Planos da Amélia
Estratagemas de Sedução e Outras Variáveis Incontroláveis
O sol da manhã atravessava as frestas da janela da pousada, pintando linhas douradas sobre o assoalho de madeira. Oda Akira já estava acordado há horas; seu relógio biológico, treinado pela paranoia e pela necessidade de sobrevivência, não permitia o luxo de dormir até tarde. No entanto, ele permanecia imóvel. O motivo era o peso morno e macio de Amélia, que ainda dormia profundamente com o rosto enterrado em seu peito, uma perna jogada displicentemente sobre as dele.
Akira suspirou mentalmente. Ele tentou analisar a situação como faria com um mapa de masmorra. *Ponto A: Amélia está quase nua. Ponto B: Estamos em uma cama compartilhada. Ponto C: Meus batimentos cardíacos estão 15% acima do normal.* Era uma anomalia estatística que ele ainda não conseguia corrigir.
Quando ele finalmente decidiu se levantar para começar os preparativos do dia, sentiu os braços dela se apertarem ao redor de sua cintura.
— Já vai fugir, Akira-kun? — A voz dela estava rouca de sono, mas carregada daquela provocação habitual.
— Precisamos nos reunir com o grupo. O café da manhã é o melhor momento para trocar informações sem levantar suspeitas — respondeu ele, mantendo a voz plana, embora a sensação da pele dela contra a sua tornasse o raciocínio lógico uma tarefa hercúlea.
— O grupo pode esperar dez minutos — murmurou ela, subindo o corpo lentamente pelo dele até que seus rostos estivessem a centímetros de distância. — Você é tão tenso pela manhã. Sabia que beijar ajuda a relaxar os músculos faciais? É científico.
— Não há base científica para isso neste mundo, Amélia — retrucou Akira, mas ele não se afastou.
Amélia sorriu, uma expressão predatória e doce ao mesmo tempo, e selou seus lábios nos dele. Foi um beijo lento, exploratório, que Akira, após um segundo de hesitação calculada, retribuiu. Ele justificou para si mesmo que era uma forma de manter a harmonia da equipe, mas o modo como suas mãos encontraram a cintura dela dizia o contrário.
Algum tempo depois, no saguão da pousada, o restante do grupo de heróis — aqueles que Akira havia ajudado a libertar da lavagem cerebral do reino — estava sentado à mesa. Quando Akira e Amélia desceram, o silêncio caiu sobre o grupo.
Saran, o espadachim que sempre fora um pouco mais observador que os outros, arqueou uma sobrancelha ao notar um pequeno arranhão no pescoço de Akira e o brilho vitorioso no olhar de Amélia.
— Bom dia para quem finalmente decidiu aparecer — comentou Saran, escondendo um sorriso atrás de sua caneca de cerveja matinal. — Dormiram bem? O quarto era... silencioso o suficiente?
— Adequado para o descanso — respondeu Akira, sentando-se e começando a servir-se de pão e queijo com uma precisão cirúrgica.
— Ah, foi maravilhoso — Amélia disse, sentando-se tão perto de Akira que não havia espaço para o ar entre eles. Ela pegou um pedaço de fruta e o levou à boca de Akira. — Não foi, Akira-kun?
Akira olhou para a fruta, depois para os olhos expectantes de Amélia, e finalmente para os rostos chocados de seus colegas de classe. Ele aceitou a fruta, mastigando calmamente.
— A eficiência do descanso foi satisfatória — ele declarou.
— Eles estão definitivamente em outro nível de "amizade" — sussurrou uma das garotas do grupo, fazendo os outros rirem baixo.
A rotina de viagem que se seguiu ao longo do dia foi um teste de resistência para a fachada apática de Akira. Amélia não escondia mais suas intenções. Durante as caminhadas pelas trilhas florestais, ela se mantinha agarrada ao braço dele. Quando paravam para descansar, ela invariavelmente encontrava uma maneira de sentar-se em seu colo ou deitar a cabeça em seu ombro.
Para os outros heróis, era um entretenimento constante. Para Akira, era um problema de gerenciamento de recursos.
— Amélia, sua posição está dificultando meu acesso às adagas — disse ele, enquanto cruzavam um riacho. Ela estava pendurada em suas costas para não molhar as botas.
— Se algo aparecer, você me usa como escudo e depois me salva de forma heróica — brincou ela, soprando levemente o ouvido dele. — Além disso, eu sei que você gosta de me carregar. Seus músculos ficam todos durinhos.
— É esforço físico, não preferência estética — ele mentiu.
Ao entardecer, o grupo encontrou uma pequena estalagem próxima a uma fonte termal natural. O cansaço da viagem e as pequenas escaramuças contra monstros de nível baixo ao longo do caminho justificavam uma parada.
— Banho! — exclamou Amélia, os olhos brilhando. Ela se virou para Akira antes mesmo que ele pudesse sugerir uma patrulha perimetral. — Você vem comigo.
— Eu preciso verificar as entradas da vila — começou Akira.
— Saran e os outros podem fazer isso — Amélia interrompeu, puxando-o pela mão. — Você está coberto de poeira e sangue de goblin. E eu prometo que, se você vier, eu esfrego suas costas.
Akira olhou para Saran, que apenas deu de ombros e fez um gesto de "vá em frente" com a mão.
— Vá logo, Akira. Se você não for, ela vai acabar te arrastando pelos cabelos de qualquer jeito — disse Saran, rindo.
Nas termas, o vapor criava uma atmosfera etérea e isolada. O som da água caindo sobre as pedras era o único ruído. Akira entrou na água quente, sentindo a tensão finalmente deixar seus ombros. Ele fechou os olhos por um momento, apenas para abri-los quando sentiu o deslocamento da água à sua frente.
Amélia estava lá, a água batendo na altura do peito, seus cabelos úmidos colados à pele. Ela não perdeu tempo. Aproximou-se dele e, sem dizer uma palavra, começou a massagear seus ombros.
— Você carrega o mundo inteiro nas costas, Akira — disse ela, sua voz suave ecoando no vapor. — Mas aqui, você pode ser apenas o meu Akira.
— Eu não sou "seu", Amélia. Eu sou um indivíduo autônomo com objetivos claros — ele respondeu, embora sua cabeça tivesse caído ligeiramente para trás, aproveitando o toque.
— Shh. Menos lógica, mais sensação — ela murmurou.
Ela se moveu para a frente dele, sentando-se em seu colo submerso. O contato da pele úmida e o calor da água criavam uma sensação inebriante. Amélia pegou a mão de Akira e a colocou sobre seu próprio peito, acima do coração que batia rápido.
— Sente isso? Não é um status de sistema. É real.
Akira olhou para ela. Ele via a vulnerabilidade sob a camada de sedução. Ele via a única pessoa que realmente o entendia naquele mundo caótico. Lentamente, ele fechou a mão, sentindo a maciez e o calor dela.
— Eu sei que é real — admitiu ele. — É por isso que é perigoso.
— O perigo é a sua especialidade, não é? — Ela se inclinou, esfregando o busto contra o peito dele de forma lenta e deliberada, provocando uma reação que Akira não conseguia mais ignorar. — Então, por que está tentando fugir dessa luta?
Akira não respondeu com palavras. Ele a puxou para um beijo profundo, um que não tinha nada de calculado ou analítico. Era cru, faminto e cheio de uma necessidade que ele vinha reprimindo desde que acordara naquela manhã. Amélia soltou um suspiro de satisfação entre os lábios dele, suas mãos enroscando-se nos cabelos da nuca de Akira.
— Às vezes — murmurou Akira contra a pele do pescoço dela —, suas táticas de distração são irritantemente eficazes.
— Isso é um elogio vindo de um assassino profissional? — ela perguntou, com um sorriso vitorioso.
— É uma constatação de fatos.
Eles ficaram ali por um longo tempo, envoltos pelo vapor e pelo calor, até que a pele começasse a enrugar pela água. Quando finalmente saíram e voltaram para o quarto compartilhado, a dinâmica havia mudado sutilmente. Akira não tentou mais argumentar sobre roupas apropriadas. Ele apenas observou, com um olhar que queimava mais que a água das termas, enquanto ela se preparava para dormir.
Deitados na cama, desta vez sem a distância de segurança que ele tentara impor na noite anterior, Amélia se aninhou contra ele.
— Akira? — chamou ela baixinho.
— Sim?
— O que você vai fazer quando essa guerra acabar? Quando o Rei for derrotado e o sistema não importar mais?
Akira ficou em silêncio, processando a pergunta. Seu futuro sempre fora uma névoa de sobrevivência e contingências.
— Eu não planejo o que não posso prever — respondeu ele. — Mas... onde quer que eu vá, suspeito que você dará um jeito de estar lá, não é?
Amélia riu, um som doce que foi o último que ele ouviu antes do silêncio da noite se fechar sobre eles.
— Você pode apostar seu status nisso.
Akira fechou os olhos, permitindo-se finalmente dormir. Ele ainda era o assassino mais perigoso daquele mundo, o calculista que via através das mentiras dos deuses e reis. Mas ali, sob os lençóis e com o calor de Amélia contra si, ele aceitou que havia uma variável que ele nunca quereria eliminar de sua equação: o amor dela.
E, pela primeira vez, o pragmático Oda Akira não sentiu necessidade de analisar o porquê.