Pião todo tatuado
Poeira, Piseiro e o Brilho das Esporas
O silêncio do quarto de Jimin era preenchido apenas pelo som rítmico do ventilador, mas sua mente estava em um turbilhão. Ele estava deitado de lado, observando as marcas avermelhadas em seus pulsos que já começavam a ganhar um tom arroxeado. A sensação do aperto bruto de Jay ainda parecia queimar sua pele, mas, estranhamente, o que mais ecoava em sua memória era o calor do abraço de Jungkook e a firmeza com que ele o defendeu.
— Você está muito quieto, Minnie — a voz de Taehyung veio da cama ao lado. Ele estava sentado, abraçando os joelhos, com uma expressão incomumente séria. — Ainda está pensando naquele lixo do Jay?
Jimin suspirou, sentando-se também.
— Um pouco. É difícil tirar aquela sensação de impotência da cabeça, sabe? — Ele olhou para as próprias mãos. — Mas estou pensando mais no Jungkook. No jeito que ele apareceu... parecia que ele sabia exatamente que eu precisava dele.
— Ele sabia — Jin disse, entrando no quarto com três copos de suco de maracujá gelado. — Namjoon me disse que o Jungkook tem um instinto protetor absurdo com essas terras. Ele sentiu que algo estava errado.
Jin entregou os copos aos amigos e sentou-se na beirada da cama de Jimin.
— Seus pais ficaram uma fera — Jin continuou, com um suspiro preocupado. — O Jungkook contou tudo para o senhor Jisung e para o senhor Minho logo que chegamos. Eles já ligaram para o delegado e para o pai do Jay. Parece que a briga vai ser feia entre as famílias, mas seu pai deixou claro que ninguém encosta no filho dele e sai impune.
Jimin sentiu um aperto no peito ao pensar na preocupação dos pais. Ele odiava ser o motivo de conflitos, mas sabia que, no interior, o respeito era a moeda mais valiosa.
— Meus pais são incríveis — Jimin murmurou, bebendo um gole do suco.
— Eles são — concordou Jin. — E justamente por isso, eles tiveram uma ideia. O senhor Minho disse que a gente não pode ficar aqui trancado remoendo o susto. Tem uma balada country, a "Espora de Ouro", aqui perto. Hoje é noite de piseiro e sertanejo universitário. Eles sugeriram que a gente fosse para distrair a cabeça.
Taehyung deu um pulo da cama, os olhos brilhando instantaneamente.
— Uma balada? No meio do mato? — Ele já estava revirando a mala. — Eu preciso de um look que diga "sou da cidade, mas sei bater o pé". Jin, me ajuda!
Jimin hesitou por um momento. Sua bateria social estava baixa, mas ele sabia que se ficasse sozinho, o medo do que aconteceu no riacho voltaria a assombrá-lo.
— Tudo bem — Jimin cedeu, com um pequeno sorriso. — Vamos nessa. Mas eu não vou usar chapéu de cowboy, isso já é demais para mim.
— Ah, você vai usar o que eu mandar, Park Jimin! — Taehyung exclamou, jogando uma calça de couro sintético preta em cima dele. — Vamos mostrar para esse interior o que é estilo de verdade.
Duas horas depois, o trio de loiros estava diante do espelho, e o resultado era impactante. Jimin usava a calça preta extremamente justa, uma camisa de seda branca com os primeiros botões abertos e um cinto de fivela prateada que realçava sua cintura fina. Ele calçava botas de bico fino impecavelmente limpas. Taehyung optou por um visual mais ousado: uma calça jeans clara destroyed, uma camisa xadrez em tons de azul e um chapéu de feltro bege que, milagrosamente, ficava perfeito nele. Jin estava a personificação da elegância rural moderna, com uma calça escura, camisa jeans de lavagem nobre e um relógio que brilhava sob a luz do quarto.
— Estamos um absurdo de lindos — Jin declarou, ajeitando o cabelo loiro de Jimin. — Se o Namjoon me vir assim, ele cai do cavalo, e olha que ele nem está montado.
Eles desceram as escadas e encontraram os pais de Jimin na sala. Jisung olhou para o filho com orgulho, embora houvesse uma sombra de preocupação em seus olhos.
— Divirtam-se, meu filho — disse Jisung, abraçando Jimin com força. — O Jungkook e os meninos já estão lá. Eles prometeram que vão ficar de olho em volta. Não deixem aquele infeliz estragar a volta de vocês para casa.
— Obrigado, pai — Jimin respondeu, sentindo-se mais encorajado.
O trajeto até a "Espora de Ouro" foi feito no carro de Jin. Conforme se aproximavam, o som do baixo pulsante e o brilho dos refletores coloridos cortavam a escuridão da estrada de terra. O local era enorme, uma estrutura de madeira rústica com um pátio aberto e uma pista de dança que já fervilhava de gente. Centenas de caminhonetes estavam estacionadas do lado de fora.
Assim que desceram do carro, os olhares se voltaram para eles. Três loiros com roupas de corte impecável e aura de metrópole não eram algo comum por ali.
— Sinto que somos alienígenas — sussurrou Taehyung, mas ele mantinha o queixo erguido e um sorriso confiante.
— Alienígenas muito bem vestidos — rebateu Jin.
Eles entraram na balada e o cheiro de perfume misturado com couro e cerveja gelada os atingiu. No centro do salão, uma banda tocava um piseiro animado, e os casais dançavam de forma coordenada, batendo as botas no chão de madeira com precisão.
— Ali estão eles — Jimin apontou para uma mesa alta perto do palco.
Jungkook, Namjoon, Hoseok e Yoongi estavam lá. E, se os loiros estavam bonitos, os rapazes da fazenda estavam devastadores. Jungkook usava uma calça jeans escura, uma camisa polo preta que marcava seus ombros largos e um chapéu de feltro preto que dava a ele um ar de mistério perigoso. Namjoon estava com uma camisa de botões jeans, Hoseok usava um colete de couro por cima de uma camiseta branca, e Yoongi... Yoongi usava uma camisa preta simples, mas o modo como ele segurava um copo de uísque o tornava inexplicavelmente atraente.
Jungkook foi o primeiro a vê-los. Seus olhos escuros percorreram Jimin de cima a baixo, fixando-se na calça justa e na pele exposta do pescoço do loiro. Ele deixou o copo na mesa e caminhou na direção deles com um andar predeterminado.
— Você veio — disse Jungkook, parando na frente de Jimin. A voz dele era baixa, quase abafada pela música, mas Jimin a sentiu vibrar em seu peito.
— Meus pais acharam que seria bom distrair a cabeça — Jimin respondeu, tentando não parecer afetado pela proximidade. — E admito que a música é... contagiante.
— Você não viu nada ainda — Jungkook estendeu a mão para Jimin. — Me dá a honra da primeira dança? Prometo que não vou pisar nos seus pés de porcelana.
Jimin arqueou uma sobrancelha, o espírito desafiador voltando.
— Meus pés não são de porcelana, Jeon. Eu sou bailarino, esqueceu? Eu é que devo tomar cuidado para não te deixar para trás.
Jungkook riu e o puxou para a pista. Enquanto isso, Namjoon se aproximou de Jin com um sorriso gentil.
— Você está incrível, Jin. Essa cor combina com você. Quer dançar também?
— Eu achei que você nunca fosse perguntar, Namjoon — Jin respondeu, deixando-se guiar.
Taehyung ficou na mesa com Hoseok e Yoongi. Hoseok já estava dando passinhos de dança no lugar, animado.
— E aí, Tae! Pronto para aprender o verdadeiro piseiro? — Hoseok perguntou, puxando Taehyung pelo braço.
— Eu nasci pronto, Hobi! — Taehyung exclamou, mas seus olhos encontraram os de Yoongi, que continuava encostado na mesa. — Você não vem, Yoongi?
Yoongi deu um gole em sua bebida e soltou um suspiro, mas havia um brilho de diversão em seus olhos.
— Alguém tem que garantir que vocês dois não derrubem a estrutura do lugar — Yoongi disse, seguindo-os para a pista.
No centro da pista, o ritmo do piseiro se intensificou. Jungkook colocou a mão firmemente na cintura de Jimin, puxando-o para perto. O contato dos corpos foi imediato. Jimin colocou a mão no ombro de Jungkook, sentindo os músculos rígidos por baixo do tecido da camisa.
— Siga o meu ritmo — instruiu Jungkook, começando a mover os pés de forma ágil e coordenada.
Jimin, com sua facilidade natural para a dança, pegou o passo em segundos. Eles começaram a rodopiar, os corpos se movendo em uma sincronia que parecia coreografada. O piseiro exigia proximidade e agilidade, e Jimin descobriu que adorava o modo como Jungkook o guiava, com uma mistura de força e delicadeza.
— Você dança bem para um "bruto" — Jimin provocou, o rosto a centímetros do de Jungkook.
— E você é bem resistente para um "delicado" — Jungkook rebateu, apertando um pouco mais a cintura de Jimin. — Como estão seus pulsos?
Jimin olhou para baixo por um segundo.
— Doendo um pouco, mas estar aqui ajuda a esquecer. Obrigado por me tirar de casa, Jungkook. De verdade.
Jungkook parou de girar por um momento, apenas mantendo o passo básico, olhando profundamente nos olhos de Jimin.
— Eu não ia deixar você ficar sofrendo sozinho. Aquilo que aconteceu... não vai se repetir. Eu vou estar por perto, Jimin. Sempre.
A sinceridade nas palavras de Jungkook desarmou Jimin. Ele encostou a testa na do moreno por um breve segundo, sentindo o calor da pele dele.
— Eu sei que vai — Jimin sussurrou.
Ao lado deles, a confusão era generalizada. Taehyung estava tentando imitar os passos de Hoseok, que fazia movimentos acrobáticos e divertidos, enquanto Yoongi tentava, sem sucesso, manter Taehyung em uma linha reta.
— Taehyung, você vai acertar o cotovelo no senhor da mesa ao lado! — Yoongi avisou, rindo abertamente, uma visão rara que deixou Taehyung hipnotizado.
— Deixa eu dançar, Yoongi! O Hobi disse que eu tenho talento nato! — Taehyung gritou, girando e acabando nos braços de Yoongi.
O moreno segurou Taehyung pela cintura para evitar que ele caísse, e por um momento, a música pareceu sumir para os dois. Taehyung sorriu, aquele sorriso quadrado que iluminava tudo, e Yoongi sentiu algo dentro de si amolecer.
— Você é um desastre, loirinho — Yoongi murmurou, mas não o soltou.
— O seu desastre favorito — Taehyung piscou, voltando a dançar com Hoseok, que os puxou para um passo triplo.
Jin e Namjoon eram os mais elegantes da pista. Eles conversavam enquanto dançavam, uma conversa que parecia fluir tão bem quanto os movimentos de seus pés. Namjoon tratava Jin com uma reverência que fazia o loiro se sentir em um baile de gala, mesmo estando cercado por chapéus de palha e botas sujas de terra.
— Você sabe que a minha vida em São Paulo é muito diferente disso, não sabe? — Jin perguntou, olhando para Namjoon.
— Eu sei — respondeu Namjoon. — Mas você parece se encaixar em qualquer lugar, Jin. Você brilha onde quer que esteja.
Jin sentiu o rosto esquentar e escondeu o sorriso no ombro de Namjoon.
A noite seguiu entre músicas agitadas e baladas sertanejas mais lentas. Quando a banda começou a tocar uma música romântica, Jungkook não soltou Jimin. Eles continuaram na pista, movendo-se lentamente de um lado para o outro.
— Sabe, Jimin — começou Jungkook, a voz baixa perto do ouvido do loiro —, quando eu soube que você estava voltando para a fazenda, eu achei que você viria apenas para desfilar e reclamar da poeira.
— E o que você acha agora? — Jimin perguntou, olhando para ele.
— Eu acho que a poeira fica muito mais bonita quando você está nela — Jungkook confessou. — Eu nunca conheci ninguém como você. Você é irritadiço, teimoso e tem um gênio que daria trabalho para qualquer peão... mas você tem o coração mais corajoso que eu já vi.
Jimin sentiu as batidas do seu coração acelerarem. Ele levou a mão ao rosto de Jungkook, sentindo a leve textura da barba por fazer.
— E você, Jeon Jungkook... você é muito mais do que um cowboy arrogante. Você é o meu salvador, mesmo que eu odeie admitir que precisei de um.
Jungkook deu um sorriso ladino e, por um momento, Jimin achou que ele o beijaria ali mesmo, no meio da pista da Espora de Ouro. Mas Jungkook apenas beijou a testa de Jimin, um gesto carregado de promessa e respeito.
— Vamos pegar uma bebida? — sugeriu Jungkook. — Acho que o Taehyung e o Hoseok estão prestes a começar um duelo de dança no palco e eu quero ver isso de camarote.
Eles voltaram para a mesa, onde Jin e Namjoon já os esperavam com copos de cerveja gelada. Taehyung e Hoseok realmente estavam em cima de um pequeno tablado lateral, sendo aplaudidos por um grupo de pessoas enquanto tentavam superar um ao outro nos passos de piseiro. Yoongi observava tudo com um olhar de "eu não conheço essas pessoas", mas não conseguia esconder o sorriso de satisfação.
— Essa é a melhor noite da minha vida! — Taehyung gritou, descendo do tablado e se jogando nos braços de Yoongi e Hoseok ao mesmo tempo. — Por que a gente não mora aqui para sempre?
— Calma, Tae — Jin riu. — Deixa a gente sobreviver à primeira semana primeiro.
Jimin encostou-se no ombro de Jungkook, sentindo uma paz que não sentia há anos. O medo da tarde tinha sido substituído por uma sensação de pertencimento. Ele olhou para seus amigos, todos rindo e se divertindo com os rapazes que, há poucos dias, eram completos estranhos.
O interior tinha suas sombras, seus perigos como Jay, mas também tinha uma luz própria, uma força que vinha da terra e das pessoas que nela viviam. E, olhando para Jungkook, Jimin soube que aquela luz estava apenas começando a brilhar para ele.
— O que você está pensando, loirinho? — Jungkook perguntou, passando o braço pelos ombros de Jimin.
— Que o piseiro não é tão ruim assim — Jimin respondeu, rindo. — E que eu talvez precise comprar um par de botas de verdade.
— Eu te ajudo a escolher — prometeu Jungkook. — Mas só se você me prometer que vai dançar comigo todas as vezes que a gente vier aqui.
— É uma promessa — disse Jimin, selando o acordo com um olhar que dizia muito mais do que palavras poderiam expressar.
A noite na Espora de Ouro continuou, regada a risadas, dança e o início de amores que prometiam ser tão vastos e profundos quanto os campos que cercavam a Fazenda Park. Os três loiros de São Paulo tinham chegado procurando refúgio, mas pareciam ter encontrado muito mais: tinham encontrado a si mesmos e, talvez, as razões para nunca mais quererem partir.