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porta aberta

Entre o Sangue e a Tinta

A manhã na mansão dos Leister nasceu com uma luz cruel, daquelas que não perdoam segredos escondidos sob lençóis de seda. Luiza Catarina acordou com o peso do braço de Nolah sobre sua cintura, uma âncora de músculos e calor que a mantinha presa a uma realidade que, horas antes, parecia um sonho febril. Ela observou o teto alto, os óculos esquecidos no criado-mudo, e sentiu o latejar suave em seu antebraço, onde a bússola tatuada parecia queimar contra a pele.

Ela se virou devagar, tentando não despertá-lo, mas Nolah Allerano não era o tipo de homem que dormia profundamente. No momento em que os olhos verdes dela encontraram os negros dele, a tensão elétrica que os unira na biblioteca retornou com força total.

— Você tem o hábito de encarar as pessoas enquanto elas dormem ou eu sou uma exceção especial, Catarina? — A voz dele estava mais rouca que o normal, carregada de um sono preguiçoso e uma satisfação evidente.

— Você é uma exceção para muitas coisas, Nolah — respondeu ela, a timidez habitual lutando para retomar seu posto, embora sua voz soasse firme. — Mas não se acostume. Eu ainda acho você um idiota sarcástico.

Nolah soltou uma risada baixa, um som vibrante que reverberou pelo peito dele. Ele se inclinou, selando os lábios nos dela em um beijo que começou lento, mas logo ganhou a urgência da noite anterior. Suas mãos grandes perderam-se nos cachos rebeldes de Luiza, puxando-a para mais perto, até que não houvesse espaço para dúvidas entre eles.

— O que você me ensinou ontem... — murmurou ele contra o pescoço dela, bem em cima da pulsação acelerada. — Sobre a entrega. Eu passei a noite pensando nisso. Você não é só música, Luiza. Você é o tipo de sinfonia que faz um homem querer queimar o resto do mundo só para ouvir o refrão.

— Então é melhor você se preparar — disse ela, afastando-se apenas o suficiente para olhá-lo nos olhos —, porque o mundo lá fora não gosta muito de música alta. Se a Noah ou o Nicholas desconfiarem que você esteve aqui...

— O Nick é meu melhor amigo, mas ele não manda no que eu sinto. E a Noah... bom, ela vai entender. Ela também vive um caos proibido, não vive?

Luiza suspirou, sentando-se na cama e puxando o lençol para cobrir o corpo. O magnetismo entre eles era inegável, mas a realidade de quem eles eram — e de quem orbitavam — era um campo minado. Nicholas e Noah viviam uma relação que desafiava a lógica e as leis da família Leister. Nolah era o braço direito de Nicholas em negócios que Luiza preferia não detalhar em sua mente de leitora ávida por finais felizes.

— Não é só sobre eles, Nolah. É sobre o que isso faz conosco. Eu não sou uma das suas garotas de uma noite. Eu não sei brincar de desapego.

Nolah sentou-se atrás dela, passando os dedos longos pela tatuagem da bússola no antebraço de Luiza. O contraste entre a pele clara dela e a tinta escura era hipnotizante.

— Eu sei que não é. E é exatamente isso que me assusta — confessou ele, a máscara de sarcasmo caindo por um breve segundo. — Esse fio no meu pescoço... eu sempre disse que ele conectava o destino, mas a verdade é que eu nunca soube ao que ele estava conectado. Até ontem.

O momento de vulnerabilidade foi interrompido por batidas frenéticas na porta do quarto de hóspedes. Luiza saltou da cama, o coração disparando, enquanto Nolah buscava suas calças com uma agilidade predatória.

— Luiza! Você está aí? — Era a voz de Noah, e ela parecia à beira de um colapso. — Lu, por favor, abre a porta! O Nick... aconteceu uma coisa.

Luiza vestiu o robe rapidamente e trocou um olhar carregado com Nolah. Ele assentiu, escondendo-se atrás da porta entreaberta do closet enquanto ela abria a entrada principal.

Noah estava pálida, os olhos vermelhos de choro. Ela nem notou o estado desalinhado de Luiza ou o cheiro de sândalo masculino que impregnava o quarto.

— Noah, o que houve? — perguntou Luiza, segurando os ombros da amiga.

— O Nick... ele se envolveu em uma briga nas corridas ilegais ontem à noite. Ele não me contou, mas o pai dele descobriu. Lu, eles estão levando ele para a casa de campo à força. O William está furioso. Ele disse que vai separar a gente de vez.

Luiza sentiu um calafrio. Ela conhecia a reputação de William Leister. O homem era um tirano disfarçado de magnata.

— Onde o Nolah está? — Noah perguntou, olhando em volta desesperada. — O Nick precisa dele. O Nolah é o único que o William respeita, ou teme, não sei mais.

Nolah saiu do closet, a expressão agora fria e profissional, o "pegador" dando lugar ao homem perigoso que Luiza vira pela primeira vez na sala de bilhar.

— Eu estou aqui, Noah — disse ele, a voz como aço. — Calma. Eu vou resolver isso.

Noah recuou um passo, surpresa ao vê-lo ali, mas a urgência da situação superou qualquer questionamento sobre o que ele fazia no quarto de sua melhor amiga às oito da manhã.

— Nolah, meu pai está armado. Ele chamou os seguranças dele. Ele quer mandar o Nicholas para o exterior ainda hoje.

Nolah olhou para Luiza. Havia uma promessa silenciosa em seus olhos negros. Ele se aproximou dela, ignorando a presença de Noah por um segundo, e segurou o rosto de Luiza com as duas mãos.

— Fique aqui. Não saia dessa casa até eu voltar com ele. Entendeu?

— Nolah, tome cuidado — pediu Luiza, a voz embargada. — Lembre-se do que eu te ensinei. Não aja apenas pelo impulso. A entrega... a conexão... use a cabeça.

Ele deu um beijo rápido e possessivo na testa dela e saiu do quarto como um furacão, seguido por uma Noah ainda atordoada.

As horas que se seguiram foram um tormento para Luiza. Ela tentou ler, mas as palavras dançavam nas páginas sem sentido. Ela olhava para sua tatuagem de bússola e sentia que, pela primeira vez, o norte estava em perigo. Ela começou a andar pela biblioteca, o lugar onde tudo começara, tentando encontrar alguma pista, algo que pudesse ajudar.

Foi então que ela viu, caído atrás da poltrona onde Nolah estivera sentado no dia anterior, um pequeno caderno de couro preto. Curiosa, ela o abriu. Não eram anotações de negócios, mas sim desenhos. Esboços de tatuagens, de rostos, de fios emaranhados. E, na última página, havia um desenho recente: uma bússola. A bússola dela. Abaixo do desenho, uma frase escrita com uma caligrafia agressiva, mas elegante: "Onde a lama cria flores, eu encontrei meu caminho".

Luiza sentiu as lágrimas arderem. Ele a vira de verdade. Não apenas a garota tímida de óculos, mas a alma que tentava florescer.

De repente, o som de pneus cantando no cascalho da entrada interrompeu seus pensamentos. Luiza correu para a janela e viu o carro de Nolah estacionar de forma brusca. Nicholas saiu do banco do passageiro, parecendo exausto e com um corte no supercílio, mas inteiro. Noah correu para os braços dele em um reencontro desesperado.

Mas foi Nolah quem prendeu o olhar de Luiza. Ele saiu do carro devagar, limpando o sangue dos nós dos dedos em um lenço. Ele olhou para cima, para a janela da biblioteca, e um meio sorriso surgiu em seu rosto cansado.

Luiza desceu as escadas correndo, ignorando o protocolo, ignorando Nicholas e Noah. Ela se atirou nos braços de Nolah no meio do jardim.

— Você está bem? O que aconteceu? — perguntou ela, tateando o rosto dele em busca de ferimentos.

— O William é um homem difícil — disse Nolah, envolvendo-a em um abraço apertado —, mas ele entende a linguagem da lealdade. Eu disse a ele que, se ele mandasse o Nick embora, eu levaria metade dos contatos dele comigo. E que eu tinha algo mais importante para proteger aqui do que o legado dos Leister.

— Você disse isso? — Luiza sorriu, os olhos verdes brilhando.

— Eu disse que tinha encontrado minha bússola — sussurrou ele no ouvido dela. — E que eu não pretendia me perder de novo.

Nicholas se aproximou, apoiado em Noah. Ele olhou para o melhor amigo e para Luiza, um entendimento silencioso passando entre eles.

— Acho que agora somos todos cúmplices de algo proibido, não é? — brincou Nicholas, embora sua voz estivesse cansada.

— Sempre fomos, Nick — respondeu Nolah, sem soltar Luiza. — Só que agora, o risco vale a pena.

Naquela tarde, enquanto o sol espanhol começava a baixar, os quatro se sentaram no terraço. A tensão ainda pairava no ar, pois sabiam que William Leister não aceitaria a derrota por muito tempo, mas havia uma nova força ali.

Luiza pegou a mão de Nolah, traçando o fio tatuado em seu pescoço.

— Eu disse que te ensinaria algo, Nolah — começou ela, enquanto os outros ouviam. — Mas eu não sabia que esse ensinamento seria o que me salvaria de continuar sendo apenas uma espectadora da minha própria vida.

— O que você ensinou a ele, Lu? — perguntou Noah, curiosa.

Luiza olhou para Nolah, e a conexão magnética entre eles foi tão visível que Noah e Nicholas desviaram o olhar, sentindo que estavam invadindo algo sagrado.

— Ensinei que a maior coragem não é lutar contra os outros — disse Luiza, a voz firme e doce —, mas se entregar a alguém o suficiente para que essa pessoa tenha o poder de te destruir, e confiar que ela não o fará.

Nolah levou a mão de Luiza aos lábios, beijando a palma onde a linha da vida se encontrava com a bússola.

— Eu nunca tive medo de morrer, Catarina — disse ele, os olhos negros fixos nos dela com uma intensidade que a fez estremecer. — Mas agora eu tenho um medo terrível de não viver cada segundo dessa música com você.

O magnetismo entre eles não era apenas físico, embora o desejo ainda queimasse sob a superfície como brasas prontas para incendiar. Era algo proibido pelo contexto, pelas circunstâncias e pelas amizades, mas era a coisa mais real que Luiza já sentira.

Mais tarde, quando a noite caiu e Nicholas e Noah se recolheram para curar suas feridas, Nolah levou Luiza para o jardim de lótus da mansão. Sob a luz da lua, ele a encostou contra uma estátua de mármore, as mãos descendo por suas curvas com uma possessividade renovada.

— Você sabe que isso é só o começo, não sabe? — murmurou ele, a boca roçando a orelha dela. — O William vai voltar. O mundo vai tentar nos separar.

— Deixe que tentem — respondeu Luiza, puxando-o pela nuca, sentindo o fio tatuado sob seus dedos. — Eu tenho uma bússola e você tem o fio do destino. Eles podem queimar a mansão, Nolah, mas não podem apagar o que está escrito na nossa pele.

Ele a beijou então com uma paixão que beirava o desespero, uma entrega total que ele nunca pensou ser capaz de sentir. Ali, entre as flores de lótus que cresciam na lama, Luiza Catarina e Nolah Allerano selaram um pacto que ia além das palavras.

Ela o ensinara a sentir, e ele a ensinara a agir. Juntos, eles eram uma força da natureza que ninguém na costa espanhola estava preparado para enfrentar. E enquanto ele a possuía ali mesmo, sob as estrelas, com uma intensidade explícita e um amor emocional que transbordava, Luiza soube que, não importava o quão perigoso o futuro fosse, ela finalmente tinha encontrado o lugar onde sua alma podia gritar sem medo.

A tatuagem da bússola em seu braço parecia brilhar no escuro. Ela não precisava mais procurar o caminho. O caminho estava ali, nos olhos negros do homem que a segurava como se ela fosse seu único oxigênio. O amor deles era proibido, era magnético e, acima de tudo, era a única coisa que realmente importava no fim do dia. E Nolah, o sarcástico e perigoso Nolah, agora sabia que a entrega não era uma fraqueza, mas a maior arma que ele poderia ter para salvar o que restava de sua humanidade.