porta aberta
O Rugido dos Motores e a Sombra do Passado
A noite em Marbella não era apenas quente; ela era elétrica, carregada com o cheiro de borracha queimada e gasolina de alta octanagem. O local escolhido para o racha era um trecho industrial abandonado, longe dos olhos da polícia, onde a elite e a escória da cidade se misturavam sob as luzes de neon dos carros tunados. Luiza Catarina sentia o coração martelar contra as costelas, uma mistura de adrenalina e um pressentimento ruim que não a abandonava desde que saíram da mansão.
— Tem certeza de que isso é uma boa ideia, Nick? — perguntou Luiza, ajustando os óculos que insistiam em escorregar devido à umidade. — William já está na sua cola. Se ele descobre que você está correndo de novo...
Nicholas Leister deu um sorriso de lado, aquele sorriso imprudente que Noah tanto amava e que tanto preocupava a todos. Ele apertou o volante de seu carro com força.
— William que se dane, Lu. Eu preciso disso. O sangue precisa circular, ou eu vou acabar matando aquele velho dentro daquela casa.
Ao lado dele, Noah parecia igualmente tensa, mas sua lealdade ao namorado falava mais alto. Ela olhou para Luiza pelo retrovisor.
— Relaxa, Lu. O Nolah está logo atrás da gente. Nada vai acontecer.
Luiza olhou para o lado. Emparelhado com o carro de Nicholas estava o Mustang preto fosco de Nolah. Ele estava com a janela aberta, o braço tatuado apoiado na porta, fumando um cigarro com uma calma que beirava o insulto. Quando seus olhos negros encontraram os verdes de Luiza, ele piscou, um gesto rápido que fez o baixo ventre dela se contrair. O fio tatuado em seu pescoço parecia uma linha de tensão pronta para romper.
A multidão começou a gritar quando dois carros se posicionaram na linha de partida. O clima era de festa, mas havia algo sombrio no ar. Luiza sentiu um calafrio. Ela conhecia aquele tipo de ambiente; ele trazia memórias que ela tentava enterrar com seus livros e sua timidez. Memórias de quando o controle não estava em suas mãos.
— Luiza, você está pálida — notou Nolah, saindo do carro e aproximando-se da janela de Nick. — Se quiser, eu te levo de volta agora.
— Eu estou bem, Nolah — mentiu ela, a voz um pouco trêmula. — Só... não gosto de multidões furiosas.
— Eu também não — disse ele, a voz baixando para um tom que só ela podia ouvir. — Mas eu gosto de você. E não vou deixar ninguém chegar perto.
O racha começou com um estrondo. O som dos motores era ensurdecedor. Nicholas saiu na frente, a velocidade fazendo Luiza se pressionar contra o banco de couro. Noah gritava de empolgação, mas Luiza mantinha os olhos fechados, a mão apertando a tatuagem da bússola em seu braço como se fosse um amuleto.
Tudo aconteceu em questão de segundos. No meio da segunda volta, luzes vermelhas e azuis começaram a piscar ao longe, mas não eram da polícia. Eram os carros de uma gangue rival, liderada por um homem que Nicholas chamava de "O Carniceiro". Eles não estavam ali para correr; estavam ali para cobrar uma dívida de sangue que William Leister havia deixado para o filho resolver.
— Nick, saia daí! — gritou Nolah pelo rádio. — Eles estão armados!
Nicholas tentou manobrar, mas foi cercado por três SUVs pretos. A confusão se instalou. Pessoas corriam em todas as direções, o som de tiros começou a ecoar, misturando-se aos estouros dos escapamentos.
— Saiam do carro! Agora! — gritou um homem mascarado, batendo com a coronha de um fuzil no vidro de Nicholas.
Nolah saltou de seu Mustang antes mesmo que ele parasse totalmente. Ele se moveu como uma sombra, derrubando o primeiro homem que se aproximou de Luiza, mas eram muitos. Nicholas e Noah foram rendidos rapidamente, pressionados contra o capô do carro.
Luiza sentiu o mundo girar. O pânico, aquele velho conhecido, subiu pela sua garganta. Ela tentou correr, mas uma mão pesada a segurou pelo cabelo, puxando-a para trás.
— Solta ela! — rugiu Nolah, tentando avançar, mas sendo contido por dois homens que o golpearam nas costelas.
— Ora, ora... — Uma voz arrastada e cruel surgiu da escuridão. — Então esta é a protegida do Allerano? A famosa leitora?
Era ele. O chefe da gangue, um homem com o rosto marcado por cicatrizes e olhos que não possuíam um pingo de humanidade. Ele segurou o queixo de Luiza com força, forçando-a a olhá-lo.
— Você tem um cheiro doce, pequena — disse ele, rindo. — Acho que você vai servir como um ótimo seguro para garantir que o Nicholas e o Nolah façam o que eu quero.
— Se você tocar nela, eu juro que vou arrancar sua cabeça com as minhas próprias mãos — sibilou Nolah, o sangue escorrendo de sua boca, os olhos negros em chamas.
O chefe apenas sorriu e desferiu um soco no estômago de Nolah, fazendo-o cair de joelhos.
— Levem ela.
— Não! Luiza! — gritou Noah, tentando se soltar de Nicholas, que lutava desesperadamente contra seus captores.
Luiza foi jogada para dentro de uma van escura. O som da porta se fechando foi como o bater de um caixão. O escuro a envolveu, e com ele, o trauma que ela tanto temia. A sensação de ser levada, de não ter voz, de ser apenas um objeto de troca. Ela sentiu as lágrimas rolarem, mas não de tristeza, e sim de uma raiva fria que começou a queimar em seu peito.
— Você não devia ter feito isso — murmurou ela para o homem que a vigiava na van.
— Cala a boca, garota.
Luiza tocou a bússola em seu braço. Ela se lembrou do que ensinara a Nolah na noite anterior. A entrega. A conexão. Ela não era apenas música; ela era a sinfonia inteira. E uma sinfonia pode ser muito barulhenta quando quer.
Enquanto isso, no asfalto quente, Nolah se levantou. O sarcasmo havia desaparecido. O "pegador" havia morrido. O que restava era um predador que acabara de ter sua única razão de paz arrancada.
— Nick — disse Nolah, a voz tão fria que fez Nicholas estremecer. — Não importa o que o seu pai diga. Não importa o que a lei diga. Nós vamos queimar essa cidade até encontrar ela.
— Eu estou com você, cara — respondeu Nicholas, limpando o sangue do rosto, o olhar fixo no rastro da van.
Nolah olhou para o chão e viu os óculos de Luiza, caídos e com uma das lentes trincadas. Ele os pegou, apertando-os contra o peito. O fio em seu pescoço parecia queimar. Ele sabia que a conexão entre eles era o que o guiaria.
— Eu vou te buscar, Catarina — prometeu ele ao vento. — E eu vou ensinar para eles o que acontece quando alguém tenta silenciar a minha música.
Na van, Luiza respirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos. Ela sabia que estava vivendo seu trauma novamente, mas desta vez era diferente. Desta vez, ela tinha algo pelo qual lutar. Ela tinha um norte. E esse norte tinha olhos pretos e uma promessa de destino tatuada na pele. Ela fechou os olhos e começou a planejar. Se eles queriam uma refém, teriam uma guerra. Porque Luiza Catarina não era mais a menina que se escondia. Ela era a mulher que Nolah Allerano amava, e isso a tornava a coisa mais perigosa naquela van.