Peso
O Eco do Sangue e do Silêncio
A luz da manhã filtrava-se pelas frestas das tábuas de madeira da cabana, trazendo consigo o cheiro de terra úmida e o som distante de pássaros que pareciam alheios à tragédia que se desenrolava. Para Maya, no entanto, o amanhecer não trazia esperança, apenas uma consciência dolorosa de que cada osso do seu corpo parecia ter sido moído. Ela tentou se sentar, mas o mundo deu um solavanco violento.
A náusea voltou, mais forte do que na noite anterior. Ela se inclinou para fora da cama, alcançando um balde que Sarah estrategicamente deixara ali. O esforço a deixou trêmula, o suor frio escorrendo pelas têmporas.
— Devagar, Maya — a voz de Sarah soou calma na porta. Ela trazia uma xícara de chá fumegante e algumas torradas secas. — Seu corpo está tentando processar o trauma. Você precisa de sustento, mesmo que seu estômago discorde.
Maya limpou a boca com as costas da mão, os olhos lacrimejantes.
— Eu me sinto como se estivesse morrendo por dentro, Sarah. Não é só a dor física. É como se houvesse um buraco negro no meu peito.
— O que você sente agora é o luto pela vida que você tinha — Sarah sentou-se na beira da cama, oferecendo o chá. — Mas lembre-se do que Malu disse. A Giovanna precisa que você esteja viva. E para estar viva, você precisa comer.
Maya aceitou a xícara, mas o aroma do chá de ervas, que antes seria reconfortante, pareceu subitamente invasivo. Ela forçou um gole, sentindo o líquido quente descer queimando.
— Onde está a Malu? — perguntou Maya, tentando desviar o foco de seu próprio mal-estar.
— Na sala. Ela conseguiu sintonizar alguns rádios e está acessando a rede escura. Ela quer ver como a narrativa está sendo construída lá fora.
Enquanto isso, na sala principal, o clima era de guerra fria. Malu estava cercada por três telas de laptops antigos, mas potentes. O brilho azulado das telas refletia em seus olhos cansados, mas determinados. Ela digitava freneticamente, interceptando comunicações que a maioria das pessoas nem sabia que existiam.
— Elas são rápidas — murmurou Malu para si mesma, quando Sarah entrou na sala. — Olhe isso.
Sarah aproximou-se, observando a tela. Era um portal de notícias local, mas o destaque era nacional. A manchete gritava: "Tragédia na Família Torres: Esposa de Herdeira Morre em Fuga com Cúmplice". Abaixo, uma foto de Maya, sorridente, ao lado de uma imagem borrada de um homem que a polícia alegava ser seu amante e parceiro de crimes.
— Elas plantaram a história perfeitamente — disse Sarah, cruzando os braços. — Estão pintando a Maya como uma aproveitadora que estava roubando a família e fugindo quando o acidente aconteceu.
— E olha o depoimento da Lorena — Malu apontou para um parágrafo mais abaixo. — "Estou devastada por Giovanna. Tentei avisá-la, mas o amor a cegou. Agora, meu único foco é protegê-la das consequências legais dos atos de Maya".
Malu soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor.
— Proteger? Lorena quer é isolar a Giovanna. Se ela convencer a polícia de que a Maya estava envolvida em crimes financeiros, ela pode até tentar anular o casamento retroativamente ou garantir que qualquer bem que a Maya tivesse passe para o controle da "família". Ou seja, dela e da minha mãe.
— E a Giovanna? — Sarah perguntou, preocupada. — Como ela está reagindo?
— As notícias dizem que ela está "sob cuidados médicos devido ao choque extremo" — Malu cerrou os punhos. — Tradução: minha mãe a mantém dopada na mansão, cercada por enfermeiros pagos para não deixarem ninguém entrar e nem ela sair.
Nesse momento, Maya apareceu no batente da porta, apoiando-se no portal. Ela estava pálida, mas seus olhos brilhavam com uma fúria renovada ao ouvir o nome de Giovanna.
— Elas a drogaram? — a voz de Maya saiu num sussurro perigoso.
— É o modus operandi da Clara — respondeu Malu, virando a cadeira para encarar a cunhada. — Ela fez o mesmo comigo antes de me expulsar. Ela cria uma "crise de saúde" para justificar o isolamento da vítima. Assim, ninguém questiona por que a Giovanna não fala com a imprensa ou por que não comparece aos trâmites do... do seu suposto funeral.
Maya sentiu um calafrio. Um funeral. O mundo achava que ela estava morta.
— Eu preciso ir até lá — disse Maya, dando um passo instável à frente. — Eu preciso tirar ela daquela casa.
— Você não vai a lugar nenhum nesse estado, Maya! — Sarah interveio, segurando-a pelos ombros. — Você mal consegue ficar de pé. Além disso, a mansão Torres é uma fortaleza. Se você aparecer lá agora, Lorena simplesmente chama a polícia, diz que você forjou a própria morte para escapar e você acaba em uma cela de isolamento antes de conseguir dizer "oi" para a Giovanna.
Maya desabou no sofá, cobrindo o rosto com as mãos. O peso da impotência era esmagador.
— Então o que fazemos? Ficamos aqui assistindo elas destruírem a alma da mulher que eu amo?
— Não — disse Malu, levantando-se e caminhando até ela. — Nós jogamos o jogo delas, mas com as nossas regras. Elas acham que o tabuleiro está limpo, que as peças foram removidas. Elas não sabem que eu estou viva, e não sabem que você sobreviveu. Esse é o nosso único trunfo: o elemento surpresa.
Malu pegou um pequeno dispositivo eletrônico da mesa.
— Eu tenho acesso às câmeras de segurança externas da mansão por um backdoor que instalei anos atrás. Não consigo ver o que acontece nos quartos, mas consigo monitorar quem entra e quem sai. Precisamos de um aliado lá dentro. Alguém que a Lorena não suspeite.
— A governanta, Sra. Adélia? — sugeriu Maya. — Ela sempre foi bondosa comigo.
— Adélia é leal, mas é medrosa — Malu balançou a cabeça. — Minha mãe a esmagaria em um segundo. Precisamos de alguém com dentes.
O silêncio caiu sobre a sala, interrompido apenas pelo zumbido dos computadores. Maya sentiu outra onda de náusea, mas desta vez, ela a ignorou com todas as suas forças. Ela precisava pensar. Precisava ser a Maya que Giovanna admirava, a mulher que não se curvava diante das tempestades.
— E a advogada da família, a Dra. Beatriz? — perguntou Maya. — Ela e a Lorena nunca se deram bem. Beatriz sempre prezou pela ética, por mais que a minha sogra tentasse comprá-la.
Malu pareceu considerar a ideia.
— Beatriz... sim. Ela tem um código de conduta rígido. Se apresentarmos provas de que a Lorena está manipulando a Giovanna e forjando evidências contra você, ela pode ser a nossa ponte legal. Mas como chegamos a ela sem sermos detectadas?
— Eu posso ir — disse Sarah. — Ninguém me conhece. Eu sou apenas uma estranha. Posso me passar por uma cliente ou uma entregadora.
— É perigoso demais — rebateu Malu prontamente, o instinto de proteção falando alto.
— Mais perigoso é ficarmos paradas enquanto a Giovanna é destruída — Sarah segurou a mão de Malu. — Eu sei me cuidar. Você sabe disso.
Maya observava a interação das duas. Havia um amor ali, temperado por anos de sobrevivência e segredos. Ela sentiu uma pontada de inveja, não por malícia, mas por saudade. Ela queria estar segurando a mão de Giovanna daquela maneira.
— Sarah tem razão — disse Maya. — Mas antes de qualquer coisa, Malu... você disse que tinha provas. O que você realmente sabe sobre o acidente?
Malu suspirou e voltou-se para a tela principal. Ela abriu um arquivo de vídeo recuperado de uma câmera de monitoramento rodoviário que a polícia alegara estar "em manutenção".
— O carro que bateu em vocês não foi um acidente de percurso. Ele estava parado no acostamento, esperando. Assim que o seu carro passou, ele acelerou. O motorista não tentou frear. Foi um ataque direto.
Maya assistiu às imagens granuladas. O impacto, o clarão, o horror. Ela viu o momento em que o seu carro capotou e foi jogado para fora da estrada.
— E quem era o motorista? — a voz de Maya tremeu.
— Um ex-segurança da empresa Torres — revelou Malu. — Alguém que foi demitido por "má conduta" há seis meses, mas que continuou recebendo pagamentos mensais de uma conta fantasma vinculada a uma das fundações da Lorena.
— Ela tentou me matar — sussurrou Maya, a realidade finalmente se assentando. — Ela tentou me matar e matar quem quer que estivesse comigo.
— Ela queria você morta e a culpa colocada em um escândalo de traição — completou Malu. — Um crime passional ou uma fuga malfadada. É limpo, é eficiente e deixa a Giovanna vulnerável e dependente dela.
Maya levantou-se, a náusea subitamente substituída por uma clareza fria e cortante.
— Então vamos dar a ela o que ela quer por enquanto. Vamos deixá-la acreditar que venceu. Sarah, você vai procurar a Dra. Beatriz. Malu, continue cavando essa trilha de dinheiro. Eu vou me recuperar.
— Maya... — Sarah começou, notando a palidez da outra.
— Eu vou ficar bem — interrompeu Maya, com uma firmeza que surpreendeu a ambas. — Eu tenho um motivo para lutar que a Lorena nunca vai entender.
Ela se virou para voltar ao quarto, mas parou no meio do caminho, uma mão instintivamente repousando sobre o ventre. Ela ainda não tinha certeza, e o medo de que suas suspeitas fossem reais era tão grande quanto a esperança que elas traziam. Se houvesse uma vida crescendo ali, fruto do amor puro que compartilhava com Giovanna, ela a protegeria com cada gota de seu sangue.
Horas depois, enquanto Sarah se preparava para partir em sua missão de reconhecimento, Malu chamou Maya para um canto da cozinha.
— Maya, eu vi como você está agindo. A Sarah me contou as suspeitas dela.
Maya sentiu o coração disparar.
— São só suspeitas, Malu. O estresse, o acidente... meu corpo está confuso.
— Escute-me — Malu baixou a voz, seus olhos fixos nos de Maya. — Se você estiver grávida, a dinâmica muda completamente. Minha mãe e a Lorena... elas não veem um bebê como uma vida. Elas veem como uma ameaça à linha sucessória ou como uma ferramenta de chantagem. Se a Lorena descobrir, ela não vai descansar até que você e essa criança desapareçam de vez.
— Eu sei — respondeu Maya, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Por isso ela nunca pode saber. Ninguém pode saber, até que a Giovanna esteja segura.
— Prometa-me que, se os sintomas piorarem, você vai me contar — pediu Malu. — Eu tenho alguns suprimentos médicos aqui, mas posso conseguir mais se souber o que procurar.
— Eu prometo.
Sarah partiu ao entardecer, levando consigo a esperança de um primeiro contato com o mundo exterior. A cabana mergulhou em um silêncio tenso. Malu voltou aos seus códigos e Maya deitou-se, tentando fechar os olhos.
Em seus sonhos, ela não via mais o fogo. Ela via um campo de flores brancas, as favoritas de Giovanna. Ela via a esposa sorrindo, estendendo a mão para ela. Mas, no sonho, quando Maya tentava tocar a mão de Giovanna, uma sombra negra se erguia entre elas, uma sombra com os olhos gélidos de Clara Torres.
Maya acordou sobressaltada, o suor ensopando seus lençóis. O enjoo voltou, mas desta vez, ela não correu para o balde. Ela respirou fundo, controlando a musculatura do abdômen, enviando um comando silencioso para o próprio corpo.
— Aguenta firme — sussurrou ela para o vazio do quarto. — Aguenta firme por ela.
Na mansão Torres, a quilômetros dali, Giovanna estava sentada em uma poltrona à beira da janela, olhando para o jardim escuro. Uma enfermeira acabara de sair, deixando um copo de água e um comprimido sobre a mesa. Giovanna não tocou em nada.
A porta se abriu e Lorena entrou, exibindo um sorriso de compaixão que não chegava aos olhos.
— Você precisa descansar, querida. O médico disse que você está muito agitada.
— Eu quero ver o corpo, Lorena — disse Giovanna, sua voz soando oca. — Eu não fui ao reconhecimento. Minha mãe não deixou.
— Não havia nada para reconhecer, Giovanna — mentiu Lorena, aproximando-se e colocando a mão no ombro da amiga. — O fogo... foi devastador. É melhor você guardar a imagem dela como era antes. A Maya que você amava, não a mulher que te traiu no final.
Giovanna afastou-se do toque de Lorena, um lampejo de desconfiança cruzando seus olhos nublados pela dor.
— Você fala dela como se ela fosse um monstro.
— Eu falo dela como alguém que viu a verdade — rebateu Lorena suavemente. — Mas não se preocupe. Eu estou aqui. Eu sempre estarei aqui para cuidar de você.
Quando Lorena saiu, Giovanna olhou para o comprimido sobre a mesa. Com um gesto rápido, ela o pegou e o jogou dentro de um vaso de plantas. Ela precisava de sua mente clara. Havia algo errado, um instinto primordial gritando em seu ouvido que a história que lhe contavam era uma colcha de retalhos feita de mentiras.
Ela tocou a aliança em seu dedo, o metal frio contra a pele.
— Onde você está, Maya? — sussurrou para a noite.
A resposta não veio em palavras, mas em um súbito e inexplicável calor que percorreu seu peito, uma conexão que nem mesmo o luto conseguira cortar. A guerra estava, de fato, apenas começando, e as peças no tabuleiro estavam prestes a se mover de formas que nem Lorena, nem Clara, poderiam prever.