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Por acaso

Ciúmes, Camisetas Largas e Outros Feitiços

A manhã em Auradon costumava ser anunciada pelo canto dos pássaros e pelo brilho suave do sol atravessando as cortinas de seda, mas, para Hanna, o despertar foi consideravelmente mais barulhento. O som de batidas insistentes e rítmicas na madeira pesada da porta do quarto de Ben ecoou como marteladas em sua mente. Ela piscou os olhos castanho-mel, sentindo o calor do corpo de Ben ao seu lado e a maciez dos lençóis reais.

Ben soltou um resmungo baixo, afundando o rosto no travesseiro antes de se virar para a porta com um olhar de quem ainda estava processando a realidade.

— Pelo visto — ele murmurou, a voz rouca pelo sono —, a Fada Madrinha finalmente aprendeu que portas servem para ser batidas antes de abrir. O problema é que ela resolveu bater como se o castelo estivesse pegando fogo.

Hanna deu uma risadinha abafada, esticando os braços e sentindo a liberdade de estar usando apenas uma das camisetas de algodão cinza de Ben. A peça era tão larga que batia no meio de suas coxas, escondendo completamente o short curto que ela usava por baixo. Ela se sentia confortável, uma mistura perfeita entre a fofura de uma garota de dezesseis anos e a audácia herdada de sua mãe.

— Vai lá, "Vossa Majestade" — provocou ela, empurrando-o levemente com o pé por debaixo das cobertas. — O dever chama. E a paciência da Fada parece estar por um fio.

Ben suspirou, passou a mão pelo cabelo bagunçado e se levantou. Ele caminhou até a porta, destrancando-a com um clique seco, mas abrindo apenas uma fresta, o suficiente para manter a privacidade do quarto, mas permitindo que a voz da Fada Madrinha invadisse o ambiente.

— Benjamin! Graças aos céus você acordou! — A voz dela estava um tom acima do normal, carregada daquela agitação característica. — Eu tenho os horários das limusines, os protocolos de boas-vindas para os filhos dos vilões e... oh, querido, você parece exausto. Está dormindo bem?

Hanna, sentada na cama, inclinou a cabeça para o lado. Da sua posição, ela conseguia ver parte do rosto da Fada Madrinha através da fresta. O que ela viu a fez arquear uma sobrancelha. A mulher não estava apenas entregando um recado; ela olhava para Ben com uma admiração que beirava o exagerado, um brilho nos olhos que Hanna conhecia bem. Era aquele tipo de olhar "apaixonado" que algumas pessoas em Auradon dedicavam ao futuro rei, mas vindo da Fada Madrinha, parecia quase cômico e, para Hanna, um pouco irritante.

"Ela vai acabar tentando beijar a mão dele ou algo pior se eu não interromper isso", pensou Hanna, sentindo uma pontada de ciúmes misturada com seu espírito brincalhão.

Hanna não era do tipo que ficava acuada. Ela se levantou da cama, sentindo o chão frio sob os pés descalços. Seu cabelo preto e longo estava levemente bagunçado, mas de um jeito que ela sabia que a deixava bonita, e a camiseta de Ben caía de ombro, revelando um pouco mais de pele do que o protocolo de Auradon consideraria "apropriado".

Ela caminhou silenciosamente até ficar logo atrás de Ben e, sem aviso, passou os braços pela cintura dele, encostando o queixo em seu ombro e olhando diretamente para a Fada Madrinha.

— Ben, amor... por que você está demorando tanto? — perguntou Hanna com uma voz doce, mas carregada de uma possessividade sutil. — O quarto está ficando frio sem você.

O efeito foi instantâneo. A Fada Madrinha travou no meio de uma frase sobre "logística de bagagens". Seus olhos desceram para os braços de Hanna em volta de Ben, depois para a camiseta claramente masculina que ela usava e, por fim, para o rosto da garota. A expressão de adoração da Fada murchou mais rápido que uma flor no deserto.

— Oh... Hanna. Eu não sabia que você ainda estava... — A Fada Madrinha limpou a garganta, ajeitando os óculos com uma mão trêmula. — Bem, eu... os horários estão na mesa do conselho. Com licença.

Ela fechou a cara, uma expressão de pura desaprovação e frustração, e virou as costas, saindo pelo corredor com passos rápidos e pesados.

Ben fechou a porta e encostou a testa na madeira, os ombros sacudindo enquanto ele começava a rir baixo.

— Você é impossível, sabia? — Ele se virou para ela, os olhos brilhando de diversão. — Viu a cara que ela fez? Ela quase deixou cair a varinha imaginária dela.

— Eu não fiz nada demais — Hanna disse, dando de ombros e voltando para a cama com um sorrisinho vitorioso. — Só vim ver o que estava acontecendo. Ela estava olhando para você como se você fosse um pote de mel e ela uma abelha faminta. Alguém precisava lembrar a ela que o mel já tem dona.

— Já tem dona, é? — Ben caminhou até ela, o tom de voz mudando para algo mais profundo e provocador.

Hanna se deitou novamente, espalhando o cabelo sobre o travesseiro. Ben não perdeu tempo; ele se posicionou por cima dela, apoiando o peso nos antebraços, cercando-a. O clima de brincadeira de segundos atrás se transformou em algo elétrico.

— Eu gosto quando você fica brava — murmurou ele, aproximando o rosto do dela.

— Eu não sou brava, Ben. Eu sou... seletiva com quem pode olhar para o meu príncipe — ela respondeu, sentindo o coração acelerar.

Ben sorriu, mas não a beijou de imediato. Em vez disso, ele deslizou uma das mãos para debaixo da camiseta larga que ela usava, sentindo a pele quente de sua cintura. Seus dedos subiram lentamente, mapeando as curvas de Hanna com uma familiaridade que a fazia perder o fôlego. Quando a mão dele pressionou levemente a lateral de seu corpo, Hanna sentiu uma onda de prazer percorrer seu sistema.

Ela sabia que a Fada Madrinha provavelmente ainda estava no corredor, possivelmente processando a indignação ou esperando que Ben saísse logo. Hanna, com o sangue da Arlequina pulsando em suas veias, não conseguiu resistir à tentação de causar um pouco mais de caos.

— Ah... Ben... — Hanna soltou um gemido audível, fechando os olhos e jogando a cabeça para trás, garantindo que o som fosse alto o suficiente para atravessar a porta de madeira.

O resultado foi imediato. Do lado de fora, ouviu-se o som nítido de um pé batendo com força no chão — o clássico sinal de impaciência e raiva da Fada Madrinha — seguido por um ruído de indignação, algo entre um bufo e um resmungo abafado.

Ben parou por um segundo, olhando para a porta e depois para Hanna, que estava tentando conter o riso.

— Você não fez isso — ele sussurrou, embora um sorriso largo estivesse estampado em seu rosto.

— Fiz — Hanna sussurrou de volta, os olhos brilhando de diversão. — Ela precisa entender que bater na porta é apenas o primeiro passo. O segundo é aceitar que você não é mais o garotinho que ela viu crescer.

Eles ficaram em silêncio por um momento, ouvindo os passos da Fada Madrinha finalmente se afastarem, desta vez com uma pressa que indicava que ela queria estar em qualquer lugar, menos ali perto.

Ben voltou sua atenção total para Hanna, os dedos ainda brincando sob a barra da camiseta.

— Você é terrível, Hanna. Inteligente, gentil e absolutamente terrível.

— É por isso que você me ama — ela brincou, passando as mãos pelo pescoço dele e puxando-o para mais perto. — E admita, foi o melhor jeito de começar o dia.

— Com certeza foi o mais interessante — Ben concordou, antes de finalmente selar seus lábios nos dela.

O beijo era calmo no início, mas logo ganhou a intensidade de quem sabia que o dia seria longo e cheio de responsabilidades reais. Hanna sentia-se segura ali. Mesmo sendo a garota que preferia o caos da mãe à ordem de Auradon, nos braços de Ben, ela encontrava um equilíbrio que não existia em nenhum outro lugar.

— Sabe — Ben disse, afastando-se apenas alguns centímetros —, a Fada Madrinha vai me dar um sermão de três horas sobre "decoro real" na próxima vez que me vir sozinho.

— Deixe ela falar — Hanna respondeu, voltando a mexer no cubo mágico que ainda estava perdido entre os lençóis, resolvendo-o com uma mão só enquanto a outra ainda acariciava o cabelo de Ben. — Enquanto ela fala de decoro, a gente pensa no próximo jeito de deixar ela de cabelo em pé.

Ben riu, deitando-se ao lado dela e puxando-a para que ela encostasse a cabeça em seu peito.

— Os filhos dos vilões chegam hoje, Hanna. As coisas vão mudar por aqui. Muita gente vai ficar de olho em você, tentando ver se você vai se aliar a eles ou se vai continuar sendo a "nossa" Hanna.

Hanna parou de mexer no cubo por um segundo, olhando para as cores alinhadas.

— Eu nunca vou ser o que eles esperam, Ben. Nem o que Auradon espera, nem o que a Ilha espera. Eu sou a Hanna. E se eles quiserem confusão, bom... minha mãe me ensinou alguns truques. Mas se eles quiserem um lugar para pertencer, talvez eu possa ajudar.

Ben beijou a testa dela, sentindo uma admiração profunda pela garota que não se encaixava em moldes, mas que criava os seus próprios.

— Você vai ser incrível, como sempre. Só tente não escandalizar a Fada Madrinha antes do almoço, ok?

Hanna deu um sorriso travesso, os olhos cor de mel brilhando com uma ideia nova.

— Não prometo nada, Ben. Não prometo nada.

E enquanto o sol subia no horizonte de Auradon, iluminando o castelo que em breve receberia novos e improváveis moradores, Hanna e Ben compartilharam mais um momento de silêncio cúmplice, sabendo que, independentemente do que viesse da Ilha dos Perdidos, eles enfrentariam o caos — e a Fada Madrinha — juntos.