por que voce me trata assim
O Eco de uma Alma e o Calor do Gelo
A escuridão do sótão era o único refúgio que Anna Williams conhecia. Após o turno exaustivo no restaurante, a adrenalina da presença de Lily havia se dissipado, deixando em seu lugar um vácuo doloroso. Anna estava encolhida em sua cama estreita, abraçando os próprios joelhos. O cartão de visitas de Lily estava sobre o travesseiro, mas ela não conseguia olhar para ele sem sentir uma pontada de agonia.
— Por que dói tanto? — sussurrou ela para as sombras. — Ela é apenas uma estranha. Uma estranha gentil, mas uma estranha.
As lágrimas, que ela segurara com tanto orgulho diante de Liam e com tanta dignidade diante de Lily, finalmente transbordaram. Não eram lágrimas de raiva, mas de uma saudade inexplicável. O cheiro de Lily, o toque de sua mão, o brilho daqueles olhos verdes... era como se uma ferida que Anna pensava estar cicatrizada tivesse sido aberta, revelando que, por baixo da crosta, o amor de Hannah ainda pulsava, vivo e desesperado. Anna chorou até que seu peito doesse, sentindo-se mais sozinha do que nunca, mesmo sabendo que a poucos metros dali, sua tia Mila dormia o sono dos justos.
Enquanto isso, a quilômetros dali, em uma suíte luxuosa de um hotel em Londres, o silêncio era interrompido apenas pelo som suave da chuva contra o vidro. Lily Zneimer estava sentada na beira da cama, ainda vestindo o blazer do jantar. Ela deveria estar dormindo; tinha uma reunião técnica com os engenheiros da McLaren logo cedo, mas seu coração se recusava a desacelerar.
De repente, sem aviso, uma lágrima escorreu pelo rosto de Lily. Depois outra. Em poucos segundos, a engenheira de sistemas, conhecida por sua mente lógica e nervos de aço nos boxes da Fórmula 1, estava soluçando.
— O que está acontecendo comigo? — murmurou Lily, levando as mãos ao rosto. — Eu nem conheço aquela menina. Por que sinto como se tivessem arrancado um pedaço de mim quando saí daquele restaurante?
Ela fechou os olhos e, por um breve momento, não viu o luxo do hotel. Viu flashes de um campo de lavanda, o peso de uma criança pequena em seu colo, o som de uma risada infantil que a chamava de "mamãe". Eram memórias que não pertenciam a Lily Zneimer. Ela nunca tivera filhos. Ela nunca morara naquela pequena cidade costeira. Mas a dor em seu peito era a dor de uma mãe que havia sido separada de seu tesouro.
A porta do quarto se abriu suavemente. Oscar Piastri entrou, movendo-se com a economia de movimentos típica de um piloto. Ele era conhecido no paddock como "o garoto de gelo", o jovem prodígio que nunca perdia a calma, que raramente sorria para as câmeras e que mantinha suas emoções sob um controle absoluto. Mas, no momento em que viu Lily encolhida na cama, o gelo derreteu instantaneamente.
— Lily? — A voz dele era um sussurro carregado de preocupação.
Ele atravessou o quarto rapidamente e se ajoelhou à frente dela, pegando suas mãos.
— O que houve, meu amor? Você se machucou? Foi alguém no jantar?
Lily olhou para ele, os olhos verdes inundados de uma tristeza milenar.
— Eu não sei explicar, Oscar. É aquela menina... a Anna. Desde que a vi, sinto que meu mundo virou de cabeça para baixo. Eu sinto que a conheço. Eu sinto que... que eu a amo. De um jeito que não faz sentido.
Oscar a puxou para um abraço apertado, aninhando a cabeça dela em seu ombro. Para o mundo, ele era o competidor implacável; para Lily, ele era o porto seguro, o homem que a tratava com uma ternura que ninguém mais conhecia.
— Calma, respira — disse ele, acariciando o cabelo dela. — Você mencionou que ela era parecida com a foto daquela mulher que você encontrou nos arquivos da sua família, não foi? Hannah?
— Não é só a aparência, Oscar — soluçou Lily. — É a alma. Quando toquei a mão dela, senti um choque. E quando vi o jeito que ela olhava para o vazio... eu senti a dor dela. Ela disse que o pai a abandonou. Ela está sofrendo tanto, e eu só queria pegá-la nos braços e dizer que tudo vai ficar bem.
Oscar a afastou um pouco para olhar em seus olhos. Ele limpou as lágrimas de Lily com os polegares, seus gestos lentos e cheios de adoração.
— Você é a pessoa mais lógica que eu conheço, Lily. Se o seu instinto está gritando desse jeito, é porque há algo ali. Você sempre diz que na engenharia não existem coincidências, apenas variáveis que ainda não compreendemos. Talvez essa menina seja a variável que faltava na sua vida.
— Você acha que eu estou ficando louca? — perguntou ela, a voz trêmula.
— Eu acho que você tem o coração mais bonito do mundo — respondeu Oscar, beijando a testa dela. — E se essa Anna mexeu tanto com você, nós não vamos simplesmente ignorar isso. Se você quer ajudá-la, se quer estar perto dela, eu estou com você. Sempre.
Lily encostou a testa na dele, sentindo a solidez da presença de Oscar.
— Obrigada por não me julgar. Todo mundo espera que eu seja a "Lily de Ferro", a mulher que resolve problemas complexos de software sob pressão. Mas hoje... eu me senti apenas uma mulher que perdeu algo muito valioso.
— Você não precisa ser de ferro comigo — sussurrou Oscar. — Deixe que eu seja o seu escudo. Tente descansar um pouco. Amanhã podemos pensar em como entrar em contato com ela novamente.
Lily assentiu, embora soubesse que o sono não viria facilmente. Enquanto Oscar a ajudava a se deitar e a cobria com cuidado, a mente de Lily continuava voltando para Anna. Havia uma conexão invisível, um fio de prata que ligava seus corações através do tempo e do espaço.
Na manhã seguinte, na pequena casa de Anna, a rotina recomeçou. A menina acordou com os olhos inchados, mas a determinação de sempre. Ela ajudou Mila a preparar o café para os primos e se arrumou para ir à escola.
— Anna, você está bem? — perguntou Mila, notando o silêncio incomum da sobrinha. — Parece que não dormiu nada.
— Só tive alguns sonhos estranhos, tia. Nada demais.
— Sonhos com a sua mãe? — Mila perguntou com doçura.
Anna hesitou, ajeitando a mochila nos ombros.
— Sonhos com uma mulher que tinha os olhos dela. Mas ela era... diferente. Ela era forte, tia. Como se a mamãe tivesse vencido a doença e se tornado uma rainha.
Mila sorriu com tristeza, acariciando o ombro da menina.
— Talvez seja a maneira da Hannah te dizer que você também vai ser uma rainha, querida. Agora vá, não se atrase.
Enquanto Anna caminhava para a escola, um carro preto elegante, muito diferente dos táxis locais, estacionou silenciosamente perto do portão. Lily Zneimer desceu do veículo, acompanhada por Oscar, que usava óculos escuros e um boné para evitar ser reconhecido imediatamente.
Lily estava ansiosa. Ela passara a noite pesquisando sobre a escola e sobre a família Williams na região. O que descobrira sobre o abandono de Liam e a morte de Hannah a deixara furiosa e, ao mesmo tempo, devastada.
— Ali está ela — sussurrou Oscar, apontando para a garota que entrava pelo portão de ferro.
Lily sentiu o coração disparar. Ver Anna à luz do dia, sem as luzes artificiais do restaurante, era ainda mais impactante. A menina caminhava com uma dignidade que não pertencia a uma criança de treze anos. Era a postura de alguém que já carregara o mundo nas costas.
— Vá falar com ela — encorajou Oscar, apertando a mão de Lily. — Eu espero aqui.
Lily caminhou em direção a Anna. A menina parou ao ouvir o som dos passos e se virou. Ao reconhecer Lily, Anna deixou a mochila cair no chão.
— Lily? O que está fazendo aqui?
A engenheira parou a poucos passos de distância. Ela não sabia o que dizer. Não podia dizer "eu acho que fui sua mãe em outra vida" ou "eu chorei a noite toda por sua causa".
— Eu não consegui parar de pensar no que você me disse ontem, Anna — começou Lily, a voz falhando levemente. — Sobre o seu pai. Sobre como você se sente invisível.
Anna baixou o olhar, o ressentimento lutando contra a esperança em seu peito.
— Por que você se importa? Você tem uma vida incrível em Londres. Você é famosa, você tem... — Anna olhou para o carro e viu Oscar observando — ... você tem tudo.
— Eu não tenho tudo se sei que há alguém como você lutando sozinha aqui — disse Lily, aproximando-se mais. — Anna, eu sei que soa estranho, mas quando eu te vi, senti que minha vida só faria sentido se eu pudesse garantir que você nunca mais se sentisse abandonada.
Anna olhou nos olhos de Lily e, por um instante, o tempo parou. A garota viu o reflexo de Hannah naquela mulher moderna e poderosa. Viu a mesma promessa de proteção que a leucemia havia roubado.
— Você prometeu que eu poderia te ligar — lembrou Anna, a voz embargada.
— E eu prometo agora que, se você me deixar entrar na sua vida, eu nunca vou desligar o telefone — afirmou Lily, as lágrimas voltando a surgir. — Eu falei com o meu namorado, o Oscar. Nós queremos ajudar você e sua tia. Não como um ato de caridade, mas porque... porque você faz parte de nós agora.
Anna correu para os braços de Lily. O abraço foi um encontro de almas. Lily apertou a menina contra si, fechando os olhos e sentindo, pela primeira vez em sua vida consciente, que estava exatamente onde deveria estar.
Oscar desceu do carro e caminhou até elas, colocando a mão no ombro de Lily. Ele olhou para Anna e deu um sorriso raro e genuíno.
— Olá, Anna. Lily não parou de falar de você por um segundo. Acho que vou ter que me acostumar a dividir a atenção dela com você.
Anna sorriu através das lágrimas, sentindo o calor daquela nova e estranha família que se formava.
— Você é o piloto, não é? O "Homem de Gelo"? — perguntou Anna, limpando o rosto.
Oscar soltou uma risada curta, seus olhos brilhando de diversão.
— As pessoas dizem isso. Mas acho que sua amiga Lily aqui é a única que conhece o sistema de aquecimento.
— Ele é um bobo, Anna — disse Lily, rindo enquanto limpava as próprias lágrimas. — Mas ele tem razão. Nós estamos aqui por você.
Naquele momento, Liam Williams estava em seu escritório em Londres, cercado por ouro e silêncio, sem saber que a filha que ele descartara acabara de encontrar algo que ele nunca possuiria: um amor que desafiava a própria morte e a lógica do tempo.
Anna olhou para a escola e depois para Lily e Oscar. O futuro, que antes parecia um túnel escuro e solitário, agora brilhava como a pista de um circuito sob o sol.
— Minha mãe disse que o sol sempre nasce depois da noite mais longa — sussurrou Anna.
Lily beijou o topo da cabeça da menina, sentindo um eco profundo em sua própria alma.
— Ela estava certa, meu anjo. E hoje é o seu amanhecer.
Enquanto caminhavam juntos, a pequena Anna Williams percebeu que, embora o sangue a ligasse a um monstro, o destino a ligara a anjos. E Lily, sentindo o peso reconfortante da mão de Anna na sua, finalmente compreendeu por que sempre sentira um vazio no peito: ela estava apenas esperando o momento de reencontrar a filha que sua alma nunca esqueceu. O gelo de Oscar, a tecnologia de Lily e a força de Anna estavam agora unidos, prontos para enfrentar qualquer tempestade que o passado de Liam tentasse enviar. O recomeço não era mais um sonho; era a realidade vibrante de três corações que o destino, em sua infinita sabedoria, decidira entrelaçar para sempre.