Voltar ao resumo

Pião todo tatuado

O Despertar do Campo e o Encontro nos Estábulos

A primeira manhã na Fazenda Park não começou com o barulho incessante de buzinas ou o som metálico do metrô, mas sim com o canto insistente de um galo e o cheiro de café coado com canela que subia pelas frestas do assoalho de madeira. Jimin abriu os olhos devagar, sentindo o peso do edredom de penas. Ao seu lado, na outra cama de solteiro, Taehyung ainda era um amontoado de cobertas que emitia roncos baixos e rítmicos.

Jimin espreguiçou-se, sentindo cada músculo do corpo relaxar. O ar ali era diferente; era denso, úmido e carregava o frescor da grama molhada pelo orvalho. Ele se levantou e caminhou até a janela, abrindo as cortinas de linho. O sol estava começando a lamber o topo das árvores, tingindo o pasto de um dourado que fazia seus próprios cabelos loiros parecerem opacos em comparação.

— Acorda, Taehyung! — Jimin exclamou, puxando a coberta do amigo com um movimento brusco. — O dia já nasceu e o Jin já deve estar lá embaixo comendo metade do banquete que o papai preparou.

Taehyung resmungou, tentando se enrolar em posição fetal.

— Só mais cinco minutos, Minnie... Em São Paulo o sol nem chegou no topo dos prédios ainda...

— Aqui não tem prédio, Tae. Levanta logo ou eu vou deixar você sem as rabanadas da minha mãe — ameaçou Jimin, já indo em direção ao banheiro.

Pouco tempo depois, os dois desceram as escadas. Jin já estava à mesa, impecável em uma camisa de linho azul-claro, conversando animadamente com Park Jisung e Park Minho. O café da manhã era, como previsto, um exagero de hospitalidade rural: queijo fresco, bolos caseiros, frutas colhidas no pomar e pães quentes.

— Bom dia, dorminhocos! — Jin saudou, com a boca levemente suja de geleia. — Seus pais estavam me contando que os cavalos já estão prontos. Vamos dar uma volta pela propriedade depois do café.

— Eu não subo em nada que tenha vontade própria antes de tomar pelo menos duas xícaras de café — declarou Taehyung, jogando-se na cadeira e pegando um pedaço de queijo.

— Você vai adorar, Taehyung — disse Minho, sorrindo para o genro de consideração. — O cavalo que separamos para você é o mais calmo da região. Chama-se 'Soneca', combina com você.

Após a refeição, os três loiros se prepararam. Jimin usava uma calça justa e botas de couro que pertenciam ao seu pai, mas que serviam perfeitamente. Jin optou por um visual mais clássico, enquanto Taehyung insistiu em usar um lenço de seda no pescoço "para dar um toque de editorial de moda ao pasto".

Eles caminharam em direção aos estábulos da Fazenda Park. O sol agora estava mais forte, aquecendo a pele. Jimin sentia uma alegria genuína. Ele amava seus pais e o modo como eles cuidavam daquela terra com tanto carinho.

— Vamos até o riacho da divisa — sugeriu Jimin, montando com agilidade em seu cavalo, um animal de pelagem baia chamado Faísca. — É o lugar mais bonito da fazenda.

Eles cavalgaram por cerca de vinte minutos, atravessando trilhas cercadas por ipês e áreas de pastagem verdejante. O som dos cascos batendo na terra seca era a única música de que precisavam. No entanto, ao se aproximarem da cerca que dividia a propriedade dos Park da imensa Fazenda Jeon, o som de vozes masculinas e risadas altas chamou a atenção do trio.

— Parece que não somos os únicos com essa ideia — observou Jin, ajustando a postura na sela.

Ao contornarem um grande celeiro de madeira rústica que ficava bem na linha divisória, eles avistaram o grupo. Quatro rapazes estavam ali, cuidando de seus cavalos e limpando alguns equipamentos de montaria.

No centro do grupo, estava Jungkook. Ele usava uma regata branca que deixava à mostra os braços musculosos e cobertos por tatuagens, uma visão que fez Jimin segurar as rédeas com um pouco mais de força do que o necessário. O cabelo negro de Jungkook estava preso em um coque desajeitado, e ele tinha uma mancha de graxa na bochecha que, de alguma forma, só o tornava mais atraente.

Ao lado dele, um rapaz alto e de ombros largos, Namjoon, examinava uma sela com atenção. Mais adiante, um jovem com um sorriso vibrante, Hoseok, brincava com um cachorro de fazenda, enquanto um rapaz de pele muito clara e expressão serena, Yoongi, observava tudo encostado em uma pilastra, com um chapéu de palha cobrindo parte dos olhos.

— Ora, ora — disse Jungkook, levantando o olhar e abrindo um sorriso ladino ao ver os três loiros se aproximando. — Se não são os meninos da cidade grande. Achei que estariam dormindo até o meio-dia para recuperar a beleza.

Jimin parou o cavalo a poucos metros dele, arqueando uma sobrancelha.

— A beleza está intacta, Jungkook. Já a sua educação parece que ficou perdida em algum pasto por aí.

Jungkook soltou uma risada curta e rouca, caminhando até o cavalo de Jimin e segurando a rédea perto do freio.

— Você é bravo, loirinho. Gosto disso. Mas cuidado, o Faísca não gosta de movimentos bruscos, e eu também não.

Jimin sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar. A proximidade era eletrizante.

Enquanto isso, Taehyung e Jin desceram de seus cavalos, sendo recebidos pelos outros rapazes.

— Prazer, eu sou o Hoseok! — disse o rapaz do sorriso brilhante, aproximando-se de Taehyung. — Vocês devem ser os amigos do Jimin. Nossa, vocês três parecem modelos de revista. O que dão de comer para vocês em São Paulo?

Taehyung, que raramente ficava sem palavras, deu um sorriso tímido, olhando de relance para Yoongi, que continuava em silêncio, mas agora o observava com uma intensidade felina.

— É o ar poluído — brincou Taehyung. — Ele conserva a gente como se fôssemos peças de museu. Eu sou o Taehyung.

— E eu sou o Jin — apresentou-se o mais velho, caminhando até Namjoon. — Você parece ser o único aqui que realmente está trabalhando.

Namjoon deu um sorriso que revelou covinhas profundas, o que fez Jin esticar a coluna inconscientemente.

— Alguém tem que manter a ordem por aqui — respondeu Namjoon com uma voz grave e calma. — Eu sou o Namjoon. Jungkook e os outros são ótimos, mas às vezes se distraem com facilidade.

— Eu imagino o porquê — comentou Jin, olhando para a interação entre Jimin e Jungkook.

Jungkook ainda estava perto de Jimin, que agora também havia descido do cavalo. O loiro tentava ajeitar a sela, mas parecia estar tendo dificuldades com uma das fivelas.

— Deixa que eu faço isso, loirinho — disse Jungkook, aproximando-se por trás de Jimin e esticando os braços para alcançar a sela.

Jimin ficou prensado entre o corpo quente de Jungkook e o flanco do cavalo. Ele podia sentir o cheiro do moreno: uma mistura de sabão de coco, feno e algo puramente masculino.

— Eu sei fazer sozinho, Jungkook — protestou Jimin, embora suas mãos estivessem tremendo levemente.

— Eu sei que sabe — sussurrou Jungkook perto do ouvido de Jimin, fazendo os pelos da nuca do loiro se arrepiarem. — Mas eu gosto de ser útil. E você parece estar um pouco... tenso.

— É o sol — mentiu Jimin, virando-se para encarar o moreno assim que ele terminou de ajustar a fivela.

Os dois ficaram em silêncio por um momento, apenas se encarando. Jimin notou que os olhos de Jungkook não eram apenas escuros, eles tinham brilhos de mel quando o sol batia de lado. Ele era, sem dúvida, o homem mais bonito que Jimin já tinha visto, apesar da arrogância de cowboy.

A poucos metros dali, Taehyung estava sendo "instruído" por Hoseok sobre como escovar um cavalo, enquanto Yoongi finalmente se desequilibrou da pilastra e se aproximou.

— Você está fazendo errado, Hoseok — disse Yoongi, a voz arrastada e calma. — O garoto vai acabar levando um coice se você continuar incentivando ele a ficar atrás do animal.

Yoongi pegou a escova da mão de Hoseok e, por um breve segundo, seus dedos roçaram os de Taehyung. O loiro sentiu um choque percorrer seu braço.

— Eu sou o Yoongi — ele se apresentou, olhando diretamente nos olhos de Taehyung. — Se quiser aprender do jeito certo, venha comigo.

Taehyung engoliu em seco, sentindo-se dividido entre a energia solar de Hoseok e o mistério sombrio de Yoongi.

— Eu... eu aceito as duas aulas — respondeu Taehyung, fazendo Hoseok rir e Yoongi dar um meio sorriso quase imperceptível.

Jin e Namjoon, por outro lado, já estavam imersos em uma conversa sobre a produção de leite da região e as novas tecnologias de irrigação. Havia uma harmonia imediata entre eles, uma conexão de intelectos que parecia promissora.

— Vocês vão ficar para o almoço? — perguntou Namjoon, olhando para Jin. — O pessoal da cozinha da nossa fazenda faz uma galinhada que é famosa em três municípios.

Jin olhou para Jimin, que ainda estava em um duelo silencioso de olhares com Jungkook.

— Acho que seria uma ótima ideia — respondeu Jin. — O que você acha, Jimin?

Jimin desviou o olhar de Jungkook por um segundo, tentando recuperar o fôlego.

— Pode ser. Desde que o Jungkook prometa não tentar me "ensinar" nada durante a refeição.

Jungkook deu um sorriso vitorioso e assobiou para o seu cavalo, um animal negro e imponente que parecia uma extensão de sua própria personalidade.

— Não prometo nada, loirinho. O dia está apenas começando.

Enquanto o grupo se dirigia para a sede da Fazenda Jeon, Jimin caminhava ao lado de seus amigos. Taehyung estava radiante, ladeado por Hoseok e Yoongi, parecendo um príncipe entre dois guardas-costas completamente diferentes. Jin e Namjoon caminhavam à frente, conversando como se se conhecessem há anos.

Jimin sentia o olhar de Jungkook em suas costas durante todo o trajeto. Ele sabia que aquela viagem, que deveria ser apenas um descanso da vida urbana, estava se tornando algo muito mais perigoso. Ele olhou para os amigos e percebeu que eles também sentiam o mesmo.

— Eles são lindos, não são? — sussurrou Taehyung, aproximando-se de Jimin enquanto Hoseok corria para abrir uma porteira.

— Quem? — perguntou Jimin, tentando se fazer de desentendido.

— Não venha com essa, Minnie. O moreno tatuado está quase comendo você com os olhos, o gigante das covinhas não para de sorrir para o Jin, e eu... bom, eu acho que fui adotado por um raio de sol e por um gato rabugento ao mesmo tempo.

Jimin riu, sentindo a tensão diminuir um pouco.

— É, Tae. Eles são... interessantes. Mas vamos com calma. Somos da cidade, eles são do campo. Isso nunca dá certo nos filmes, a menos que alguém desista de tudo.

— Quem falou em dar certo? — Taehyung piscou. — Eu só quero aproveitar a vista. E que vista, Jimin... que vista.

Ao chegarem na varanda da casa principal dos Jeon, uma construção imponente de pedra e madeira, Jungkook parou e esperou por Jimin.

— Bem-vindo à minha casa — disse ele, com um tom de voz que não tinha mais deboche, mas sim uma sinceridade que pegou Jimin de surpresa. — Espero que você goste de comida forte e de conversas que duram a tarde toda.

Jimin subiu o primeiro degrau, ficando na mesma altura que Jungkook.

— Eu gosto de desafios, Jungkook. E parece que esta fazenda está cheia deles.

— Você não tem ideia — respondeu o moreno, abrindo a porta e dando passagem para o loiro.

Naquele momento, sob o sol escaldante do interior, Jimin percebeu que o seu coração, que ele achava estar em recesso, tinha acabado de bater mais forte do que em qualquer balada de São Paulo. A poeira da estrada estava começando a se assentar, mas a tempestade dentro dele estava apenas começando.