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por que voce me trata assim

O Reflexo no Espelho e a Engenheira de Sonhos

A noite após o encontro com Liam foi a mais longa da vida de Anna. O silêncio do seu pequeno quarto no sótão parecia gritar as palavras que ela não disse e as lágrimas que ela se recusou a derramar na frente dele. Por mais que ela repetisse para si mesma que o odiava, que ele era um estranho, uma parte profunda e infantil de seu coração ainda doía. Era a Anna de cinco anos, aquela que esperava na janela o carro do pai aparecer, que ainda soluçava baixinho. Ela não queria o dinheiro dele; ela queria que ele tivesse olhado para ela e visto a filha, não uma "garçonete insolente".

Nos dias seguintes, Anna arrastou-se para o trabalho com uma nuvem cinzenta sobre a cabeça. O brilho habitual de sua determinação estava opaco. Ela se sentia pequena, invisível e, pela primeira vez, cansada de lutar.

— Anna, querida, você está no mundo da lua hoje — comentou Martha na cozinha, enquanto montava uma salada. — Quebrei dois pratos só de te olhar. O que houve? Aquele homem de ontem mexeu tanto assim com você?

Anna limpou uma mancha imaginária no balcão, evitando o olhar da cozinheira.

— Só estou cansada, Martha. O verão está sendo longo.

— Pois trate de recompor essa carinha linda. O Sr. Henderson reservou a sala VIP para um grupo de jovens de Londres. Parece que são pessoas importantes, gente da tecnologia ou algo assim. Ele quer você lá.

Anna suspirou, ajeitando o avental. A última coisa que ela queria era servir mais pessoas ricas que a tratariam como parte da mobília. Mas ela precisava do emprego. Precisava ajudar Mila. Precisava sobreviver.

Ela subiu as escadas para a área reservada com os ombros levemente caídos. O som de risadas animadas e conversas inteligentes preenchia o ambiente. Ao entrar na sala, Anna começou a distribuir os copos de água com a cabeça baixa, seguindo o protocolo de ser o mais discreta possível.

— ... e eu disse ao George que, se não ajustarmos o fluxo aerodinâmico na asa traseira, o Oscar vai perder tempo precioso nas curvas de alta — disse uma voz feminina, clara, firme e com um sotaque britânico impecável.

Anna parou por um segundo. Aquela voz não tinha a arrogância da esposa de Liam. Tinha paixão. Tinha inteligência.

— Você é muito técnica, Lily! Deixe a Fórmula 1 na pista por uma noite e aproveite o vinho — brincou um dos homens à mesa.

— Impossível. Os dados não dormem, por que eu deveria dormir? — a mulher riu, uma risada leve que fez o coração de Anna dar um salto estranho.

Quando Anna se aproximou para servir a mulher que falava, ela finalmente levantou o olhar. E, naquele momento, a jarra de cristal quase escorregou de suas mãos.

Sentada à sua frente estava uma visão que parecia ter saído diretamente dos sonhos mais febris de Anna. A mulher, que os outros chamavam de Lily, era a imagem escarrada de Hannah Williams. Os mesmos cabelos castanhos ondulados que caíam suavemente pelos ombros, a mesma pele clara e, o mais impactante, os mesmos olhos verdes vibrantes que pareciam acolher o mundo.

Lily Zneimer estava vestida com elegância, mas sem a ostentação vulgar que Anna vira no dia anterior. Ela usava um blazer bem cortado e um sorriso que iluminava a sala.

Anna ficou paralisada, a jarra de água suspensa no ar. O rosto de Lily era o conforto que Anna procurava há anos. Era como ver sua mãe, mas uma versão que tivesse tido a chance de florescer, de ser bem-sucedida, de ser livre.

— Oh! — Lily exclamou, percebendo a hesitação da menina. Ela estendeu a mão para estabilizar o copo, seus dedos tocando brevemente os de Anna. — Está tudo bem, querida? Você parece ter visto um fantasma.

Anna piscou rapidamente, sentindo o rosto queimar.

— Eu... eu peço desculpas, senhora. Eu me distraí por um momento.

Lily não desviou o olhar. Ao contrário de Liam, que olhara através de Anna, Lily olhava *para* ela. Havia uma curiosidade gentil em seus olhos verdes, uma empatia que Anna não recebia de estranhos há muito tempo.

— Não se preocupe com isso. O serviço aqui deve ser exaustivo — disse Lily, com um tom de voz que era puro mel. — Qual é o seu nome?

— Anna. Anna Williams, senhora.

Lily sorriu, e Anna sentiu como se um cobertor quente tivesse sido colocado sobre seus ombros.

— É um nome lindo, Anna. Eu sou Lily. E, por favor, não me chame de senhora, faz eu me sentir como se tivesse cem anos.

Os amigos de Lily continuaram conversando entre si, mas Lily manteve sua atenção em Anna enquanto a menina servia os outros pratos. Ela notou a delicadeza dos movimentos de Anna, mas também a sombra de tristeza que pairava sobre a jovem.

— Você trabalha aqui há muito tempo, Anna? — perguntou Lily, enquanto esperava a entrada.

— Há alguns meses, Lily. Eu ajudo minha tia com as despesas em casa.

Lily franziu levemente a testa, uma expressão de admiração surgindo em seu rosto.

— Você é muito jovem para carregar tanta responsabilidade. Mas sinto que você é muito forte. Há algo em seus olhos... uma determinação que eu reconheço.

Anna sentiu um nó na garganta. Ninguém nunca tinha dito algo assim para ela, exceto talvez a Senhora Dalvie.

— Eu tento fazer o meu melhor — sussurrou Anna. — Minha mãe sempre dizia que o trabalho dignifica a gente.

— Sua mãe era uma mulher sábia — disse Lily, e por um momento, o silêncio entre as duas foi mais profundo do que qualquer conversa à mesa.

Ao longo do jantar, o contraste entre a experiência de Anna com Liam e seu encontro com Lily não poderia ser maior. Lily a incluía nas pequenas interações, agradecia por cada detalhe e, em certo momento, quando um dos amigos foi rude ao pedir mais pão, Lily o repreendeu gentilmente, defendendo o espaço de Anna.

— Ela está fazendo um trabalho excelente, Mark. Peça com educação — disse Lily, com uma autoridade natural.

Perto do final da noite, enquanto os amigos de Lily pagavam a conta, ela se levantou e caminhou até o canto onde Anna organizava as bandejas.

— Anna — chamou Lily suavemente.

— Sim, Lily?

A engenheira abriu sua bolsa e tirou um pequeno cartão de visitas, elegante e minimalista.

— Eu moro em Londres a maior parte do tempo, e viajo muito com a equipe de Fórmula 1... meu namorado é piloto, então a vida é uma correria. Mas eu gostaria que você ficasse com isso.

Anna pegou o cartão. Lia-se: *Lily Zneimer – Engenheira de Sistemas*.

— Por que está me dando isso? — perguntou a menina, confusa.

— Porque eu vi como você lidou com aquele grupo de pessoas difíceis hoje. Você tem uma inteligência emocional rara, Anna. E, para ser sincera, senti uma conexão estranha com você. Como se eu devesse te conhecer. Se você algum dia precisar de algo, ou se decidir que quer sair desta cidade e buscar algo maior... uma bolsa de estudos, um estágio, ou apenas um conselho... me ligue.

Anna olhou para o cartão e depois para Lily. As lágrimas que ela segurara o dia inteiro começaram a embaçar sua visão.

— Você não me conhece... por que faria isso por mim?

Lily estendeu a mão e acariciou o rosto de Anna, um gesto tão maternal que fez o coração da menina doer de saudade de Hannah.

— Às vezes, a gente encontra pessoas que nos lembram de partes de nós mesmos que não podemos esquecer. Você me lembra que a doçura não é fraqueza, Anna. É uma escolha. Não deixe este lugar, ou as pessoas que passarem por aqui, tirarem esse brilho de você.

— Meu pai esteve aqui ontem — confessou Anna, em um ímpeto de confiança que ela não conseguia explicar. — Ele é rico. Ele tem tudo. E ele nem sequer me reconheceu.

Lily sentiu um aperto no peito. Ela não sabia a história completa, mas a dor na voz daquela criança era palpável.

— Então ele é o homem mais tolo do mundo — disse Lily com firmeza. — Porque ele tem um tesouro bem na frente dele e é cego demais para ver. O valor de uma pessoa não está no que ela possui, mas no que ela é capaz de superar. E você, Anna Williams, parece capaz de superar qualquer coisa.

Lily deu um abraço rápido e caloroso em Anna, um abraço que cheirava a flores cítricas e a uma vida cheia de possibilidades.

— Eu preciso ir, o motorista já está esperando. Mas eu falo sério sobre o cartão. Não o perca.

Anna observou Lily sair da sala VIP, caminhando com a confiança de uma mulher que conquistara seu espaço em um mundo dominado por homens. Ela era o oposto de Liam. Liam usava o dinheiro para construir muros; Lily usava seu sucesso para construir pontes.

Naquela noite, ao voltar para casa, Anna não se sentia mais esmagada pelo encontro com o pai. O encontro com Lily Zneimer agira como um antídoto para o veneno de Liam.

Ela entrou em casa e encontrou Mila dormindo no sofá, exausta. Anna cobriu a tia com uma manta e subiu para o seu quarto. Ela pegou o cartão de Lily e o colocou dentro da caixa de metal, ao lado da foto de sua mãe.

As duas mulheres agora habitavam o mesmo espaço em seu coração: Hannah, a lembrança do amor puro que a moldara, e Lily, a visão do futuro que ela poderia alcançar.

Pela primeira vez em anos, Anna não pensou em Liam antes de dormir. Ela pensou em aerodinâmica, em Londres, em olhos verdes que sorriam com sinceridade e na promessa de que o mundo era muito maior do que aquela pequena cidade costeira.

— Eu vou conseguir, mamãe — sussurrou Anna para o escuro. — Eu não vou ser a filha esquecida de um milionário. Eu vou ser a mulher que o mundo não vai conseguir ignorar.

O ressentimento ainda estava lá, um pequeno carvão aceso em sua alma, mas agora havia algo novo: a esperança. E enquanto Liam Williams dormia em seus lençóis de seda, cercado por um vazio que o ouro não preenchia, sua filha sonhava com circuitos de corrida, equações e o dia em que ela cruzaria sua própria linha de chegada, sem precisar de um único centavo de um homem que nunca soube o que era ser um pai.

A jornada de Anna Williams estava mudando de direção. O recomeço, antes movido apenas pela dor, agora ganhava o combustível da inspiração. E, em algum lugar de Londres, Lily Zneimer olhava pela janela do carro, pensando na menina com olhos de oceano e alma de guerreira que acabara de conhecer, sentindo que aquele não era, de forma alguma, o último encontro das duas.

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