porta aberta
O Veneno e a Vertigem
A noite caiu sobre a costa espanhola com uma densidade que parecia palpável, abafando o som das ondas contra as rochas e trazendo um frescor que não conseguia resfriar o calor que ainda emanava das paredes da mansão Leister. Na varanda privativa, longe dos olhos vigilantes de William e da tensão dos negócios escusos, Luiza Catarina e Noah dividiam uma garrafa de tequila que Nicholas havia "esquecido" no bar.
— Lu, você tem noção de que a gente é um desastre ambulante? — Noah riu, a voz já arrastada, enquanto girava o copo de cristal. — Eu namoro meu meio-irmão e você... você está transmutando o Nolah Allerano em um ser humano com sentimentos. Isso devia ser crime federal.
Luiza ajeitou os óculos, que teimavam em escorregar pelo nariz devido ao suor e à leve tontura que a bebida provocava. Ela sentia as bochechas queimarem, e não era apenas pelo álcool.
— Eu não estou transmutando ninguém, Noah. Ele é que é... magnético demais. — Luiza soltou um suspiro longo, sentindo o peso da bússola tatuada em seu antebraço. — Eu só ensinei a ele que o prazer não precisa ser vazio. Que a entrega é o que dá sentido à música. Mas ele é perigoso, escudeira. Ele é o tipo de perigo que me faz querer pular de um penhasco só para ver se ele me segura.
— Ele seguraria — afirmou Noah, virando o resto do copo e fazendo uma careta. — O Nolah nunca olhou para ninguém do jeito que olha para você. Ele olha como se você fosse a única coisa sólida em um mundo de fumaça.
As duas continuaram a beber, as risadas tornando-se mais altas e as confissões mais profundas. Luiza sentia-se leve, uma sensação rara para alguém que passava a maior parte do tempo escondida atrás de livros e de uma timidez defensiva. No entanto, a tequila era traiçoeira. Em pouco menos de uma hora, o mundo de Luiza começou a girar em um ritmo que nem mesmo sua bússola conseguia orientar.
— Acho que a gravidade decidiu tirar férias — murmurou Luiza, encostando a cabeça no ombro de Noah.
— A minha já foi embora faz tempo — respondeu a amiga, fechando os olhos enquanto tentava manter o equilíbrio na poltrona.
Foi nesse momento que a porta da varanda se abriu. Nicholas apareceu, a expressão de preocupação suavizando-se ao ver o estado das duas, embora um sorriso sarcástico tenha surgido em seus lábios ao notar a garrafa quase vazia.
— Mas que belo espetáculo — disse Nicholas, aproximando-se. — Minha namorada e a melhor amiga dela resolveram virar piratas?
— Nick! — Noah tentou se levantar, mas acabou cambaleando para o lado. — A gente estava só... analisando a qualidade da sua adega. É péssima, mande comprar mais.
Nicholas soltou uma risada baixa e a pegou pela cintura antes que ela pudesse atingir o chão.
— Vem aqui, sua bêbada linda. Você precisa de um banho frio e de uma cama. — Ele olhou para Luiza, que tentava manter a dignidade enquanto abraçava uma almofada. — Lu, você consegue chegar ao quarto ou quer que eu chame ajuda?
— Eu estou... perfeitamente funcional — mentiu Luiza, embora sua voz soasse como se viesse de dentro de um túnel. — Pode levar sua princesa. Eu vou ficar aqui com as estrelas. Elas são ótimas ouvintes.
Nicholas balançou a cabeça, divertindo-se, e carregou Noah nos braços, estilo noiva. Noah resmungou algo sobre querer mais um shot, mas logo se rendeu ao pescoço de Nicholas.
— O Nolah está subindo — avisou Nicholas antes de cruzar o batente da porta. — Tente não quebrar nada até ele chegar. Especialmente o coração dele, Catarina. Ele é mais frágil do que parece sob aquela armadura de couro.
Luiza ficou sozinha. O silêncio do jardim parecia amplificar o latejar em suas têmporas. Ela fechou os olhos, sentindo a brisa, e por um momento, sentiu-se flutuar. Mas a flutuação terminou abruptamente quando o cheiro familiar de sândalo e tabaco caro invadiu seu espaço pessoal.
— Beber até cair não estava nos seus planos de leitora comportada, estava? — A voz de Nolah era um sussurro perigoso, bem perto de seu ouvido.
Luiza abriu os olhos e encontrou as orbes negras dele fixas nela. Ele estava sem jaqueta, com as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos, revelando os antebraços fortes e as veias saltadas. A tatuagem do fio no pescoço parecia mais vibrante sob a luz da lua.
— Eu não estou bêbada — retrucou ela com uma grosseria fingida, tentando se levantar. — Estou apenas... explorando estados alterados de consciência.
Nolah não disse nada. Ele apenas estendeu a mão. Luiza a ignorou, tentando se equilibrar sozinha, mas o mundo deu um solavanco violento. Antes que ela pudesse processar a queda, os braços de Nolah a envolveram. Ele a puxou contra o peito largo, a firmeza de seu corpo servindo como o único ponto de apoio em um universo caótico.
— Você é teimosa demais para o seu próprio bem, Catarina — murmurou ele, a voz vibrando contra o topo da cabeça dela. — Vem. Vou te levar para dentro.
Ele a pegou no colo com uma facilidade desconcertante. Luiza, sem forças para protestar, enroscou os braços no pescoço dele, os dedos involuntariamente tocando a tatuagem do fio.
— Por que você faz isso? — perguntou ela, a voz sumindo.
— O quê? Te salvar de passar a noite dormindo no chão de uma varanda?
— Não. Por que você olha para mim como se eu fosse... importante? Você é o Nolah Allerano. Você pode ter qualquer uma. Por que a garota dos óculos e dos livros?
Nolah parou no meio do corredor, a iluminação fraca das arandelas criando sombras dramáticas em seu rosto esculpido.
— Porque as outras são como as páginas em branco que você pula — disse ele, a intensidade em seu olhar fazendo o álcool no sangue de Luiza evaporar por um segundo. — Você é o capítulo que eu quero ler de novo e de novo, até decorar cada linha. Você me ensinou sobre a entrega, lembra? Eu nunca soube o que era isso até você me tocar com aquela bússola que parece saber exatamente onde meu vazio dói mais.
Ele entrou no quarto de hóspedes e a depositou suavemente na cama de dossel. Luiza sentiu o colchão macio, mas não soltou o pescoço dele. Ela o puxou para baixo, forçando-o a ficar sobre ela, os olhos verdes buscando a verdade na escuridão dos dele.
— Eu quero que você me mostre — sussurrou ela. — Sem sarcasmo. Sem defesas. Só a música que você disse que eu era.
Nolah soltou um rosnado baixo, uma mistura de desejo e rendição. Ele selou os lábios nos dela em um beijo que tinha gosto de tequila e de uma fome antiga. Não era apenas desejo físico; era uma colisão de almas que se reconheciam.
As mãos de Nolah, grandes e calejadas, desceram pelo corpo de Luiza com uma reverência que a deixava sem fôlego. Ele a despiu com uma lentidão torturante, cada centímetro de pele revelado sendo batizado por seus lábios quentes. Quando ele chegou à tatuagem no antebraço dela, ele parou, beijando a bússola com uma ternura que fez o coração de Luiza errar a batida.
— Você me salvou de mim mesmo hoje cedo, Catarina — murmurou ele, referindo-se ao confronto com William. — Agora, deixe-me retribuir.
Ele se livrou das roupas com movimentos rápidos e precisos, revelando o corpo musculoso, uma obra de arte de força e cicatrizes escondidas. Quando ele se posicionou entre as pernas dela, a conexão magnética que os unia desde o primeiro olhar atingiu o ápice.
O toque de Nolah era fogo e seda. Ele explorava cada curva de Luiza como se estivesse mapeando um território sagrado. Luiza, por sua vez, perdeu a timidez. Sob o efeito do álcool e da paixão, ela era pura entrega. Suas unhas cravaram-se nas costas dele, sentindo os músculos se contraírem a cada movimento.
— Nolah... — ela gemeu, a cabeça jogada para trás, os cachos espalhados pelo travesseiro como uma auréola escura.
— Olhe para mim, Luiza — comandou ele, a voz carregada de uma emoção crua. — Quero que você veja exatamente quem está te possuindo. Não é o pegador da mansão. É o homem que você criou ontem à noite.
Quando ele entrou nela, foi como se o mundo finalmente parasse de girar e encontrasse seu eixo. A dor doce da plenitude e o calor avassalador da união física foram acompanhados por uma conexão emocional tão profunda que Luiza sentiu lágrimas arderem em seus olhos. Era algo proibido, algo que desafiava a lógica de suas vidas tão diferentes, mas era a única verdade absoluta naquele momento.
O ritmo deles era uma dança de descoberta. Nolah não tinha pressa; ele saboreava cada reação dela, cada suspiro, cada tremor. Ele a levava ao limite e a trazia de volta, ensinando-lhe novas formas de sentir, enquanto ela, em troca, dava-lhe a paz que ele nunca soube que procurava.
— Você é... tudo — ofegou Nolah, o suor brilhando em sua pele sob a luz da lua que filtrava pelas cortinas.
No ápice, quando o prazer se tornou uma onda avassaladora que ameaçava desintegrá-los, eles se agarraram um ao outro como náufragos. O grito de Luiza foi abafado pelo beijo de Nolah, e ele se derramou nela com uma entrega que foi, em todos os sentidos, a música que ela prometera ser.
Horas depois, Luiza estava aninhada no peito de Nolah, a respiração finalmente voltando ao normal. O silêncio do quarto era confortável, preenchido apenas pelo som dos corações que batiam em uníssono.
— O que vamos fazer amanhã? — perguntou ela em voz baixa, traçando o desenho do fio no pescoço dele. — O William não vai esquecer o que você fez. E o Nicholas... ele está em perigo.
Nolah apertou o abraço, beijando o topo da cabeça dela.
— Amanhã, nós lutamos — disse ele com uma determinação fria. — Mas hoje, nós somos apenas nós. Sabe, Luiza, quando eu fiz essa tatuagem do fio, o tatuador me disse que o fio vermelho do destino pode se emaranhar ou se esticar, mas nunca se quebra.
— Você acredita nisso? — perguntou ela, olhando para ele.
— Eu não acreditava em nada até conhecer uma garota que usa óculos para esconder que vê o mundo melhor do que qualquer um de nós.
Luiza sorriu, sentindo-se segura pela primeira vez em muito tempo. Ela sabia que o que tinham era perigoso. Sabia que a conexão entre eles era um convite para o desastre em uma família como os Leister. Mas, enquanto fechava os olhos, ela se lembrou do que dissera a ele: o prazer sem entrega é só barulho. E ali, nos braços de Nolah Allerano, não havia barulho. Havia apenas a sinfonia perfeita de dois perdidos que, finalmente, haviam encontrado o caminho de casa.
O que ela ainda não sabia, e que Nolah apenas pressentia, era que aquela conexão, aquele ensinamento sobre a entrega total, seria a única coisa que os manteria vivos quando os segredos enterrados no jardim da mansão começassem a emergir como fantasmas famintos. Mas isso seria uma batalha para o dia seguinte. Por ora, a bússola estava em repouso, e o fio estava firmemente atado.