Pião todo tatuado
Crinas ao Vento e o Brilho do Olhar
A manhã seguinte na Fazenda Park parecia vibrar com uma energia diferente. O embate silencioso — e nem tão silencioso assim — entre Jimin e Jungkook no dia anterior ainda ecoava na mente do loiro. Jimin acordou decidido a não deixar que aquele "cowboy petulante" dominasse seus pensamentos, mas o destino, ou talvez apenas o tédio produtivo do interior, tinha outros planos.
— Acordem, belas adormecidas! — Jin entrou no quarto de Jimin e Taehyung batendo palmas, já devidamente trajado com uma calça jeans impecável e uma camisa polo que gritava "herdeiro em férias". — O pai do Jimin disse que os cavalos estão selados. Vamos cavalgar até o riacho da divisa.
Taehyung, que estava enterrado sob três travesseiros, resmungou algo que parecia um xingamento em uma língua esquecida.
— Cavalgar? Jin, eu mal consigo andar em linha reta depois daquela caminhada de ontem — reclamou Taehyung, sentando-se com o cabelo loiro totalmente bagunçado. — E se o cavalo decidir que não gosta da minha cor de cabelo?
— Deixa de drama, Tae — Jimin disse, saindo do banheiro já pronto. Ele usava uma calça de montaria preta que acentuava suas coxas torneadas pela dança e uma camisa branca leve. — É só um passeio. Vai ser bom para limpar os pulmões dessa poluição de São Paulo que ainda deve estar neles.
— E para limpar a imagem daquele moreno da sua cabeça, não é, Minnie? — Taehyung provocou, com um sorriso ladino.
Jimin parou de ajeitar o cabelo e lançou um olhar mortal para o amigo.
— Se você mencionar aquele projeto de tratorista de novo, eu te derrubo do cavalo antes mesmo de sairmos da porteira.
— Ui, que medo do general loiro! — Jin riu, empurrando os dois para fora do quarto.
No estábulo da Fazenda Park, o cheiro de feno e couro dominava o ar. Park Jisung já os esperava com três cavalos mansos. Jimin montou em um animal de pelagem baia, demonstrando uma elegância natural que deixou até seu pai orgulhoso. Jin e Taehyung, após algumas trapalhadas e risadas, finalmente se acomodaram em seus selins.
O passeio começou tranquilo. O sol ainda não estava forte, e a brisa trazia o perfume das flores de laranjeira. Eles cavalgavam por uma trilha ladeada por cercas de madeira, conversando sobre como a vida ali era, de fato, muito mais serena do que o caos da Avenida Paulista.
— Olhem aquele horizonte — Jin comentou, respirando fundo. — Às vezes a gente esquece que o mundo é maior do que quatro paredes de concreto.
— É verdade — concordou Jimin, sentindo-se finalmente relaxado. — Eu senti falta disso. Do silêncio.
Mas o silêncio não durou muito. Conforme se aproximavam da área de treinamento que ficava próxima à divisa com a Fazenda Jeon, o som de cascos galopando com força e risadas altas começou a preencher o ambiente.
— Parece que temos companhia — observou Taehyung, ajustando seu chapéu.
Ao contornarem uma pequena colina, os três loiros pararam os cavalos simultaneamente. À frente, em uma área plana e cercada, quatro rapazes estavam montados em cavalos imponentes, praticando algum tipo de manobra.
No centro de tudo, Jungkook. Ele estava sem chapéu, os cabelos negros levemente úmidos de suor, montando um garanhão negro que parecia a personificação da força. Ao lado dele, estavam três outros rapazes que os loiros ainda não conheciam, mas que certamente não passariam despercebidos em lugar nenhum do mundo.
— Meu Deus — sussurrou Taehyung, os olhos arregalados. — O que eles colocam na água dessa região? É algum tipo de fertilizante para beleza masculina?
Jimin tentou manter a compostura, mas seu coração deu uma batida errada. Jungkook, ao perceber a presença deles, puxou as rédeas, fazendo seu cavalo empinar levemente em uma demonstração de habilidade antes de parar.
— Olha só quem resolveu sair da cidade e enfrentar a poeira — Jungkook disse, a voz potente carregada daquele tom de desafio que fazia o sangue de Jimin ferver.
Os outros três rapazes se aproximaram, curiosos.
— Então esses são os amigos do Jimin que o seu pai mencionou? — perguntou um deles, um rapaz de ombros largos e um sorriso que parecia iluminar todo o pasto. — Prazer, eu sou o Namjoon.
— E eu sou o Hoseok! — disse outro, montado em um cavalo alazão. Ele tinha uma energia vibrante e um sorriso de coração que fez Taehyung piscar várias vezes. — Bem-vindos de volta ao interior!
— Eu sou o Yoongi — o terceiro se apresentou de forma mais contida. Ele tinha uma pele muito clara e olhos felinos que observaram Taehyung de cima a baixo com um interesse nada discreto. — Não liguem para o Jungkook, ele não tem modos com visitas.
Jimin respirou fundo e guiou seu cavalo para mais perto de Jungkook.
— Nós estávamos apenas passeando. Não sabíamos que o gado estava solto no treinamento — Jimin rebateu, devolvendo a provocação.
Jungkook riu, descendo do cavalo com uma agilidade impressionante. Ele caminhou até o animal de Jimin e segurou a rédea, forçando o loiro a olhar para baixo, diretamente em seus olhos escuros.
— O gado está bem guardado, loirinho. O que você está vendo aqui é talento puro — Jungkook disse, dando um tapinha no pescoço do cavalo negro. — Quer descer e ver de perto ou vai ficar aí em cima com medo de sujar a bota?
— Eu não tenho medo de nada que venha de você, Jungkook — Jimin sibilou, mas aceitou a mão que o moreno estendeu para ajudá-lo a descer.
Assim que os pés de Jimin tocaram o chão, ele sentiu a firmeza do aperto de Jungkook. Por um segundo, a proximidade foi tanta que Jimin pôde sentir o calor que emanava do corpo do outro.
Enquanto isso, a interação entre os outros era bem mais... peculiar.
— Você é o Jin, certo? — Namjoon perguntou, aproximando-se do loiro mais velho. — O senhor Park disse que você entende de administração. Eu cuido da parte logística das fazendas por aqui.
Jin, que raramente perdia a fala, deu um sorriso charmoso.
— Entendo sim. Mas confesso que estou mais interessado em saber como você consegue manter esse chapéu tão alinhado enquanto cavalga. É técnica ou talento natural?
Namjoon soltou uma risada profunda, e Jimin notou que Jin ficou levemente corado.
Do outro lado, Taehyung estava cercado por Hoseok e Yoongi.
— Você tem um estilo diferente, garoto — comentou Yoongi, com a voz arrastada, sem tirar os olhos de Taehyung. — Gosto desse cabelo. Combina com o pôr do sol.
— Ah, obrigado! — Taehyung respondeu, sentindo-se estranhamente tímido, algo raro para ele. — Eu mesmo que cuido. E você... você parece que não dorme há três dias ou que está pronto para me contar um segredo sombrio.
Hoseok soltou uma gargalhada alta, batendo no ombro de Yoongi.
— Ele é sempre assim, meio ranzinza. Mas é o melhor treinador que temos. E eu sou o que garante que ninguém morra de tédio por aqui. Quer que eu te ensine a laçar?
Taehyung olhou para Hoseok, depois para Yoongi, e abriu um sorriso quadrado.
— Eu adoraria. Mas se eu me enroscar na corda, vocês têm que me salvar.
Jimin, observando os amigos se entrosarem tão rápido, tentou se afastar de Jungkook, mas o moreno o seguiu até a cerca do estábulo.
— Seus amigos parecem estar gostando da vizinhança — comentou Jungkook, encostando-se na madeira e cruzando os braços, o que fez seus músculos saltarem sob a pele bronzeada.
— Eles são fáceis de agradar — Jimin respondeu, fingindo desinteresse enquanto observava o horizonte. — Já eu, exijo um pouco mais de substância.
Jungkook deu um passo para o lado, diminuindo a distância entre eles.
— Substância, é? — Ele baixou o tom de voz. — O que foi? O ar da cidade te deixou exigente demais ou você só está tentando manter essa pose de príncipe para esconder que ficou impressionado?
Jimin virou o rosto bruscamente para encará-lo.
— Impressionado com o quê? Com o seu trator ou com o fato de você não saber o que é um pente?
Jungkook soltou uma risada genuína, jogando a cabeça para trás.
— Você é irritadiço, Park Jimin. Eu gosto disso. A maioria das pessoas por aqui baixa a cabeça quando eu falo.
— Pois saiba que eu não sou "a maioria das pessoas" — Jimin disse, aproximando-se um passo, desafiador. — E se você levantar a voz para mim uma única vez, eu te garanto que você vai descobrir por que eu era chamado de furacão em São Paulo.
Jungkook sustentou o olhar. Não havia deboche agora, apenas uma curiosidade intensa e algo mais profundo, um brilho de admiração que ele não conseguia esconder totalmente.
— Eu não duvido — Jungkook sussurrou. — Mas aqui no interior, furacões costumam ser domados pela terra.
— Tente me domar e você vai acabar soterrado — Jimin rebateu, sentindo um frio na barriga que não tinha nada a ver com raiva.
— Ei, vocês dois! — A voz de Hoseok interrompeu o momento. — Vamos para o estábulo principal? O Namjoon trouxe umas frutas e o Yoongi prometeu não reclamar da vida por pelo menos meia hora.
Jimin se afastou de Jungkook, limpando a poeira invisível de suas roupas.
— Vamos. Eu estou com fome.
O grupo caminhou em direção ao estábulo maior da Fazenda Jeon. Era uma estrutura moderna, mas que mantinha o charme rústico. Lá dentro, o clima era de descontração. Enquanto Namjoon e Jin discutiam sobre preços de saca de soja e o futuro da economia rural, Taehyung estava sentado em um fardo de feno, ouvindo atentamente Hoseok contar histórias sobre rodeios, enquanto Yoongi ocasionalmente corrigia os exageros do amigo, sempre mantendo o olhar fixo em Taehyung.
Jimin sentou-se um pouco afastado, observando a cena. Ele percebeu que, apesar das diferenças, havia uma conexão imediata entre eles. Os "três loiros da cidade" e os "quatro brutos do campo" pareciam peças de um quebra-cabeça que ele nem sabia que estava incompleto.
Jungkook aproximou-se com duas maçãs, estendendo uma para Jimin.
— Para o cavalo ou para você? — perguntou Jimin, arqueando a sobrancelha.
— Para quem for menos teimoso — brincou Jungkook, sentando-se no chão, perto dos pés de Jimin.
Jimin pegou a fruta e deu uma mordida, sentindo a doçura explodir em sua boca. O silêncio que se seguiu entre os dois não foi desconfortável. Era como se a tensão inicial estivesse se transformando em algo novo, uma curiosidade mútua que nenhum dos dois estava pronto para admitir.
— Por que voltou, Jimin? — Jungkook perguntou de repente, a voz mais suave. — Alguém como você... parece que pertence às luzes da cidade, aos palcos, a lugares onde todo mundo possa te ver.
Jimin olhou para a maçã em sua mão, pensativo.
— Às vezes, as luzes da cidade te impedem de ver as estrelas, Jungkook. Eu precisava de silêncio. Precisava lembrar quem eu sou sem o barulho de dez milhões de pessoas em volta.
Jungkook olhou para ele, uma expressão de compreensão cruzando seu rosto.
— Entendo. Eu nunca saí daqui por muito tempo. Sinto que minhas raízes são profundas demais. Se eu sair, eu seco.
— Você é como um carvalho — comentou Jimin, sem pensar. — Forte, teimoso e difícil de contornar.
— E você é como o vento — Jungkook completou, olhando-o nos olhos. — Parece leve, mas se soprar do jeito certo, muda tudo de lugar.
Jimin sentiu o rosto esquentar e rapidamente desviou o olhar para os amigos.
— Olhe para o Taehyung — disse Jimin, tentando mudar de assunto. — Ele parece que encontrou dois novos brinquedos favoritos.
Taehyung estava rindo de algo que Hoseok disse, enquanto Yoongi fazia um carinho discreto em sua nuca, algo que o loiro parecia estar adorando.
— O Yoongi não é de se interessar fácil por ninguém — comentou Jungkook. — Seu amigo deve ter algo especial.
— Ele tem. O Taehyung é a pessoa mais pura que eu conheço — disse Jimin com orgulho. — E o Jin também. Eles são minha família.
— Bom, parece que a nossa vizinhança ficou bem mais interessante — concluiu Jungkook, levantando-se e estendendo a mão para Jimin. — Vamos? O sol está baixando e seu pai vai me matar se eu devolver o filho dele no escuro.
Jimin aceitou a mão de Jungkook para se levantar. Dessa vez, o moreno não soltou imediatamente. Ele segurou a mão de Jimin por alguns segundos a mais do que o necessário, o polegar roçando levemente as costas da mão do loiro.
— Até amanhã, loirinho? — perguntou Jungkook, com um sorriso desafiador.
Jimin puxou a mão, sentindo o coração disparado.
— Talvez. Se eu não tiver nada mais importante para fazer, como contar as formigas no quintal.
Jungkook riu alto, um som que ecoou pelo estábulo e fez os cavalos relincharem.
— Eu vou estar esperando.
Enquanto montavam em seus cavalos para voltar para a Fazenda Park, o trio de loiros estava em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos sobre os homens que acabaram de conhecer.
— Então... — começou Taehyung, quebrando o silêncio quando já estavam longe o suficiente. — O que acharam dos vizinhos?
— O Namjoon é extremamente inteligente — disse Jin, com um brilho diferente no olhar. — Ele tem uma visão de mundo fascinante.
— E o Hoseok e o Yoongi? — cutucou Jimin.
— O Hoseok é um raio de sol — admitiu Taehyung, suspirando. — E o Yoongi... bem, ele é como um café amargo que você não consegue parar de beber. Eu acho que estou com problemas.
— Todos nós estamos, Tae — Jimin murmurou, olhando para trás uma última vez e vendo a silhueta de Jungkook ao longe, ainda parado perto da cerca.
O interior, que Jimin achava que seria um lugar de calmaria e tédio, estava se revelando um campo de batalha para o seu coração. E, pela primeira vez, ele não tinha certeza se queria vencer aquela guerra ou se entregar completamente ao inimigo de olhos escuros e mãos tatuadas.
A noite caiu sobre a fazenda, mas as estrelas pareciam brilhar com uma intensidade nova. Jimin deitou-se em sua cama, o cheiro de Jungkook ainda parecendo impregnado em seus sentidos. Ele sabia que a partir daquele dia, nada seria igual. O concreto de São Paulo era coisa do passado; agora, seu mundo era feito de terra, cavalos e um moreno que insistia em chamá-lo de loirinho.
E, no fundo, Jimin percebeu que talvez não odiasse tanto aquele apelido assim.