Por acaso
Entre o Caos da Ilha e o Calor de Auradon
A manhã avançava e o peso da realidade começava a bater à porta, desta vez de forma figurada. Ben precisou se levantar para se vestir adequadamente para a recepção dos filhos dos vilões, mas Hanna continuou ali, aninhada entre os travesseiros reais, observando-o. Ela adorava o contraste: o futuro rei vestindo seu terno impecável e ela, a filha da "vilã mais divertida de Arkham", usando uma camiseta cinza amassada e com o cabelo propositalmente bagunçado.
— Você sabe que a Fada Madrinha vai tentar te dar um chá de sumiço se você aparecer na recepção com essa cara de quem acabou de acordar nos aposentos reais, não sabe? — Ben comentou, ajustando a gravata no espelho.
Hanna soltou uma risadinha, jogando o cubo mágico para o alto e pegando-o com uma mão só.
— Deixe que ela tente. Eu sou inteligente o suficiente para entrar por uma janela enquanto ela guarda a porta principal. Além disso, os filhos dos vilões precisam ver uma cara amigável, ou pelo menos uma cara que não pareça que engoliu um limão mofado, como a maioria das princesas daqui.
Ben se virou, caminhando até a cama e depositando um beijo rápido na ponta do nariz dela.
— Você é minha arma secreta, Hanna. Por favor, tente ser gentil. Eu realmente preciso que essa proclamação dê certo.
— Eu sou sempre gentil, Ben. É a minha natureza — ela piscou, a malícia brilhando nos olhos mel. — Só não garanto que serei gentil com quem tentar roubar meu brilho... ou o meu namorado que não é namorado.
Ben sorriu, aquela expressão que Hanna sabia que era só dela, e saiu do quarto, deixando para trás o perfume amadeirado e uma Hanna pensativa.
Ela se levantou, finalmente trocando a camiseta de Ben por suas próprias roupas: uma calça de couro preta justa, uma blusa vermelha vibrante e suas botas de combate favoritas. Ela não era uma princesa de contos de fadas, e nunca pretenderia ser. Enquanto caminhava pelos corredores do castelo em direção aos jardins frontais, ela sentia os olhares de soslaio dos funcionários e de alguns nobres. Eles a toleravam por causa de Ben, mas ela sabia que, para eles, ela era uma bomba-relógio.
Ao chegar ao pátio, a banda de Auradon já estava posicionada. A Fada Madrinha estava lá, com um sorriso que parecia colado no rosto, embora seus olhos tenham se estreitado visivelmente ao ver Hanna se aproximar e parar bem ao lado de Ben.
— Hanna, querida — disse a Fada Madrinha, a voz carregada de uma polidez forçada —, achei que você estaria ocupada com... bem, com qualquer outra coisa que não envolvesse o protocolo real.
— E perder a chance de ver os novos vizinhos? — Hanna deu um sorriso doce, quase angelical. — Eu não perderia por nada, Fada. Além disso, Ben disse que eu sou essencial para o comitê de boas-vindas. Não foi, Ben?
Ben, tentando manter a diplomacia enquanto via a tensão entre as duas, apenas assentiu.
— Ela conhece os dois lados da moeda, Fada Madrinha. É importante.
O som de um motor potente ecoou pela ponte. A limusine preta e dourada se aproximava, trazendo consigo o destino de Auradon. Quando o carro parou e a porta se abriu, o caos se instalou imediatamente. Dois garotos saíram rolando, brigando por algo que parecia ser um lençol ou um cachecol, enquanto duas garotas saíam logo atrás, uma com cabelos azuis vibrantes e outra com um olhar que poderia congelar o sol.
Hanna sentiu uma eletricidade familiar. Aquilo era vida. Aquilo era o tipo de bagunça que ela entendia.
— Chutes? Socos? — comentou Hanna baixinho para Ben. — Já gostei deles.
A Fada Madrinha interveio, tentando colocar ordem na situação com seu discurso decorado sobre "bondade e caminhos melhores". Hanna observava os quatro jovens da Ilha: Jay, Carlos, Evie e Mal. Ela percebeu imediatamente o desconforto deles, a defensiva armada em cada gesto. Mas quando os olhos de Mal, a filha da Malévola, encontraram os de Hanna, algo estalou.
— Quem é a gótica de vermelho? — perguntou Jay, com um sorriso convencido, enquanto tentava flertar com Hanna antes mesmo de saber o nome dela.
Hanna deu um passo à frente, cruzando os braços.
— Sou a pessoa que vai te dar uma rasteira se você tentar roubar minha carteira, Jay. E meu nome é Hanna.
Jay riu, surpreso pela audácia.
— Ela tem garras. Gostei.
— Ela é filha da Arlequina — interrompeu Ben, colocando a mão possessivamente nas costas de Hanna. — E ela faz parte da nossa elite aqui.
— Arlequina? — Mal arqueou uma sobrancelha, o interesse finalmente despertado. — Achei que ela estivesse em uma ala de segurança máxima na Ilha, não criando uma princesinha em Auradon.
— Eu não sou uma princesinha — Hanna respondeu, aproximando-se de Mal até que ficassem a poucos centímetros de distância. — E minha mãe prefere o termo "consultora de caos". Se vocês acham que Auradon é só flores e chás, estão enganados. Tem muita coisa escondida sob o tapete.
O clima ficou tenso, mas foi quebrado pela Fada Madrinha, que insistiu em levá-los para o tour pelo castelo. Ben liderou o grupo, mas Hanna ficou um pouco para trás, observando o comportamento de cada um. Ela notou como Evie olhava para as roupas de todos com um olhar crítico, e como Carlos parecia aterrorizado com qualquer barulho.
Mais tarde, após o turbilhão inicial, Hanna encontrou Ben em seu escritório. Ele parecia exausto.
— Eles são... intensos — disse ele, desabotoando o colarinho.
— Eles são reais, Ben — Hanna sentou-se na mesa dele, balançando as pernas. — Eles não sabem como agir aqui porque ninguém nunca ensinou que eles podiam ser algo além de vilões. Você fez a coisa certa, mas agora precisa segurar a onda. A Fada Madrinha está prestes a ter um colapso nervoso, e a Audrey... bom, a Audrey provavelmente está planejando um exorcismo.
Ben riu, puxando Hanna para perto de si.
— E você? O que está planejando?
— Eu? — Hanna sorriu, passando os dedos pelo rosto dele. — Eu vou ficar de olho neles. E vou garantir que ninguém machuque meu rei. Mas, Ben... eu vi o jeito que a Mal olhou para a varinha da Fada Madrinha. Eles não vieram aqui só para estudar.
Ben suspirou, fechando os olhos por um momento.
— Eu sei. Mas eu tenho que acreditar que eles podem escolher ser bons.
— Todo mundo pode escolher, Ben. Eu escolhi você, não escolhi? — Hanna inclinou-se e o beijou, um beijo que começou suave e logo se tornou urgente, como se precisassem reafirmar que, em meio a toda aquela mudança, eles ainda eram o porto seguro um do outro.
De repente, a porta do escritório foi aberta. Desta vez, não era a Fada Madrinha. Era Audrey, com uma expressão de puro horror.
— Ben! Eu não posso acreditar que você trouxe aqueles... aqueles animais para...
Ela parou, os olhos fixos em Hanna sentada na mesa de Ben, com os lábios vermelhos e o cabelo desalinhado.
— Hanna? O que você está fazendo aqui a essa hora? E por que você está... — Audrey apontou para a cena, as palavras sumindo em sua garganta.
Hanna desceu da mesa com uma elegância felina, limpando o canto da boca com o polegar, exatamente como fizera na noite anterior diante da Fada Madrinha.
— Estamos discutindo estratégias de integração, Audrey. Você deveria tentar. Ajuda a relaxar os nervos.
— Você é uma vergonha para esta escola! — Audrey sibilou, o rosto ficando vermelho. — Ben, como você pode permitir que essa... essa vilã de segunda categoria fique circulando pelo seu quarto e pelo seu escritório?
Ben deu um passo à frente, sua voz assumindo o tom de autoridade que ele raramente usava, mas que era inquestionável.
— Audrey, chega. Hanna é minha convidada, minha conselheira e muito mais do que você imagina. Se você tem problemas com os novos alunos, fale com o conselho. Mas se você falar assim com ela novamente, teremos um problema sério.
Audrey soltou um grito de frustração e saiu batendo os pés, o som de seus saltos ecoando pelo corredor.
Hanna olhou para Ben e soltou uma gargalhada alta.
— "Muito mais do que você imagina"? Isso foi quase um pedido de casamento, Ben. Cuidado, ou eu vou começar a acreditar.
— E quem disse que eu não quero que você acredite? — Ben a puxou pela cintura, colando seus corpos. — Você me mantém são, Hanna. Mesmo sendo a pessoa mais louca que eu já conheci.
— É o charme da família — ela murmurou, antes de puxá-lo para outro beijo.
Enquanto o sol se punha em Auradon, Hanna sabia que os dias de tranquilidade haviam acabado. Com os filhos dos vilões no reino, o jogo havia mudado. Mas enquanto ela tivesse Ben, e Ben tivesse a coragem dela, eles poderiam enfrentar qualquer feitiço, qualquer plano maléfico e, principalmente, qualquer interrupção inconveniente da Fada Madrinha.
— Ben? — ela chamou, quando eles se separaram para recuperar o fôlego.
— Oi?
— Se a Mal tentar roubar a varinha... você me deixa cuidar dela? Eu sempre quis saber quem ganha: o sangue da Malévola ou o treinamento da Arlequina.
Ben riu, balançando a cabeça.
— Só se não houver explosões, Hanna.
— Ah, Ben... você tira toda a diversão da coisa — ela sorriu, mas seus olhos brilhavam com a promessa de que, em Auradon, a verdadeira aventura estava apenas começando.