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Pião todo tatuado

Sombras no Horizonte

O trajeto de volta do mirante até a sede da fazenda foi feito em um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo som das botas de Jungkook esmagando os galhos secos e a respiração levemente ofegante de Jimin. O sol já começava a se despedir, tingindo o céu com tons de roxo e laranja, mas a beleza do crepúsculo não trazia paz. Jungkook mantinha uma das mãos firmemente fechada em torno do rádio, enquanto a outra, por puro instinto, permanecia próxima ao corpo de Jimin, guiando-o para longe das vistas da estrada.

Ao chegarem ao pátio principal, o cenário era de prontidão. Yoongi e Hoseok já estavam posicionados perto da cerca de madeira, as expressões fechadas, observando a caminhonete preta que agora avançava lentamente pelo cascalho, parando exatamente em frente ao portão principal.

Jungkook parou, colocando-se como um escudo humano à frente de Jimin. O motor do veículo foi desligado, e o silêncio que se seguiu foi carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Jimin se arrepiarem.

A porta do motorista se abriu primeiro. Jay desceu com um sorriso cínico, ajustando o chapéu de feltro caro que parecia deslocado naquela poeira toda. Ele tinha aquele ar de superioridade que fazia o sangue de Jimin ferver instantaneamente. No entanto, foi o movimento do lado do passageiro que realmente fez o ar faltar nos pulmões de Jungkook.

Uma mulher de pernas longas e cabelos escuros perfeitamente alinhados desceu do carro. Ela usava óculos escuros, que removeu com um gesto lento, revelando olhos que Jungkook conhecia bem demais.

— Lisa? — O nome saiu da boca de Jungkook como um sussurro amargo, carregado de uma história que ele preferia ter deixado enterrada.

Jimin sentiu o peso daquele nome. Ele olhou de relance para Jungkook e viu a mandíbula do moreno travar de um jeito que nunca tinha visto antes. Não era apenas alerta; era uma mistura de choque e um ressentimento profundo.

— Ora, ora — Jay começou, caminhando alguns passos à frente, mas parando quando Yoongi deu um passo em sua direção. — Que recepção calorosa. Eu só vim trazer uma velha amiga para visitar o lugar onde ela passou tantos momentos... interessantes.

Lisa sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos, e caminhou até parar ao lado de Jay. Ela olhou para a fazenda com desdém e depois fixou o olhar em Jungkook, ignorando completamente a presença de Jimin por um segundo.

— Olá, Jeon. Faz muito tempo — disse ela, a voz melodiosa e fria. — Vejo que você continua o mesmo. Sempre protegendo o que não lhe pertence.

— O que você está fazendo aqui, Lisa? — Jungkook perguntou, a voz saindo em um tom baixo e perigoso. — E o que está fazendo com esse lixo?

Jay soltou uma gargalhada seca.

— Cuidado com a língua, cunhado — Taehyung gritou da varanda, onde observava tudo ao lado de Jin. — Ninguém convidou essa gente pro café!

— Cala a boca, Taehyung! — Jay rosnou, perdendo a compostura por um segundo antes de voltar a focar em Jimin. — Eu vim buscar o que é meu, Jimin. Você acha que pode se esconder aqui para sempre? Com esse... empregadinho de luxo?

Jimin deu um passo à frente, saindo de trás de Jungkook, apesar do braço de Jeon tentar impedi-lo. Os olhos do loiro faiscavam.

— Eu não sou seu, Jay. Nunca fui. E se você der mais um passo dentro desta propriedade, eu mesmo chamo a polícia e apresento as provas de assédio que meu pai guardou contra você.

— Oh, que gracinha — Lisa interveio, cruzando os braços. — Ele tem garras. Jungkook, você sempre teve um gosto por pessoas problemáticas, não é? Primeiro eu, agora esse garoto de cidade grande que não aguenta um dia de sol.

Jungkook sentiu uma onda de fúria. Ele se aproximou da cerca, seus olhos fixos nos de Lisa.

— Você não tem o direito de falar dele. E você não tem o direito de estar aqui. Se o Jay te trouxe como algum tipo de troféu ou distração, perdeu o tempo de vocês. Vão embora. Agora.

Hoseok, que estava em silêncio até então, deu um passo à frente, ajustando o coldre na cintura de forma ostensiva.

— Vocês ouviram o chefe. A estrada é serventia da casa. Se a caminhonete não se mexer em trinta segundos, vamos considerar invasão de domicílio. E eu não sou tão paciente quanto o Jungkook.

Jay olhou para Hoseok, depois para Yoongi, que mantinha uma mão no bolso com uma calma assustadora. Ele sabia que estava em desvantagem numérica e física.

— Isso não acabou, Jimin — Jay disse, apontando o dedo. — E Lisa tem muito o que te contar sobre o seu "protetor". Você ficaria surpreso ao saber como ele descarta as pessoas quando se cansa de brincar de herói.

Lisa lançou um último olhar para Jungkook — um olhar que misturava desejo e veneno — antes de entrar no carro. Jay entrou logo em seguida, arrancando com a caminhonete e levantando uma nuvem de poeira que encobriu o pátio por alguns instantes.

Quando o som do motor desapareceu, o silêncio que restou foi pesado. Jimin sentia o coração batendo na garganta. Ele olhou para Jungkook, esperando algum tipo de explicação, mas o moreno apenas se virou para Yoongi.

— Reforce a guarda no portão sul. Não quero ninguém dormindo esta noite.

— Pode deixar, JK — Yoongi respondeu, lançando um olhar preocupado para Jimin antes de sair com Hoseok.

Jungkook finalmente olhou para Jimin. Havia uma barreira nova ali, algo que não estava presente durante a tarde no mirante.

— Quem é ela, Jungkook? — Jimin perguntou, a voz baixa.

— Alguém que faz parte do passado, Jimin. Não importa agora.

— Importa para mim! — Jimin rebateu, a irritação subindo. — Ela falou como se te conhecesse intimamente. E o Jay... ele usou ela para te atingir. Como eu posso confiar em você se você esconde as coisas?

Jungkook suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Agora não é o momento. Preciso organizar a segurança. Por favor, entre. Fique com o Jin e o Taehyung.

Jimin sentiu um aperto no peito. Ele odiava ser deixado no escuro. Sem dizer mais nada, ele girou nos calcanhares e caminhou em direção à casa grande, deixando Jungkook sozinho no meio do pátio sob a luz das estrelas que começavam a surgir.

Dentro da casa, o clima não estava muito melhor. Jin estava na cozinha, preparando um chá para acalmar os nervos, enquanto Namjoon revisava alguns mapas da fazenda sobre a mesa.

— Ele está bem? — Namjoon perguntou quando Jimin entrou.

— Ele está sendo um idiota — Jimin resmungou, sentando-se à mesa. — Quem é Lisa?

Jin parou de mexer o bule. Ele olhou para Namjoon, que soltou um suspiro pesado.

— Lisa foi a noiva do Jungkook, Jimin — Jin disse suavemente, sentando-se ao lado do amigo. — Isso foi há uns três anos. Eles cresceram juntos por aqui. Mas as coisas terminaram muito mal. Ela queria que ele vendesse a parte dele na fazenda e fosse para a cidade grande. Quando ele recusou, ela se envolveu com pessoas... complicadas. No final, ela o traiu com um dos rivais da família Jeon na época.

Jimin sentiu um nó se formar no estômago. O "por favor, me ame" da tatuagem de Jungkook subitamente ganhou um contexto muito mais doloroso.

— Por que ela voltaria com o Jay? — Jimin perguntou.

— Provavelmente por dinheiro e vingança — Namjoon opinou. — Jay sabe que não pode vencer o Jungkook na força, então ele está tentando usar o psicológico. Trazer a Lisa é um golpe baixo.

Enquanto isso, na varanda lateral, Taehyung tentava processar tudo o que tinha visto. Ele estava encostado no pilar de madeira quando sentiu a presença de alguém. Era Yoongi, seguido de perto por Hoseok.

— Vocês não deveriam estar patrulhando? — Taehyung perguntou, tentando manter seu tom brincalhão, mas falhando miseravelmente.

— Já organizamos os turnos — Hoseok disse, aproximando-se e ficando de frente para Taehyung. — Você parece tenso, loirinho.

— E como não estaria? Aquele projeto de vilão de novela veio aqui com a ex-namorada do meu futuro cunhado. Isso é muita informação para um dia só.

Yoongi soltou um riso baixo, encostando-se na parede ao lado de Taehyung.

— Jungkook sabe se cuidar. O que me preocupa é você. Não quero que perca esse seu humor ácido por causa daqueles dois.

Taehyung olhou para Yoongi, surpreso com a gentileza inesperada.

— Você está preocupado comigo, Min Yoongi? Que fofo.

— Não se acostuma — Yoongi retrucou, mas não desviou o olhar. — Só não gosto de ver coisas bonitas estragadas por gente ruim.

Hoseok sorriu, colocando a mão no ombro de Taehyung.

— Nós vamos proteger vocês. Todos vocês. Mas se você quiser uma proteção especial, sabe onde encontrar a gente.

Taehyung sentiu o rosto esquentar. A tensão entre os três era inegável, um contraste estranho com a ameaça que rondava a fazenda.

— Eu vou cobrar isso — Taehyung sussurrou, antes de entrar na casa, deixando os dois homens para trás com sorrisos intrigados.

A noite caiu de vez, e a fazenda mergulhou em uma vigilância silenciosa. Jungkook passou horas conferindo as cercas e conversando com os peões. Ele evitava entrar na casa principal porque sabia que, se visse Jimin, não conseguiria manter a fachada de profissionalismo.

Por volta da meia-noite, ele finalmente entrou para pegar um pouco de água. A cozinha estava escura, exceto pela luz da geladeira. Quando ele fechou a porta do eletrodoméstico, deu um salto ao ver Jimin sentado em uma das cadeiras, mergulhado nas sombras.

— Você me assustou — Jungkook disse, recuperando o fôlego.

— Você está me evitando — Jimin afirmou. Não era uma pergunta.

Jungkook deixou a garrafa sobre a mesa e se aproximou.

— Eu não estou te evitando. Só estou garantindo que você esteja seguro.

— Eu sei sobre a Lisa — Jimin disse, e viu Jungkook tencionar. — O Jin me contou. Sinto muito pelo que aconteceu no passado, Jungkook. Mas eu não sou ela. Eu não vou te pedir para mudar, e eu não vou te trair.

Jungkook sentiu um aperto na garganta. Ele deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Jimin. O cheiro de sabonete e o calor que emanava do corpo do loiro eram quase inebriantes.

— Eu sei que você não é ela, Jimin — Jungkook sussurrou, sua mão subindo hesitante até tocar a bochecha de Jimin. — Esse é o problema.

— Problema? — Jimin perguntou, a voz falhando enquanto inclinava o rosto para o toque.

— Com ela, era fácil saber os limites. Com você... eu sinto que estou perdendo o controle. Eu deveria ser seu segurança, mas tudo o que eu quero é ser muito mais do que isso. E o Jay sabe disso. Ele vai usar você para chegar em mim, e eu não posso permitir que você se machuque por minha causa.

Jimin se levantou, ficando a centímetros de distância de Jungkook. Ele segurou o pulso de Jungkook, mantendo a mão do moreno em seu rosto.

— Deixe que eu decida o que vale a pena, Jeon Jungkook. Eu não tenho medo do Jay. E eu não tenho medo de você.

O clima entre eles estava carregado. Jungkook podia ver o reflexo da lua nos olhos de Jimin. Ele queria beijá-lo, queria esquecer a caminhonete preta, a Lisa e as ameaças. Mas, antes que pudesse agir, o rádio em seu cinto chiou.

— Jungkook! — Era a voz de Hoseok, urgente. — Temos movimento na estrada de serviço. Alguém cortou o arame farpado perto do galpão de máquinas.

Jungkook se afastou instantaneamente, o modo soldado sendo reativado.

— Fique aqui. Tranque a porta e não abra para ninguém que não seja eu ou o Jin — ordenou ele, já correndo em direção à saída.

Jimin correu até a janela, observando Jungkook desaparecer na escuridão com uma lanterna na mão. O medo que ele sentia agora não era por si mesmo, mas pelo homem que carregava o peso de todos nos ombros.

Lá fora, o silêncio da noite foi quebrado pelo latido distante dos cães e o som de galhos secos quebrando. Jungkook chegou ao galpão de máquinas em tempo recorde, mas o que encontrou não foi uma pessoa.

Caído no chão, perto do arame cortado, estava um envelope pardo com o nome de Jimin escrito em letras garrafais vermelhas. Ao lado, uma única rosa branca, manchada com o que parecia ser óleo de motor preto.

Jungkook pegou o envelope, sentindo o papel áspero sob seus dedos. Ele não precisava abrir para saber que era um aviso. Jay não queria apenas assustar; ele queria desestabilizar a única coisa que Jungkook estava começando a valorizar mais do que a própria vida.

Ele olhou para a estrada escura, onde as luzes de um veículo sumiam ao longe. A presença de Lisa não era um acaso; ela conhecia os pontos cegos daquela fazenda tão bem quanto ele. Eles estavam jogando sujo, entrando em seu território e em sua mente.

Ao voltar para a sede, Jungkook viu Jimin parado na varanda, abraçando o próprio corpo para se proteger do frio da madrugada. A preocupação no rosto do loiro era evidente.

Jungkook guardou o envelope no bolso de trás, decidindo que não contaria o conteúdo — pelo menos não agora. Ele subiu os degraus e parou na frente de Jimin.

— Está tudo bem? — Jimin perguntou, a voz trêmula.

Jungkook não respondeu com palavras. Ele apenas envolveu Jimin em um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço do loiro. Ele sentiu Jimin relaxar em seus braços, as mãos pequenas agarrando sua camisa como se ele fosse sua única âncora.

Pela primeira vez em anos, Jungkook tinha encontrado alguém que fazia o mundo parecer mais leve. E justamente por isso, o medo de perder Jimin começava a se tornar assustador. 🐴🤍