Planos da Amélia
A Fragilidade da Lógica Diante do Desejo
O silêncio da noite na estalagem era absoluto, interrompido apenas pelo estalar ocasional da madeira da estrutura. Akira estava deitado, encarando o teto escuro, enquanto sentia o calor irradiar do corpo de Amélia ao seu lado. Ele tentava, com todas as suas forças, aplicar suas técnicas de meditação para desacelerar o ritmo cardíaco, mas a variável que o impedia de alcançar a paz estava bem ali, movendo-se sob os lençóis.
— Akira-kun... está muito quente, não acha? — A voz dela era um sussurro carregado de uma intenção que ele conhecia bem.
— A temperatura ambiente está dentro dos parâmetros normais para esta época do ano, Amélia — respondeu ele, embora sua própria pele estivesse começando a suar.
— Pois eu discordo. — O som de tecido deslizando sobre a pele fez os sentidos de Akira entrarem em alerta máximo. — Pronto. Muito melhor.
Akira virou o rosto levemente e, mesmo na penumbra, seus olhos treinados de assassino captaram a cena. Amélia havia se livrado da lingerie. Ela estava ali, completamente despida, a pele pálida brilhando sob a luz fraca da lua que filtrava pelas cortinas. Ela se aproximou, eliminando qualquer espaço que restasse entre eles.
— Amélia, isso é... — Akira começou, mas as palavras travaram quando ela colou o corpo ao dele.
— É o quê? Natural? — Ela envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para mais perto.
No momento em que o peito dela pressionou o dele, o sistema de análise lógica de Akira sofreu um colapso catastrófico. Ele sempre soubera, de forma teórica e visual, que ela era atraente. Mas o contato físico era uma descoberta sensorial avassaladora. Ele sentiu a maciez extraordinária dos seios dela contra seu tórax rígido. Era uma textura que desafiava a dureza da vida que ele levava; algo tão suave que parecia impossível de existir em um mundo feito de lâminas e sangue.
— Você é tão macia... — O comentário escapou antes que Akira pudesse filtrá-lo.
— Finalmente uma observação que não envolve estatísticas de combate — ela brincou, embora sua respiração estivesse ficando pesada. — Sinta, Akira. Eu sou real. Não sou um holograma ou um status.
Akira, agindo por um instinto que superava sua racionalidade, levou a mão ao corpo dela. Seus dedos percorreram as curvas de Amélia, detendo-se na curva de seus seios. A maciez era hipnotizante. Ele sentiu o coração dela batendo forte, sincronizando-se com o dele. O desejo, uma força que ele sempre considerou uma fraqueza a ser controlada, explodiu em suas veias como fogo.
— Se continuarmos — disse ele, a voz rouca e profunda —, não haverá volta. Minha mente não conseguirá focar em mais nada além de você.
— É exatamente isso que eu quero — respondeu ela, puxando-o para um beijo que selou qualquer dúvida restante.
Naquela noite, o assassino que excedia o herói rendeu-se a algo que nenhum nível de experiência poderia ensinar. Não houve cálculos, apenas a entrega mútua. O ato foi intenso, marcado pela descoberta e por uma intimidade que transcendia o físico. Akira descobriu que, sob a armadura de cinismo e apatia, havia uma capacidade de sentir que o assustava e o completava ao mesmo tempo.
Na manhã seguinte, a luz do sol parecia mais brilhante. Akira acordou primeiro, observando Amélia dormir com uma expressão de paz absoluta. Ele sentia-se diferente. O mundo ainda era perigoso, o Rei ainda era um traidor em potencial, mas o peso em seus ombros parecia mais leve.
Algumas horas depois, eles se juntaram ao grupo de amigos no salão principal da pousada para o desjejum. Saran, a garota maga e os outros heróis libertos estavam discutindo rotas de fuga quando Akira e Amélia se aproximaram. Amélia estava radiante, com um brilho no olhar que ninguém poderia ignorar. Ela sentou-se ao lado de Akira e, naturalmente, entrelaçou seus dedos aos dele sobre a mesa.
Saran parou de falar no meio de uma frase, olhando para as mãos dadas e depois para o rosto impassível de Akira.
— Hum... Akira? — Saran limpou a garganta. — Vocês dois estão agindo de um jeito... bem, mais próximo do que o normal.
Akira tomou um gole de seu chá, mantendo a expressão neutra que era sua marca registrada.
— É natural que estejamos próximos. Somos namorados — declarou ele, como se estivesse comentando sobre a previsão do tempo.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que poderia ser cortado com uma adaga. A maga engasgou com o suco, e Saran arregalou os olhos, boquiaberto.
— Namorados?! — exclamou Saran. — Desde quando? Por que você não disse nada?
Akira arqueou uma sobrancelha, genuinamente confuso pela reação exagerada.
— Eu pensei que já tinha dito. Ou que, no mínimo, fosse óbvio para qualquer observador com metade de um cérebro funcional. A probabilidade de nossas interações serem interpretadas como mera amizade era de menos de 5%.
— Óbvio?! — a maga gritou, rindo. — Akira, você é a pessoa mais fechada do mundo! A gente achava que a Amélia estava apenas tentando te tirar do sério e que você estava tolerando por educação!
Amélia soltou uma risada cristalina, apertando a mão de Akira.
— Viu só, querido? Eu te disse que você precisava ser mais explícito com as pessoas. Nem todo mundo lê o mundo em códigos como você.
— Que seja — resmungou Akira, embora houvesse um leve traço de satisfação em seu rosto. — O fato permanece. Amélia é minha parceira em todos os sentidos. Se alguém tiver algum problema com isso, podemos resolver no campo de treinamento.
— Problema nenhum! — Saran levantou as mãos em sinal de rendição, rindo. — Só estamos surpresos. Mas, honestamente, fico feliz por você, cara. Você precisava de alguém para te humanizar um pouco.
As semanas que se seguiram foram de intensa movimentação. O grupo viajava constantemente, preparando o terreno para a rebelião final contra a tirania do reino que os invocara. Akira estava mais focado do que nunca, mas algo começou a mudar nas estatísticas de Amélia.
Como um assassino com habilidades de percepção sobre-humanas, Akira monitorava constantemente o estado físico de seus aliados. Ele notou que Amélia estava ficando mais cansada, que sua resistência mágica oscilava e que ela demonstrava uma sensibilidade incomum a certos odores durante as refeições no acampamento.
Uma noite, enquanto estavam acampados em uma floresta protegida por suas sombras, Akira a chamou de lado.
— Amélia, seu rendimento físico caiu 12% nos últimos dez dias. Suas flutuações hormonais estão fora do padrão. O que está acontecendo?
Amélia olhou para ele, e por um momento, a confiança habitual dela hesitou. Ela pegou a mão de Akira e a colocou sobre seu ventre.
— Akira... eu não acho que seja uma doença ou cansaço da viagem.
Akira ficou congelado. Sua mente, capaz de processar milhares de variáveis de combate em segundos, levou um tempo agonizante para processar aquela informação específica. Ele olhou para a mão dela sobre a dele, sentindo uma nova vida, uma pequena centelha de energia que não pertencia a nenhum sistema de jogo ou magia deste mundo.
— Você está... — Ele não conseguiu terminar a frase.
— Sim — ela sussurrou, com os olhos marejados. — Eu estou grávida, Akira.
O mundo de Akira girou. Ele, o homem que sempre tinha um plano de contingência para tudo, viu-se diante de uma situação para a qual não havia manual. Um filho. Em um mundo de guerra, conspirações e deuses cruéis.
— Isso muda tudo — ele murmurou, sua mente já começando a traçar novas rotas, novas estratégias de proteção. — O Rei... se ele descobrir, ele tentará usar a criança como alavanca. Eu não posso permitir isso. Eu vou destruir este reino mais rápido do que planejei.
Amélia segurou o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a olhá-la.
— Ei, olhe para mim. Não pense apenas como um assassino agora. Pense como um pai. Nós vamos ficar bem. Você é o homem mais forte que eu conheço, e nós temos nossos amigos.
Akira respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Quando os abriu, a frieza analítica estava lá, mas temperada por uma determinação feroz e protetora.
— Eu vou construir um mundo onde essa criança possa crescer sem nunca precisar ver o status de ninguém — prometeu ele. — Ninguém vai tocar em você ou nela. Eu excederei qualquer limite necessário para garantir isso.
Ele a puxou para um abraço apertado, beijando o topo de sua cabeça. O futuro era incerto e perigoso, mas para Oda Akira, o cálculo agora era simples: a vida de sua família valia mais do que o mundo inteiro. E ele estava pronto para provar isso.