Fica a três horas daqui, seguindo pelas trilhas internas da mata. Lá teremos suprimentos médicos e, mais importante, segurança.

Sarah assentiu, tentando se levantar, mas vacilou. Malu a segurou imediatamente.

— Devagar, meu amor. Você perdeu sangue.

Maya tentou dar um passo para ajudar, mas uma tontura avassaladora a fez cambalear. Ela levou a mão à boca, sentindo o estômago revirar violentamente.

— Maya? — Sarah perguntou, observando a outra mulher com atenção. — Você está bem? Foi o impacto do acidente?

— Eu... eu não sei — Maya respirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos. — Sinto um enjoo horrível. Deve ser a adrenalina baixando... ou o cheiro de fumaça que não sai do meu nariz.

Sarah trocou um olhar rápido e significativo com Malu. Como alguém que já havia passado por situações extremas e conhecia bem os sinais do corpo feminino, Sarah notou algo diferente no brilho dos olhos de Maya e na forma como ela protegia inconscientemente a região do ventre ao se curvar.

— Vamos — disse Malu, decidindo não comentar nada por enquanto. O momento era de fuga. — Apoiem-se em mim. O caminho é difícil, mas é a nossa única chance de permanecermos "mortas" para o mundo.

A caminhada pela mata fechada foi um teste de resistência. O orvalho da madrugada molhava suas roupas rasgadas, e cada galho que estalava sob seus pés soava como um tiro no silêncio da floresta. Malu liderava o caminho com uma bússola e um mapa mental que parecia ter decorado há anos.

Maya, no entanto, era quem mais sofria. Além da dor do acidente, a sensação de mal-estar ia e vinha em ondas. O cheiro da terra úmida, que normalmente seria agradável, parecia intensificar sua náusea.

— Falta muito? — perguntou Maya, a voz trêmula.

— Estamos quase lá — respondeu Malu, parando por um momento para verificar os arredores. — Veem aquela clareira à frente? A casa está camuflada sob os pinheiros.

Quando finalmente alcançaram a pequena construção de pedra e madeira, o dia começava a clarear. Malu abriu a porta e ajudou as duas a entrarem. O interior era simples, mas limpo e equipado com o essencial.

Sarah desabou no sofá, enquanto Maya correu para o pequeno banheiro, onde o som de sua ânsia de vômito ecoou pelas paredes finas.

Malu começou a pegar um kit de primeiros socorros em um armário alto, mas parou ao ver Sarah observando a porta do banheiro com uma expressão séria.

— Você notou, não foi? — sussurrou Sarah para Malu.

— O enjoo? Sim. Pode ser concussão, o choque... — Malu tentou racionalizar.

— Não é concussão, Malu — Sarah balançou a cabeça negativamente. — Eu vi como ela reagiu ao cheiro da comida enlatada que você abriu. E a palidez... é diferente.

Malu sentiu um peso no peito. Se o que Sarah suspeitava fosse verdade, a situação acabava de se tornar infinitamente mais complicada.

— Se ela estiver grávida da Giovanna... — Malu começou, mas a voz falhou.

— Se ela estiver grávida, a Lorena e a sua mãe têm um motivo a mais para garantir que ela nunca saia daquela floresta — completou Sarah.

Maya saiu do banheiro, limpando o rosto com uma toalha. Ela parecia exausta, mas seus olhos encontraram os de Malu com uma determinação renovada.

— Eu não vou deixar a Giovanna nas mãos daquelas mulheres — afirmou Maya, ignorando sua própria fraqueza. — Malu, você disse que sua mãe orquestrou aquele atentado contra a Giovanna meses atrás. Por quê? Por que ela machucaria a própria filha?

Malu suspirou, sentando-se à mesa e fazendo sinal para que Maya fizesse o mesmo.

— Porque Clara Torres não vê filhas. Ela vê ativos. Giovanna é o rosto da empresa, a sucessora que ela moldou. Mas a Giovanna estava começando a ter ideias próprias, estava se tornando independente demais por causa de você, Maya. O ataque não era para matar. Era para deixá-la vulnerável, dependente da mãe novamente. E, claro, para colocar a culpa em você e tirar você do caminho legalmente.

— E a Lorena? — perguntou Maya.

— A Lorena é o parasita — disse Malu com desprezo. — Ela sempre quis a vida da Giovanna. Não o dinheiro, mas a essência dela. Ela quer ser a única pessoa que a Giovanna ama, a única em quem ela confia. Ela é perversa, Maya. Ela se alimenta da insegurança da minha irmã.

Maya apertou as mãos sobre a mesa, os nós dos dedos brancos.

— Elas acham que ganharam. Elas acham que eu sou apenas cinzas em uma estrada.

— Deixe que achem — disse Malu, segurando a mão de Maya. — Aqui, você está segura. Vamos nos recuperar, reunir provas e, quando voltarmos, não será para pedir explicações. Será para retomar o que é seu e libertar a Giovanna daquele ninho de cobras.

Sarah aproximou-se, colocando a mão no ombro de Maya.

— Mas para isso, você precisa se cuidar. Especialmente agora.

Maya olhou para Sarah, captando o subtexto na voz da outra. Um silêncio carregado de entendimento passou entre as três. Maya levou a mão ao próprio ventre, um gesto instintivo que confirmava as suspeitas de Sarah. O medo em seus olhos foi substituído por uma força feroz. Ela não lutava mais apenas por si mesma ou pelo seu casamento. Ela lutava por uma vida que nem mesmo Giovanna sabia que existia.

— Elas não sabem com quem se meteram — sussurrou Maya, a voz fria como o gelo. — Eu vou voltar. E vou levar a Giovanna comigo, nem que eu tenha que queimar aquela fazenda inteira com a Lorena dentro.

Malu sorriu, um sorriso sombrio que carregava todo o peso do sobrenome Torres.

— Bem-vinda à família, Maya. Agora, vamos planejar a queda de Clara Torres.