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Pião todo tatuado

O Peso do que Não se Pode Perder

A poeira levantada pela caminhonete de Jay ainda parecia pairar de forma invisível sobre a sala da fazenda, mesmo que o motor já estivesse a quilômetros de distância. Jungkook permanecia com a mão sobre o telefone, o peito subindo e descendo em uma cadência pesada. O aviso fora claro. O fogo que Jay mencionara não era literal — ou talvez fosse —, mas a intenção de queimar a paz que eles vinham construindo era absoluta.

— Jungkook? Está tudo bem? — A voz de Jimin veio da entrada da cozinha, doce e carregada de uma preocupação que fez o estômago de Jungkook dar um nó.

Jungkook forçou um sorriso, embora seus olhos não acompanhassem o gesto. Ele soltou o aparelho e caminhou em direção ao loiro, tentando manter a postura ereta do homem que tinha tudo sob controle.

— Está sim, Jimin. Era apenas o pessoal da manutenção da cerca confirmando o serviço de amanhã.

Jimin estreitou os olhos, cruzando os braços sobre o peito. Ele conhecia Jungkook o suficiente para saber quando ele estava guardando o mundo nas costas.

— Você mente muito mal quando está tentando me proteger, Jeon Jungkook. Foi o Jay, não foi?

Jungkook suspirou, derrotado pela percepção aguda do outro. Ele se aproximou, diminuindo a distância entre eles até que pudesse sentir o calor emanando de Jimin.

— Ele ligou. Só provocações vazias, Jimin. Ele quer nos desestabilizar. Quer que a gente cometa erros porque estamos com medo. Mas ele não sabe com quem está lidando.

Jimin descruzou os braços e deixou que suas mãos descansassem suavemente sobre o peito de Jungkook, sentindo a batida acelerada do coração do moreno sob a camisa de algodão.

— Eu não tenho medo dele — sussurrou Jimin —, mas tenho medo do que ele pode fazer com você. Ele sabe que você é o meu porto seguro. Se ele te tirar de mim...

— Ele não vai — Jungkook interrompeu, segurando o rosto de Jimin com as duas mãos, os polegares traçando círculos reconfortantes em suas bochechas. — Eu prometi aos seus pais, e prometi a mim mesmo. Ninguém encosta em você.

O momento de ternura foi interrompido por um grito vindo do andar de cima, seguido pelo som de algo pesado caindo.

— Eu já disse que não vou usar essa bota cheia de lama no meu quarto, Jung Hoseok! — A voz de Taehyung ecoou, estridente.

— Mas Taehyung, é couro legítimo! Eu só queria te mostrar o acabamento! — Hoseok respondeu, rindo.

— Pois leve seu acabamento para o corredor antes que eu jogue esse seu chapéu pela janela!

Jungkook e Jimin trocaram um olhar e não puderam evitar o riso. A dinâmica caótica da fazenda era o que ainda mantinha a sanidade de todos.

— Acho melhor irmos lá antes que o Taehyung decida que o Hoseok precisa de um banho de mangueira forçado — comentou Jimin, o clima pesado se dissipando momentaneamente.

No corredor, a cena era digna de uma comédia. Taehyung estava parado à porta do quarto, apontando um dedo acusador para Hoseok, que segurava um par de botas de montaria com uma expressão de cachorrinho abandonado. Yoongi estava encostado na parede oposta, observando tudo com um sorriso de canto, claramente se divertindo com o drama.

— O que está acontecendo aqui, bando de desocupados? — Jungkook perguntou, assumindo o tom de "chefe da segurança" que sempre fazia Hoseok se empertigar.

— O Hoseok acha que o meu quarto é um estábulo, Jungkook! — Taehyung reclamou, fazendo um biquinho indignado. — Olha o estado desse carpete!

— Eu só queria dar um presente para ele — Hoseok se defendeu, olhando para Yoongi em busca de apoio. — Não é, Yoongi? Você viu como ele gostou daquelas que o Jungkook usa.

Yoongi soltou uma risada anasalada e desencostou da parede, aproximando-se do grupo.

— Ele gostou, Hoseok. Só que o Taehyung prefere que as coisas brilhem antes de entrarem no santuário dele. — Yoongi parou ao lado de Taehyung e, de forma surpreendentemente ousada, passou o braço pela cintura do loiro. — Deixa que eu ajudo ele a limpar depois, Taehyung. Agora, por que não vamos todos jantar? O Jin está quase tendo um colapso porque o Namjoon tentou ajudar a temperar a carne e confundiu açúcar com sal.

Taehyung pareceu desarmar instantaneamente com o toque de Yoongi, suas bochechas ganhando um tom rosado que combinava com o pôr do sol lá fora.

— Açúcar na carne? — Jimin riu, descendo as escadas. — O Jin vai matar o Namjoon.

O jantar foi uma mistura de risadas e olhares furtivos. Namjoon tentava se redimir do erro culinário elogiando cada detalhe da decoração da mesa que Jin havia feito, enquanto este apenas fingia irritação, embora seus olhos brilhassem de adoração toda vez que Namjoon sorria, revelando as covinhas.

— Você é um desastre na cozinha, Namjoon — disse Jin, servindo o vinho —, mas admito que sua inteligência para gerir essa fazenda compensa sua falta de paladar.

— Eu só estava pensando nas planilhas de exportação e me distraí — Namjoon se defendeu, segurando a mão de Jin por cima da mesa por um segundo longo demais para ser apenas amigável. — Obrigado por não me expulsar da cozinha.

Jungkook observava seus amigos e sentia uma pontada de inveja da simplicidade daqueles momentos. Ele olhou para Jimin, que estava concentrado em contar uma história sobre um desfile de moda em São Paulo para um Hoseok e um Yoongi fascinados. A luz das velas refletia no cabelo loiro de Jimin, fazendo-o parecer quase etéreo.

"Como eu pude deixar isso ficar tão sério?", Jungkook se perguntou. Ele deveria ser apenas o protetor. Mas cada risada de Jimin, cada vez que o garoto o desafiava ou buscava sua mão no escuro, Jungkook sentia que estava se afogando em um sentimento que não tinha volta.

Após o jantar, enquanto os outros se dividiam entre limpar a mesa e organizar as rondas da noite, Jungkook chamou Jimin para um canto.

— Quero te mostrar uma coisa. Antes que escureça totalmente.

— Mais segredos, Jeon? — Jimin brincou, mas o seguiu prontamente.

Eles caminharam para longe da sede, em direção a um antigo celeiro que fora convertido em uma oficina mecânica e depósito de ferramentas. Jungkook abriu as portas duplas, revelando um espaço amplo, cheirando a óleo, madeira e feno seco. No centro, coberta por uma lona, havia uma forma imponente.

— O que é isso? — Jimin perguntou, curioso.

Jungkook puxou a lona, revelando uma motocicleta antiga, uma Harley-Davidson restaurada, com o metal brilhando sob a luz fraca das lâmpadas de LED.

— Era do meu pai — explicou Jungkook, passando a mão pelo tanque de combustível. — Eu passei os últimos dois anos trabalhando nela. É o meu projeto de fuga quando o mundo fica pesado demais.

Jimin se aproximou, admirando os detalhes. Ele notou uma pequena gravação no metal perto do guidão: um lírio-tigre, idêntico à tatuagem de Jungkook.

— É linda, Jungkook. Por que nunca me contou?

— Porque é algo pessoal. Mas hoje, depois de tudo o que aconteceu... eu queria que você visse. — Jungkook olhou para Jimin, a expressão séria. — As tatuagens, a moto, essa fazenda... tudo o que eu sou está aqui. E agora, você também está aqui.

Jimin sentiu o ar faltar. Ele se aproximou de Jungkook, os corpos quase se tocando no espaço silencioso do celeiro.

— Você está dizendo que eu faço parte do que você é?

— Estou dizendo que eu não consigo mais imaginar esse lugar sem você — confessou Jungkook, a voz rouca. — Eu tentei lutar contra isso, Jimin. Tentei me convencer de que era apenas o meu trabalho. Mas quando o Jay te ameaça, eu não sinto apenas o dever de um guarda-costas. Eu sinto como se ele estivesse tentando tirar o meu oxigênio.

Jimin estendeu a mão e tocou a tatuagem no braço de Jungkook, o lírio-tigre que significava "por favor, me ame".

— Você não precisa pedir, Jungkook — sussurrou Jimin, olhando nos olhos dele. — Eu já amo você. Acho que amei desde o momento em que você me desafiou na pista de dança daquela balada barulhenta.

Jungkook não esperou mais. Ele envolveu a cintura de Jimin com os braços e o puxou para um beijo que carregava toda a tensão, o medo e o desejo das últimas semanas. Foi um beijo profundo, com gosto de urgência e promessa. Jimin entrelaçou os dedos nos cabelos da nuca de Jungkook, puxando-o para mais perto, querendo fundir suas existências ali mesmo, entre as ferramentas e o cheiro de terra.

Quando se separaram por falta de ar, suas testas permaneceram unidas.

— Eu vou te proteger, Jimin. Custe o que custar — jurou Jungkook.

— Nós vamos nos proteger — corrigiu Jimin, sorrindo levemente.

Eles ficaram ali por mais algum tempo, conversando sobre coisas triviais, tentando ignorar a sombra que pairava lá fora. Jungkook contou histórias de sua infância naquelas terras, de como ele era um menino rebelde que preferia a companhia dos cavalos à dos livros. Jimin falou sobre a pressão de ser o herdeiro dos Park e como a fazenda estava sendo o único lugar onde ele realmente se sentia livre.

No entanto, a bolha de paz foi estourada pelo som de um assobio baixo vindo de fora do celeiro. Era o sinal de Yoongi.

Jungkook instantaneamente mudou sua postura. Ele apagou as luzes do celeiro e puxou Jimin para trás de si.

— Fique aqui. Não saia por nada.

Jungkook saiu silenciosamente, a mão indo para a arma em seu coldre oculto. Yoongi estava parado nas sombras de uma árvore próxima, apontando para o portão leste da propriedade.

— Temos um problema, JK. Uma caminhonete desconhecida parou na estrada de acesso. Sem luzes. Dois homens desceram e estão tentando pular a cerca perto do pomar.

— Cadê o Hoseok?

— Está na posição norte, esperando o seu comando. Namjoon está dentro de casa com o Jin e o Taehyung. Estão trancados.

Jungkook cerrou os dentes. Jay não tinha esperado nem o amanhecer.

— Vamos pegá-los. Yoongi, contorne pelo galpão. Eu vou por trás das árvores. Não atire a menos que eles atirem primeiro. Queremos respostas, não corpos.

Enquanto Jungkook se movia com a agilidade de um predador pela escuridão, sua mente gritava apenas um nome: Jimin. Ele precisava terminar aquilo logo. Ele precisava garantir que o fogo que Jay prometera não chegasse perto do garoto no celeiro.

Ele se aproximou da cerca e viu as duas silhuetas. Eles usavam roupas escuras e táticas, movendo-se com uma confiança que sugeria treinamento. Não eram apenas capangas de aluguel.

— Parados! — Jungkook ordenou, saindo das sombras com a lanterna tática ofuscando os invasores. — Mãos onde eu possa ver!

Os homens não hesitaram. Um deles sacou uma arma, mas Jungkook foi mais rápido, desarmando-o com um chute preciso antes de imobilizá-lo contra o poste da cerca. Yoongi surgiu logo em seguida, rendendo o segundo invasor.

— Quem mandou vocês? — rosnou Jungkook, pressionando o antebraço contra a garganta do homem.

O invasor apenas sorriu, revelando dentes manchados de sangue.

— O Jay mandou um presente, Jeon. Olhe para a casa.

O coração de Jungkook parou. Ele se virou e viu um clarão vindo da direção da sede. Não era um incêndio na casa principal, mas o celeiro onde ele deixara Jimin estava começando a soltar fumaça.

— NÃO! — Jungkook gritou, soltando o homem e correndo com toda a velocidade que suas pernas permitiam.

— Jungkook, espera! — Yoongi gritou, mas era tarde demais.

Jungkook corria desesperado. O celeiro, o seu refúgio, a sua oficina... e Jimin estava lá dentro. As chamas começavam a lamber as madeiras secas da estrutura antiga.

— JIMIN! — ele berrou ao chegar perto da entrada, que agora estava bloqueada por uma viga caída.

— Jungkook! Estou aqui! — A voz de Jimin veio de dentro, abafada pela fumaça. — A porta de trás está trancada por fora!

Jungkook não pensou duas vezes. Ele usou o próprio corpo para arrombar a porta lateral de madeira, sentindo a dor do impacto em seu ombro, mas ignorando-a completamente. Ele entrou no ambiente enfumaçado, tossindo, até encontrar Jimin encolhido perto da motocicleta.

Ele pegou o loiro nos braços e o carregou para fora segundos antes de uma parte do teto desabar. Eles rolaram na grama úmida, longe do calor escaldante.

— Você está bem? Me olha, Jimin! — Jungkook implorava, examinando o rosto do outro.

— Estou... estou bem — Jimin tossiu, agarrando-se à camisa de Jungkook. — Eles jogaram algo... começou muito rápido.

Namjoon, Jin e os outros chegaram correndo com baldes e extintores, mas o celeiro de madeira velha era uma causa perdida. Eles só puderam observar enquanto a oficina de Jungkook e a moto de seu pai eram consumidas pelo fogo.

Jungkook sentiu uma lágrima solitária escorrer por seu rosto, misturando-se à fuligem. Não era pela moto. Era pela percepção brutal de que Jay tinha chegado tão perto. Ele tinha quase tirado a vida de Jimin para provar um ponto.

Ele se levantou, ajudando Jimin a ficar de pé. O olhar de Jungkook agora não era mais de preocupação; era de uma frieza mortal. Ele olhou para as chamas e depois para a estrada escura.

— Acabou a brincadeira — disse Jungkook, sua voz soando como um juramento sombrio. — Amanhã, nós vamos atrás dele.

Jimin segurou a mão de Jungkook, sentindo a tremedeira do moreno. Ele sabia que o homem à sua frente estava quebrado por dentro, mas também sabia que ele era a coisa mais perigosa que Jay já enfrentara.

Enquanto as chamas diminuíam, deixando apenas brasas e o cheiro acre de destruição, Jungkook percebeu que a guerra não era mais sobre proteção ou contratos. Era sobre sobrevivência.

Pela primeira vez em anos, Jungkook tinha encontrado alguém que fazia o mundo parecer mais leve. E justamente por isso, o medo de perder Jimin começava a se tornar assustador. 🐴🤍