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Pião todo tatuado

Águas Turvas e o Brilho do Aço

O sol do meio-dia no interior não tinha piedade. O calor parecia vibrar sobre as folhas de cana e o pasto, criando uma névoa de mormaço que tornava qualquer movimento um esforço hercúleo. Dentro do casarão da Fazenda Park, o ventilador de teto girava em sua velocidade máxima, mas apenas empurrava o ar quente de um lado para o outro.

— Eu sinto que estou derretendo. Literalmente. Se eu encostar em uma vela, eu viro parafina — reclamou Taehyung, jogado no sofá da sala com as pernas para o alto e uma toalha úmida sobre a testa.

Jin, que tentava manter a elegância mesmo com o suor brotando nas têmporas, abanava-se com um cardápio antigo que encontrou na gaveta.

— Jimin, meu querido, você que conhece essas terras... diga que existe um oásis, uma piscina, ou até um balde de gelo gigante por perto — pediu Jin, com a voz carregada de drama.

Jimin, que estava sentado no chão para aproveitar o frescor do piso de cerâmica, soltou uma risadinha. Ele também estava sofrendo com a mudança brusca de temperatura. São Paulo tinha seus dias quentes, mas o sol da fazenda parecia ter um acerto de contas pessoal com eles.

— O riacho — disse Jimin, os olhos brilhando com a ideia. — Tem uma parte do riacho, logo depois da trilha dos eucaliptos, onde a água é cristalina e gelada. O fundo é de pedra, então não tem lama. Meus pais sempre me levavam lá quando eu era pequeno.

Taehyung deu um pulo do sofá, a toalha caindo no chão.

— Por que não disse isso antes? Vamos agora! Eu preciso de água fria ou vou começar a ter alucinações com o Hoseok e o Yoongi me servindo sorvete de baunilha.

— Você já está tendo alucinações, Tae — brincou Jimin, levantando-se. — Vamos trocar de roupa. Mas levem repelente, os borrachudos lá não perdoam pele de cidade grande.

Cerca de vinte minutos depois, os três loiros seguiam a pé pela trilha. Estavam vestidos de forma leve: calções curtos, regatas e chinelos. Jimin levava uma mochila com toalhas e algumas frutas. O som da água correndo começou a ficar mais alto, misturando-se ao barulho das cigarras que pareciam gritar em coro.

Quando chegaram ao local, até Jin soltou um suspiro de alívio. O riacho formava uma pequena piscina natural, cercada por árvores altas que garantiam uma sombra generosa. A água era tão límpida que era possível ver os peixinhos nadando entre as pedras no fundo.

— Isso é o paraíso — declarou Taehyung, tirando a regata sem cerimônia e se jogando na água com um estardalhaço que espantou todos os pássaros num raio de um quilômetro.

— Taehyung! — Jimin ralhou, rindo enquanto era respingado.

Jin entrou logo em seguida, com mais cautela, soltando um som de satisfação quando a água fria atingiu seus ombros. Jimin foi o último, sentando-se em uma pedra submersa e deixando a correnteza massagear suas costas. Por um momento, o mundo lá fora — as preocupações, a volta para casa e até o rosto provocador de Jungkook — pareceu desaparecer.

No entanto, a paz do campo é muitas vezes uma ilusão que se quebra rápido.

O som de galhos secos estalando e o barulho de uma moto de trilha se aproximando cortaram o silêncio. Os três amigos ficaram alertas. Da mata, surgiu um homem alto, de pele bronzeada e cabelos castanhos bagunçados. Ele vestia uma calça de couro de motociclista e uma jaqueta aberta, sem nada por baixo.

Ele desceu da moto com um sorriso que não chegava aos olhos. Era um sorriso predatório, carregado de uma autoconfiança que cheirava a perigo.

— Mas o que temos aqui? — a voz do estranho era arrastada, com um sotaque carregado. — Eu achei que tinha encontrado apenas um riacho, mas parece que encontrei três ninfas loiras perdidas no meu caminho.

Jimin sentiu um calafrio que não vinha da água gelada. Ele conhecia aquele tipo de homem. Em São Paulo, eles frequentavam as boates mais caras e achavam que o mundo lhes pertencia.

— O riacho é da Fazenda Park — disse Jimin, levantando-se e tentando manter a voz firme. — E nós não estamos perdidos. Quem é você?

O homem caminhou até a beira da água, ignorando a pergunta de Jimin enquanto seus olhos percorriam o corpo do loiro com uma ousadia nojenta.

— Meu nome é Jay. Eu sou vizinho... de certa forma. Meu pai tem terras logo ali depois da colina. E você, loirinho? — Jay deu um passo para dentro da água, de botas e tudo. — Você deve ser o filho do Park. Ouvi dizer que você tinha voltado, mas não me disseram que era tão... apetitoso.

— Olha aqui, "Jay" — Jin interveio, saindo da água e ficando entre Jimin e o estranho. — A gente está querendo apenas um pouco de paz. Se você puder seguir seu caminho, a gente agradece.

Jay soltou uma risada debochada, dando um tapinha condescendente no ombro de Jin.

— Calma, bonitão. Eu não mordo... a menos que me peçam. Eu só quero conhecer melhor os novos moradores. Especialmente esse aqui de olhos puxados e boca atrevida.

Jay ignorou Jin e avançou na direção de Jimin. O loiro tentou recuar, mas tropeçou em uma pedra escorregadia. Antes que pudesse se recuperar, Jay o segurou pelo braço com uma força desnecessária, puxando-o para perto.

— Me solta! — gritou Jimin, tentando se desvencilhar. — Eu disse para me soltar!

— Qual é, loirinho? Não faz jogo duro — disse Jay, o hálito cheirando a álcool barato apesar da hora. — Eu sei que você gosta de uma pegada mais forte. Vamos ali na sombra conversar melhor, longe dos seus amigos.

— Solta ele agora! — Taehyung gritou, avançando para tentar puxar o braço de Jay, mas o homem era muito mais forte e empurrou Taehyung de volta para a água com o braço livre.

— Fica na sua, garoto! — Jay rosnou, voltando sua atenção para Jimin. Ele prendeu os dois pulsos de Jimin com uma só mão e o prensou contra o tronco de uma árvore à beira do riacho. — Você é muito mais bonito de perto. O que acha de a gente se divertir um pouco?

Jimin sentiu o pânico subir pela garganta. Ele tentou chutar, tentou gritar, mas Jay era pesado e o sufocava com sua proximidade. Jin e Taehyung cercaram o homem, tentando puxá-lo, batendo em suas costas, mas Jay parecia possuído por uma arrogância doentia.

— Eu vou chamar a polícia! — Jin gritou, procurando desesperadamente por seu celular na mochila que estava na margem.

— Pode chamar quem quiser, gracinha — Jay riu, aproximando o rosto do pescoço de Jimin, que tentava virar a cabeça para o lado. — Meu pai é quem manda nessa região. Ninguém vai tocar em mim por causa de um loirinho da cidade que veio procurar confusão no mato.

— Socorro! — Jimin conseguiu gritar, a voz embargada pelo medo e pela raiva. — Alguém ajuda!

O grito de Jimin ecoou pela mata, e por um segundo, o tempo pareceu parar.

Então, o som de cascos galopando em fúria surgiu do nada. Não era um galope calmo de passeio; era o som de trovões atingindo a terra seca.

— SOLTA ELE! — o grito veio como um rugido.

Do meio das árvores, Jungkook surgiu montado em seu garanhão negro. Ele não esperou o cavalo parar totalmente; saltou da sela enquanto o animal ainda estava em movimento, caindo de pé como um predador. Logo atrás dele, Namjoon, Hoseok e Yoongi surgiram em seus cavalos, os rostos transformados pela fúria.

Jay mal teve tempo de virar a cabeça antes que o punho de Jungkook atingisse seu maxilar com a força de um marretazo. O impacto foi tão grande que Jay foi lançado para trás, caindo pesadamente na água rasa do riacho.

Jimin escorregou pelo tronco da árvore, tremendo, e foi imediatamente amparado por Jin e Taehyung.

Jungkook não parou. Ele avançou para dentro da água, pegando Jay pelo colarinho da jaqueta e levantando-o como se ele não pesasse nada.

— Você tocou no que é meu, Jay? — a voz de Jungkook era um sussurro perigoso, mais assustador do que qualquer grito. — Eu te avisei para nunca mais pisar nestas terras. E eu te avisei o que aconteceria se você incomodasse os Park.

— Foi só uma brincadeira, Jeon! — Jay tentou dizer, cuspindo sangue. — O garoto estava me dando corda...

O segundo soco de Jungkook foi no estômago, fazendo Jay dobrar-se de dor.

— Ele disse para soltar — disse Yoongi, descendo do cavalo com uma expressão fria que Taehyung nunca tinha visto. Yoongi caminhou até a margem e olhou para Jay com desprezo. — E quando alguém diz não, é não. Até um lixo como você deveria saber disso.

Hoseok e Namjoon se aproximaram dos loiros. Namjoon colocou a mão no ombro de Jin, verificando se ele estava bem, enquanto Hoseok ajudava Taehyung a se levantar da água.

— Vocês estão machucados? — perguntou Namjoon, a voz carregada de preocupação.

— Nós estamos bem... mas o Jimin... — Jin apontou para o amigo.

Jimin estava pálido, os pulsos marcados pelo aperto de Jay. Jungkook, ao ouvir o nome de Jimin, soltou Jay, que caiu novamente na lama da margem. O moreno caminhou até Jimin, sua respiração ainda ofegante, os olhos escuros faiscando.

Ao chegar perto do loiro, a fúria de Jungkook pareceu evaporar, dando lugar a uma angústia palpável. Ele se ajoelhou na frente de Jimin, sem se importar com a calça molhada.

— Jimin... — Jungkook estendeu a mão, mas hesitou, com medo de assustá-lo. — Ele te machucou? Me fala, Jimin.

Jimin olhou para Jungkook e, ao ver a preocupação genuína no olhar do moreno, a barreira de Braveza que ele tentava manter desmoronou. Ele se jogou nos braços de Jungkook, escondendo o rosto em seu ombro e deixando as lágrimas finalmente caírem.

Jungkook o abraçou com força, protegendo-o do mundo. Ele acariciou os cabelos loiros de Jimin, sussurrando palavras de conforto que apenas os dois podiam ouvir.

— Está tudo bem agora. Eu estou aqui. Ninguém nunca mais vai tocar em você. Eu prometo.

Enquanto isso, Namjoon e Yoongi cercaram Jay, que tentava se levantar.

— Saia daqui agora — ordenou Namjoon, sua voz de autoridade não deixando espaço para discussões. — Se virmos você ou sua moto em um raio de dez quilômetros desta fazenda, eu mesmo farei a denúncia na delegacia regional. E você sabe que o nome dos Jeon e dos Park tem peso por aqui.

Jay, humilhado e ferido, cambaleou até sua moto. Ele lançou um último olhar de ódio para o grupo, mas ao ver Jungkook se virar levemente com um olhar assassino, ele ligou o motor e partiu em disparada, levantando poeira e fumaça.

O silêncio voltou ao riacho, mas era um silêncio diferente. Era um silêncio de proteção.

Taehyung estava abraçado a Hoseok, que passava o braço por seus ombros para confortá-lo. Yoongi estava ao lado deles, vigiando a mata como se esperasse qualquer outra ameaça. Jin estava sentado ao lado de Namjoon, tentando controlar o tremor nas mãos.

Jimin se afastou um pouco do abraço de Jungkook, limpando as lágrimas. Ele olhou para os pulsos vermelhos e depois para o rosto de Jungkook.

— Obrigado — sussurrou Jimin. — Eu... eu não sabia o que fazer. Ele era muito forte.

— Não precisa agradecer — disse Jungkook, pegando as mãos de Jimin com delicadeza e beijando cada um dos pulsos marcados. O gesto foi tão íntimo e carregado de carinho que Jimin sentiu o coração falhar uma batida. — Eu senti que algo estava errado. O vento trouxe o seu cheiro e o barulho daquela moto... eu sabia que aquele desgraçado estava por perto.

— Você salvou a gente, Jungkook — disse Jin, levantando-se com a ajuda de Namjoon. — Todos vocês salvaram.

— Somos vizinhos — disse Hoseok, tentando aliviar o clima com um pequeno sorriso. — E vizinhos cuidam uns dos outros. Além disso, não poderíamos deixar os loiros mais bonitos do estado passarem por isso sozinhos.

Yoongi olhou para Taehyung, que ainda parecia um pouco abalado.

— Você está bem, Taehyung? — perguntou o moreno de pele clara.

— Vou ficar — respondeu Taehyung, olhando para Yoongi. — Só preciso de um tempo para processar que o interior é muito mais agitado do que a Avenida Paulista.

Jungkook ajudou Jimin a se levantar. Ele não soltou a mão do loiro, e Jimin não fez menção de se afastar. Havia uma nova eletricidade entre eles, algo que tinha sido forjado no momento do perigo e da proteção.

— Vamos levar vocês de volta para a casa principal — disse Namjoon. — Vocês precisam de um banho quente e de um descanso.

— Eu levo o Jimin no meu cavalo — anunciou Jungkook, sem dar margem para contestações.

Ele montou em seu garanhão negro e estendeu a mão para Jimin. O loiro aceitou, subindo na garupa e envolvendo a cintura de Jungkook com os braços. Jimin encostou o rosto nas costas largas do moreno, sentindo-se, pela primeira vez desde que chegara à fazenda, completamente seguro.

Enquanto o grupo cavalgava de volta, o sol começava a baixar, pintando o céu de tons de roxo e laranja. O trauma do encontro com Jay ainda estava presente, mas a presença dos quatro homens ao lado deles trazia um conforto inexplicável.

Jimin fechou os olhos, sentindo o balanço do cavalo e o calor do corpo de Jungkook. Ele percebeu que a sua implicância com o moreno era apenas uma casca. Por trás das provocações e do gênio forte, havia algo profundo e poderoso nascendo entre eles.

Naquela tarde, nas águas geladas do riacho, Jimin descobriu que o perigo podia vir de estranhos, mas a salvação tinha o nome de um cowboy de olhos escuros e mãos firmes. E, enquanto atravessavam a porteira da Fazenda Park, ele soube que sua vida em São Paulo nunca mais seria suficiente. Seu coração agora tinha raízes naquela terra, protegidas por um garanhão negro e pelo homem que o montava.