Pra Sempre, nós
O Labirinto de Vidro e a Fome do Medo
O frio dentro do galpão parecia ter garras. Não era apenas a temperatura caindo conforme a madrugada avançava sobre os trilhos do trem, mas aquela sensação gélida que brotava de dentro dos ossos, onde o trauma e a incerteza faziam morada. Sarah sentia o corpo pesar, embora estivesse cada vez mais leve — uma leveza perigosa, fruto das refeições ignoradas e do café que corroía seu estômago vazio. Ela fechou os olhos por um segundo, e a imagem de Jin sorrindo enquanto preparava um tteokbokki apimentado surgiu em sua mente. O cheiro da comida dele era o único que não a fazia querer fugir. Agora, aquele cheiro fora substituído pelo odor de metal oxidado e fumaça de madeira úmida.
— Você está tremendo — a voz de Jungkook vibrou contra o ombro de Sarah. Ele não se afastou; pelo contrário, apertou o braço ao redor dela, oferecendo o calor que ele mesmo parecia não ter em abundância.
— É só o vento, Kookie — mentiu ela, a voz saindo num fio.
— Não é o vento. — Jungkook se inclinou, olhando-a nos olhos com uma intensidade que a fazia se sentir nua. — Você não comeu nada hoje na lanchonete, não é? Eu vi você jogando o resto do sanduíche no lixo quando achou que eu não estava olhando.
Sarah desviou o olhar para as chamas que dançavam no latão de óleo. O segredo de sua fome era a única coisa que ela sentia que ainda podia controlar em um mundo onde tudo o mais fora arrancado de suas mãos.
— Eu não sinto fome. Meu estômago se fechou desde que... desde o funeral.
— O Jin odiaria ver você assim — Yoongi interrompeu do seu canto escuro, a voz arrastada, mas carregada de uma autoridade amarga. Ele não se mexeu, permanecendo como uma estátua de dor. — Ele vivia dizendo que você precisava de energia para aguentar aquele desgraçado do seu pai. Se você parar de comer, Sarah, ele vence. Todo mundo que quer nos destruir vence.
Sarah sentiu um nó na garganta. As palavras de Yoongi eram cruas, despidas de qualquer delicadeza, mas eram reais. Ali, naquele refúgio improvisado, a verdade era a única moeda de troca.
— Falar é fácil, Yoongi — rebateu Taehyung, ajeitando a irmãzinha nos braços. A menina murmurou algo durante o sono, e ele beijou o topo da cabeça dela com uma ternura que contrastava com o hematoma em seu rosto. — Todos nós estamos morrendo de um jeito diferente. Você se tranca no silêncio, o Namjoon se mata de trabalhar por centavos, e eu... eu estou a um passo de fazer uma loucura se aquele homem encostar na minha irmã de novo.
— É por isso que precisamos uns dos outros — Jungkook disse, sua voz ganhando um tom mais firme, quase desafiador. — O Jin era o nosso ponto de equilíbrio. Sem ele, o assassino acha que somos alvos fáceis. Ele acha que vamos nos dispersar e sumir nas nossas próprias tragédias.
— Ele está lá fora — sussurrou Sarah, o calafrio voltando com força total. — Eu sinto, Jungkook. O carro preto... não foi coincidência. Ele não quer apenas nos assustar. Ele está esperando o momento em que estaremos mais fracos.
Jungkook levantou-se, deixando Sarah por um momento para caminhar até a pequena fresta na porta de metal do galpão. Ele espiou o exterior, onde a escuridão da zona industrial parecia engolir a luz dos poucos postes acesos. O silêncio da noite era apenas quebrado pelo som distante de uma sirene, um lembrete constante de que a cidade era um monstro faminto.
— Se ele vier, eu vou estar pronto — Jungkook murmurou, mais para si mesmo do que para os outros. Suas mãos, marcadas por cicatrizes de brigas de rua e trabalhos pesados, fecharam-se em punhos.
— Você não pode enfrentar uma sombra com os punhos, Jungkook — disse Namjoon, entrando no galpão de repente.
Todos deram um sobressalto. Namjoon estava pálido, o uniforme do posto de gasolina manchado de óleo e suor. Ele parecia ter envelhecido dez anos em uma única semana. Seus ombros estavam caídos e ele trazia uma sacola de papel amassada nas mãos.
— Namjoon! — Sarah exclamou, sentindo um alívio momentâneo. — Como você entrou sem que a gente ouvisse?
— Os trilhos fazem barulho demais, vocês se distraíram — Namjoon respondeu, caminhando até o centro do grupo e deixando a sacola cair perto de Sarah. — Consegui pegar algumas coisas na loja de conveniência antes de fechar o turno. O gerente não estava olhando. Sarah, coma. É um pão de leite e uma maçã. Não é muito, mas é o que temos.
Sarah olhou para a sacola como se fosse um objeto perigoso. O conflito interno era visível em seu rosto; a voz em sua cabeça dizia que ela não merecia aquele espaço, que precisava ser menor, desaparecer. Mas o olhar de Namjoon era suplicante.
— Por favor, Sarah — ele pediu baixo. — Eu não posso perder mais ninguém. Não hoje.
Com as mãos trêmulas, ela pegou a maçã. Cada mordida parecia um esforço hercúleo, mas sob o olhar vigilante de seus "irmãos", ela forçou-se a mastigar. O sabor doce e ácido da fruta trouxe uma pequena faísca de vida de volta aos seus sentidos.
— O que aconteceu no hospital com o Jimin? — perguntou Taehyung, tentando mudar o foco para o problema imediato.
Namjoon suspirou e sentou-se no chão sujo, cobrindo o rosto com as mãos por um momento antes de responder.
— Ele teve um surto psicótico violento. Diz que viu o Jin no corredor. Diz que o Jin estava tentando avisá-lo de que "o fogo vai voltar". Os médicos o sedaram e proibiram visitas por tempo indeterminado. Eles acham que somos uma má influência, que o lembramos do trauma.
— O fogo... — Yoongi repetiu a palavra, e pela primeira vez, ele se levantou do caixote. Seus olhos brilhavam com uma luz perigosa. — Minha mãe morreu no fogo. O Jimin estava lá naquele dia, não estava? No arboreto?
— Estávamos todos perto — disse Jungkook, aproximando-se de Yoongi. — Mas o Jimin viu algo que nenhum de nós viu. Ele sempre foi o mais sensível. Se ele está dizendo que o Jin apareceu para ele, talvez não seja apenas a loucura falando.
— Vocês estão sugerindo que o Jin está tentando nos dar pistas do além? — Taehyung perguntou, cético. — Isso soa como desespero.
— O desespero é a nossa realidade, Tae — Sarah interveio, sentindo uma estranha clareza após as poucas calorias da maçã. — Pensem bem. O Jin morreu de forma brutal. O assassino não levou a carteira dele. Não levou o relógio que o Yoongi deu a ele. Foi uma execução. E agora, o Jimin surta falando de fogo, e eu vejo um carro preto me seguindo. Estamos todos ligados por um fio que alguém está tentando cortar.
— Precisamos descobrir o que o Jin sabia — Namjoon concluiu, sua voz recuperando um pouco da autoridade de líder que ele sempre exercia. — Ele trabalhava em dois empregos, mas passava muito tempo naquela biblioteca velha perto do cais. Ele estava pesquisando algo sobre os terrenos da cidade, sobre as desapropriações ilegais.
— O que isso teria a ver conosco? — perguntou Jungkook.
— Talvez nada. Talvez tudo — Yoongi respondeu, caminhando até a saída. — Eu vou até a casa do Jin amanhã. A polícia já selou o lugar, mas eu conheço aquela janela da cozinha que nunca tranca direito.
— Eu vou com você — Jungkook se prontificou imediatamente.
— Não — Yoongi cortou. — Você fica com a Sarah. Você é a âncora dela, e ela é o alvo mais exposto. Aquele pai dela... se ele descobrir que ela não passou a noite em casa, ele vai descarregar a fúria nela.
Sarah sentiu um calafrio ao pensar no pai. O homem que deveria ser seu protetor era o monstro que ela mais temia, perdendo apenas para a sombra que matara Jin.
— Eu tenho que voltar antes do amanhecer — Sarah disse, levantando-se com dificuldade. — Se ele acordar e eu não estiver lá, ele vai atrás de vocês. Ele odeia que eu tenha amigos. Ele diz que vocês são "lixo de rua".
— Ele é quem é o lixo — rosnou Jungkook, segurando a mão de Sarah. — Mas ele tem razão sobre uma coisa: não podemos deixar que ele saiba onde nos escondemos.
O grupo começou a se organizar para o que restava da noite. Taehyung acomodou a irmã em um canto mais protegido do vento, cobrindo-a com sua própria jaqueta. Namjoon e Yoongi conversavam em tons baixos sobre como conseguiriam tirar Hoseok do hospital sem chamar a atenção da polícia.
Jungkook puxou Sarah para um canto mais afastado, onde a luz da fogueira mal chegava.
— Sarah — ele sussurrou, a voz carregada de uma urgência que a fez parar. — Eu encontrei isso perto da lanchonete hoje, pouco antes de entrar para falar com você.
Ele estendeu a mão e abriu a palma. Nela, brilhava um pequeno pingente de prata em formato de asa de anjo. O coração de Sarah falhou uma batida.
— Isso... isso era do Jin. Ele nunca tirava do pescoço. Ele dizia que era a proteção dele.
— Estava caído na sarjeta, a dois quarteirões da lanchonete — Jungkook explicou, fechando a mão sobre o objeto. — O Jin não o perderia por acaso. Ele o jogou ali. Ele sabia que estava sendo seguido e deixou um rastro.
— Um rastro para quem? — Sarah perguntou, as lágrimas finalmente transbordando.
— Para nós — respondeu Jungkook. — Ele sabia que você trabalha naquela rua todos os dias. Ele sabia que um de nós encontraria. Sarah, o Jin não foi pego de surpresa. Ele estava tentando nos proteger de algo que ele já tinha descoberto.
Sarah encostou a testa no peito de Jungkook, permitindo-se chorar silenciosamente. O peso da responsabilidade, da fome, do medo e da perda parecia esmagador. Mas ali, sentindo o batimento firme do coração de Jungkook, ela percebeu que não estava sozinha. Eles eram os "garotos perdidos" de uma cidade que os queria mortos, mas eles tinham uns aos outros.
— O que vamos fazer, Jungkook?
Ele a abraçou com força, enterrando o rosto em seus cabelos loiros que cheiravam a fritura e desespero.
— Vamos queimar o mundo se for preciso, Sarah. Mas vamos descobrir quem tirou o Jin de nós. E quando descobrirmos... eles vão desejar nunca terem cruzado o caminho de gente que não tem mais nada a perder.
Lá fora, o sedan preto deu a partida. O som do motor foi abafado pela passagem de um trem de carga, cujos vagões de ferro faziam a terra tremer. O motorista olhou uma última vez para o galpão através do binóculo. Ele viu a silhueta dos dois jovens abraçados.
— Aproveitem o calor enquanto podem — o homem murmurou, engatando a marcha. — O inverno está chegando para todos vocês.
O carro deslizou pela rua deserta, desaparecendo na névoa da manhã que começava a surgir. No galpão, a fogueira começou a minguar, restando apenas brasas vermelhas que refletiam nos olhos de Sarah. Ela não sabia se sobreviveria àquela semana, ou se seu corpo aguentaria a próxima crise de abstinência de comida, mas uma coisa era certa: ela não seria uma vítima silenciosa. Se Jin deixara um rastro, ela o seguiria até o inferno se fosse necessário.
— Jungkook — ela chamou, afastando-se o suficiente para olhar no fundo dos olhos dele.
— Oi?
— Amanhã, eu vou comer. Eu vou ficar forte. — Ela limpou as lágrimas com as costas da mão, uma expressão de determinação endurecendo seus traços delicados. — Porque quando encontrarmos esse homem, eu quero ser a última coisa que ele verá antes de pagar pelo que fez.
Jungkook sorriu, um sorriso triste, mas orgulhoso.
— Essa é a minha Sarah.
A luz cinzenta do amanhecer começou a se infiltrar pelas frestas do teto, revelando a miséria do lugar, mas também a resiliência daqueles que ali habitavam. A batalha estava longe de terminar, e o assassino podia estar perto, mas ele cometera um erro fundamental: ele achou que, matando o protetor, as ovelhas se dispersariam. Ele não percebeu que, ao matar Jin, ele criara algo muito mais perigoso: um grupo de lobos que não tinham mais medo da escuridão.