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Pião todo tatuado

Sombras e Promessas na Madrugada

— Você está tremendo — sussurrou Jungkook, ainda mantendo Jimin envolto em seus braços no silêncio da varanda.

— É só o susto — mentiu Jimin, embora o calor do corpo de Jungkook fosse a única coisa que impedia seus dentes de baterem. Ele se afastou apenas o suficiente para olhar o moreno nos olhos. — O que você encontrou lá fora?

Jungkook sentiu o envelope pesado no bolso de trás, mas a imagem da rosa branca manchada de óleo ainda queimava em sua mente. Ele não queria dar a Jay o prazer de ver Jimin desestabilizado.

— Apenas rastros. Eles querem brincar com a nossa cabeça, Jimin. Mas ninguém vai entrar nesta casa.

Eles entraram na sala, onde a luz fraca de um abajur revelava que o restante do grupo ainda estava em um estado de vigília ansiosa. Jin estava sentado no sofá, com a cabeça encostada no ombro de Namjoon, enquanto Taehyung andava de um lado para o outro, parando apenas para olhar pela janela.

— Graças a Deus vocês voltaram — disse Jin, levantando-se imediatamente. — O que aconteceu? Ouvimos os rádios.

— Eles cortaram a cerca do galpão — explicou Jungkook, sua voz assumindo aquele tom de autoridade que não admitia contestações. — Yoongi e Hoseok estão fazendo a ronda perimetral. Ninguém dorme sozinho esta noite.

Taehyung parou de andar e olhou para Jungkook, depois para Jimin.

— Isso está ficando sério demais, não está? Meus pais acharam que essa viagem de negócios seria uma oportunidade para a gente relaxar, mas parece que caímos em um ninho de cobras.

Jimin suspirou, deixando-se cair em uma poltrona. Ele passou as mãos pelo rosto, tentando organizar os pensamentos.

— Meus pais... — Jimin começou, olhando para Jungkook. — Eles sabiam que isso poderia acontecer, não sabiam? Foi por isso que insistiram tanto que você ficasse aqui em tempo integral.

Jungkook assentiu, encostando-se no batente da porta.

— O Sr. Park Minho e o Sr. Jisung me chamaram uma semana antes da viagem. Eles tinham recebido informações de que o Jay estava ficando instável depois que o contrato de parceria entre as famílias foi rompido. Eles me pediram para ser sua sombra, Jimin. Pelos próximos cinco meses, até que eles voltem da Europa, minha única missão é garantir que você respire em segurança.

— Cinco meses... — Jimin repetiu, a magnitude do tempo pesando sobre ele. — É por isso que estamos todos aqui, morando sob o mesmo teto. Meus pais transformaram essa fazenda em um bunker e você é o comandante.

— Eu sou o seu guarda-costas — corrigiu Jungkook, com o olhar fixo no loiro. — Mas, para os seus pais, eu sou alguém em quem eles confiam a vida do filho. Eles não queriam que você se sentisse em uma prisão em São Paulo, então acharam que o ar do campo seria melhor. Mal sabiam que o Jay seguiria a gente até aqui.

— E ele trouxe reforços — lembrou Jin, com uma expressão preocupada. — Aquela mulher, Lisa... ela conhece a fazenda, Namjoon me contou. Isso nos coloca em desvantagem.

Namjoon, que permanecia em silêncio, finalmente se manifestou, sua voz calma servindo como um bálsamo para o caos.

— Ela conhece a fazenda de três anos atrás. Muita coisa mudou. Eu mudei as rotas de escoamento e o Jungkook reforçou os pontos cegos. O que precisamos agora é manter a calma. Se o Jay quer guerra psicológica, não vamos dar a ele o que ele quer.

Taehyung, tentando aliviar a tensão, soltou um risinho soprado.

— Bom, se vamos ficar todos "presos" aqui por cinco meses, pelo menos a companhia é de elite. O "cunhado" aqui — ele apontou para Jungkook, que revirou os olhos — vai ter que aguentar a gente. E eu pretendo passar muito tempo vendo o Yoongi e o Hoseok treinarem na arena. Aquilo sim é um entretenimento de qualidade.

— Taehyung, não é hora para seus delírios românticos — Jimin o repreendeu, embora um pequeno sorriso tenha surgido no canto de seus lábios.

— Não são delírios, Jimin! O Hoseok me piscou hoje. Eu quase caí do cavalo, literalmente. E o Yoongi... ele finge que é durão, mas eu vi o jeito que ele me olhou quando eu disse que tinha medo de escuro. Ele quase se ofereceu para segurar minha mão.

A conversa foi interrompida pelo som da porta da frente se abrindo. Yoongi e Hoseok entraram, retirando os chapéus e limpando a poeira das botas. Eles pareciam exaustos, mas alertas.

— Tudo limpo por enquanto — anunciou Hoseok, indo direto para a cozinha buscar água. — Eles foram embora. Deixaram o recado e sumiram na estrada principal.

Yoongi caminhou até o centro da sala, seus olhos encontrando os de Taehyung por um breve segundo antes de se voltarem para Jungkook.

— O arame foi cortado com precisão. Não foi amador. Eles sabiam exatamente onde as câmeras não pegam.

Jungkook apertou a mandíbula.

— Amanhã cedo vamos instalar sensores de movimento naquela área. Hoseok, você fica com a guarda do andar de cima. Yoongi, você e eu nos revezamos na sala. Ninguém entra nesta casa sem passar por nós.

— Entendido — responderam os dois em uníssono.

A noite avançou e, um a um, eles foram se recolhendo para os quartos. Jin e Namjoon subiram primeiro, trocando palavras baixas sobre as planilhas que precisariam revisar no dia seguinte. Taehyung, antes de subir, deu um tapinha no ombro de Jungkook.

— Cuida bem do meu amigo, cunhado. Se ele tiver um pesadelo, a responsabilidade é sua.

Jungkook apenas balançou a cabeça, vendo Taehyung subir os degraus enquanto Hoseok o seguia com o olhar, um sorriso de lado brincando nos lábios do peão.

Finalmente, restaram apenas Jungkook e Jimin na sala silenciosa. O relógio de carrilhão na parede marcava duas da manhã.

— Você deveria dormir, Jimin — disse Jungkook, sua voz agora muito mais suave. — Foi um dia longo.

— Eu não consigo — admitiu Jimin, levantando-se e caminhando até Jungkook. — Toda vez que fecho os olhos, vejo o sorriso do Jay. E agora, essa mulher... ela parece odiar você tanto quanto o Jay me odeia.

Jungkook suspirou e, em um gesto de rara vulnerabilidade, pegou as mãos de Jimin entre as suas.

— Lisa é parte de um passado que eu tentei apagar. Ela não tem poder sobre mim, Jimin. O único poder que ela tem é o que eu permito que ela tenha ao me deixar irritado. Mas o que ela disse... sobre eu descartar as pessoas...

— Eu não acreditei nela — interrompeu Jimin, olhando-o com firmeza. — Eu vejo como você cuida dessa fazenda. Como cuida do Namjoon, do Jin e até do Taehyung, mesmo que ele te tire do sério. Você não descarta ninguém, Jungkook. Você se sacrifica por eles.

Jungkook sentiu um nó na garganta. Ele nunca tinha sido tão bem compreendido por alguém que conhecia há tão pouco tempo.

— Obrigado por isso — sussurrou ele.

— Jungkook... — Jimin hesitou, mordendo o lábio inferior. — Eu posso ficar aqui com você? Só por um tempo? Não quero ficar sozinho naquele quarto enorme.

Jungkook sabia que, como guarda-costas, deveria manter a distância profissional. Mas, como o homem que estava perdendo o juízo por Park Jimin, ele não conseguiu dizer não.

— Venha. Vamos ficar no escritório. Tem um sofá confortável lá e eu posso ficar de olho na entrada.

Eles se acomodaram no pequeno escritório que Jungkook usava para a administração da segurança. Jimin se encolheu no sofá sob uma manta de lã, enquanto Jungkook se sentou na poltrona ao lado, com o rádio e os monitores das câmeras ao alcance da mão.

O silêncio era confortável, preenchido apenas pelo som da respiração um do outro.

— Jungkook? — Jimin chamou baixinho, quando as luzes já estavam apagadas.

— Sim?

— Por que você aceitou esse trabalho? Meus pais pagam bem, eu sei, mas você poderia estar em qualquer lugar. Você é inteligente, é forte... por que ficar aqui, arriscando a vida por um garoto mimado de São Paulo?

Jungkook soltou uma risada curta e sem humor.

— Você não é mimado, Jimin. Você é teimoso, irritadiço e não sabe a hora de ficar quieto, mas não é mimado. E eu aceitei porque... — Ele hesitou, olhando para a silhueta de Jimin no escuro. — Porque eu vi você em uma foto que seu pai me mostrou. Você estava sorrindo no meio de um jardim. Parecia alguém que o mundo ainda não tinha conseguido quebrar. Eu quis garantir que continuasse assim.

Jimin sentiu o coração disparar.

— E agora? O que você vê agora?

Jungkook inclinou-se para frente, a luz do luar filtrada pelas cortinas iluminando apenas metade de seu rosto.

— Agora eu vejo alguém que me faz querer ser mais do que apenas um escudo. Alguém que me faz sentir que há algo pelo que lutar além de terras e gado.

Jimin estendeu a mão para fora da manta, encontrando a mão de Jungkook no escuro. Seus dedos se entrelaçaram naturalmente.

— Então lute por mim — pediu Jimin, a voz mal passando de um sussurro. — Porque eu acho que já comecei a lutar por você também.

Jungkook apertou a mão de Jimin, sentindo uma determinação renovada. Ele não sabia o que os próximos cinco meses trariam. Não sabia quais eram os planos de Jay ou que segredos Lisa ainda tentaria desenterrar. Mas ele sabia de uma coisa: ninguém tocaria em Jimin.

A madrugada seguiu seu curso, e Jimin finalmente sucumbiu ao sono, exausto pelas emoções do dia. Jungkook permaneceu acordado, observando o peito do loiro subir e descer ritmicamente. Ele pegou o envelope que havia escondido e, com cuidado para não fazer barulho, o abriu.

Dentro, não havia uma carta, mas uma foto antiga. Era Jungkook e Lisa, anos atrás, sorrindo em frente à sede da fazenda. No verso, escrito em letras apressadas: "Algumas coisas nunca mudam, Jeon. Você sempre protege o que vai acabar perdendo."

Jungkook amassou a foto em seu punho, uma fúria fria correndo por suas veias. Ele olhou para Jimin, dormindo pacificamente a poucos centímetros dele, e sentiu uma onda de proteção que beirava a possessividade. Jay e Lisa achavam que conheciam suas fraquezas, mas eles não faziam ideia de que Jimin não era sua fraqueza.

Ele era sua força.

Quando os primeiros raios de sol começaram a despontar no horizonte, pintando o campo de ouro, Jungkook se levantou silenciosamente. Ele precisava preparar a fazenda para a guerra, mas antes, ele se inclinou e depositou um beijo casto na testa de Jimin.

— Eu não vou te perder — jurou ele para o silêncio do quarto.

Ao sair para o pátio, ele encontrou Namjoon já de pé, observando o horizonte com um binóculo.

— Eles estão lá fora, não estão? — perguntou Namjoon, sem desviar o olhar.

— Estão — respondeu Jungkook, ajustando o cinto. — Mas eles cometeram um erro, Namjoon. Eles acham que isso é sobre o passado.

— E sobre o que é?

Jungkook olhou para a janela do escritório, onde Jimin ainda descansava.

— É sobre o futuro. E eu não vou deixar ninguém estragar o meu.

Pela primeira vez em anos, Jungkook tinha encontrado alguém que fazia o mundo parecer mais leve. E justamente por isso, o medo de perder Jimin começava a se tornar assustador. 🐴🤍