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Pião todo tatuado

Cinzas e Juramentos

O cheiro de fumaça impregnava tudo. Não era apenas o odor acre de madeira queimada e óleo de motor, mas o cheiro da perda e da vulnerabilidade que agora flutuava sobre a Fazenda Jeon como uma neblina maldita. Jungkook permanecia de pé diante dos restos fumegantes do celeiro, seus olhos fixos nas brasas que ainda brilhavam no escuro da madrugada. A motocicleta de seu pai, o único elo físico que ele ainda mantinha com uma infância sem complicações, era agora um esqueleto de metal retorcido e negro.

Ao seu lado, Jimin estava envolto em um cobertor grosso que Jin trouxera às pressas. O loiro ainda tremia, não de frio, mas pelo choque de ter visto a morte de perto, confinada entre paredes de fogo. Jungkook sentia uma fúria tão gélida correndo por suas veias que parecia capaz de congelar o próprio ar ao seu redor.

— Jungkook... — a voz de Jimin saiu fraca, rouca pela fumaça. — Sinto muito pela sua oficina. Pela moto.

Jungkook finalmente desviou o olhar das cinzas e fixou-o em Jimin. Ele se aproximou e, com as mãos ainda sujas de fuligem, segurou o rosto do loiro com uma delicadeza que contrastava violentamente com a tempestade em seu peito.

— A moto é metal, Jimin. O celeiro é madeira — disse ele, a voz soando como o rosnar de um trovão distante. — Nada disso importa se você está aqui. Se eu tivesse chegado um minuto mais tarde...

— Mas você chegou — interrompeu Jimin, cobrindo as mãos de Jungkook com as suas. — Você sempre chega.

Namjoon se aproximou deles, sua expressão normalmente serena agora substituída por uma máscara de severidade. Atrás dele, Yoongi e Hoseok mantinham os dois invasores imobilizados no chão, com os rostos pressionados contra a terra úmida.

— JK, o que fazemos com esses dois? — perguntou Namjoon. — Eles não estão falando nada. São profissionais.

Jungkook soltou Jimin e caminhou em direção aos homens. Seus passos eram lentos, deliberados. Ele parou diante do homem que sorrira para ele antes, aquele que indicara o incêndio. Sem dizer uma palavra, Jungkook agarrou-o pelo colarinho e o levantou do chão com uma força descomunal, prensando-o contra o que restara de um pilar de madeira carbonizada.

— Escute bem — sibilou Jungkook, o rosto a centímetros do invasor. — Você vai dizer ao Jay que ele cometeu o maior erro da vida dele. Ele achou que me atingiria tirando minhas lembranças, mas ele só conseguiu me libertar. Agora, eu não tenho mais nada a perder a não ser a vida dele.

O homem tentou cuspir, mas a pressão no pescoço o impediu. Jungkook o soltou bruscamente, deixando-o cair como um saco de batatas.

— Levem-nos para o porão da sede — ordenou Jungkook para Yoongi e Hoseok. — Chamem o delegado que trabalha conosco. Quero que eles saiam daqui direto para uma cela onde o Jay não possa alcançá-los.

— Pode deixar, chefe — respondeu Hoseok, sua habitual alegria substituída por uma determinação sombria.

Enquanto os invasores eram levados, Taehyung e Jin se aproximaram de Jimin, guiando-o de volta para a casa grande. O clima de diversão e flerte das horas anteriores fora completamente erradicado. Na sala, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo estalar da lenha na lareira que Jin acendera para tentar trazer algum conforto térmico e emocional.

— Bebam isso — disse Jin, entregando canecas de chá quente para todos. — Precisamos manter a cabeça no lugar.

Namjoon sentou-se à mesa, abrindo um mapa da região.

— Jay está jogando todas as fichas. Esse ataque não foi só para assustar. Ele queria o Jimin. O incêndio foi uma distração para que os homens dele pudessem agir sem interferência, mas ele não contava que o Jungkook estivesse tão perto do celeiro.

— Ele conhece minha rotina — comentou Jungkook, parado perto da janela, observando a escuridão lá fora. — Ou melhor, a Lisa conhece. Ela sabia que aquele celeiro era o meu refúgio. Ela sabia que, se houvesse um lugar onde eu baixaria a guarda, seria lá.

Taehyung, sentado ao lado de Jimin, bufou de indignação.

— Aquela mulher é uma cobra. Eu sabia que o biquíni preto era sinal de mau agouro.

— O problema não é mais a Lisa — disse Yoongi, entrando na sala após trancar os prisioneiros. — O problema é que o Jay cruzou a linha da propriedade com intenção de matar. Isso muda a natureza da nossa proteção. Jungkook, não podemos mais ficar apenas na defensiva.

Jungkook virou-se para o grupo. Suas orelhas estavam vermelhas de raiva, e a cicatriz em seu braço parecia pulsar.

— Eu concordo. Namjoon, prepare os carros para amanhã cedo. Yoongi e Hoseok, vocês vêm comigo. Vamos fazer uma visita à sede da empresa do Jay na cidade.

— Jungkook, não! — Jimin levantou-se, a caneca de chá tremendo em suas mãos. — É isso que ele quer! Ele quer que você saia da fazenda, que vá para o território dele. É uma armadilha.

— Se eu ficar aqui esperando o próximo ataque, Jimin, a próxima coisa que vai queimar pode ser esta casa com todos vocês dentro — retrucou Jungkook, aproximando-se de Jimin. — Eu não posso permitir que você viva com esse medo.

— Eu prefiro viver com medo ao seu lado do que viver em segurança sabendo que você se jogou na cova dos leões! — gritou Jimin, as lágrimas finalmente transbordando. — Você não entende? Ele trouxe a Lisa para te desconcentrar, ele queimou suas coisas para te enfurecer. Ele está te moldando para você agir por impulso!

O silêncio caiu sobre a sala. As palavras de Jimin atingiram Jungkook com a força de um soco. Ele olhou para os amigos. Namjoon desviou o olhar, claramente concordando com a lógica de Jimin. Jin suspirou, e até Taehyung parecia sério demais para o seu normal.

— Ele tem razão, JK — disse Namjoon suavemente. — Jay é um covarde, mas é um covarde estratégico. Se formos até lá agora, seremos os agressores aos olhos da lei. Precisamos de algo mais sólido.

Jungkook fechou os olhos, tentando controlar a batida frenética de seu coração. Ele sentiu a mão pequena e quente de Jimin tocar seu braço, logo acima da tatuagem do lírio-tigre.

— Fique aqui — pediu Jimin. — Vamos resolver isso juntos. Como você disse... eu não sou apenas a "carga". Eu sou seu parceiro nisso.

Jungkook relaxou os ombros, a tensão deixando seu corpo em um suspiro longo e cansado. Ele puxou Jimin para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço do loiro.

— Tudo bem. Ficaremos. Mas vamos reforçar tudo. Ninguém dorme sem vigilância.

A noite passou sob uma vigília rigorosa. Jungkook não pregou o olho, permanecendo sentado em uma poltrona no quarto de Jimin, observando o loiro dormir um sono inquieto. Cada som da fazenda — o vento nas árvores, o uivo de um cão, o ranger da madeira — o deixava em alerta máximo.

Pela manhã, o clima estava pesado. O café da manhã foi silencioso até que o rádio de Hoseok chiou.

— Jungkook, você precisa ver isso. Temos uma entrega no portão principal.

Jungkook, seguido por Namjoon e Jimin, caminhou até a entrada da propriedade. Parada diante do portão, estava uma coroa de flores fúnebres, enorme e exagerada. No centro, uma faixa branca com letras douradas dizia: "Meus pêsames pelo que foi perdido. O próximo funeral terá um caixão menor."

Jimin sentiu as pernas fraquejarem. O "caixão menor" era uma alusão clara à sua estatura.

— Aquele desgraçado... — rosnou Namjoon, segurando Jin que acabara de chegar e empalidecera ao ler a mensagem.

Jungkook, porém, não explodiu. Ele caminhou até a coroa de flores, arrancou a faixa e a rasgou ao meio.

— Hoseok, pegue o trator — ordenou Jungkook, a voz fria e calma, o que era muito mais assustador do que um grito. — Vamos limpar os restos do celeiro. E Namjoon, ligue para o pai do Jimin. Diga a ele que a situação escalou. Quero autorização para usar o "protocolo de contenção".

Namjoon arregalou os olhos.

— JK, você tem certeza? O protocolo de contenção significa fechar a fazenda completamente e trazer a equipe de intervenção da cidade. Isso vai virar uma zona de guerra.

— Já é uma zona de guerra, Namjoon — disse Jungkook, olhando para o horizonte, onde a estrada de terra se perdia na poeira. — Só que agora, eu vou escolher o campo de batalha.

O resto do dia foi de atividade frenética. Caminhonetes pretas começaram a chegar à fazenda, trazendo homens de confiança de Jungkook, todos armados e equipados. A propriedade foi cercada por sensores infravermelhos e drones de vigilância começaram a patrulhar os céus.

No meio do caos organizado, Taehyung procurou Yoongi e Hoseok, que estavam conferindo o estoque de munição no galpão de armas.

— Ei — chamou Taehyung, sua voz menos confiante do que o habitual. — Vocês dois... vocês realmente sabem o que estão fazendo, não sabem? Quer dizer, vocês não vão deixar nada acontecer com o Jimin. Ou com o Jin. Ou... com vocês mesmos.

Hoseok parou o que estava fazendo e caminhou até Taehyung, segurando suas mãos.

— Taehyung, nós fomos treinados pelo Jungkook. E o Jungkook é o melhor que existe. Nada vai passar por nós. Eu te prometo que, quando isso acabar, eu ainda vou te levar para ver o pôr do sol naquele mirante que você gosta.

Yoongi aproximou-se por trás de Taehyung, colocando uma mão em seu ombro, um gesto de carinho raro para o homem de poucas palavras.

— E eu vou garantir que o Hoseok não caia do cavalo enquanto tenta te impressionar — disse Yoongi, arrancando um sorriso fraco de Taehyung. — Fique perto do Jin e do Jimin. Não saia da sede por nada.

Enquanto isso, na biblioteca, Jin ajudava Namjoon a criptografar as comunicações da fazenda.

— Eu nunca imaginei que minha vida de administrador de fazenda se tornaria um filme de ação — comentou Jin, tentando manter o tom leve, apesar das mãos trêmulas.

Namjoon parou de digitar e olhou para Jin. Ele se levantou e caminhou até o amigo, puxando-o para um abraço protetor.

— Eu sinto muito por ter te arrastado para isso, Jin. Você deveria estar preocupado com o preço do milho, não com invasores.

Jin escondeu o rosto no peito largo de Namjoon.

— Eu não me importo com o perigo, Namjoon. Desde que eu esteja com você. Você é o homem mais inteligente que eu já conheci. Se alguém pode nos tirar dessa, é você e o Jungkook.

Namjoon beijou o topo da cabeça de Jin, sentindo uma determinação feroz queimar em seu peito. Ele faria qualquer coisa para manter aquele homem seguro.

Ao cair da tarde, Jungkook levou Jimin para a varanda dos fundos. O sol estava se pondo, pintando o céu de um vermelho sangrento que parecia um presságio.

— Por que você me trouxe aqui? — perguntou Jimin.

Jungkook tirou algo do bolso. Era uma pequena corrente de prata com um pingente em forma de lírio-tigre. Ele a colocou no pescoço de Jimin, os dedos roçando a pele macia da nuca do loiro.

— Eu fiz isso com o que sobrou de uma das peças da moto — explicou Jungkook. — O fogo não destruiu tudo. Algumas coisas se transformam em algo mais forte sob o calor.

Jimin tocou o pingente, sentindo o metal ainda morno.

— É lindo, Jungkook.

— Isso é para você se lembrar de que, não importa o que aconteça nos próximos dias, eu estou com você. Cada batida do meu coração é para garantir que você continue sorrindo.

Jimin puxou Jungkook para um beijo lento e carregado de emoção. Era um beijo de despedida da inocência, um pacto selado sob a luz de um sol que se apagava. Eles sabiam que a noite traria o confronto final. Jay não esperaria muito mais.

— Jungkook — sussurrou Jimin contra seus lábios. — Não morra por mim. Viva por mim.

Jungkook sorriu, um sorriso triste e determinado.

— Eu pretendo fazer os dois, se necessário.

O silêncio da noite foi subitamente quebrado pelo som de um alarme eletrônico. Namjoon apareceu na porta da varanda, o rosto iluminado pelo brilho do tablet em suas mãos.

— Eles estão aqui. Três veículos pesados derrubaram o portão sul. Estão usando bloqueadores de sinal, mas nossos drones ainda estão ativos.

Jungkook pegou seu rádio.

— Posições de combate! Yoongi, Hoseok, levem o Taehyung, o Jin e o Jimin para o bunker do porão. Agora!

— Não! — Jimin gritou. — Eu não vou me esconder enquanto você luta!

— Jimin, por favor — implorou Jungkook, segurando-o pelos ombros. — Se eu souber que você está seguro lá embaixo, eu posso ser o monstro que eu preciso ser para acabar com eles. Se você estiver aqui em cima, eu vou hesitar. E a hesitação mata.

Jimin olhou nos olhos de Jungkook e viu o desespero e o amor lutando entre si. Ele assentiu, as lágrimas correndo livremente.

— Vá. Mas volte para mim.

Yoongi e Hoseok pegaram Jimin e o arrastaram para dentro da casa, seguidos por Jin e um Taehyung visivelmente aterrorizado. Jungkook ficou sozinho na varanda, observando as luzes dos faróis que se aproximavam pela estrada de terra, cortando a escuridão como olhos de predadores.

Ele sacou sua arma, verificou o carregador e ajustou o rádio.

— Namjoon, apague as luzes da sede. Vamos dar a eles as boas-vindas que eles merecem.

As luzes da fazenda se apagaram uma a uma, mergulhando tudo em um breu absoluto. O único som era o motor dos carros de Jay e o bater acelerado do coração de Jungkook.

Pela primeira vez em anos, Jungkook tinha encontrado alguém que fazia o mundo parecer mais leve. E justamente por isso, o medo de perder Jimin começava a se tornar assustador.